sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

MANUAL DO USUÁRIO

ÀS VEZES, É MELHOR DEIXAR EM FOGO LENTO DO QUE MEXER NA PANELA.

Sempre que compramos um produto novo, costumamos “dar uma olhadinha” no manual de instruções, mas tão logo nos familiarizamos com as principais características e funções do aparelho, guardamos o livreto e quase nunca o encontramos quando tornamos a precisar dele.

Para piorar, nem sempre é fácil localizar a versão em PDF no site do fabricante, razão pela qual o melhor mesmo é ir diretamente a http://www.safemanuals.com/ – um repositório com mais de um milhão de manuais de milhares de marcas diferentes).

Note que é possível fazer a pesquisa a partir da marca do produto (clicando no link correspondente) ou digitando os parâmetros no campo de buscas e clicando no botão SEARCH (pesquisar). Repare também que, na extremidade superior direita da página (oriente-se pela ilustração acima), você pode alterar o idioma do inglês (padrão) para outras nove opções, dentre as quais o português.

Claro que a oferta de manuais é bem maior na língua do Tio Sam, de modo que, se você não encontrar o que procura no nosso idioma, torne a selecionar o inglês e repita. Caso encontre o manual que procura, traduza-o com o GOOGLE TRADUTOR .

O PAÍS AINDA TOLERA O CORO DOS HIPÓCRITAS QUE ACUSAM OS INVESTIGADORES DE FASCISMO 

O Brasil chocou o ovo da serpente (ou da jararaca) durante décadas. O filhote, enfim, nasceu forte e esfomeado e devorou a economia popular. Os brasileiros demoraram a admitir o estrago que seu monstrinho de estimação estava lhe causando, e, quando isso finalmente se tornou inevitável, veio a reação: o país encarou a cobra venenosa, disse “ai, ai, ai” e a colocou de castigo. Acredita que assim ela vai passar a se comportar direitinho.

A literatura antiofídica da Lava-Jato indica que em 2005, exatamente quando Lula pedia perdão aos brasileiros pelo mensalão, o mesmo Lula tratava da compra escandalosa da refinaria de Pasadena. É compreensível. Gente boa só consegue se arrepender de um roubo de cada vez. E eis que 11 anos depois, preso e condenado pelo petrolão, José Dirceu é perdoado pelo mensalão. O Supremo Tribunal Federal foi firme em sua decisão contra o quadrilheiro petista: “Ai, ai, ai, não faça mais isso”.

Quadrilheiro, não. O mesmo ministro do Supremo que acaba de perdoar o companheiro Dirceu, Luís Roberto Barroso, fez sua estreia espetacular na Corte máxima decretando que a quadrilha do mensalão não era uma quadrilha. Ou seja: Dirceu, Delúbio, Valério e companhia, que agiram sistematicamente em conluio para fraudar os cofres públicos e enriquecer o PT, utilizando métodos, álibis e laranjas comuns por vários anos, não formavam uma quadrilha. Quadrilha é aquilo que baila em volta da fogueira nas festas juninas.

Foi também o mesmo companheiro Barroso quem operou o rito do impeachment da companheira presidenta, usando sua mira laser do Supremo para mostrar ao Congresso o que ele tinha de fazer. Assim prevaleceu a formação da comissão especial como o PT queria, o que infelizmente não adiantou nada, porque as instituições brasileiras começaram a ficar com vergonha de proteger governo bandido – e tanto o Legislativo quanto o Judiciário referendaram a legitimidade do impeachment. Aí uma turma ficou gritando contra o golpe – os mesmos de sempre, que se escondem na mística progressista para viver de símbolos retrógrados. Perdoar a quadrilha é uma ótima forma de continuar chocando os ovos das serpentes simpáticas e revolucionárias.

Então, já que é para chocar, vamos chocar: enquanto era julgado pelo mensalão, Dirceu, o perdoado, cometia os crimes do petrolão; posteriormente, já tendo sido preso por esses novos crimes, as investigações da Lava-Jato mostraram que as propinas do esquema engendrado por ele continuavam jorrando nas contas dos guerreiros do povo brasileiro. É mesmo de morrer de pena.

O perdão concedido pelo STF a José Dirceu está em perfeita consonância com a moral vigente no país, ou pelo menos com a moral dominante. O Brasil perdoou Lula quando ele pediu para ser perdoado, em 2005, e no ano seguinte lhe deu a reeleição – com as revelações do mensalão estalando nas manchetes. Comiseração é isso aí, o resto é brincadeira. Lula entendeu muito bem o recado da nação e pisou fundo. O Brasil é sócio do que se passou nos dez anos seguintes – e continua, na prática, perdoando Lula.

O ex-presidente já é penta-réu ― e isso é só o começo; espera o final do recesso para ver ―, mas continua livre para atacar gravemente a imprensa e subir em palanques para perpetuar seu grupo político no seio do Estado brasileiro. E o país ainda tolera o coro dos hipócritas que acusam os investigadores de fascismo. Essa tolerância é pior do que o pior dos crimes do PT.

É claro que os reis da mistificação vão dizer que a frase acima é uma pregação da intolerância, portanto do autoritarismo, portanto da força bruta contra os democratas, etc. etc. Eles são bons nisso. Quando milhões de pessoas saíram às ruas de verde e amarelo pelo impeachment, essa inteligência de João Santana espalhou que era um absurdo protestar contra a corrupção com a camisa da CBF... Um covarde é capaz de qualquer coisa, e um país que confunde intolerância com impunidade é capaz de aceitar o perdão mais hediondo. 

À solta, a serpente agradece.

Com Guilherme Fiuza/Época. 

E como hoje é sexta-feira:


Bom dia a todos e até mais ler.

Confira minhas atualizações diárias sobre política em www.cenario-politico-tupiniquim.link.blog.br/

2 comentários:

Martha disse...

Oi Fernando
Muito oportuno seu post!!!
Vou salvar o site no meu PC. Utilíssimo....
Confesso que adoro um manual....totalmente nerd, né? Rsrsrs
Quanto ao restante: estamos vendo, além do fanatismo e hipocrisia, dois pesos e duas medidas....
Quanto o Collor fez o que fez , o mundo veio abaixo e o PC Farias foi eliminado. Todos saíram às ruas com um senso cívico invejável...e agora? Onde toda essa indignação foi parar? Os personagens mudaram mas as ações criminosas continuam e pior ainda do que no passado...
Como dizem que nosso povo tem memória curta, deve ser por isso...
Pobre país que não se faz respeitar e que elege representantes da mais baixa moral....
Como nosso " amigo " gosta de dizer....nunca antes nesse país...
Adorei as piadas!!!!rsrsrs
Bjs e obrigada sempre!!!!

Fernando Melis disse...

Oi, Martha.
Você levanta uma questão curiosa. A resposta, de certa forma, está na exposição, que acaba resultando numa certa resistência.
Acho que não fui muito claro na minha analogia, de modo que vou lhe dar mais elementos para você entender não o que eu disse, mas o que eu quis dizer: imagine o que aconteceria a um bebezinho saudável e gorducho que, aos 6 meses de idade, fosse deixado sob o sol inclemente de Copacabana das dez da manhã às 6 da tarde, num daqueles dias (cada vez mais comuns) em que a temperatura passa dos 40ºC e a sensação térmica, na areia, dos 50°C.
Agora pense naquele caiçara nordestino, que sai com sua jangada para pescar antes mesmo de o sol nascer, passa o dia inteiro no mar (vestindo apenas um calção esfarrapado) e volta com seus peixes quase na hora do pôr do sol. Mesmo que a temperatura tenha chegado aos escandalosos 40°C, entre um mergulho e outro, entre um gole de cachaça e outro, nosso intrépido pescador sobreviveu. Ou, melhor ainda, para ele, foi apenas mais um dia de trabalho entre tantos outros, como os que vêm se acumulando ao longo de toda a sua vida, desde que ele se conheceu por gente, e que deixaram sua pelo naturalmente trigueira quase negra como carvão.
Voltando à vaca fria, a corrupção existe desde que o mundo é mundo, mas, no tempo de Collor, quando Pedro deu com a língua nos dentes (não por um arroubo de patriotismo, mas porque, além de não aumentar sua cota parte no butim, o irmão Fernando arrastou a asa para Tereza Lira (que realmente era muito bonita, desde que calada, pois aquele sotaque morfético acabava com qualquer clima), o povo levou um choque de realidade.
Para encurtar a conversa, se antes vingava a ideia de que só pobre ia preso no Brasil, e que crime de colarinho branco era jogo entre compadres, do qual o Judiciário participava e no qual o povo sempre levava no rabo, a coisa começou a mudar com o julgamento do Mensalão e, mais significativamente, com as investigações que deram origem ao que hoje se conhece como Operação Lava-Jato.
Daí porque muitos políticos de grosso calibre, há décadas pondo e dispondo em seus territórios, sem se preocupar com questões éticas, morais e nem mesmo legais, continua se achando intocáveis, invulneráveis. Lula, com seu ego de proporções intergaláticas, é um bom exemplo, mas há outros igualmente bons, como a palhaçada protagonizada por Fernando Pimentel durante o Réveillon, que lhe acarretou uma exposição negativa dispensável no contexto em que vive o estado que ele governa (veja detalhes no post deste sábado).
Para concluir esta novela, o que eu quero dizer é que, de tanto a gente ser bombardeado com novos fatos espúrios envolvendo a classe política, acabamos perdendo a capacidade de indignação. Mas isso não nos torna mais tolerantes ou resilientes; pelo contrário. A paciência dos cidadão de bem deste país está por um fio. E se não se restaurar logo o império da moralidade, é capaz de dar merda. Muita merda.
No mais, ler o manual deveria ser compulsório, e guardá-lo em local seguro, mas sabido e acessível, obrigatório (mesmo que eu repudie qualquer tipo de autoritarismo, não encontrei maneira melhor de dizer isso). No entanto, acho valiosa a informação consubstanciada na postagem, qual seja a possibilidade de encontrar o livreto daquele aparelho que seu velho tio comprou dez anos atrás e nunca usou, e que acabou caindo no seu colo por acaso, mas sem o livreto de instruções.
Antes de concluir, agradeço o comentário sobre o update de aniversário do Windows 10. Só que a postagem deveria ser publicada somente na próxima terça, 17 - e assim eu havia programado, mas quando voltei lá para modificar uma palavra qualquer, acabei trocando as bolas e o post foi ao ar antes da hora (mas ele voltará a ser exibido no dia e horários corretos, e seu comentário será mantido).
Beijos, obrigado pelo papo agradável de sempre e até a próxima.