O "agora” é como o “aqui”, que não é um lugar específico no mapa, e sim um conceito que descreve nossa posição em relação ao ambiente que nos circunda.
Neste momento, meu "aqui" é Sampa, mas seria Cagliari se eu estivesse na capital do país dos meus antepassados, da mesma forma que Quixeramobim é o "aqui" de um cearense da gema, e seria Honolulu se ele estivesse na capital do Havaí. Mas nenhum "presente" é mais especial do que o "presente" de qualquer outra pessoa.
Como consequência das equações de Einstein para o espaço‑tempo, o "aqui" varia de um observador para outro. Mas se todos os presentes são igualmente válidos, todos devem existir, de modo que os eventos futuros já "estarão lá”, independentemente do que façamos ou deixemos de fazer. Nesse quadro, se o livre-arbítrio nos permite, por exemplo, ficar na cama amanhã de manhã em vez de sair para correr, essa possibilidade não seria um leque em aberto, mas uma coordenada já fixada no tecido do espaço-tempo à qual ainda não chegamos.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Na minha modesta opinião, nenhum dos pré-candidatos à presidência, sobretudo os dois principais antagonistas, valem dois tostões de mel coado (porque seria deselegante dizer que não valem a merda que cagam). Infelizmente, as pesquisas sugerem que mais de 70% do eleitorado dizem que vão votar em um ou no outro.
Enquanto o macróbio indigesto distribui benefícios a rolo para tentar recuperar parte da popularidade que perdeu nos últimos meses, o filho do refuto da escória da humanidade foi pego com a boca na botija pedindo dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para concluir um filme sobre a atuação do capetão golpista durante sua nefasta gestão.
Numa leitura estatisticamente rígida, o ponteiro da Quaest indica estabilidade, mas o cenário ficou mais alvissareiro para o xamã petista do que para o filho do pai. Segundo o resultado da pesquisa, num cenário de segundo turno, nhô-ruim e nhô-pior continuam empatados, mas o dono da caneta e da máquina "despiorou" e voltou a aparecer numericamente à frente, enquanto o desafiante travou.
A avaliação do governo continua no vermelho, mas a diferença entre a taxa de desaprovação e o índice de aprovação recuou de nove para três pontos percentuais, ficando agora dentro da margem de erro. Um dos fatores associados à essa "despiora" é o impacto do Desenrola 2 — programa de socorro aos endividados aprovado pela maioria dos entrevistados. Além disso, em que pese o esforço dos bolsonaristas, a reunião com Trump foi avaliada positivamente por 60% dos eleitores. Ironicamente, o ídolo máximo do bolsonarismo tornou-se momentaneamente um cabo eleitoral de Lula.
O jogo continua aberto, mas o filho do imprestável já não pode jogar parado.
A ideia do "futuro aberto" implícita no presentismo é a de que algo que ainda não aconteceu não existe em lugar nenhum. Na visão dos presentistas, o futuro é genuinamente aberto. Já no growing block universe o passado e o presente existem, mas o futuro ainda não foi "acrescentado" ao bloco. Em ambos os casos, o que faremos a seguir não está fixado em lugar algum da realidade, ao passo que no eternismo o futuro já existe como coordenada, e a sensação de abertura é ilusória.
Se todos os momentos do tempo existem da mesma forma que todas as cidades do mapa, então os eventos futuros já estão "lá" — esperando, por assim dizer, que nossa consciência os alcance. Para os adeptos dessa teoria, o Universo não seria um palco onde os eventos acontecem, mas sim a totalidade de tudo que aconteceu, acontece e acontecerá, coexistindo numa estrutura quadridimensional imutável.
O tempo que "passa" seria uma ilusão gerada por sermos observadores internos a essa estrutura, experienciando-a de dentro para fora, fatia por fatia — assim como um viajante que atravessa o Brasil vê Quixeramobim, depois São Paulo, depois Porto Alegre, sem que isso signifique que as cidades aparecem e desaparecem conforme ele passa por elas.
Na visão míope dos fanáticos religiosos — e aqui não vai crítica nova, porque discutir lógica com quem já a abandonou é como dar remédio a defunto —, Deus é onisciente. Mas como ele poderia conhecer o futuro num universo de futuro genuinamente aberto e saber com antecedência, por exemplo, se alguém vai dormir até o meio-dia ou sair para correr na manhã seguinte?
O
universo-bloco oferece a mesma resposta que o filósofo
Boécio (não confundir com 'beócio') propôs no século VI: Deus não prevê o futuro, simplesmente contempla o bloco inteiro de uma só vez como alguém olhando um mapa do alto. O que parece profecia para nós seria, do ponto de vista divino, apenas visão direta de uma coordenada que já existe. Mas se Deus vê que vou ficar na cama amanhã, como poderia ser diferente? Em outras palavras, a onisciência divina e nosso livre-arbítrio passam a puxar em direções opostas, como num cabo de guerra.
Os teólogos discutem essa questão há séculos sem resolução consensual. A relatividade especial impõe restrições fortes a qualquer visão de futuro aberto, mas a mecânica quântica complica o quadro. Alguns físicos argumentam que o colapso da função de onda — o momento em que uma partícula "escolhe" um estado entre vários possíveis — introduz uma abertura genuína no tecido do real, incompatível com um bloco rigidamente determinado. Outros respondem que o colapso é apenas aparente, e que o universo‑bloco sobrevive intacto. A geometria, a relatividade descreve com precisão extraordinária, mas o que essa geometria é, ela não decide sozinha.
Uma leitura bastante natural da relatividade especial leva ao eternismo, no qual passado, presente e futuro existem igualmente, como as coordenadas de um mapa quadridimensional; o seu "agora" cortando esse bloco num ângulo diferente do meu é exatamente análogo ao "aqui" — uma indexação perspectival, não uma diferença ontológica. A consequência incômoda é que, numa leitura literal, a cena de você dormindo até o meio-dia amanhã — ou saindo para correr — já existe no bloco, assim como São Paulo, Cagliari, Quixeramobim e Honolulu já existem no mapa, mesmo que estejamos apenas em uma delas agora.
Quanto ao futuro ser realmente "aberto", as opiniões se dividem. Os eternistas (que levam o bloco a sério) dizem que o livre-arbítrio é compatível com o determinismo — a gente faz a escolha, mas essa escolha já é uma coordenada fixa no bloco. Não há contradição, só uma ilusão de abertura gerada pelo fato de experienciarmos o tempo de dentro pra fora. Para os presentistas, só o presente existe de verdade; a relatividade seria matematicamente correta, mas ontologicamente mal interpretada, e o bloco seria uma ficção útil, não a estrutura real do mundo. Os defensores do universo-bloco, por sua vez, fazem um meio-termo: passado e presente existem, mas o futuro ainda não. O Universo cresce como um livro sendo escrito. Só que é preciso explicar o que faz o presente ser especial — e aí volta o problema relativístico.
Essa tensão é antiga — como dito linhas acima, Boécio propôs que Deus não prevê o futuro, mas o vê por ser capaz de enxergar o bloco inteiro de uma vez, como alguém que olha um mapa de cima. Seu "conhecimento" do que as pessoas farão amanhã não seria profecia causal, mas uma visão direta de uma coordenada que, do ponto de vista divino, já está lá. É como se nós fôssemos viajantes percorrendo um vale que ele observa do topo de uma montanha. Enquanto vemos apenas os trechos do caminho à nossa frente, ele o vê em sua totalidade — da mesma forma que vê tudo o que faremos ao longo deste ano e nos anos seguintes.
O problema com essa solução é que ela resolve a onisciência mas esfacela o livre-arbítrio: se Deus vê que a gente vai dormir até o meio-dia, como poderíamos fazer diferente? A resposta teológica clássica (São Tomás de Aquino) é que o conhecimento divino não causa o ato. Mas muita gente acha essa distinção artificial.
A relatividade especial descreve o espaço-tempo em situações sem gravidade e sem mecânica quântica. Alguns físicos, como Carlo Rovelli, argumentam que o tempo no nível fundamental pode não existir como variável — o que tornaria a pergunta sobre "futuro aberto" mal formulada desde o início. Outros, como os defensores de interpretações da mecânica quântica com colapso real da função de onda, acham que o universo-bloco é incompatível com certas leituras da física quântica.
A relatividade impõe restrições a qualquer visão de futuro aberto, mas não a elimina de forma conclusiva, pois a interpretação ontológica das equações de Einstein ainda é filosoficamente disputada. Se Deus sabe que algo vai acontecer, então deve acontecer. Se ele vê qual caminho o viajante tomará, isso significa que a jornada do viajante já está decidida? E se vê o futuro e todos os tempos já existem, qual o sentido de tentarmos mudá-lo ou estabelecer uma resolução?
Aqueles interessados no pensamento medieval e os filósofos modernos que se debruçam sobre a relatividade de Einstein reconhecem que a linguagem é a principal culpada por esse problema. Por exemplo, acabamos de dizer que o futuro existe “já”. Mas temos que reconhecer que a palavra “já” é tão relativa quanto o “agora” ou o “aqui”. Na física, todos os tempos podem existir, mas o que acontece nesses tempos em relação ao nosso "presente" ainda depende de nós.
Toda a cadeia de eventos no Universo pode existir, mas ainda somos agentes ativos nela, que não existe "de uma vez" ou "já"; simplesmente existe. E ainda depende de como nós agimos, já que o presente influencia o futuro, e cabe a nós decidir se vamos sair para correr ou ficar na cama até o meio-dia.
Para os teólogos medievais, Deus poderia nos ver levantando da cama e indo correr em 1º de janeiro, mas também nos vê programar o alarme em 31 de dezembro, depois de termos ido à loja de calçados comprar tênis de corrida. Independentemente de o futuro existir para Deus, o que acontece nele ainda depende de nós.
Resumo da ópera: Se o Universo é um bloco quadridimensional, a tentação é imaginar tudo congelado, como um romance já escrito, no qual só nos resta folhear páginas que, em algum sentido, “já existem”. Mas a própria linguagem nos trai quando falamos disso, pois: usamos palavras como “já”, “ainda”, “logo” — todas amarradas ao nosso pequeno “agora” psicológico, não à estrutura matemática do espaço-tempo.
Do ponto de vista da física, pode fazer sentido dizer que todos os eventos estão dispostos no bloco, sem privilégio ontológico do presente. Do ponto de vista de quem acorda com o despertador tocando às seis da manhã, porém, continua havendo uma diferença brutal entre levantar ou apertar o botão de soneca. E essa diferença é vivida, não deduzida das equações.
O que teólogos medievais, relativistas e filósofos da linguagem aprenderam a contragosto é que não escapamos do fato de sermos agentes: mesmo num universo‑bloco, nossas decisões são parte do bloco. Se Deus vê o mapa inteiro, também vê as encruzilhadas em que hesitamos, os dias em que corremos e os dias em que ficamos na cama — e é justamente porque essas escolhas existem que o mapa tem a forma que tem.
O Universo pode ser um livro já completo numa estante metafísica qualquer, mas, da perspectiva de quem lê, cada página ainda é descoberta em tempo real. E é nesse intervalo entre a teoria e a experiência, entre equações e despertadores, que a pergunta sobre o livre-arbítrio continua viva — e, por enquanto, sem um ponto final.
Continua...