segunda-feira, 30 de março de 2026

AS QUERELAS DO BRASIL

EXISTEM APENAS DOIS TIPOS DE PESSOAS: AS QUE CONCORDAM COMIGO E AS QUE ESTÃO ERRADAS.


A polarização na política sempre existiu, mas nunca foi tão desbragada quanto nas duas últimas disputas presidenciais. Depois que a "abertura lenta, gradual e segura" pôs fim a três décadas de jejum de urna, os brasileiros voltaram a escolher seu presidente.


Embora o cardápio da eleição solteira de 1989 listasse 22 postulantes — entre os quais Ulysses Guimarães, Mário Covas e Leonel Brizola —, o eleitorado tupiniquim, que repete a cada pleito o que Pandora fez uma única vez, enviou para o segundo turno um caçador de marajás demagogo e populista e um ex-metalúrgico populista e demagogo. 


Lula concorreu à Presidência em 1989, 1994 e 1998, foi eleito em em 2002 e reeleito em 2006, a despeito do escândalo do Mensalão. Em 2010, transformou uma nulidade em "gerentona de araque" para manter aquecida a poltrona que ele pretendia reconquistar em 2014, mas o "poste" gostou da brincadeira e insistiu em disputar a reeleição. Por motivos que agora não vêm ao caso, o criador se resignou a apoiar a criatura, que afundou o país e foi impichada em 2016 (pelo conjunto da obra; as folclóricas "pedaladas fiscais" foram apenas um pretexto para penabundar a incompetente insolente e arrogante). 


Com a deposição da "mulher sapiens", Michel Temer passou de vice titular, mas seu prometido ministério de notáveis se revelou de uma notável confraria de corruptos. O primeiro a cair foi Romero Jucá, com apenas uma semana no cargo. Na sequência, demitiram-se — ou foram demitidos — Fabiano Silveira, Henrique Eduardo Alves, Geddel Vieira Lima, entre outros ministros e assessores presidenciais investigados na Justiça ou acusados de corrupção por delatores na Lava-Jato


Para encurtar a história, quando a conversa de alcova nada republicana que manteve nos porões do Jaburu, em maio de 2017, com o dono da JBS, Temer pensou em renunciar, mas foi demovido da ideia pelo deputado Carlos Marun, seu fiel escudeiro, que também se encarregou de comprar votos das marafonas da Câmara em número suficiente para salvar o presidente das flechadas de Janot


Observação: O patético hipopótamo dançarino foi o relator da CPI da JBS, embora tivesse recebido R$ 103 mil em doações do frigorífico e sido acusado de beneficiar uma empresa de software em contratos de R$ 16,6 milhões.


Acabou que o chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil concluiu seu mandato-tampão como um "pato manco" e transferiu a faixa presidencial para o combo de mau militar e parlamentar medíocre que derrotou o títere de Lula — que não tinha o mesmo carisma que o titereiro —, tornou-se o pior mandatário desde Tomé de Souza e foi sentenciado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.


Observação: Temer chegou a ser preso em março de 2019, mas foi solto dias depois por ordem do desembargador Ivan Athié, do TRF-2 — que ficou afastado do cargo durante sete anos por suspeitas de corrupção.


A polarização esteve presente em todos os capítulos da nossa história, mas o quadro se agravou quando o Planalto passou a ser disputado pelo PT e pelo PSDB. Ainda assim, as campanhas eram relativamente civilizadas, pois mortadelas e coxinhas se tratavam como adversários políticos, não como inimigos figadais. Nas duas últimas disputas pelo Planalto, no entanto, o antagonismo exacerbado impediu que uma candidatura alternativa competitiva se consolidasse. 


Em 2018, Ciro Gomes acabou em terceiro lugar, com míseros 3,04% dos votos válidos no segundo turno. Em 2022, Henrique Mandetta, João Dória, Sérgio Moro, Eduardo Leite, Aldo Rebelo, Luciano Bivar e André Janones desistiram antes do início da corrida eleitoral. Simone Tebet ficou em terceiro lugar, com 4,16% dos votos. Soraya Thronicke, Sofia Manzano, Vera Lúcia e Padre Kelmon obtiveram resultados inexpressivos.


Como era esperado, a disputa ficou entre Lula e Bolsonaro, e o desempregado que deu certo venceu o mandrião aspirante a golpista pela menor diferença de votos desde a redemocratização (menos de 2%). Durante a campanha, o ex-presidiário "descondenado" tripudiou: "Agora quem acabou foi o PSDB". Em resposta, os tucanos disseram que o PT passou anos tentando reescrever a história, semeando o ódio, perseguindo adversários, dividindo a sociedade e montando uma usina de fake news.


No debate promovido pela Band em outubro de 2022, o Lula vociferou que "nomear amigo e companheiro para o Supremo é retrocesso" (referindo-se a Nunes Marques e André Mendonça, indicados por Bolsonaro). Eleito, indicou seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e seu advogado particular Cristiano Zanin — e ainda teve o desplante de negar a relação de amizade com o causídico, que esteve em seu casamento com Janja e a quem chamou de "amigo" em entrevista à BandNews


Faltando pouco mais de seis meses para o primeiro turno das próximas eleições, o alto nível de rejeição popular ao xamã do PT e ao sobrenome Bolsonaro animou alguns partidos com a possibilidade de finalmente romper a polarização. O PSD de Gilberto Kassab apresentou três governadores como potenciais postulantes, mas Ratinho Jr — o mais competitivo dos três — desistiu de última hora.


A despeito da fama de bom gestor, de uma administração aprovada por cerca de 80% dos paranaenses e apoio de várias lideranças, Ratinho Jr voltou atrás, movido por uma conjunção de fatores, incluindo as investigações sobre a venda da subsidiária de telecomunicações da Copel e as conexões com Nelson Tanure —suposto sócio oculto de Vorcaro nas traficâncias do Master. Mas a filiação de Sérgio Moro ao PL também pesou: até então, o governador paranaense achava que faria seu sucessor com facilidade, mas o ex-herói nacional já aparece como franco favorito nas pesquisas. 


Os índices de desaprovação do governo federal e o derretimento da popularidade de Lula sugerem que ele é "bananeira que deu cacho", mas engana-se quem pensa que o pontifex maximus da Petelândia é carta fora do baralho. Segundo as pesquisas, cerca de 33% dos entrevistados não se declaram petistas nem bolsonaristas, 26% não votaram no em Lula nem em Bolsonaro na eleição passada — ou votaram e se arrependeram, —, 27% escolheram o macróbio mas não se identificam como de esquerda, e 18% dos que votaram no "mito" dos anencéfalos não se reconhecem como de direita.


Somados, esses grupos representam 71% do total de votos, e, pelo menos em tese, podem ser conquistados por qualquer candidato — o núcleo duro da polarização é formado por apenas 11% e 18% de esquerdistas e direitistas convictos, respectivamente, de modo que existe espaço para uma candidatura de terceira via.


Os extremos fazem barulho nas redes sociais, pautam a cobertura da mídia, alimentariam o algoritmo. Há “avenida enorme” para uma candidatura de centro (não confundir com o Centrão adesista) neste ano, mas cabe aos interessados priorizar a defesa da democracia, a reorganização dos programas sociais e um plano de desenvolvimento centrado nas novas tecnologias e novas relações de trabalho.


A questão é que quase todo tema polêmico — como a “taxa das blusinhas”, a PEC da Segurança Pública e até a CPMI do INSS — se torna refém da polarização no Congresso. Ainda não se sabe o que o PSD pretende fazer nas áreas da economia e da segurança pública. O MDB, dividido como sempre em alas, se preocupa mais com querelas paroquiais e a disputa para a Câmara dos Deputados — cujo resultado é decisivo para a divisão dos bilionários fundos eleitoral e partidário. Já o PSDB, que governou o país por dois mandatos com FHC, perdeu quadros, capilaridade nacional e capacidade de dialogar com o eleitorado. 


Observação: Geraldo Alckmin, que foi quatro vezes governador de São Paulo pelo PSDB, disputou a Presidência em 2006 — e foi derrotado por Lula no segundo turno — e em 2018 — quando amargou um vexatório quarto lugar. Apesar de ter dito que eleger o petista era o mesmo que reconduzir um criminoso à cena do crime, filiou-se ao PSB para concorrer à vice na chapa encabeçada pelo ex-adversário — talvez achando que essa seria sua única de aboletar na poltrona mais cobiçada do Palácio do Planalto. Só que faltou combinar com O Ceifador, sem falar que que o diabo detesta concorrência.


A maioria dos analistas políticos estima que a eleição deste ano será decidida pelos eleitores considerados independentes. No escrete eleitoral de Lula, nunca houve uma preocupação com a hipótese de uma candidatura de centro ganhar corpo a ponto de chegar ao segundo turno, mas, há apreensão com a possibilidade de os escândalos de corrupção sob investigação — especialmente do caso do Banco Master e da roubalheira contra aposentados e pensionistas do INSS — alterarem esse cenário.


Flávio Bolsonaro trabalha para que o centro e a direita não apresentem concorrentes — além de sugerir Ratinho Jr como seu vice, o filho do pai mandou emissários sondarem Ronaldo Caiado e Romeu Zema para o posto. Contrariando a tradição familiar de verborragia, o senador das rachadinhas tem economizado nas palavras, deixando Lula se desgastar sozinho com os problemas da administração federal. Nos últimos dias, defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública — ideia que foi sugerida por petistas, mas rejeitada por Lula


Na semana passada, Xandão autorizou a prisão domiciliar humanitária para o atual presidiário mais famoso desta banânia por um prazo inicial de 90 dias. Mesmo obrigado a usar tornozeleira eletrônica e proibido de acessar redes sociais e de gravar áudios ou vídeos, o condenado estará mais à vontade para ajudar na organização da campanha do primogênito, que tenta se vender com a roupagem de "moderado".


Resumo da ópera: No início deste século, ainda predominava a crença de que, na democracia, os moderados prevalecem — e moderam os radicais. Houve até quem acreditasse na possibilidade de juntar os melhores quadros do PT e do PSDB para contribuir com um governo capaz de modernizar o país. Hoje, mesmo os quadros reconhecidamente ponderados se mantêm abrigados sob os guarda-chuvas da polarização para continuarem relevantes no xadrez político, e, em determinadas situações, os extremistas estão conseguindo radicalizar os moderados.


Caberá ao eleitor decidir qual caminho irá seguir, e a exemplo do que ocorreu nas últimas campanhas, o caminho do centro continua acidentado e sem uma liderança clara. 

domingo, 29 de março de 2026

DE VOLTA AO NHOQUE DA SORTE

EM POLÍTICA, A COMUNHÃO DE ÓDIOS É QUASE SEMPRE A BASE DAS AMIZADES.  


A dica de hoje não é inédita — eu a repito quase sempre que o dia 29 do mês cai num domingo, mesmo porque a audiência do blog é rotativa. Dito isso, vamos ao que interessa.


A simpatia do "NHOQUE DA SORTE" remonta ao século IV. Reza a lenda que o médico cristão Pantaleão de Nicomédia  — que seria canonizado em 1602 pelo papa Clemente VIII — se disfarçou de andarilho e bateu à porta de uma família humilde.


Mesmo enfrentando dificuldades, o dono da casa acolheu o visitante e dividiu com ele o jantar da família, que ficou reduzido a sete grãos de nhoque por pessoa. Depois que ele partiu, a dona da casa encontrou moedas de ouro sob os pratos — daí a tradição de comer nhoque todo dia 29 para atrair sorte e prosperidade.


Para seguir o ritual, coloque uma nota de dinheiro sob o prato, coma os primeiros sete grãos de nhoque em pé, com o prato nas mãos, pedindo que a sorte e o dinheiro nunca faltem. Feito isso, sente-se à mesa, deguste o restante da massa e guarde o dinheiro na carteira até o dia 29 do mês seguinte, quando então você deve gastá-lo preferencialmente na compra alguns dos insumos que usará para repetir a receita. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Como dizia o Conselheiro Acácio — personagem do romance O Primo Basílio, de Eça de Queiroz — o problema das consequências é que elas vem sempre depois. Davi Alcolumbre está sofrendo as consequências de ter adiado por quatro meses a ascensão de André Mendonça ao STF. O ministro acumula atualmente um poder comparável ao exercido até bem pouco pelo "xerife" Alexandre de Moraes, e determinou que Alcolumbre lesse em até 48h o requerimento para prorrogar a CPMI do INSS. Isso irritou o presidente do Senado, que a qualificou decisão de "interferência grave".

Instalar e atuar em CPIs é um direito ida minoria legislativa previsto na Constituição. Havendo objeto de investigação e número suficiente de apoiadores, não cabe aos chefes da Câmara e do Senado bloquear investigações parlamentares. No caso em tela, houve um pedido de prorrogação e apoiadores em número suficiente para que ele fosse aceito. Alcolumbre não quis implementar, e o presidente da Corte, Edson Fachin, marcou para quinta-feira o julgamento em plenário da decisão.

Os votos de Flávio Dino e Alexandre de Moraes foram determinantes para consolidar a maioria contrária à prorrogação — defenderam que a extensão do funcionamento de uma CPMI deve seguir estritamente os ritos previstos no Congresso Nacional, sem possibilidade de intervenção que substitua decisões políticas internas do Legislativo.

O julgamento sobre a prorrogação da CPI do INSS teve como pano de fundo o escândalo do finado Banco Master. No entanto, em vez de favorecer o esforço pluripartidário para abafar a exposição das conexões de Vorcaro na Praça dos Três Poderes (incluindo o STF), a tese que prevaleceu no plenário — de que a Constituição assegura à minoria legislativa o direito à instalação de comissões parlamentares de inquérito, mas a prorrogação automática das CPIs — surtirá efeito inverso.

Na véspera, a oposição havia protocolado um mandado de segurança para obrigar o presidente do Senado a desengavetar uma CPI exclusiva para o caso Master. Agora, em respeito à sua própria jurisprudência, o STF terá de acolher o pedido da oposição, e Nunes Marques, relator do mandado de segurança e um dos que votaram contra a prorrogação da CPI do INSS, deverá expedir uma liminar determinando que Davi Alcolumbre cumpra o texto constitucional. O escândalo do Master tornou-se um dinossauro na sala. E dinossauros não cabem embaixo do tapete.

 

Se quiser economizar tempo e trabalho, compre os nhoques no supermercado; se preferir fazer como se faziam nossas avós, os ingredientes são os seguintes:

 

— 8 batatas Asterix;

— 2 gemas;

— 1 xícara (chá) de farinha de trigo.

— Sal refinado;

— Farinha de trigo para polvilhar a bancada.

 

Lave e descasque as batatas, corte-as em pedaços e reserve. Encha uma panela com água suficiente para cobrir as batatas e aqueça-a em fogo alto. Assim que a água ferver, despeje ½ colher (sopa) de sal na água, coloque as batatas e deixe cozinhar por cerca de 20 minutos. Quando elas estiverem macias, passe-as pelo espremedor (ou amasse-as com um garfo), deixe amornar, adicione 2 colheres (chá) de sal e ¼ de xícara (chá) de farinha de trigo e use as mãos para misturar.


Quando obtiver uma massa homogênea, junte as gemas, amasse bem, adicione o restante da farinha (aos poucos) e continue amassando por mais um ou dois minutos. Ao final, lave as mãos e modele uma bolinha. Se ela não grudar, é porque a massa está no ponto de enrolar. 


Encha três quartos de uma panela com água e leve ao fogo alto. Enquanto espera ferver, unte uma assadeira com manteiga (ou margarina), espalhe um pouco de farinha sobre a mesa ou o tampo da pia, faça rolinhos de massa com cerca de 1 cm de diâmetro e corte-os em pedaços de 2 cm cada. 

 

Coloque de 15 a 20 nhoques por vez na água fervente e retire-os com uma escumadeira à medida que eles subirem à superfície. Repita o processo com os nhoques restantes e, ao final, acomode-os na assadeira e reserve.  


Dica: Se quiser finalizar mais tarde ou no dia seguinte, mergulhe os nhoques cozidos numa tigela com água e cubos de gelo antes de transferir para a assadeira, cubra com filme plástico e deixe no refrigerador até a hora de usar. Se for servi-los com molho quente, mergulhe-os rapidamente em água fervente ou doure-os numa frigideira com azeite.

 

Para o molho ao sugo, você vai precisar de:

 

— 2 colheres (sopa) de azeite de oliva virgem;

— 3 dentes de alho picados;

— 1/2 kg de tomates Débora maduros, mas firmes;

— 2 cebolas grandes cortadas em cubos;

— 10 folhinhas de manjericão e um raminho de louro fresco;

— Sal e pimenta-do-reino. 

 

Lave os tomates, retire a pele e as sementes e cozinhe-os em fogo médio (sem óleo e sem temperos) por aproximadamente 15 minutos, mexendo de vez em quando para não grudar. Ao final, bata-os no liquidificador e reserve. Em outra panela, refogue o alho e a cebola no azeite, junte a polpa de tomate, o louro e metade das folhinhas de manjericão, e cozinhe em fogo baixo por cerca 30 minutos (sem tampar a panela).


Quando apurar, retire o louro e o manjericão, acerte o sal e e a pimenta, despeje o molho sobre os nhoques, leve ao forno a 150ºC para aquecer, polvilhe parmesão ralado, decore com as folhas de manjericão que sobraram e sirva em seguida. Talvez você não fique rico, mas dificilmente sairá da mesa insatisfeito.

Bom apetite e buona fortuna.

sábado, 28 de março de 2026

MOVIMENTO BARATA-VOA EM BRASÍLIA — FINAL

DIZER-SE APOLÍTICO TAMBÉM É UMA POSIÇÃO POLÍTICA, MAS O MAIOR CASTIGO PARA QUEM NÃO SE INTERESSA POR POLÍTICA É SER GOVERNADO POR QUEM SE INTERESSA.  

Sérgio Moro colecionou muitos inimigos, mas ninguém investiu tanto contra sua reputação quanto ele próprio, sobretudo ao ajudar a incinerar as sentenças que lhe deram fama e a transformar as multas de corruptores confessos em cinzas no forno de pizza do STF.


Ao se deixar seduzir pela promessa de uma vaga no Supremo, o então herói nacional trocou 22 anos de magistratura por um efêmero ministério no governo Bolsonaro, e ao embarcar nessa canoa furada, iniciou um périplo pelos nove círculos do inferno


Em 2019, o ex-juiz chegou à Esplanada dos Ministérios como um "superministro" com "carta branca". No ano seguinte, deixou a pasta da Justiça chutando a porta. Na coletiva de imprensa que convocou para anunciar seu desembarque do governo, ele acusou o chefe do executivo de interferir politicamente na PF — a revelação desse segredo de Polichinelo resultou na abertura de um inquérito para apurar os fatos, mas o decano Celso de Mello se aposentou do STF e tudo acabou em pizza.


As coisas poderiam ter tomado outro rumo se ele continuasse engolindo sapos depois da folclórica reunião interministerial de 22 de abril de 2020, na qual Bolsonaro ameaçou trocar o superintendente da PF antes que "alguma sacanagem fodesse sua família ou um amigo". O suposto "desvio de conduta" dele e de Dallagnol — que o jornalista americano Glenn Greenwald trombeteou em seu site panfletário, como vimos no capítulo anterior — foi prontamente replicado por veículos de comunicação "parceiros" do site The Intercept Brasil.


A despeito de os acusados não reconhecerem a autenticidade das conversas rapinadas pelos hackers de Araraquara, de a PF não as ter periciado e de elas não terem validade jurídica, o material espúrio influenciou a decisão dos supremos togados, que colaram em Moro a pecha de juiz parcial e cravaram mais um prego no caixão da Lava-Jato. E assim o ex-juiz e herói nacional que jurou jamais entrar para a política tornou-se ministro de Estado, foi traído por Bolsonaro, simulou desinteresse pelo Planalto, filiou-se ao Podemos e, na condição de pré-candidato à Presidência, prometeu levar a campanha até o fim, mas voltou atrás, migrou para o União Brasil, foi sabotado por Luciano Bivar, candidatou-se a deputado federal por São Paulo por um partido e se elegeu senador pelo Paraná por outro. 


Execrado pela esquerda, abandonado pela extrema-direita e antipático aos olhos da alta cúpula do Judiciário, Moro passou a colher os frutos do que plantou ao trocar o certo pelo duvidoso — ou pelo errado, como descobriu mais adiante. Com a corda no pescoço e os pés no cadafalso, seu alegado desejo de salvar o país da corrupção transmutou-se na ânsia de se livrar da cassação.


Como juiz federal, Moro enquadrou poderosos em processos de grande repercussão, como o escândalo do Banestado, a Operação Farol da Colina e a Operação Fênix. No auge da Lava-Jato, condenou figuras do alto escalão da política e do empresariado tupiniquim, como Lula, José Dirceu, Sérgio Cabral e Marcel Odebrecht. No Senado, apresentou oito projetos mas, nenhum foi aprovado., e tampouco fez algo de consistente ou demonstrou qualquer liderança na oposição 


Em 2021, quando ainda sonhava com a Presidência, Moro fez um discurso de volta ao passado: "Chega de corrupção, chega de mensalão, chega de petrolão, chega de rachadinha, chega de orçamento secreto". Também criticou Bolsonaro pelo negacionismo na gestão da pandemia que deixou mais de 700 mil mortos no país devido à falta de vacinas: “Onde está a vacina para os brasileiros? Tem presidente em Brasília? Quantas vítimas temos que ter para o governo abandonar o seu negacionismo?” Depois de conviver com a amoralidade do União Brasil, filiou-se ao PL do ex-presidiário mensaleiro Valdemar Costa Neto, que tem Bolsonaro como presidente de honra. 


Observação: Mais vergonhoso que isso, só mesmo a virada de casaca do ex-tucano Geraldo Alckmin: depois de dizer que reeleger Lula era reconduzir o criminoso à cena do crime, o pupilo de FHC se filiou ao PSB para disputar a vice-presidência na chapa de Lula. É fato que, na política, o desafeto de hoje pode ser o aliado de amanhã — e vice-versa — mas tudo tem limite. 


Chamado de "idiota" por Bolsonaro, Moro terminou apoiando o ofensor em 2022. Dando de ombros para a compra de apoio Legislativo com emendas secretas, sentou praça no PL deve dividir o palanque com Flávio Bolsonaro — um presidenciável de imagem bem rachadinha. Em meio às mais incríveis desonras, continuará buscando inacreditáveis saídas honrosas para justificar a flacidez de sua conduta. 


Observação: Pode-se acusar o Marreco de Maringá de uma porção de coisas, menos de ter condenado Lula motivado por "ambições políticas" — quando mais não seja porque, em julho de 2017, quando a sentença foi proferida, quase ninguém levava a sério a possibilidade de Bolsonaro ser eleito. Além disso, Lula foi preso por determinação do TRF-4, que não só ratificou a condenação como aumentou a pena em um terço.

 

Moro foi taxado de "traidor" pelos bolsominions por acusar o "mito" líder de interferir politicamente na PF. Nos anos seguintes, enquanto criticava o ex-chefe, os bolsonaristas questionavam sua atuação como juiz da Lava-Jato e como ministro da Justiça. Mas não há nada como o tempo para passar (e para expor o verdadeiro caráter das pessoas que admiramos porque não as conhecemos bem). 


A reconciliação com o clã Bolsonaro ganhou espaço ao longo de 2023 e 2024 e se intensificou com a prisão de Bolsonaro e seu afastamento do tabuleiro eleitoral. A oficialização da aliança que ignora a ruptura de 2020 veio por meio do primogênito Flávio, considerado uma versão menos radical do pai. Durante o evento de filiação, Moro elogiou o "filho do pai" e reiterou a necessidade de tirar o filho da, digo, de tirar Lula do Planalto. 


"Ele [Lula] foi eleito em cima de uma mentira de que ele seria inocente, ele nunca foi inocentado pelo STF, ele foi condenado por várias instâncias", declarou o senador. Além da candidatura de Moro para o governo do Paraná, o PL anunciou os nomes do deputado federal Filipe Martins e do ex-procurador da Lava-Jato e deputado cassado Deltan Dallagnol para o Senado. O ex-herói nacional lidera as pesquisas para o Palácio Iguaçu — daí Ratinho Jr. ter desistido de disputar a Presidência para construir uma coalizão que fortaleça seu grupo político no estado e, por tabela, contenha o avanço do candidato do PL


Como foi dito linhas acima, na política o desafeto de hoje pode ser o aliado de amanhã, e vice-versa. Flávio Bolsonaro acusou Moro de ter deixado o governo por não se contentar com a “posição subalterna” de ministro, e de ter agido de forma “rasteira e traiçoeira” ao tentar atingir a "imagem impoluta" do pai. No evento da última terça-feira, porém, ele afirmou confiar no trabalho e na capacidade de Moro. "Por mais que a gente tenha tido alguma divergência no passado, por mais que a gente tenha tido alguns problemas que são públicos, a gente está olhando para frente", destacou.


Na Divina Comédia, Dante Alighieri percorre o Inferno e o Purgatório guiado por Virgílio, e o Paraíso, pela mão de sua amada Beatriz. Na política, onde cada um precisa fazer seu caminho, Moro seguiu sem guia, e acabou tropeçando nas próprias promessas. No século XIX, certas diferenças só podiam ser lavadas com sangue num duelo; hoje, a hemorragia de Moro escorre sobre as cinzas da Lava-Jato


Quem consegue avistar uma saída honrosa na mais degradante desonra pode achar alvissareira a tentativa do ex-candidato da antipolítica de estreitar sua inimizade com a toga mais política do STF — mas o excesso de cinismo apenas confirma: no Brasil, a exceção é que costuma parecer farsante, mas a regra é ser farsa mesmo.


Resumo da ópera: As baratas são extremamente resistentes, e as que habitam os porões do Planalto, do Congresso e do Supremo são praticamente imorríveis.