quinta-feira, 2 de abril de 2015

SMARTPHONES MODULARES, PRODUTOS DESCARTÁVEIS E OUTROS QUE TAIS.

QUEM DÁ AOS POBRES.... CRIA O FILHO SOZINHA.

Não se fazem mais ... como antigamente”. Você certamente já ouviu e provavelmente já proferiu essa frase, inserindo na lacuna representada pelas reticências o nome de um produto qualquer.
Com efeito, não é de hoje que os fabricantes se valem do conceito da obsolescência programada para estimular os consumidores a trocar seus produtos por versões mais recentes, que não raro trazem apenas umas poucas modificações estéticas.
Essa prática teve origem nos EUA, durante a Grande Depressão, quando a ideia de que seria possível reaquecer o consumo reduzindo a validade dos produtos começou a ser defendida por economistas e empresários, e daí para a GE e a Philips darem o pontapé inicial reduzindo de 2.500 para 1.000 horas a vida útil das lâmpadas incandescentes foi um pulo.
Embora inegavelmente bem mais sofisticados, os “bens duráveis” de hoje em dia duram bem menos que os de antigamente. A título de exemplo, o refrigerador que havia em casa quando eu nasci, no final dos anos 1950, era um Frigidaire daqueles de trinco, que já tinha uns 15 anos de estrada e permaneceu em uso por pelo menos mais 12, até que meu pai resolveu substituí-lo por um modelo de duas portas (lançado no Brasil pela Brastemp na década 60). Resultado: em menos de três anos foi preciso trocar a borracha imantada, responsável por impedir a troca térmica com o ambiente e por manter as portas fechadas magneticamente, e logo em seguida pipocaram os primeiros (de muitos) pontos de ferrugem – o aparelho terminou seus dias no apartamento da praia, e embora continuasse funcionando perfeitamente, não era prudente manuseá-lo sem antes tomar uma injeção antitetânica.
Voltando à vaca fria (*), já existem no horizonte alguns sinais de mudanças – pontuais, mas enfim... Um bom exemplo é a progressiva substituição das lâmpadas incandescentes – vorazes consumidoras de energia – por LEDs, que duram 25 vezes mais.
Outro exemplo digno de nota é o smartphone modular do Google, que vem sendo desenvolvido há dois anos. Como ele é composto por uma peça mãe e vários módulos facilmente substituíveis (bateria, memória, câmera, etc.), o usuário pode ter um modelo de última geração sem descartar a versão anterior (em 2014, a quantidade de celulares em uso no mundo ultrapassou o número de habitantes, e como boa parte dos aparelhos tende a ser descartado depois de pouco tempo de uso, o volume de resíduos tornou-se uma questão preocupante).  
A novidade deve ser lançada comercialmente no mercado norte-americano no segundo semestre desse ano, ao preço inicial de US$ dólares.

(*)Voltar à vaca fria” significa retornar ao assunto principal em uma conversa ou discussão interrompida por divagações em temas periféricos. De acordo com o professor Ari Riboldi, ela é a tradução da expressão “Revenouns à nous moutons” (voltemos aos nossos carneiros), extraída de uma peça teatral do século XV – considerada a primeira comédia da literatura francesa – sobre um roubo de carneiros. Em determinada cena, o advogado do ladrão faz longas divagações que fogem à questão principal, e o juiz lhe chama a atenção com a frase em questão. Na tradução para o português, todavia, os carneiros se transformaram em uma vaca (talvez porque em Portugal, séculos atrás, era costume servir um prato frio, preparado com carne bovina, antes das refeições).



Bom feriadão a todos, boa Páscoa e até mais ler.
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