O MEDO DA MORTE É O PAI DAS RELIGIÕES.
Sherlock Holmes — o famoso detetive fictício criado pelo escritor escocês Arthur Conan Doyle — dizia que, uma vez descartado o impossível, o que resta, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade.
Às vezes o problema não é a ausência de verdade, mas o excesso de condicionamento. Há casos em que basta uma mudança de perspectiva para a verdade ser revelada. E quando se trata de conceitos como "alma", "vida após a morte", "reencarnação" e afins, cortar os grilhões dogmáticos é como se afastar da árvore para enxergar a floresta.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Enquanto os faria-limers fazem papel de bobos numa peça confusa, em que o protagonista é o filho de um ex-presidente condenado a 27 anos de cadeia, e o coadjuvante é um mafioso que tinha um banco, esses tolos endinheirados escolhem ficar de cócoras diante da decomposição moral do pedaço de estrume que atende por Flávio Bolsonaro, e que, um dia depois de admitir que teve encontro presencial com Vorcaro, afirma que a crise é página virada e que sua candidatura está sólida. Embora nenhum dos interlocutores do candidato compraria um carro usado de Vorcaro, todos se dispõem a vitaminar com seu apoio o presidenciável que mordeu um pedaço do butim do banqueiro malfeitor. A exemplo dos brasileiros que têm um pingo de vergonha na cara, a Faria Lima não precisa apoiar a reeleição de Lula. Mesmo depois que o presidiário interditou Tarcísio de Freitas, o quindim do mercado, ainda restam no bufê eleitoral opções conservadoras sem a salmonela bolsonarista da suspeição. Ao se manter acorrentado ao projeto do Bozo de voltar ao Planalto por meio do rebento (no que me concerne, tanto o pai quanto o filho poderiam se explodir), os mandarins do mercado permanecem agachados, quando poderiam demonstrar alguma altivez.
Como bem disse Upton Sinclair, timor mortis est pater religionis. No tempo das cavernas, tempestades, terremotos, eclipses e outros fenômenos naturais eram atribuídos a forças sobrenaturais, e esse misticismo deu origem às mais diversas religiões — cada qual com sua própria escatologia, arquitetura e hierarquia. Juntas, elas produziram um caudaloso manancial de escritos sugerindo a existência de uma vida após a morte — como o Livro dos Mortos egípcio, os Sutras, as Upanishads, os Vedas, a Bíblia judaico-cristã, a Cabala, o Alcorão, e por aí vai.
Os primeiros textos védicos remontam a 1500 a.C., mas os conceitos que encerram foram transmitidos oralmente durante séculos.. A frase "este é meu corpo", que Jesus teria pronunciado na Última Ceia, é repetida até hoje durante a Eucaristia. Quando "lavou as mãos", Pôncio Pilatos deixou clara a ligação entre a religião e a política — aliás, a Igreja e o Estado foram duas faces da mesma moeda até a Revolução Francesa, e velhos vícios são difíceis de erradicar.
Toda sociedade tem uma religião, toda religião tem um propósito social e toda cerimônia religiosa tem um ritual. O Seder de Pessach e a comunhão são adaptações litúrgicas de uma prática observada nos chimpanzés. As religiões perderam a empatia dos tempos de antanho, mas fenômenos complexos se desenvolvem a partir de começos simples, e tudo o que fazemos é influenciado por nossa história biológica e cosmológica.
A despeito de o Universo ter surgido há 13,8 bilhões de anos e de o Homo Sapiens ter evoluído de outros primatas há cerca de 300 mil anos, o Velho Testamento afirma que Deus criou o mundo e tudo o que nele existe em seis dias e descansou no sétimo. Segundo revelou o arcebispo irlandês James Ussher em The Annals of the World, tudo começou às 9h da manhã de 23 de outubro de 4004 a.C.
Acredita-se que Moisés rascunhou o Gênesis e os demais livros do Pentateuco enquanto guiava o povo hebreu rumo à terra que Jeová prometera a Abraão e seus descendentes. Embora dominasse os segredos das águas — seu cajado não só abriu o Mar Vermelho como fez brotar água de uma pedra —, o velho Moshe só encontrou Canaã depois de caminhar durante 40 anos pelo deserto do Sinai.
A certa altura, em vez de falar com uma rocha para que dela brotasse água — como Deus o havia instruído —, o líder dos judeus errantes bateu nela com seu cajado e atribuiu a si próprio o milagre (Números 20 e Deuteronômio 32). Como castigo, foi proibido de entrar na "terra prometida" e morreu no monte Nebo, aos 120 anos.
Talvez os efeitos deletérios do sol causticante do deserto tenham levado Moisés a retratar o Criador como uma entidade rancorosa e vingativa, divorciada da imagem vendida em igrejas e templos por padres e pastores que cobram o dízimo dos fiéis ameaçando-os com a "danação eterna", quando deveriam oferecer-lhes orientação e conforto espiritual. Mas as religiões são como os vaga-lumes: precisam da escuridão para brilhar. E são úteis somente aos poderosos, que lhes conferem ares de verdade para ludibriar os menos esclarecidos.
É fundamental questionar as crenças enraizadas. A possibilidade de existir um ente superior é plausível, mas a rigidez das religiões perpetua dogmas que raramente resistem ao questionamento crítico. Lamentavelmente, argumentar com quem renunciou à lógica é como dar remédio a defunto. Isso explica por que, em pleno século XXI, doutrinas as mais inverossímeis têm hostes de seguidores que pegam em armas para defender seus rituais e liturgias.
Como disse alguém mais sábio: Deus criou a fé e o amor, e o Diabo, invejoso, as religiões e o casamento. Todas as religiões são a verdade sagrada para quem as professa, mas não passam de fantasia para os seguidores das outras. E não há crença, por mais estúpida que seja, que não tenha fiéis seguidores.
Continua...


