EM CERTAS ÉPOCAS DO ANO, O BOM SENSO ENTRA EM RECESSO COLETIVO, MAS A CONTA SEMPRE CHEGA.
Os feriados católicos têm por base a Páscoa, que é comemorada no primeiro domingo após a primeira lua cheia posterior a 21 de março. Assim, a terça-feira de Carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa, e o feriado de Corpus Christi, 60 dias depois.
"Carnaval" vem da expressão latina carnis levare — o jejum da carne e de outros prazeres mundanos que a Igreja Católica proíbe durante a Quaresma. No Brasil, milhares de blocos arrastam multidões e o povo esquece momentaneamente que a realidade existe. Em algum momento, porém, a música para e a ressaca entra sem pedir licença.
Dor de cabeça, tontura, fadiga, náuseas e outros desconfortos na manhã posterior ao pifão não são consequências do camarão da empadinha, mas de baldes de caipirinha e dúzias de latinhas de cerveja. A ressaca — tão inevitável quanto a morte e os impostos — costuma se manifestar de seis a oito horas após o porre, mas o tempo que leva para passar varia de pessoa para pessoa e da quantidade de álcool ingerida.
Atribui-se a ressaca ao aumento da concentração de substâncias inflamatórias, à alteração dos hormônios que regulam o sono, às oscilações da glicose no sangue e até aos “aditivos” embutidos nas bebidas alcoólicas. Ainda assim, não se sabe exatamente por que os sintomas surgem após a eliminação do álcool pelo organismo. Seja como for, o troço é um porre.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Segundo a pesquisa Meio/Ideia, a maioria dos eleitores (51%) acha que Lula não deve continuar no Planalto. Para 47%, ele merece obter um quarto mandato. Os dados sinalizam três coisas:
1) A maioria do eleitorado chega a 2026 com desejo de mudança; 2) Numa eleição de caráter plebiscitário, a dificuldade em envernizar a própria imagem tornou-se a principal debilidade de Lula; 3) Não há um franco favorito na praça.
No pedaço que traz as intenções de voto, a pesquisa revela que a pulverização da direita favorece o candidato ao quarto mandato. Em todos os cenários, o petista aparece com um pé no segundo turno; numericamente à frente dos adversários, mas amarga um empate técnico com o Flávio Bolsonaro, o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, sua madrasta Micheque e o vassalo bolsonarista Tarcísio de Freitas.
Supondo que Lula vá mesmo ao segundo turno e que a submissão de Tarcísio ao líder preso seja definitiva, postulantes ao Planalto que se oferecem como opções de direita terão que brigar com o filho do pai pela segunda vaga. Em declarações recentes, Ratinho Jr. reiterou ser favorável ao indulto do golpista, e Ronaldo Caiado insinuou um pacto de não agressão a seu primogênito.
O eleitor conservador talvez prefira o herdeiro de sangue aos Bolsonaros genéricos. Nessa hipótese, o molusco enfrentaria 2026 com as armas de 2022, torcendo para que a minoria independente de centro lhe dê novamente a vitória, ainda que por uma margem mixuruca.
Vodca, gim e outras bebidas compostas basicamente por água e álcool castigam menos que uísque e vinho, mas é fundamental atentar para a qualidade: marcas como Popov e Príncipe Igor, nem na caipirinha. O álcool da cerveja é o mesmo do uísque, do vinho, da vodca, do gim, do conhaque e dos demais destilados; o que muda é apenas a concentração. Não misturar destilados e fermentados, não beber de estômago vazio nem comer como um porco na ceva antes de encher o caneco ajuda a amenizar o day after.
A não ser em casos de coma alcoólico — quando se deve procurar um pronto-socorro —, deixar o organismo processar o álcool naturalmente e evitar comidas ácidas, gordurosas ou de difícil digestão minimiza o desconforto. O famoso “tomar mais uma para rebater” pode até funcionar momentaneamente, mas o nível de álcool no organismo terá de baixar mais cedo ou mais tarde.
Observação: O Bloody Mary — que leva vodca, suco de tomate, pimenta-do-reino, tabasco, limão, gelo e uma pitada de sal — é infalível na cura da ressaca… ou pelo menos era o que juravam Frank Sinatra, Judy Garland, Humphrey Bogart, Sammy Davis Jr., Jerry Lewis, Dean Martin, Elizabeth Taylor e outros devotos dessa beberagem.
A única forma eficaz de evitar a ressaca é a abstinência, mas essa recomendação é solenemente ignorada pela maioria. Para piorar, não existe fórmula mágica para curá-la, embora uma boa noite de sono e muita água, água de coco, isotônicos, sucos, frutas, proteínas leves e carboidratos ajudem na recuperação. Caldos e sopas estão liberados, desde que com pouco sal. Dietas líquidas ajudam a hidratar, mas não fazem milagre. Jejuns prolongados, horas na sauna ou corridas sob um sol senegalês também não resolvem — ao contrário, só acentuam a desidratação.
Refrigerantes normais são preferível aos dietéticos — o açúcar (glicose) ajuda a metabolizar o excesso de álcool. Cerveja, vinho e outras bebidas alcoólicas até aplacam a sede, mas não hidratam o organismo. A cafeína bloqueia os receptores de adenosina, ajudando a atenuar os sintomas da ressaca. Analgésicos aliviam a dor de cabeça, mas não atuam na causa do problema. É importante evitar medicamentos à base de paracetamol, que, combinados com o álcool, castigam ainda mais o fígado, que já está combalido pelo excesso de bebida.
Torradas com mel ou geleia no café da manhã, sopa ou salada de legumes cozidos no almoço, muito líquido e uma boa dose de paciência podem tornar a Quarta-feira de Cinzas — dia de penitência e reflexão para os carolas e antessala do inferno para os foliões que abusaram da cangibrina — mais suportável, ainda que o meio-expediente transcorra ao som imaginário de uma bateria de escola de samba tocando a marcha fúnebre.
Por último, mas não menos importante: o grande fluxo de pessoas e a aglomeração em espaços públicos aumentam consideravelmente os casos de furtos e roubos de celulares. As inevitáveis aglomerações e o hábito de falar ao celular ou tirar selfies sem precaução favorecem furtos e roubos de aparelhos. Para reduzir os riscos, recorra a pochetes ou bolsas de uso corporal, evite manusear o telefone em áreas muito expostas e desative temporariamente a função de pagamentos por aproximação sem senha ou autenticação biométrica.
Para se prevenir contra golpes como a clonagem do WhatsApp e acessos indevidos a contas bancárias — que se tornam mais frequentes nessa época —, ative a verificação em duas etapas nos aplicativos, use senhas fortes e mantenha os softwares atualizados. Se possível, leve para a folia um aparelho alternativo, sem acesso a apps bancários ou outros dados sensíveis.
Dinheiro, relógios vistosos, pulseiras, correntes e até tênis de grife também atraem a atenção dos amigos do alheio. Expor-se ao sol escaldante sem protetor solar de fator adequado causa danos à pele, e não usar óculos escuros de marcas confiáveis — evite produtos dos melhores camelôs do ramo — pode “queimar” as córneas, acelerar o surgimento de cataratas e comprometer a visão.
Se você sobreviver a mais este Carnaval, tente lembrar do que leu aqui no próximo — ou no Réveillon, ou sempre que sentir aquela vontade irresistível de enfiar o pé na jaca. Porque a festa passa, o confete some, mas o fígado, a conta bancária e o bom senso cobram juros.

