sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O TEMPO PERGUNTOU AO TEMPO QUANTO TEMPO O TEMPO TEM… (CONTINUAÇÃO)

QUANDO O RELÓGIO BATE 13 VEZES…

Devido à imensidão do cosmos, os cientistas medem as distâncias em unidades astronômicas (UA) e anos-luz. Uma UA equivale à distância média entre a Terra e o Sol — que varia de 149,5 milhões de km no ponto mais próximo da estrela a 152,1 milhões no ponto mais distante — e um ano-luz corresponde à distância que os fótons percorrem no vácuo em um ano — que é de aproximadamente 9,5 trilhões de km.


Para ter uma ideia do que isso significa, se pudéssemos dirigir um carro a 100 km/h sem parar, demoraríamos mais de 10 milhões de anos para percorrer um único ano-luz. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Flávio Rachadinha pede dinheiro a Daniel Vorcaro, nega tudo ao ser descoberto, confirma o que negara após a explosão do áudio, promete prestar contas em 30 dias e se desobriga de prestar esclarecimentos quando os repórteres o questionam 90 dias depois: "Vocês vão parar no tempo?" Enquanto o filho do presidiário despistava — "É o Lula que tem que prestar contas" — o ministro do Supremo Flávio Dino abria à Polícia Federal as pistas recolhidas pela Polícia Civil paulista na produtora do filme Dark Horse.

O filho do refugo da escória da humanidade diz que Karina Gama, que produziu a cinebiografia do aspirante a golpista, já prestou contas — referindo-se a uma perícia anexada ao inquérito que corre em São Paulo. Contratados pela própria produtora, os peritos sustentam que o filme custou R$ 75 milhões — mais do que os R$ 61 milhões mordidos de Vorcaro. O diabo é que não foram exibidos recibos nem notas fiscais.

A apenas 40 dias do primeiro turno, candidato que mata o tempo comete suicídio. O filho do pai demora a perceber, mas político que se enrola nos detalhes normalmente se perde no essencial: perto da urna, todo fato consumado vira fato consumido. 

A demora no fornecimento de explicações empurra o Dark Horse para bem pertinho das urnas.


Segundo Einstein e o modelo cosmológico baseado na Teoria do Big Bang, a velocidade da luz (expressa pela letra "c") é limite máximo universal — ou seja, ela não pode ser alcançada por nenhum objeto que contenha massa, pois acelerar uma ínfima partícula de massa até a velocidade da luz exigiria uma quantidade infinita de energia. 


A 99,999% da velocidade da luz, um corpo aumenta de peso 224 vezes; a 99,99999999%, o aumento é de 70 mil vezes. A 99,999999999999999999981% de "c", um segundo equivale a 2,5 anos no tempo terrestre — ilustrando o efeito extremo da dilatação do tempo, como ilustra o paradoxo dos gêmeos. Em um cenário mais moderado, a 99,9999999% de "c", uma viagem de ida até Proxima Centauri, que fica a 4,2465 anos-luz de nós, levaria 4 anos terrestres, mas não duraria mais de duas horas no referencial dos astronautas.


A luz se propaga pelo cosmos a 299.792 km/s — ou 1,08 bilhão de km/h — e leva cerca de 8 minutos para vir do Sol à Terra. Já a luz de Proxima Centauri, que é nossa vizinha cósmica mais próxima, leva mais de 4 anos para chegar até nós. Por outro lado, a sonda mais veloz lançada pela NASA até agora alcançou respeitáveis 692 mil km/h (0,0643% da velocidade da luz). Com essa velocidade pode-se ir à Lua em meia hora, a Marte em 15 dias e aos confins do Sistema Solar em pouco menos de 3 anos, mas uma viagem à Proxima Centauri levaria cerca de 6,6 mil anos.


Uma vez que a dilatação do tempo só é expressiva em velocidades próximas à da luz e a expectativa média de vida dos seres humanos é de 80 anos, missões tripuladas continuam restritas à nossa vizinhança imediata. Mas não há nada como o tempo para passar, e o impossível só é impossível enquanto alguém não duvidar e provar o contrário. Basta lembrar que a esquadra de Cabral demorou 44 dias para vir de Lisboa até a costa sul do que viria ser o Estado da Bahia e que, 500 anos depois, o supersônico Concorde atravessava o Atlântico em pouco mais de três horas. 


A história da tecnologia mostra que aquilo que uma geração considera impossível não raro se torna banal para as gerações seguintes. Em 1865, Júlio Verne descreveu uma viagem tripulada à Lua (errando por apenas 20 milhas o local exato do lançamento do Saturno V, que levou a Apollo 11 ao nosso satélite em 20 de julho de 1969). Com a tecnologia atual, as naves mais rápidas são capazes de ir à Lua em cerca de três dias e a Marte entre seis e nove meses, mas uma viagem até Proxima Centauri demoraria 70 mil anos com a sonda Voyager 1 — que já rompeu a barreira do Sistema Solar — e cerca de 6,6 mil anos com a Parker Solar Probe. Nesse entretempo, civilizações inteiras nasceriam, floresceriam e desapareceriam. 


Pode-se dizer que a velocidade da luz é uma prisão perpétua escrita nas leis fundamentais do universo. Os fótons se movem com a velocidade da luz porque são partículas de luz. Já a energia necessária para acelerar um objeto massivo se torna infinita à medida que sua velocidade se aproxima da velocidade da luz, e como não existe energia infinita disponível no universo observável, é impossível alcançar exatamente esse limite.


Os neutrinos são "partículas-fantasmas" teorizadas nos anos 1930 pelo físico austríaco Wolfgang Pauli e, logo após e com mais precisão, pelo italiano Enrico Fermi, que podem se deslocar a velocidades muito próximas de "c". Como eles raramente interagem com a matéria, sua detecção é baseada no choque de uma quantidade ínfima com os átomos, que pode ser registrado por detectores ultrassensíveis. Estima-se que existam 10 bilhões de neutrinos para cada elétron existente no universo, mas, assim como os elétrons e outras partículas elementares, eles são tratados pelos modelos atuais como entidades puntiformes, sem tamanho interno detectável.


Os táquions, por sua vez, seriam partículas superluminais — ou seja, que já nascem além da barreira da velocidade da luz e não podem desacelerar até "c". Sua existência segue no campo das teorias, mas a relatividade especial não exclui completamente sua possibilidade matemática, embora nenhuma evidência experimental de sua existência tenha sido encontrada.


Talvez a verdadeira beleza da ciência não esteja nas respostas, mas nas novas perguntas que essas respostas suscitam. Os físicos ainda não conseguiram conciliar a física clássica e a mecânica quântica, mas a metáfora proposta pela física teórica Sabine Hossenfelder reformula a visão tradicional da velocidade da luz como limite absoluto e a coloca entre dois regimes distintos de movimento: num deles, as partículas superluminais habitam um domínio próprio da física, e no outro, elas habitam o nosso. 


A simetria entre esses regimes indica que a relatividade especial não proíbe explicitamente a existência de objetos superluminais, embora uma eventual transição entre os dois domínios viole o princípio da causalidade. Já o conceito do cone de luz atua como um "organizador da causalidade": enquanto os objetos subluminais estariam restritos a interações dentro do futuro e do passado causalmente conectados, os superluminais ficariam numa região "desconectada" do espaço-tempo convencional, resultando em interações exóticas ou paradoxos temporais, dependendo da interpretação.


Continua…

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 111ª PARTE

O QUE ESTÁ EM NOSSO PODER PARA FAZER TAMBÉM ESTÁ EM NOSSO PODER PARA NÃO FAZER.

A viagem no tempo é o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade. Se ainda não foi colhido, é porque nossa tecnologia não permite a construção de espaçonaves capazes de atingir velocidades próximas à da luz (representada pela letra "c" e equivalente a cerca de 300 mil km/s) e fruir os efeitos da dilatação do tempo

A 99,9999999% de "c", milhares de anos terrestres equivalem a poucos segundos, o que permite percorrer centenas ou milhares de anos-luz quase instantaneamente (no referencial dos ocupantes da espaçonave). Contudo, se a possibilidade de viajar no tempo para o futuro é apenas questão de tempo (com o perdão do trocadilho), voltar ao passado é bem mais complicado.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Começa amanhã a abjeta campanha política por rádio e televisão (que os contribuintes bancam para que ela seja gratuita para os candidatos), quando então os candidatos começam, na prática, a vender seu peixe ao eleitorado. Donos das maiores vitrines eletrônicas, Lula e Flávio travarão um embate particular. Se os dois levarem ao ar toda a munição estocada nos paióis dos seus comitês, talvez seja necessário tirar as crianças da sala.

O filho do presidiário incluiu o molusco de nove dedos e a corrupção entre suas prioridades televisivas. Cavalgando as vulnerabilidades éticas do adversário, o ex-presidiário e seus operadores se equipam para um revide que vai muito além do caso Dark Horse — alguns petistas chamam a réplica de "desnudamento" do adversário.

A conjuntura sufoca o debate sobre os projetos para o país. A perspectiva de que os candidatos mais bem colocados nas pesquisas ataquem um ao outro no horário eleitoral dá à sucessão ares de uma disputa tétrica. Tão marcante quanto uma guerra. A diferença é que, em vez do derramamento de sangue, vai escorrer merda.


Uma hipotética volta no tempo esbarraria nas leis da natureza e da física, na conjectura de proteção cronológica — que impede as curvas fechadas do tipo tempo de levarem de volta ao ponto de partida — e no princípio de autoconsistência de Novikov — que bloqueia eventos capazes de criar inconsistências no Universo. Em outras palavras, viajar ao passado é possível em tese se não alterar o presente. 


Como a simples presença do viajante já seria uma alteração, seria preciso que quaisquer mudanças no rumo dos acontecimentos criassem linhas de tempo alternativas a partir do ponto de mudança, de modo que nada que o viajante fizesse afetasse sua linha temporal original. Isso resolveria o problema dos paradoxos, mas essa teoria ainda não foi provada. Assim, sem múltiplos universos e linhas do tempo alternativas, um loop infinito de causas e efeitos seria como as ondas concêntricas criadas por uma pedra jogada em um lago. 


Vale lembrar que a física clássica governa o macrocosmo, e a mecânica quântica, o microcosmo das partículas. Einstein demonstrou que o espaço e tempo estão conectados e que a força gravitacional de objetos supermassivos pode curvar o espaço-tempo, encurtando ou dilatando o tempo e criando loops temporais. 


Uma das muitas esquisitices da mecânica quântica é a superposição — possibilidade de uma mesma partícula estar em dois lugares simultaneamente. Assim, se causa e efeito coexistem, o "evento A" pode ser tanto a causa quanto o efeito do "evento B". Como bem ilustra o experimento conhecido como Gato de Schrödinger, a realidade das partículas em nível quântico só "se define" quando é observada. 


A expressão "arrow of time" (flecha do tempo, numa tradução direta) foi cunhada pelo astrofísico Arthur Eddington no final da década de 1920, mas a ideia de que o tempo é unidirecional remonta à Segunda Lei da Termodinâmica, proposta no século XIX, que trata da entropia (medida de desordem e 

aleatoriedade). No entanto, se a natureza não está obrigada a obedecer aos postulados da teoria que tenta explicá-la, uma seta do tempo que aponta sempre do passado para o futuro não faz o menor sentido. 


A despeito da evolução acumulada nos últimos séculos, os cientistas ainda não conseguem explicar satisfatoriamente a natureza do tempo nem sabem se somos prisioneiros do tempo que avança do passado para o presente e do presente para o futuro. Se tudo o que existe está imerso na passagem do tempo como peixes na água, a possibilidade de viajar no tempo rumo ao passado é admissível — mas admitir essa possibilidade significa que toda a ciência que construímos e a tecnologia que desenvolvemos a partir dela estão erradas.


Não sabemos se o tempo é contínuo ou quântico, se é divisível infinitas vezes e se flui invariavelmente do passado para o futuro, mas sabemos que um vaso que cai e se espatifa não volta intacto para cima da mesa, já que a entropia em um sistema fechado só aumenta. E embora possamos ir e voltar nas três dimensões espaciais, na do tempo a regra é a ida sem volta. 


Para os físicos da "velha escola", o tempo é como o pano de fundo de um fluxo de eventos que se sucedem numa direção preferencial, ou seja, o que aconteceu ontem impõe restrições ao que acontece hoje, e o hoje, ao se tornar o ontem de amanhã, impõe limites ao novo presente. Por outro lado, o cosmos nem sempre se sujeita às leis da física clássica. 


Em determinadas situações, voltar no tempo é tecnicamente possível, embora o Universo possa se tornar inconsistente caso as linhas que conectam as causas (no passado) e os efeitos (no futuro) sejam alteradas. Mas e se voltássemos no tempo sem interferir nessas linhas?


O sequenciamento temporal em nível quântico não é exatamente claro ou intuitivo. No último século, os físicos exploraram todos os tipos de comportamentos incomuns no mundo quântico — entrelaçamento, superposição e incerteza, entre outros. Na década de 1990, pesquisadores dispararam fótons descritos como "um pacote de ondas" cujo pico pareceu emergir antes de ter entrado, evidenciando a existência do "tempo negativo". 


O resultado desse experimento sugere que a luz pode viajar mais rápido do que ela mesma, o que contraria o senso comum e o princípio da causalidade (não confundir com casualidade). De acordo com alguns cientistas, não se trata de uma violação das leis da física, mas de uma reorganização dos pulsos de luz, e assim nenhuma partícula estaria experimentando tempo negativo nem viajando mais rápido do que a luz. Mistério resolvido? Não exatamente.


Experimentos mais recentes acrescentaram uma nova reviravolta que (ainda) não pode ser explicada: a duração negativa. Atraso e duração parecem ser a mesma coisa — afinal, se o seu voo sofrer um atraso, é a mesma coisa que a duração do tempo que você passa esperando, mas esse não parece ser o caso em escalas atômicas. Em outras palavras, há algo aqui que é indiscutivelmente paradoxal.


A medição negativa da duração adicionou uma nova camada de estranheza, já que o remanejamento de pacotes de ondas que explicou o atraso negativo não explica como um fóton passa menos do que zero tempo no túnel.  E esse não é o único exemplo desconcertante de estranheza temporal em escalas muito pequenas. Algumas partículas podem mudar o passado a partir do futuro por meio de um efeito chamado "retrocausalidade".


Continua…

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O TEMPO PERGUNTOU AO TEMPO QUANTO TEMPO O TEMPO TEM…

… E O TEMPO RESPONDEU QUE NÃO TEM TEMPO PRA DIZER AO TEMPO QUE O TEMPO DO TEMPO É O TEMPO QUE O TEMPO TEM.


Consideramos o tempo o pano de fundo de uma sucessão de eventos em que o ontem determina o que acontece hoje e o hoje determina o que acontece amanhã, mas ele não flui da mesma maneira para todas as pessoas em todos os lugares devido aos efeitos da dilatação do tempo e da dilatação gravitacional.


Num carro a 180 km/h, esses efeitos são imperceptíveis, mas os relógios atômicos dos satélites GPS que orbitam a Terra adiantam 38 microssegundos por dia, sendo 7 microssegundos a menos devido à velocidade e 45 microssegundos a mais devido à gravidade.  Pelo mesmo motivo, o tempo passa mais devagar ao nível do mar do que no topo do Everest — como também foi comprovado por relógios atômicos posicionados a alturas diferentes. Já numa espaçonave a 99,9999999% da velocidade da luz (representada pela letra "c" e equivalente a cerca de 299.792 km/s, a dilatação do tempo reduz milhares de anos terrestres a poucos segundos, tornando viagens de centenas ou milhares de anos-luz praticamente instantâneas (no referencial dos astronautas).


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Uma eleição de fim e de começo. Fim de um ciclo para o lulismo — seja o xamã petista reeleito ou não, essa é sua última corrida eleitoral —, potencialmente para o bolsonarismo — caso Flávio Rachadinha perca, o que sobra para o empreendimento familiar? —, e do começo de uma transição para a política nativa digital, que pede candidatos com a cabeça naturalmente nessa era. Mas os candidatos mais visados, prediletos e, ao mesmo tempo, mais rejeitados nas pesquisas não compareceram, alegando razões estratégicas de proteção mútua. 
Por óbvio, as ausências foram exploradas livremente com variações entre críticas e grosserias, com a desvantagem de os alvos não estarem ali para exigir direito de resposta a ofensas pessoais que claramente feriam as regras do embate.
A resposta à clássica pergunta sobre quem ganhou o debate depende do ponto de vista. Sob o prisma da captura de atenção e produção de cortes para a internet, Renan Santos (Missão) se deu bem, já que há público para espetáculo de insultos. Mas no aspecto da apresentação de credenciais para o papel de estadista, nenhum dos três pareceu apto a despertar no eleitorado a motivação para ultrapassar a barreira das torcidas organizadas por afeições e aversões.
É possível que Renan ganhe pontos nas pesquisas pelo viés recreativo. Caiado e Cury não estiveram à altura da empreitada presidencial nem da tarefa de sacudir o cenário sedimentado. O molusco abjeto e o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias não quiseram se expor aos ataques dos adversários e ao risco de perder pontos no topo das preferências. Evitaram se enfrentar, sonegando ao eleitorado a chance da comparação sem o filtro da propaganda. Mas isso talvez não mexa na conta do custo-benefício: Collor, FHC e Lula eram favoritos quando escolheram não ir a debates iniciais e, ainda assim, ganharam eleições seguidas. Agora que há mais fanáticos que convictos, um abalo por causa de ausências e desempenho dos presentes soa improvável.
Aguardemos as pesquisas para ver qual foi a percepção do público. Mas fica a impressão de que, ao fugir do contraditório, os preferidos não confiam nos respectivos tacos, têm medo dos nanicos e menosprezam o discernimento do eleitor.

No livro Our Mathematical Universe, o cosmólogo Max Tegmark compara o cosmos a uma "colcha" formada por 10^118 (dez elevado a 118) retalhos, cada qual com suas próprias leis físicas, constantes específicas e um número colossal de partículas subatômicas (da ordem de 1 quatrigintilhão). Nosso universo é um desses "retalhos" e se estende em todas as direções por 42 bilhões de anos-luz (397.350.679.848.393.625.305.088 km). 


Para efeito de comparação, a soma dos grãos de areia de todas as praias da Terra é estimada em 10ˆ22 (ou 10 sextilhões, no sistema de numeração curta usado no Brasil), enquanto os 13,8 bilhões de anos transcorridos desde o Big Bang correspondem a cerca de 10ˆ17 segundos (ou 100 quatrilhões).


Falamos em milhões, bilhões e trilhões com a naturalidade de quem não tem a menor ideia do que essas grandezas significam. Contar em voz alta de zero a um milhão demoraria 23 dias, mas seriam necessários 230 anos para contar até 1 bilhão. Um bilhão de segundos corresponde a 31 anos e 8 meses, mas demora-se mais pronunciar os números conforme eles aumentam (levamos um segundo para dizer "2" e cinco para dizer "1.987.789"), sem falar que, como as pessoas precisam dormir, comer e satisfazer outras necessidades fisiológicas, a contagem ficaria limitada a 16 horas por dia.


Concluída essa (não tão breve) introdução, passamos ao cerne desta matéria, começando por lembrar que a imensidão do cosmos levou os astrônomos e astrofísicos a medirem as distâncias em unidades astronômicas (UA) — uma UA equivale à distância média entre a Terra e o Sol, que varia de 149,5 milhões de km no ponto mais próximo da estrela a 152,1 milhões no ponto mais distante —, ao passo que um ano-luz — distância que a luz percorre no vácuo ao longo de um ano — equivale a cerca de 9,5 trilhões de km.


Embora a luz se propague no vácuo com uma velocidade uniforme e constante de 299.792,5 km/s, ela demora 8 minutos e 13 segundos para percorrer a distância entre o Sol e a Terra e 4,24 anos para vir de Proxima Centauri, que fica a 40,2 trilhões de quilômetros do nosso sistema solarQuando ouvimos o termo ano-luz, nossa mente tende a subestimar completamente o que ele realmente significa. Parece apenas mais uma unidade de medida, como quilômetros ou milhas, que podemos visualizar e compreender. Mas não se trata de uma distância comum, como veremos no próximo capítulo.


Até lá.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 110ª PARTE

O TEMPO NÃO PARA NO PORTO, NÃO APITA NA CURVA, NÃO ESPERA NINGUÉM.

Vimos que viajar para o passado é matematicamente possível, mas esbarra em problemas como as limitações da nossa tecnologia, a possibilidade de deformações criadas no espaço-tempo — que poderiam causar um raio de radiação capaz de destruir a espaçonave e o próprio espaço-tempo — e os paradoxos temporais — como o famoso paradoxo do avô.


Isso sem falar no risco de apanhar doenças infecciosas potencialmente letais, nos perigos ambientais — como exposição ao chumbo e outros materiais que na época não eram considerados perigosos — e nas chances (nada desprezíveis) de ser escravizado, enforcado ou queimado vivo.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A crise que assombra Lula se agrava com a devastadora revelação de que Lulinha foi “destinatário de pagamentos” oriundos do contrato milionário que uma empresa de tecnologia obteve no governo do seu pai graças à sua interferência direta. 

Diálogos recuperados pela PF da lobista Roberta Luchsinger apontam que os pagamentos eram de Cléber Ribas de Oliveira, da 3Structure, dona de contratos com Dataprev e Ministério do Desenvolvimento Social, além de mostrarem Roberta pedindo dinheiro para “despesas de Lulinha” e cobrando pagamentos citando o filho do macróbio que, pelo mal de nossos pecados, quer porque quer o quarto mandato (para piorar, seu adversário mais competitivo é Flávio Rachadinha, primogênito do refugo da escória da humanidade).

Tem mensagem de Lulinha também: “Emite a NF pro Cleber”, que pagou ao menos R$ 2,5 milhões à lobista, que, em troca, abriu as portas do governo. Lulinha reconheceu que ela “cuidava” de suas finanças e discutia viagens caras sem “dim dim nem origem”.

Indícios de sociedade oculta e tráfico de influência investigados pela PF fragilizam mortalmente o governo e reforçam a pressão pela CPI do Lulinha. A PGR argumenta que os três inquéritos envolvendo o menino prodígio deveriam baixar para a primeira instância, mas o ministro André Mendonça decidiu mantê-los no STF. Na avaliação de experientes magistrados de tribunais superiores, Mendonça, cuidadoso como é, não adotaria essa decisão se não houvesse indícios de envolvimento de autoridades com foro privilegiado — aliás, tem muita autoridade com fôro, mas poucas com "filho prodígio". 

Mandar o caso Lulinha para primeira instância já tinha virado campanha de parte da mídia ligada ao governo, que visa blindar Lula, mas a minuta do contrato de R$ 626 milhões entregue a Marcola reforçaria a suspeita de que o presidente sabia das negociações do canabidiol.


Guardadas as devidas proporções, o mesmo se aplica a viagens para o futuro — que, para começo de conversa, não é necessariamente melhor do que o presente. Por um lado, o avanço tecnológico facilitou nossa vida como o concreto e a logística facilitaram a vida dos antigos romanos, mas por outro o século XX foi marcado por conflitos globais terríveis, e o Império Romano colapsou. Assim, quem viajasse para os séculos XXII ou XXIII provavelmente encontraria um mundo dividido, com vastas regiões em péssimas condições — devido ao aquecimento global —, ou mesmo um planeta vazio, destruído por algum colapso misterioso. Em tese, o futuro pode apresentar tantos perigos quanto o passado, sem falar que temos informações confiáveis sobre o passado, mas nada sabemos sobre o porvir. 


Mas a pergunta que se coloca é: o que exatamente acontece se alguém voltar no tempo e mudar a história? Será que o futuro realmente irá mudar, ou será que essas mudanças impedirão o viajante de retornar ao passado? Se mudar o passado cria outras linhas temporais, qual versão da história fica valendo? Será que o viajante ficará preso numa linha alternativa, sem poder retornar ao presente de onde saiu, ou não conseguirá mudar a história porque as mudanças que ele implementar já fazem parte da história? 


Isso sem falar nos problemas de identidade que podem acontecer no caso de duas ou mais linhas do tempo coexistirem simultaneamente. Será que haverá duas ou mais versões do viajante existindo ao mesmo tempo, como irmãos gêmeos dividindo os mesmos documentos? E se um deles comete um crime e deixa seu DNA na cena para o outro ser preso em seu lugar? São muitas as perguntas e poucas as respostas — a rigor, o que se tem são meras especulações baseadas em teorias pendentes de comprovação. 


Comecemos examinando o problema à luz da interpretação quântica segundo a qual, cada vez que uma decisão ocorre, o universo se divide em ramos, todos igualmente reais. Aplicada às viagens no tempo, essa premissa sugere que qualquer interferência no passado não alteraria a história, pois criaria uma nova ramificação. Tomando como exemplo o paradoxo do avô (vide capítulo anterior), o viajante que mata o próprio avô não apaga a si mesmo: simplesmente deriva para uma linha onde nunca nasceu, enquanto o ramo original continua intacto. A questão é que ele ficaria preso nesse ramo alternativo, sem acesso à linha de onde partiu.


À luz da teoria da proteção cronológica (vide capítulo anterior), as leis da física conspiram para impedir paradoxos, tornando as viagens ao passado impossíveis na prática. Nesse cenário, o multiverso nem entra em cena, e a questão se resolve antes. Já segundo o princípio da autoconsistência de Novikov (também abordado no capítulo anterior), o viajante pode voltar ao passado, mas só consegue fazer o que já estava previsto para acontecer. Nesse caso, a história é um bloco fechado, sem ramificações. Não há duas versões do viajante, apenas uma, encaixada num loop consistente.


De acordo com a teoria do multiverso cosmológico, os universos paralelos não são criados por decisões quânticas, mas existem independentemente, como bolhas num oceano inflacionário. Nesse cenário, viajar no tempo equivale a saltar entre essas bolhas — mas aí o "passado" visitado não seria o passado do viajante, e sim o passado de outro universo estruturalmente semelhante, e qualquer mudança ficaria confinada a essa bolha alheia.


Na interpretação dos muitos mundos, se o viajante e seu duplo coexistem no mesmo ramo por algum tempo, eles se tornam indivíduos distintos com histórias divergentes a partir do ponto de bifurcação — mas com DNA idêntico, impressões digitais idênticas, e provavelmente memórias coincidentes até certo ponto. O direito penal contemporâneo não tem categoria para isso, pois seria o caso mais extremo imaginável de gêmeos idênticos — em relação aos quais, a Justiça também tem dificuldades.


A questão é que essas teorias não foram comprovadas experimentalmente — e não se sabe quando o serão, já que operam em escalas ou condições inacessíveis à tecnologia atual. A interpretação dos muitos mundos, por exemplo, é matematicamente elegante, mas produz ramos do universo que, por definição, jamais interagem com o nosso — o que a torna, na prática, cientificamente escorregadia. O multiverso cosmológico enfrenta o mesmo problema: as bolhas vizinhas estão além de qualquer horizonte observável. Novikov é internamente consistente, mas depende de uma visão do tempo como um bloco rígido que contradiz nossa intuição de que o futuro está em aberto.


O que todas essas teorias têm em comum é a tentativa de salvar a lógica diante de um fenômeno que, se existisse, a fulminaria. São, de certo modo, grades instaladas antes de a janela ser aberta — precauções teóricas contra um problema prático que ainda não sabemos como enfrentar. Por enquanto, o viajante do tempo é um personagem de ficção científica, e talvez seja melhor que continue assim, mesmo porque a história já é complicada o suficiente sem que ninguém volte para editá-la.


Mas a pergunta persiste, incômoda e fascinante: se o tempo é, como sugere a relatividade geral, uma dimensão do espaço-tempo e não um rio que corre numa única direção, então a possibilidade de percorrê-lo em sentidos distintos existe, sendo inclusive o fruto mais cobiçado — mas ainda não alcançado — da árvore da relatividade. Não obstante, o que é inalcançável hoje pode ser trivial amanhã. Veja que a esquadra de Cabral levou 44 dias para cruzar o Atlântico em 1500, e 500 anos depois o Concorde já fazia a mesma viagem por ar em pouco mais de três horas.


A ciência ainda não sabe responder a essas e outras questões, mas a ficção científica respondeu à sua maneira, com resultados às vezes surpreendentemente rigorosos. Todavia, até que as coisas mudem, o viajante do tempo continuará fazendo o que sempre fez: existir apenas na imaginação — que, convenhamos, é o único lugar onde ele nunca encontra paradoxos —, e o tempo, fazendo o que sempre fez: correr em uma única direção, indiferente às nossas teorias, aos nossos paradoxos e aos nossos desejos de voltar atrás.


Continua...

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

SERÁ QUE VIVEMOS NUMA SIMULAÇÃO?

SE CIVILIZAÇÕES AVANÇADAS CRIARAM MUITAS SIMULAÇÕES COM SERES CONSCIENTES, É MAIS PROVÁVEL QUE ESTEJAMOS VIVENDO DENTRO DE UMA DESSAS SIMULAÇÕES DO QUE NA REALIDADE BASE.

O mundo está cada vez mais estranho. Se fossemos Keanu Reeves vivendo em uma simulação de computador, diríamos que estamos constantemente passando por “falhas na Matrix”.


A franquia Matrix explora um futuro distópico onde a realidade que conhecemos é, na verdade, um sistema de inteligência artificial chamado "Matrix". Thomas Anderson, — conhecido pelo apelido Neo e atormentado por falhas na sua realidade — é contatado por Morpheus e Trinity para invadir a simulação, recrutar e treinar "despertados". Morpheus oferece a Neo a escolha entre duas pílulas: a azul (para continuar na ilusão) e a vermelha (para descobrir a verdade). Ao escolher a pílula vermelha, o programador acorda em um mundo devastado e descobre que as máquinas dominam o planeta, mantendo os corpos humanos em cápsulas para extrair energia (bioeletricidade).


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Os púlpitos vazios de Lula e Flávio Bolsonaro chamaram a atenção, mas a ausência dos favoritos já era esperada. Dos seis convidados, restaram apenas três. Romeu Zema se juntou aos fujões. Augusto Cury ameaçou desistir, mas foi convencido pelo jornalista Fernando Mitre a desistir da desistência, juntando-se no estúdio a Ronaldo Caiado e Renan Santos. Os três somam 11% das intenções de voto no Datafolha, contra 71% atribuídos ao molusco macróbio e ao rebento do refugo da escória da humanidade..

A cena mais marcante da palhaçada estava na plateia, não no palco. Vice de Ronaldo Caiado, Gilberto Kassab cochilou várias vezes — inclusive durante uma fala do seu companheiro de chapa. Com suas sonecas, foi o vice-campeão do "debate", perdendo apenas para o eleitorado que foi dormir antes dele.

Em última análise, foi "debate" entre aspas, sem embates. Lula apanhou mais que Bolsonarinho. Zema foi ignorado — ninguém quis chutar cachorro morto.

Com linguajar de sarjeta, Renan exibiu cortes para a internet, não ideias. Disse que Lula e Flávio fugiram como "duas cadelas". Escorregou entre a misoginia e a homofobia. Fez ataques gratuitos a Janja e Erika Hilton.

Com sorriso robótico, Caiado soou menos como presidenciável do que como guia turístico do seu estado. Prometeu transformar o Brasil numa espécie de Goiás hipertrofiado. Com ares professorais, o psiquiatra Cury forneceu receitas de autoajuda para um país "doente". 

A 41 dias do primeiro turno, dificilmente o "debate" influenciará significativamente os ponteiros das pesquisas. Lulistas e bolsonaristas aplaudem os fujões. O eleitor que atrasou o sono não se livrou do pesadelo da polarização.


Isso cheira a ficção, mas e se nosso Universo for mesmo um gigantesco holograma, como afirmam pesquisadores da Universidade de Southampton, no Reino Unido, Universidade de Waterloo e Instituto Perimeter, no Canadá, Lecce e Universidade de Salento, na Itália, que publicaram um estudo sobre o assunto no periódico Physical Review Letters após constatarem que uma das explicações para a formação do Universo cabe direitinho em um modelo de duas dimensões (2D)? 


Essa é uma entre as mais de 10 mil pesquisas sérias relacionadas ao conceito do Universo Holográfico, criado pelo físico Leonard Susskind nos anos 1990. Só que, até onde se sabe, o cosmos é formado por três dimensões espaciais (altura, profundidade e largura) e uma quarta, de natureza temporal. Dito isso, como ele poderia funcionar com uma dimensão a menos (sendo que é só olhar para a frente para ver que tudo ao nosso redor é em 3D)?


Imagine que tudo o que você vê, sente e ouve em três dimensões (mais a sua percepção de tempo), na verdade, emana de um campo plano de duas dimensões. A ideia é semelhante à dos hologramas comuns, nos quais uma imagem em 3D está decodificada em uma superfície plana, como o holograma de um cartão de crédito. A diferença é que agora é o Universo inteiro que está decodificado. Mas isso não significa que estamos vivendo agora em um holograma, e sim que isso pode ter acontecido no surgimento do Universo, há quase 14 bilhões de anos. 


Como mencionado em dezenas de oportunidades, a ciência sabe muito, mas não sabe tudo, e ainda não foi capaz de conciliar o modelo da mecânica quântica (que regula o universo das coisas menores do que um átomo) com o modelo da relatividade geral (aquela mesma proposta por Einstein, que regula os corpos gigantescos como estrelas e planetas). Isso fica especialmente evidente ao se tentar descrever o surgimento do Universo, quando, segundo a teoria do Big Bang, toda a massa e energia existentes estavam contidas em um único ponto menor do que uma ervilha, mas com densidade infinita.


Em outras palavras, existem duas físicas que falam línguas diferentes, já que a mesma gravidade que explica tão bem o comportamento dos planetas, por exemplo, não funciona para explicar o comportamento de partículas subatômicas. No entanto, uma teoria que tenta fazer as duas físicas conversarem é conhecida como gravidade quântica.


De acordo com o físico italiano Carlo Rovelli, apesar de ainda não ter sido comprovada experimentalmente (como muita coisa na física teórica), essa teoria é a que melhor explica a realidade que nos cerca, pois para a gravidade quântica não existe o espaço-tempo. Segundo esta concepção de mundo, tudo seria formado por campos quânticos — compostos pelas partículas que, como os fótons, por exemplo, não precisam do espaço-tempo para lhes servir de suporte porque eles próprios são o espaço-tempo.

 

Além do tempo e do espaço, a teoria elimina também o universo infinitamente pequeno, menor do que as partículas subatômicas, onde a mecânica quântica atua. Assim, as relações espaciais que tecem o espaço curvo de Einstein são as mesmas interações que tecem as relações entre os sistemas elementares da mecânica quântica — que se tornam compatíveis quando se conclui que espaço e tempo são aspectos de um campo quântico que podem viver mesmo sem serem escorados num espaço externo.


Como se vê, o cosmos é um lugar fascinante e nada óbvio. E o mais interessante da gravidade quântica é que ela prevê que, se eliminarmos uma dimensão, podemos eliminar também a gravidade, tornando os cálculos muito mais fáceis. Com esta ideia em mente, os pesquisadores desenvolveram um modelo com duas dimensões (mais o tempo) para explicar como o princípio do holograma poderia explicar os acontecimentos do Big Bang e suas consequências.


Vale reforçar que eles estão longe de provar que o nosso Universo era um holograma no começo, mas o fato de as evidências observacionais do mundo real explicarem partes faltantes das leis da física em duas dimensões significa que não devemos descartar a ideia. Por outro lado, nenhum de nós é um desenho animado vivendo em um mundo sem profundidade. Segundo Niayesh Afshordi, da Universidade de Waterloo, talvez não vivamos em um holograma, mas podemos ter saído de um. Seja como for, até prova em contrário o Universo tem três dimensões.


Dada a quantidade de universos criados, a ideia encontra eco nos trabalhos tanto de filósofos contemporâneos como David Chalmers, da Universidade de Nova York, quanto de filósofos clássicos como Platão — com sua alegoria da caverna — e modernos como Descartes, para quem não podemos confiar cegamente em nossas percepções. Por exemplo, o resultado de uma final de copa do mundo pode ser o mesmo para os dois países, mas dificilmente quem perdeu vai ter a mesma percepção daquele que ganhou (pergunte a um torcedor alemão se ele ficou triste com o 7x1). Tem-se aí duas realidades alternativas baseadas em um único fato.

A Hipótese da Simulação ficou ainda mais conhecida em 2016, quando o magnata Elon Musk, CEO da SpaceX, disse que fazemos parte de um mundo simulado e que a nossa realidade poderia ser só uma entre muitas. Mas a tecnologia de hoje é muito mais avançada do que há dez anos, quando agíamos como neandertais e usávamos o Orkut, tínhamos que ir ao banco pagar boletos, ou passávamos madrugadas baixando músicas na internet. 


A questão que os filósofos propõem é exatamente esta: a humanidade poderia evoluir a ponto de criar uma inteligência que vivesse em um mundo simulado e que fosse capaz de ter consciência? Há quem diga que já chegamos a esse nível, e que fazemos parte desse imenso game que seria a realidade que nos cerca, manipulados por seres avançados de um universo “acima” do nosso.


Em um podcast do jornal The Guardian, Chalmers afirma que seria impossível conseguirmos qualquer prova desta teoria, por causa de um simples fator: qualquer evidência que a gente consiga pode ser ela própria uma simulação. Mas isso não nos impede de caçá-las. Como afirmou o cosmólogo do MIT Max Tegmark, quanto mais aprendemos sobre o nosso Universo, mais ele parece ser baseado nas leis da matemática, pois elas apenas refletem os códigos de computadores em que foram escritas


Mas nem todos concordam. A física teórica Lisa Randall, da Universidade Harvard, afirma que usar a Hipótese da Simulação como desculpa para eventos que dão errado, como a cerimônia do Oscar ou a eleição de Donald Trump, é uma forma de abdicar das responsabilidades. Segundo ela, seria mais frutífero focar no que podemos fazer para evitar os erros e melhorar o mundo do que atribuir resultados indesejáveis a forças externas incontroláveis.


Na física, não se consegue provar de fato uma teoria, apenas excluir teorias alternativas. Então, não se pode afirmar que nenhuma teoria da física é absolutamente correta (ou incorreta) porque não se tem acesso a todos os níveis de informação. O fato de vivermos em um jogo de videogame não significaria que a realidade não existe, apenas que ela seria feita de informação.


O problema é que, caso a hipótese se confirmasse e todos descobríssemos que somos feitos de bits, teríamos dilemas morais muito mais complexos para resolver. Por exemplo, a entidade que criou a nossa realidade poderia ser um deus ou apenas hackers em um Universo ‘acima’ do nosso. E não há razão para pensarmos nesta inteligência superior como superpoderosa só porque ela controla o que fazemos. 


Ou talvez não se trate de videogame, mas de algo mais autônomo, que não precisa necessariamente de um controlador. Em uma simulação, colocamos as leis da física e da natureza e criamos um Universo, mas não interferimos no que criamos, apenas colocamos os princípios fundamentais e observamos. 

 

Outra questão a ser respondida seria: uma inteligência artificial consciente é menos humana do que um ser humano de verdade — ou pelo menos o que consideramos humano? Como afirmou um dos robôs do parque de Westworld quando foi confrontado com a sua “falta de humanidade”: “A dor existe na mente; ela é sempre imaginada. Então qual é a diferença entre a minha dor e a sua, entre você e eu?”