terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O ASSÉDIO, O RACISMO E O OPORTUNISMO



Em março deste ano, o ator José Mayer foi acusado de assédio sexual por uma figurinista da Globo. Cinco dias depois estava fora do elenco da nova novela de Aguinaldo Silva. No mês passado, sete horas após começar a se espalhar o vídeo no qual Willian Waack parece dizer “é coisa de preto”, a emissora enviou comunicado em que anunciava seu afastamento do Jornal da Globo ― o “disseminador da vergonha” foi Diego Rocha Pereira, um ativista de araque que protagonizou o melhor momento de sua encenação debochada ao sentar-se na cadeira do ex-âncora do telejornal (vide foto).

Na esfera internacional, um bom exemplo desse “nonsense coletivo” é a execração pública do veterano produtor de cinema Harvey Weinstein ― responsável por sucessos como O Paciente Inglês e Pulp Fiction ―, acusado de assédio sexual por uma penca de estrelas famosas. Houve também o caso de Kevin Spacey, protagonista do seriado House of Cards, que foi denunciado por assédio (homo) sexual pelo também ator Anthony Rapp, e, mais recentemente, do igualmente famoso Dustin Hoffmann, denunciado por três mulheres (até agora) por assédio praticado anos 1980. Estes últimos, porém, eu cito apenas como ilustração, já que suas peculiaridades os excluem das considerações que apresentarei a seguir.

Como bem observou J.R. Guzzo, não existe hoje no Brasil nenhuma obrigação moral e cívica mais cobrada do cidadão do que se manifestar contra o “preconceito” e a “intolerância”. Referindo-se à abominável “Patrulha do Pensamento”, disse o jornalista que, enquanto a mídia faz de cada episódio uma nova batalha de Austerlitz, a sociedade que se acha “civilizada” comemora o massacre como mais um avanço para a humanidade.

Sobre o caso específico de Weinstein, há que se ter em mente que a “troca de favores” entre quem está na função de distribuir papéis e quem está na situação de precisar deles já era comum na Grécia, 15 séculos antes do início da Era Cristã. Mas o que me chama atenção é o fato de as denunciantes (Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Julianne Moore e mais uma dúzia de estrelas de menor grandeza) ressuscitarem episódios ocorridos no final do século passado, e de serem promovidas a heroínas, para não dizer mártires, enquanto que o produtor foi impiedosamente mastigado e cuspido pelas redes sociais, abandonado pela mulher e demitido da própria produtora.

Observação: Quem troca “favores sexuais” por papéis em produções cinematográficas ― ou outras contrapartidas que tais ― é, no mínimo, oportunista. As condições impostas pelo produtor podem ter sido reprováveis, mas isso não muda o fato de que houve um “acordo entre as partes”. Aliás, desde que o mundo é mundo as marafonas trocam sexo pelo vil metal, e eu nunca vi alguém qualificar isso de assédio (que me perdoem os leitores e leitoras pela comparação não muito apropriada, mas não resisti).

Causa espécie as delatoras hollywoodianas permanecerem em silêncio por mais de 20 anos e, de repente, sem qualquer motivo aparente, trazerem à luz, uma após a outra, os fatos que ora se transformam num “crime contra a mulher”. Não houve qualquer tentativa de explicar por que elas esperaram tanto tempo ― ou porque deixaram o “bandido” livre leve e solto para dar em cima de tantas outas moças que também queriam ser estrela de cinema, mesmo que para isso precisassem se submeter ao famoso “teste do sofá”.

A conclusão a que se chega, pelo menos a partir do que foi divulgado na mídia isenta, é de que o produtor exigia sexo para dar papéis, e as atrizes aceitavam a troca. Não se sabe se isso ocorreu apenas uma vez com cada uma delas. O fato é que, a partir do assédio contra o qual agora se insurgem, essas atrizes construíram suas carreiras, ficaram famosas e ganharam milhões de dólares.

Não se espera comportamento ético impecável de uma moça de 20 anos fascinada pelo sonho de ser atriz. Mas, convenhamos, se elas ficaram quietas na hora de ir para a cama com o chefão, deveriam ter ficado quietas até hoje, pois não podem estar certas na mão e na contramão. Se tivessem agido assim há alguns anos, as estrelas hollywoodianas em questão seriam chamadas de “mulheres de mau caráter”; hoje, porém, são vistas como “Joanas D’Arc”.

Passando agora a Willian Waack, o diretor da Globo Ali Kamel não levou mais de alguns minutos para abrir e fechar o caso jornalista, que há mais de dez anos ocupava a bancada do Jornal da Globo. Sobre esse episódio, vejamos o que disse Augusto Nunes: “Sherlock Kamel decidiu que a frase dita pelo suspeito no vídeo gravado há mais de um ano bastava para o encerramento das investigações. Tratava-se de um racista sem remédio. Convencido de que a gravidade do crime comprometia a imagem da empresa a que serve com exemplar dedicação, o promotor Kamel solicitou o imediato afastamento do apresentador do Jornal da Globo, no que foi prontamente atendido pelo juiz Kamel, que negou ao réu o direito de defesa e arquivou o pedido de desculpas endereçado a quem se sentisse ofendido pela frase. O rito sumário dispensa tais quinquilharias”.

Por conhecer William Waack, segue o jornalista em suas ponderações, o grande Boni absolveu-o. O líder genial do grupo de craques que escreveu a história da Globo informou que jamais faria o que fez o diretor de jornalismo ― que, também por conhecer Waack, não perdeu a oportunidade de livrar-se do perigo. Afinal, o brilho alheio é visto com entusiasmo por chefes talentosos, mas eterniza a insônia de superiores hierárquicos incuravelmente inseguros.

Punido arbitrariamente, William saiu de cena para aguardar os desdobramentos do episódio. Quem segue no palco, eufórico com a notoriedade súbita, é o operador de câmera Diego Rocha. Foi ele um dos dois funcionários da Globo que produziram e, há poucas semanas, divulgaram pela internet o vídeo transformado em prova contundente de um crime sem perdão. Na última terça-feira, durante uma visita ao prédio da Globo em São Paulo, o próprio Diego demoliu o monumento ao bom mocismo erguido por santarrões de bordel.

A manifestação de respeito ao politicamente corretíssimo apenas camuflava uma conspiração urdida para tirar do ar o melhor jornalista da TV brasileira. Para desferir o tiro que lhe atingiu o pé e ricocheteou na testa dos mandantes da farsa, bastou a Diego alegar na portaria que precisava resolver alguns problemas no setor de recursos humanos. Com a desenvoltura de quem se sente em casa, ele entrou no prédio, circulou pela redação, recebeu cumprimentos de gente que viu em sua delação premiada um soberbo triunfo da tropa que combate preconceitos e invadiu, sem topar com quaisquer obstáculos, o estúdio onde é gravado o Jornal da Globo. Ali, sentou-se na cadeira que William Waack ocupava, posou para um admirador, postou a imagem no Instagram e lá se foi saborear outros dez minutos de fama. Serão os últimos. 

A expressão debochada, o meio sorriso atrevido, a frase insolente sob a foto (“O que acham?”) e as hashtags provocadoras delineiam com nitidez uma figura desprezível. Não se enxerga na cena um único e escasso vestígio da amargura que costuma marcar alvos de agressões racistas. O que se vê com desoladora nitidez é um oportunista arrogante, movido pela certeza de que é credor da Globo. Uma arrogância inibidora, confirmam o silêncio e o imobilismo dos que se mostraram tão ágeis na montagem do cadafalso que esperavam ver escalado por William. O espetáculo do cinismo protagonizado pelo operador de câmera estreou nas redes sociais no começo da manhã. No fim da noite, o Sherlock, o promotor e o juiz que habitam o mesmo corpo continuavam à caça de alguma saída.

A promessa de enquadrar os responsáveis pela desmoralização do esquema de segurança e do sistema de vigilância da Globo é uma piada. Diego passeou pelo lugar com o desembaraço de quem zanza na casa da sogra. Tinha a fisionomia distendida pela ausência de culpas e remorso, e exalava a autoconfiança de quem acabou de prestar bons serviços aos anfitriões. Está na cara: Diego Rocha é um crápula fantasiado de ativista afrodescendente.

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