sábado, 19 de novembro de 2016

BRASIL, UM GRANDE RIO?

A situação caótica em que se encontra a segundo estado mais importante da Federação vem sendo usada como exemplo para justificar o ajuste fiscal e outras medidas emergências que o governo federal precisa aprovar para “evitar que o país siga o exemplo do Rio de Janeiro” ― que já não consegue sequer honrar o pagamento do funcionalismo e dos aposentados. Daí a analogia feita por Osmar Terra, ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, que logo passou a ser utilizada pela mídia em geral. Vale lembrar, todavia, que o Rio não é o único estado sem dinheiro e sem saber se pagará ou não o 13º salário aos servidores: Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Rio Grande do Sul e o próprio Distrito Federal já vêm pagando salários com atraso ou em parcelas.  

Enfim, o plano do governador Pezão (ou “pacote de maldades”, como vem sendo chamado) prevê, dentre outras medidas esdrúxulas, descontar 30% de Previdência dos isentos dos servidores aposentados, o que explica ― embora não justifique ― protestos como a vandalismo na ALERJ (assunto sobre o qual eu não vou descer a detalhes porque mereceu ampla cobertura da imprensa). Já o Planalto vem envidando esforços para implementar medidas impopulares ― mas absolutamente necessárias ― com vistas a evitar que o Brasil se torne um Rio de Janeiro de dimensões continentais, embora o Legislativo continue aprovando alegremente excrescências como o aumento salarial para auditores fiscais da Receita ― projeto que, até 2019, impactará em quase R$ 9 bilhões as contas públicas. Demais disso, quase R$30 milhões foram gastos entre julho e novembro com cartão corporativo (dos quais R$12 milhões foram torrados pela Presidência da República) e o uso irregular de aviões da FAB campeia solto no “ministério de notáveis”: entre 12 de maio e 31 de outubro, Alexandre de Moraes, ministro da Justiça, utilizou jatinhos em 85 viagens, 64 das quais para a cidade onde reside e 48 sem qualquer justificativa plausível (José Serra, das Relações Internacionais, e Gilberto Kassab, de Ciência, Tecnologia, inovações e comunicações, ocupam o segundo e o terceiro lugar nesse ranking, com 43 e 21 viagens indevidamente justificadas, respectivamente).

Votando ao Rio, dois ex-governadores foram presos na última semana. O primeiro, Anthony Garotinho, começou a vida política no PT, passou pelo PDT, PSB, PMDB e PR, governou o estado de 1998 a 2002 e apoiou Crivella nas eleições municipais de outubro passado, de olho na Secretaria de Obras do município, cujo orçamento (de R$2,7 bilhões) só perde para a Saúde e a Educação. Presbiteriano e considerado uma das maiores lideranças evangélicas do Rio, ele ganhou o prêmio de “melhor prefeito” em 1998 e chegou a ser candidato à presidência da República em 2006, mas seu currículo é abrilhantado por uma série de escândalos. Sua prisão, na última quarta-feira, na esfera da Operação Chequinho, decorreu de suspeita de crimes eleitorais em Campos dos Goytacazes, município do qual é secretário de governo na administração da prefeita Rosinha Garotinho, além de “líder de organização criminosa” ― na avaliação do delegado Paulo Cassiano, responsável pela operação que resultou em sua prisão. E isso porque é “garotinho”; imagine se fosse adulto...

O segundo ex-governador a ser preso (menos de 24 horas depois) foi o peemedebista Sérgio Cabral, acusado de comandar um esquema de propinas que teria movimentado mais de R$224 milhões. De acordo com procuradores do MPF e delegados da PF, ele cobrava 5% sobre o valor das obras e 1% de “taxa de oxigenação”. Só na construção Polo Petroquímico da COMPERJ, o peemedebista teria embolsado R$2,7 milhões, mas fala-se ainda numa mesada milionária (de R$ 200 mil a R$ 500 mil mensais) paga pela Carioca Engenharia e pela Andrade Gutierrez, e que a cota-parte do butim que lhe coube chega a inacreditáveis R$40 milhões! Deputado estadual por três vezes e senador por um mandato, Cabral foi popular em sua primeira gestão à frente do governo do estado ― chegando também a ser cogitado para a presidência da República. Mas o quadro mudou no segundo mandato, levando-o a renunciar em abril de 2014. Agora, preso na Operação Calicute ― coordenada entre as forças-tarefas da Lava-Jato do Rio e do Paraná ― sua excelência divide uma cela em Bangu 8 com cinco velhos conhecidos e, segundo o MPF, integrantes do mesmo esquema de corrupção.

Essas prisões demonstram claramente a ausência de fundamento na tese de que a Lava-Jato persegue Lula e só foca políticos do PT. Aliás, isso não passa de falácia dos desprezíveis defensores da ORCRIM petista, para os quais Dirceu e Vaccari são “pobres injustiçados”, Lula é a alma viva mais honesta do Brasil, Dilma foi uma grande presidente ― deposta por um golpe de estado, e por aí afora. Isso além de culpar o atual governo pelos 12 milhões de desempregados, pelo descontrole da inflação e por toda a desgraceira que se abateu sobre o país nos últimos anos. Hello, cambada: Temer assumiu a presidência há menos de 6 meses, e só deixou de ser interino há pouco mais de dois.

Não quero dizer com isso que o atual governo venha fazendo um trabalho primoroso, longe disso. Mas essa discussão fica para uma próxima vez. Para encerrar, se o Brasil precisa mesmo imitar o Rio em alguma coisa, que seja em governantes presos. Afinal, já está mais que na hora de Lula “Lá”. E com Dilma a reboque. 

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2 comentários:

Martha disse...

Oi Fernando
Excelente post, meu amigo!!!
Melhor que isso, impossível!!!
Que momento estamos vivendo...
O lado positivo é que pela primeira vez estamos vendo criaturas nunca antes alcançáveis pela mão da Justiça serem devidamente afastadas. Se isso irá durar muito, não sei mas significa que algo está mudando no Brasil! A impunidade sempre campeou e nós sabemos disso...
O povo está cada vez mais consciente de tudo...estou impressionada!
Mesmo que não tenhamos uma finalização do processo como gostaríamos, uma profunda mudança já foi iniciada no seio de uma nação que tem tudo para seguir um rumo de decência e progresso...
Viva o povo brasileiro!!!!
Bjs e obrigada sempre!!!!

Fernando Melis disse...

Oi, Martha.
Parece que o ciclo da impunidade está com os dias contados, e que a ele se segue a era do restauro da moralidade. Oxalá se cumpram essas promessas.
Por mais que a prudência recomende conter o entusiasmo - já disse alguém que não é boa política contar com o ovo na bunda da galinha -, coisas inimagináveis até poucos meses atrás passaram a fazer parte da nossa realidade, como a deposição da estocadora de ventos, a prisão de políticos do alto escalão e as sucessivas delações de empreiteiros e de executivos sob seu comando, que vira e mexe apontam a "alma viva mais honesta do Brasil" e seu espúrio partido como os protagonistas e/ou principais beneficiários de atos espúrios e propinas milionárias.
Se é prematuro soltar fogos, pois o caminho do saneamento é longo e ainda há muito a percorrer, acho que já podemos ao menos comemorar os indícios de que ainda existe vida, e, portanto, há esperança.
Como disse alguém (acho que foi Maquiavel), "não há povo honesto com políticos corruptos nem povo corrupto com políticos honestos".
Na contramão dessa historia, vemos estarrecidos um populista demagogo se eleger presidente da maior potência do mundo moderno. E não apesar de suas ideias esdrúxulas, mas devido a elas!
Com os intolerantes, não há meio termo: ou você os aniquila, ou eles o destroem.
Beijos, bom domingo, obrigado sempre e até mais ler.