sábado, 14 de fevereiro de 2026

TOFFOLI E O IMBRÓGLIO DO BANCO MASTER

ALGUMA COISA SEMPRE PRECISA MUDAR PARA QUE TUDO SEMPRE PERMANEÇA IGUAL. 

Com as vergonhas expostas no relatório da PF, o ministro Dias Toffoli divulgou uma nota que ofende a inteligência alheia. Embora tenha admitido ser sócio da empresa Maridt e ter vendido sua participação no Resort Tayayá para um fundo ligado ao Banco Master, ele negou ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro e do cunhado dele, Fabiano Zettel, embora o documento da PF mencione expressamente essa conversa.


Toffoli integrava uma sociedade anônima com capital social de R$ 150, sede em uma casa humilde situada na cidade paulista de Marília e administrada por dois irmãos do ministro (um padre e um engenheiro eletricista). O recebimento de dividendos, segundo ele, não era ilegal, pois não exercia funções gerenciais, e os negócios com um fundo ligado ao Master ocorreram antes de ele se tornar relator do caso. Mas sua cunhada negou que o marido tivesse sido sócio do resort, borrifando na conjuntura a percepção de que os irmãos do ministro não passavam de laranjas.


Paulista de Marília (SP), José Antonio Dias Toffoli formou-se bacharel em Direito, foi advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de SBC, consultor jurídico da CUT, assessor jurídico do PT e do ex-ministro José Dirceu. Também atuou advogado nas campanhas de Lula à presidência em 1998, 2002 e 2006 e como subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil da presidência da República. Em 2007, foi promovido a Advogado Geral da União e permaneceu no cargo até 2009.


A despeito de duas reprovações em concursos para juiz de primeiro grau abrilhantarem seu currículo, Toffoli foi indicado por Lula para o STF, numa demonstração cabal de falta de noção do xamã petista sobre a dimensão do cargo. Assim, sem currículo, sem conhecimento, sem luz própria e sem laços com a rede protetora do PT ou com os referenciais do padrinho, o recém-chegado foi buscar apoio em Gilmar Mendes — que é quem melhor encarna a figura do velho coronel políticoe passou a emular a arrogância incontida, a grosseria e a falta de limites do novo padrinho.. 


Em 2005, quando o escândalo do mensalão veio à tona, Toffoli respondia diretamente a José Dirceu, que foi apontado como chefe do esquema. Mas isso não o impediu de participar do julgamento da Ação Penal 470 (vulgo “processo do mensalão”) ou de votar pela absolvição de Dirceu. Em 2015, pediu transferência para a segunda turma, que ficou responsável pelos processos da Lava-Jato no STF. Foi ele quem sugeriu que casos sem conexão com a Petrobras não deveriam ficar sob a pena do então juiz Sérgio Morolivrando por tabela o rabo de Gleisi Hoffmann — e o autor do pedido de vista que interrompeu a votação da limitação do foro privilegiado de políticos quando já se havia formado maioria de ministros a favor.


A Lava-Jato chegou a bafejar o cangote do ministro quando Léo Pinheiro revelou que a OAS havia executado reformas em sua casa, mas a informação vazou, Veja publicou, Rodrigo Janot (que era petista de carteirinha) rodou a baiana e o acordo não chegou a ser firmado. A força-tarefa também descobriu que um consórcio suspeito de firmar contratos espúrios com a Petrobras repassou R$ 300 mil ao escritório de advocacia de Roberta Gurgel, mulher de Toffoli, de quem ele foi sócio até 2007 e de quem recebia uma mesada de 100 mil reais — metade desse valor era transferido para a conta de sua ex, Mônica Ortega, e a outra metade era usada para pagar despesas correntes, como faturas de cartão.


Os indícios de conexão de Toffoli com o caso Master já colocavam em xeque sua relatoria, mas o ministro Fachin, presidente de turno do STF, achou por bem evitar a abertura formal de um incidente de suspeição que poderia prolongar a crise e anular medidas já tomadas no processo.


Toffoli insistia na tese de que não havia impedimento nem suspeição, e se recusava a abrir mão da relatoria. Mas o impedimento decorrente de parentesco era de uma clareza meridiana, e a suspeição tornou-se cristalina quando o ministro buscou engessar as apurações da PF e assumir o o comando da investigação.


Os documentos sobre as transações apontavam para a venda do Resort Tayayá em 2021 e o pagamento de R$ 20 milhões, em 2024, à empresa da qual Toffoli era sócio administrador oculto. Dúvidas acerca do potencial econômico dos irmãos do ministro para a aquisição do empreendimento Tayayá levou seus pares a ponderar que seria melhor ele entregar os anéis do que perder os dedos.


Após novo sorteio, o ministro André Mendonça assumiu a relatoria da investigação  — sob uma chuva de críticas de seus pares à PF a pretexto de o material enviado ao STF ser fruto de uma investigação sem autorização judicial. A troca na relatoria preocupa especialmente setores do Congresso ligados ao senador Davi Alcolumbre, que segurou por cinco meses a sabatina do ministro "terrivelmente evangélico" indicado por Bolsonaro, numa clara tentativa de levar o então presidente a rever sua indicação.


Na avaliação desses parlamentares, Mendonça não deve impor limites para evitar que a investigação avance em eventuais relações políticas do ex-dono do Banco Master. Um dia após ser eleito relator, o ministro agendou um encontro com delegados da PF para avaliar o andamento e as próximas etapas das apurações. e o que não falta no elenco dessa novela é ator de rabo preso — parafraseando Ary do Cavaco e Bebeto di São João, se gritar pega ladrão não fica um.


Lula guarda mágoa de Toffoli porque ele não o autorizou a deixar a cadeia para acompanhar o enterro do irmãoVavá. No entanto, em 1978, quando seu pai foi sepultado como indigente no cemitério de Vicente de Carvalho, nenhuma mulher, ex-mulher ou filho se dignou a lhe conceder um túmulo.


Não se sabe ao certo quantos filhos o "homem das sete mulheres" espalhou pelo Brasil. Pelos cálculos de Frei Chico — que não era padre e tampouco se chamava Francisco — foram 19; pelas contas de Jackson Inácio da Silva, foram 25; e segundo Denise Paraná — biógrafa oficial do molusco —, foram 22. Mas o fato é que Lula nunca foi próximo de seus irmãos. 


Quando era líder sindical, o futuro presidente passou 30 dias nos porões da ditadura, mas o então diretor-geral do DOPS o autorizava a ler jornais, receber visitas importantes e até visitar a mãe, Dona Lindú, que estava com câncer terminal (ele ia deitado no banco traseiro de uma viatura, escoltado por agentes vestidos como operários). Quando ela morreu, ele foi autorizado a comparecer ao velório — onde sindicalistas bradavam Lula Livre e o cantor Agnaldo Timóteo pedia a prisão dos corruptos.


Durante a campanha presidencial de 2002, Lula derramou lágrimas de crocodilo para as câmeras de Duda Mendonça ao relembrar a morte de sua primeira mulher, Maria de Lourdes da Silva, embora não tenha esperado nem dois anos para engatilhar nova família ao lado de Marisa Letícia.


Entre 2003 e 2010, já inquilino Planalto, ele perdeu os irmãos João Inácio — que morreu de câncer em 2004 — e Odair Inácio — vítima de um infarto em 2005 —, mas não compareceu ao enterro de nenhum dos dois. Segundo o site Conexão Política, enquanto o corpo do primeiro era velado, o presidente jantava com ministros e assessores na Granja do Torto.


Em 2017, já em pré-campanha, transformou o velório de Marisa Letícia em comício e o cadáver em arma contra seus adversários políticos. Em 2018, fez de sua prisão um espetáculo de circo mambembe, com direito a missa campal, showmício e utilização de sindicalistas como escudos humanos. Em 2019, hospedado compulsoriamente numa cela VIP da PF em Curitiba, pareceu ter sido acometido por um mui suspeito e inesperado amor fraternal por Vavá.


Pouco antes da sessão administrativa secreta das togas na última quinta-feira, Lula chamou Paulo Gonet para uma conversa — lembrando que o PGR é o único que tem legitimidade para arguir o afastamento de um ministro do STF. Comenta-se nos bastidores que a aposentadoria compulsória de Toffoli chegou a ser cogitada, e que o ministro só desistiu da relatoria depois que o diretor-geral da PF entregou a Fachin um relatório sobre os dados extraídos do celular de Vorcaro, incluindo as menções do relator que motivaram a PF a pedir sua suspeição.

A desistência ocorreu um dia Em última análise, cabe a Gonet pedir autorização ao Supremo para investigar Toffoli criminalmente, sob pena de prevaricação.


No País dos Contrastes — como o Brasil era chamado até algum tempo atrás —, o fato de paradoxos abundarem no Judiciário não chega a surpreender. O mais recente é o comunicado sem pé nem cabeça divulgado pelo STF na noite da última quinta-feira. Sem pé porque o documento diz num trecho que Toffoli deixou a relatoria do inquérito sobre o Master "a pedido" e informa em outro que o plenário do tribunal decidiu por unanimidade que "não havia elementos" para considerá-lo um juiz suspeito. Sem cabeça porque ninguém com dois neurônios avalizaria a conduta do ministro, e seus pares fizeram questão de expressar por escrito seu "apoio pessoal" e enaltecer seu respeito pelos "altos interesses institucionais". 


Toffoli parece achar que o Brasil é 100% formado por idiotas, e esperteza, quando é demais, vira bicho e engole o dono. Já o STF — definido pelo ex-ministro Sepúlveda Pertence como um arquipélago de onze ilhas independentes e em constante conflito — cantou em coro a "dignidade" do colega ora na berlinda — lembrando que havia dez cabeças e poucos miolos na reunião em que o texto escabroso foi esboçado, já que a poltrona que pertencia ao ministro Luís Roberto Barroso ainda não foi ocupada.


Toffoli já perambulava com as indignidades à mostra antes de ser substituído, e ficou inteiramente nu depois que a PF esmiuçou suas relações pessoais e financeiras com Daniel Vorcaro. A questão agora é que o STF precisa liberar a PF para aprofundar a investigação dos indícios de envolvimento de uma toga despida em perversões criminais — blindada, sua
nudez conduz a crise do Judiciário à fase do despudor, e dignidade é como virgindade: não dá segunda safra. Mas ele não é o único que mantinha relações suspeitas com Vorcaro.: Alexandre de Moraes também é citado no relatório da PF, e não tem interesse no derretimento do colega.

Lula ouviu tanto Moraes quanto Gilmar Mendes padrinhos de Gonet em sua ascensão ao cargo de PGR — e ambos se empenharam em defender Toffoli, que tinha maioria de votos a seu favor — só Fachin e Cármen Lúcia sinalizavam ser contrários —, mas prevaleceu sugestão de Flávio Dino para uma nota pública com todos apoiando o ministro e uma troca na relatoria da investigação. Mas o cenário mudou devido aos diálogos revelados pelo site Poder360, que reproduzem as conversas de forma literal e precisa, sugerindo que alguém gravou clandestinamente aa sessão secreta do dia 12.

Toffoli negou ter feito qualquer registro e levantou a suspeita de que algum funcionário do Tribunal seja o responsável, mas a situação sem precedentes gerou uma quebra de confiança inédita, mesmo porque quem fez a gravação divulgou apenas trechos favoráveis ao ministro, sem mostrar a complexidade do que foi discutido na sessão.

Fato é que os supremos togados sabem o que fizeram e do que podem ser acusados pelos colegas, que também têm culpa no cartório. Edson Fachin foi alçado ao STF com apoio dos irmãos Batista, da J & F; Luiz Fux foi apadrinhado por Sérgio Cabral; Gilmar Mendes e André Mendonça fazem parte de organizações que promovem encontros empresariais e seminários patrocinados e/ou financiados por empresas e empresários com ações em trâmite no STF; Nunes Marques também é empresário “nas horas vagas”; enfim, somente Cármen Lúcia e Cristiano Zanin parecem “sobrar”.


Uma matéria recente do Estadão mostrou que cerca de 70% das ações de escritórios de parentes de ministros correm no próprio Supremo — ou seja, o sangue fala mais alto na hora da escolha dos advogados, e o DNA fala mais alto ainda na hora do acerto dos honorários. A despeito do corporativismo estrutural de todos os órgãos públicos, é inegável que há algo estranho nessa relação de compadrio explícito, quase subserviente, que impera na mais alta casa de Justiça deste país. A mídia e a população mais antenada desconfiam do porquê, mas suas excelência sabem muito bem os motivos — tão bem como sabem valorizar o segredo.

Triste Brasil.