segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 74ª PARTE

O TEMPO É ALGO QUE CRIAMOS. 

Costumamos pensar no hoje como o amanhã de ontem e o ontem de amanhã, que o tempo passa — ou passamos por ele — do nascimento à morte. Mas uma série de argumentos sustentados por filósofos, físicos e astrônomos desafia a intuição de que o tempo é real. É o caso do matemático e filósofo inglês J. M. E. McTaggart, que se vale do pensamento lógico para sustentar a inexistência do tempo.


Percebemos os eventos como presentes, passados ou futuros. Como ilustra McTaggart, a afirmação "o nascimento de alguém é futuro" só é verdadeira antes do fato; depois que ocorre, ela se torna imediatamente falsa, pois o evento agora é passado. No entanto, essa classificação em termos de "antes", "depois" ou "agora" é uma relação externa. Ela não modifica a posição temporal objetiva do evento nem o valor de verdade da proposição que descreve sua ocorrência efetiva.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A condução da transação bilionária entre Daniel Vorcaro e BRB foi marcada por falta de rigor e clareza. Sustentar o suposto desconhecimento dos envolvidos sobre detalhes essenciais, como a titularidade dos papéis negociados, é escarnecer da inteligência alheia. No universo da alta finança, não há transação que não seja precedida de uma minuciosa análise dos papéis, dos documentos, dos títulos. E para isso existem empresas de auditoria e equipes técnicas que passam em revista todos os dados, todos os documentos, sobretudo quando se trata de um negócio de R$12 bilhões.

De um lado do balcão estava Daniel Vorcaro e do outro, Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília, vinculado ao governo do DF. Curiosamente, os personagens que comandaram essa transação foram acometidos de uma oportuna amnésia coletiva — Vorcaro, então, diz que não se lembra de nada.

A postura dessa quadrilha banalizou o padrão esperado de governança em operações com recursos públicos, transformando uma alta transação financeira num negócio de uma xepa de feira. E aí ficam discutindo quem enfiou o quê na sacola.


É impossível alterar a característica temporal de um evento (de futuro para passado) sem, de certa forma, transformá-lo em algo distinto. Mas esse pressuposto desafia nossa compreensão da realidade temporal, pois aponta para um paradoxo mais profundo sobre tempo e mudança: por um lado,  um mundo sem mudança seria atemporal; por outro, se a mudança significa que um evento adquire ou perde uma propriedade temporal (como "ser futuro"), então o evento em si precisa se alterar. Mas como um evento ocorrido pode mudar? Isso não o tornaria um evento diferente?


O problema em ver o tempo como subjetivo — isto é, associado ao momento da percepção — é que algo pode ser presente para uma pessoa e passado para outra. Se duas pessoas veem um piano, esse piano é presente para ambas, mas passa a ser presente e passado simultaneamente no instante em que uma das pessoas deixa de vê-lo, ele — o que gera uma contradição lógica difícil de sustentar. 


O presente de um tempo objetivo difere intimamente do presente desse tempo subjetivo — o “presente ilusório”, como McTaggart chama o que é presente apenas no momento da percepção. No tempo objetivo, os diversos presentes que ocorrem em momentos diferentes não podem ser todos presentes ao mesmo tempo, apenas sucessivos. Mas a objeção central à distinção entre o presente e o presente ilusório é que, se o presente objetivo é diferente do que percebemos como presente, não há razão para acreditarmos em sua existência. No entanto, se admitirmos que ele exista, qual seria sua duração?


McTaggart afirma que devemos acreditar no presente porque os diversos presentes ilusórios (de cada percepção) não podem estar uns dentro dos outros, já que uns ocorrem antes de outros, mas todos precisam estar em um tempo objetivo. Quanto à duração do presente, ele diz que devemos concebê-lo apenas como um ponto — a interseção entre o passado e o futuro, a fronteira que os separa. Mas não aplica esse mesmo raciocínio para contestar a realidade do espaço — por causa do “aqui” — e da personalidade — por causa do “eu”.


Assim, não há análogos para o espaço ou para a personalidade: mesmo que todos os termos token-reflexivos de nossa linguagem espacial (expressões que dependem do contexto de quem fala, como “aqui”, “agora”, “ali” e semelhantes) fossem removidos, ainda seria possível conceber os objetos no espaço e as pessoas sem recorrer a termos como “eu”, “ele” e assemelhados — o que não seria análogo ao tempo.


Ainda de acordo com McTaggart, há dois tipos de descrições temporais possíveis: uma independente do sujeito (completa) e outra dependente do sujeito (incompleta). Mesmo que se dispusesse de uma descrição temporal independente — ou seja, que não recorresse a termos como “agora”, “hoje” ou “ontem” —, não seria possível descrever os acontecimentos exclusivamente por esse tipo de descrição, pois haveria apenas eventos tridimensionais dispostos em sequência ao longo dos pontos do tempo, formando o que o filósofo chama de “figura tetradimensional da realidade”. E ainda que pudesse contemplar toda a sequência de eventos na ordem que desejasse, o observador precisaria dos termos token-reflexivos para indicar qual evento está ocorrendo agora. Mas McTaggart não deixa claro se “observar todos os eventos” significa acompanhar sua sucessão real ou apenas visualizar uma representação estática dessa sequência.


Quando representamos os eventos no tempo, representamos estados de coisas tridimensionais diferentes em pontos temporais distintos. Para criar representações bidimensionais de uma sequência de eventos tridimensionais, recorremos a convenções gráficas que indicam tanto a terceira dimensão quanto o tempo propriamente dito. 


Uma pessoa que observasse uma representação bidimensional ou tridimensional de um universo quadridimensional — como uma pessoa caminhando, por exemplo — veria apenas os estados ocupados pela pessoa em cada momento, e não seu deslocamento contínuo entre eles. Ainda assim, ao serem examinadas mais profundamente, essas ideias revelam-se incompatíveis com a maneira como normalmente as compreendemos. 


Se isso estiver correto, as premissas de McTaggart — fundamentais para suas conclusões — seriam falsas, e não conseguir provar a irrealidade do tempo abre espaço para discussões filosóficas futuras. E se o tempo não passa de uma ilusão, discutir viagens temporais é tão inútil quanto planejar férias em Atlântida. Afinal, como atravessar algo que não existe? Se não há fluxo temporal, não há “antes” nem “depois”; o viajante do tempo seria apenas um observador preso a um ponto fixo de um quadro estático, não a um filme em movimento.


Talvez o verdadeiro paradoxo não seja o de mudar o passado, mas o de acreditar que há um caminho a ser percorrido entre o ontem e o amanhã. E, convenhamos: se o tempo for mesmo uma invenção humana, as máquinas do tempo não passam de meros artefatos da ficção científica tentando corrigir um defeito de fábrica da mente humana.


Continua…