sábado, 25 de abril de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 99ª PARTE — DE VOLTA AOS BURACOS NEGROS

SE A VIDA É UM BURACO, SÃO PAULO É CHEIO DE VIDA.

Os buracos negros foram previstos no início do século passado e permaneceram no campo das teorias até 2019, quando foram publicadas as imagens que Event Horizon Telescope capturou, dois anos antes, do M87*. 

Indícios de um buraco negro localizado na constelação Cygnus foram observados em 1964, mas não havia uma única imagem direta até a publicação das fotos do M87*, que são consideradas a prova cabal da existência desses corpos celetstes. 

A existência dos buracos de minhoca ainda não foi comprovada experimentalmente. Acredita-se que eles fiquem nas imediações ou nas profundezas de alguns buracos negros e funcionem como atalhos (ou portais) cósmicos, encurtando a distância entre dois pontos do espaço-tempo — não necessariamente no mesmo universo nem na mesma linha temporal. 


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Assim como Lula não pode dizer que foi “inocentado” das acusações que o levaram à cadeia no âmbito da Lava-Jato — porque seus processos foram anulado a pretexto de uma questão de competência territorial o ministro Fachin já havia rejeitado pelos menos dez vezes —, Flávio Bolsonaro também não foi “inocentado” das "RACHADINHAS" — até porque ele não chegou sequer foi julgado, também graças a filigranas jurídicas. 

O primogênito do refugo da escória da humanidade considera legítimo que policiais mafiosos se juntem para cobrar de moradores de favelas pelo serviço de segurança pelos quais eles já recebem salário do Estado.. Como no caso das “rachadinhas”, o ex-deputado dos panetone e das mansões de 6 milhões, hoje senador e pré-candidato ao Planalto, negou qualquer relação com milicianos, dizendo-se vítima de “falsas narrativas”. 

Nem o molusco canceroso, nem o filho do golpista. O Brasil clama por um presidente sério, experiente e de reputação ilibada, não por um macróbio ex-condenado por corrupção nem de um "rachadista" desprovido de vergonha na cara e sem experiência administrativa que lhe permita sequer presidir uma assembleia de condomínio da periferia.


Uma hipotética espaçonave que atravessasse um buraco de minhoca levaria alguns segundos para para fazer uma viagem que, em linha reta pelo cosmos, demoraria séculos ou milênios, mesmo com a velocidade da luz (1.079.252.848,8 km/h). No entanto, considerando que o buraco negro mais próximo descoberto até agora — Gaia BH1 — fica a mais de 15 trilhões de quilômetros, chegar até lá viajando com a velocidade da luz levaria cerca de 1.600 anos. Uma vez que a sonda espacial mais veloz lançada até agora — Parker Solar Probe — alcançou 692 mil km/h, essa viagem demoraria 2,5 milhões de anos.  


Numa definição simplista, mas adequada aos propósitos desta abordagem, a “gravidade” é uma distorção no espaço-tempo causada por qualquer objeto massivo. Quanto mais massivo for o objeto, maior será sua gravidade. Foguetes e sondas espaciais conseguem vencer o campo gravitacional terrestre e ganhar o espaço sideral, mas a atração exercida pelo horizonte de eventos dos buracos negros é tamanha que nem mesmo a luz consegue escapar. E quanto maior a massa do buraco negro, mais curvado fica o espaço-tempo e, consequentemente, mais o tempo se dilata.

 

Nas imediações dos buracos negros, os relógios registram a passagem do tempo mais devagar do que a milhares ou milhões de quilômetros de distância. É o que acontece no filme Interestelar: enquanto os astronautas passam um ano próximos a um desses objetos supermassivos, oitenta anos transcorrem na Terra. Em tese, seria possível viajar para o futuro aproximando-se de um buraco negro — e mantendo uma distância segura de seu horizonte de eventos —, permanecer por lá durante algum tempo e retornar à Terra em algum momento do futuro. Mas voltar ao passado é bem mais complicado. 

 

Os físicos acreditam que os buracos negros distorcem o tempo a ponto de criar uma curva fechada do tipo tempo que levaria ao momento em que o buraco negro foi criado. Ou seja, os astronautas entrariam nessa “máquina do tempo” no presente e sairiam no passado. No entanto, se o buraco negro tivesse surgido depois do Jurássico, de nada adiantaria entrar por ele para saborear um suculento filé de brontossauro na boa companhia de Fred Flintstone.

 

Entrar em um buraco negro para encontrar o loop temporal implica cruzar o horizonte de eventos e sair dele para chegar ao passado. Para que isso seja possível, é necessário viajar mais rápido que a luz — e até onde se sabe, nada pode superar a velocidade com que a luz se propaga no vácuo. Mas não é só: a aproximação do horizonte de eventos causaria um efeito chamado “espaguetificação”, que espirala os átomos do corpo do viajante rumo ao vazio.

 

A despeito de haver diversas teorias conspiratórias envolvendo supostos viajantes do tempo, ninguém, até onde se sabe, se deslocou para o passado ou para o futuro e voltou para contar a história. Mesmo assim, saber se tal façanha é ou não possível continua a fascinar os cientistas. Também não faltam supostas descobertas de como “quadrar os números” para livrar as viagens ao passado dos paradoxos. 

 

A dinâmica clássica diz que conhecer o estado de um sistema em um determinado momento pode nos contar toda a história do sistema. Além disso, teoria da relatividade admite a existência de loops de tempo nos quais um evento pode estar tanto no passado quanto no futuro. Em outras palavras, o espaço-tempo pode se adaptar para evitar paradoxos. 


Imagine um viajante do tempo que retorna ao passado para impedir que uma virose se espalhe. Se sua missão for bem-sucedida, não haveria nenhuma virose que exigisse sua volta ao passado para eliminar. Talvez o vírus escapasse de outra maneira, por uma rota diferente ou por um método diferente, mas isso removeria o paradoxo. Por outro lado, independentemente do que o viajante do tempo fizesse, a disseminação da doença não seria interrompida. 

 

Esse exemplo aborda processos determinísticos (não-aleatórios) em um número arbitrário de regiões nocontinuumespaço-tempo e demonstra como as curvas fechadas do tipo tempo podem se encaixar nas regras do livre-arbítrio e da física clássica. Outra abordagem não só admite a possibilidade das viagens no tempo, como sustenta que as ações dos viajantes não criam paradoxos (cada resultado ocorre numa linha de tempo diferente, evitando que o “presente” dos viajantes seja alterado). E a matemática confirma essa possibilidade — ou seja, os resultados não são mera ficção científica.

 

Estudos da mecânica quântica sugerem que multiversos paralelos ao nosso podem existir no mesmo espaço-tempo, e que, à medida que se realiza um experimento quântico com diferentes resultados possíveis, cada resultado ocorre em um universo paralelo. Outra teoria sobre multiversos sustenta que nosso Universo é uma bolha, e que existem inúmeros universos-bolha semelhantes, imersos em um mar energizado e em eterna expansão. Entretanto, nenhuma dessas teorias conseguiu prever com precisão em que tipo de universo estamos inseridos.

 

Dobrar o espaço-tempo para voltar ao passado continua sendo o fruto mais cobiçado, e ainda inalcançado, da “árvore da relatividade”. As máquinas do tempo que os cientistas são meramente conceituais, ou seja, existem apenas como cálculos em uma página. Mas não há nada como o tempo para passar, e talvez um dia cheguemos lá. 

 

As viagens no tempo são tratadas com ceticismo por boa parte da comunidade científica, mas a história está repleta de exemplos de pioneiros que foram ridicularizados por suas ideias até que o tempo provasse que eles estavam certos. Foi assim com Nicolau Copérnico, que desafiou o geocentrismo, com Joseph Lister, que revolucionou a medicina com a desinfecção, e com Alfred Wegener, que propôs a teoria da deriva continental, entre tantos outros. 

 

Além disso, Einstein teria dito que "o impossível só é impossível até que alguém duvide e prove o contrário". 


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sexta-feira, 24 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — PSICOTRÔNICA, CONTROLE DA MENTE E EQMs

NA POLÍTICA, BURRICE NÃO É OBSTÁCULO. 

As primeiras pesquisas sobre telepatia, percepção extrassensorial, controle do pensamento e estados alterados de consciência foram reunidas sob o título de “psicotrônica” e se tornaram as precursoras da ciência noética moderna. 


Durante a Guerra Fria, a URSS investiu mais de um bilhão de dólares no estudo do controle da mente e psicovigilância. Ao saber disso, o governo dos EUA iniciou uma série de programas ultrassecretos de pesquisa neuromilitar, mas o fiasco do Stargate rendeu sérias críticas à CIA, que foi acusada de gastar rios de dinheiro em pseudociência para treinar espiões-fantasmas.


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Durante o namoro e o noivado, é meu bem pra lá e meu bem pra cá. Com o divórcio, a história muda: meus bens pra cá e meus bens pra lá.

Mutatis mutandis, o mesmo raciocínio vale para a política: as campanhas são pavimentadas com promessas que os candidatos sabem que jamais cumprirão. Como observou Bismarck, nunca se mente tanto quanto antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada.

O ceticismo é saudável, mas convém lembrar que há custos eleitorais e institucionais reais para quem quebra promessas sistematicamente. A desonestidade política não é lei da natureza; é, muitas vezes, escolha.

Romeu Zema foi além dos seus interesses eleitoreiros ao divulgar um vídeo satírico contra ministros do STF. O problema não é a crítica à corte — essa é legítima, necessária e constitucionalmente protegida. O problema é que o ataque ultrapassou a instituição e atingiu Gilmar Mendes e Dias Toffoli como pessoas.

Essa distinção importa: figuras públicas no exercício do poder têm o limiar de proteção à honra deliberadamente elevado, justamente para não sufocar o debate democrático. Mas esse limiar existe — e, segundo a avaliação jurídica do episódio, pode ter sido cruzado. No esforço de crescer na corrida presidencial com retórica anti-Supremo, Zema pode ter levado sua fala às fronteiras da criminalidade, não por criticar a corte, mas por ofender pessoalmente dois de seus membros.

A crítica mais substancial, porém, recai sobre o inquérito das fake news, que foi "desvirtuado" ao longo dos anos e passou a abrigar casos sem relação direta com seu objetivo original. Os números falam por si: sete anos de duração, escopo progressivamente ampliado e relatoria nas mãos de Xandão — um ministro diretamente mencionado em parte dos episódios investigados.

Um inquérito conduzido pelo próprio tribunal para proteger seus membros cria um conflito de interesses estrutural que é difícil de defender, independentemente da posição política de quem o aponta. O STF existe para conduzir inquéritos, mas também para encerrá-los. Manter indefinidamente um instrumento jurídico multiuso, acionado de forma seletiva para apaziguar aflições internas da corte, não é exercício de jurisdição — é exercício de poder sem freios adequados.

A independência do STF é um valor constitucional inegociável. Mas ela não imuniza a instituição de críticas sobre seus próprios procedimentos. Confundir a defesa legítima da corte com a blindagem de comportamentos questionáveis de seus membros — ou, no sentido oposto, confundir a crítica aos ministros com ataque ao Estado de Direito — é o equívoco que alimenta tanto o populismo anti-institucional quanto o corporativismo judicial.

O debate brasileiro ganharia em qualidade se aprendesse a separar essas camadas.


Afirmar que as experiências de quase morte resultam do aumento da atividade cerebral nos últimos instantes de vida é fácil. O difícil é explicar como alguém que esteve clinicamente morto consegue lembrar como é estar morto. 


No livro Apagar a Morte, o médico e professor Sam Parnia escreve que um paciente que havia sofrido uma parada cardíaca descreveu com exatidão o trabalho dos médicos e enfermeiros e disse que foi submetido duas vezes ao choque dos desfibriladores — exatamente o número de tentativas feitas para ressuscitá-lo, embora ele não tivesse como saber disso porque seu cérebro estava inativo.


Em "The Spiritual Doorway in the Brain", o neurologista Kevin Nelson anota que os limites entre os estágios da consciência são tênues, e as fronteiras entre vigília, sono REM e sono não-REM, tão difusas que em momentos de crise o sono invade a vigília e causa os efeitos descritos nas EQMs, como se o cérebro acionasse um interruptor. Em Ciência da Vida Após a Morte, os autores abordam evidências científicas sobre a consciência após a morte, incluindo a mediunidade, as EQMs e a reencarnação. Vale assistir também a esta entrevista com o autor de Death is but a dream.


Desmaios podem desencadear EQMs, já que a sensação de perigo altera a pressão sanguínea nos olhos, deixa a visão borrada nas bordas e cria a impressão de que há um túnel com luzes. Já a sensação de "sair do corpo" pode ser explicada pelo "desligamento" da região cerebral responsável pela percepção espacial — quando a pessoa entra em REM, o cérebro ativa o mesmo mecanismo que produz os sonhos, o que explica as alucinações.


Continua... 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 98ª PARTE — AINDA SOBRE PARADOXOS

TIME IS THE FIRE IN WHICH WE BURN 

A possibilidade de revisitar o passado continua a fascinar cientistas e leigos, tanto pelo apelo quase mítico da ideia, quanto pelos dilemas lógicos que ela impõe.


Os maiores óbices são os paradoxos — como o célebre paradoxo do avô, no qual uma ação no passado elimina as condições que tornaram possível a própria viagem no tempo. Ainda assim, o estudante de física Germain Tobar, da Universidade de Queensland, na Austrália, propôs uma maneira de “quadrar os números” e tornar a viagem ao passado logicamente viável sem recorrer a universos paralelos ou a remendos conceituais ad hoc.


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A economia brasileira cresceu acima dos 3% por três anos seguidos, até 2024. Em 2025, o crescimento foi menor — 2,3% — mas houve ganhos reais da renda do trabalho ao longo de todo o período, e a taxa de desemprego permaneceu em níveis historicamente baixos. Mesmo assim, a popularidade de Lula permanece no vermelho: segundo o Datafolha, dois em cada três brasileiros (67%) têm algum tipo de dívida financeira, como empréstimos, e a inadimplência atinge 21% da população. Esse cenário foi confirmado pela Quaest: 29% dos eleitores disseram ter muitas dívidas e 43% poucas dívidas. Juntos, os endividados somaram 72%. O endividamento corrói a sensação de bem-estar do eleitor e se reflete no cotidiano das famílias, mas o acúmulo de dívidas, impulsionado pela pandemia, compôs a herança da gestão Bolsonaro: seis meses depois do seu retorno ao Planalto, Lula lançou o programa Desenrola, que visa refinanciar dívidas de até R$ 5 mil. No entanto, aqueles que contornaram o problema contraíram novas dívidas. Tampouco a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil resultou em dividendos eleitorais para o macróbio, lançando dúvidas sobre o efeito político da escala 5X2 de trabalho, em discussão na Câmara. A mesma dúvida recai sobre o novo programa de renegociação de dívidas projetado pelo governo ou a previsão de saques extraordinários no FGTS. Candidato ao quarto mandato, o xamã do partido dos trabalhadores que não trabalham combina as medidas de socorro às famílias com disparos contra o próprio pé. A compulsão consumista foi confirmada pelo Datafolha: 68% dos eleitores ouvidos pelo instituto concordaram com a afirmação de que as ofertas de crédito pelo celular ou pela internet facilitam muito o endividamento por impulso. Mas culpar a população pelo problema é um desabafo que não resolve as aflições do candidato. Atônito, o molusco amarga nas projeções de segundo turno um empate técnico com o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, que sequer tem plano de governo. Considerando-se que a guerra no Oriente Médio eleva os preços dos alimentos, desafiando o controle da inflação da cesta básica, o melhor para o candidato à reeleição seria levar a língua no cabresto. Ou enfiá-la no… ouvido.


Segundo Tobar, conhecer o estado completo de um sistema em um determinado instante basta para determinar toda a sua história, passada e futura. Essa abordagem parte da ideia de que as leis da física, quando formuladas de maneira consistente, não permitem estados contraditórios do Universo — mesmo na presença de viagens temporais.


A relatividade geral de Einstein, por sua vez, prevê a existência das chamadas curvas fechadas do tipo tempo — trajetórias no espaço-tempo que permitem a um evento estar tanto no passado quanto no futuro de si mesmo. Em tese, essas estruturas viabilizam uma viagem de volta ao passado, mas a questão é que elas parecem abrir caminho para paradoxos insolúveis. 


Imagine, por exemplo, um viajante retornando ao passado para impedir que uma doença se espalhe. Se a missão fosse bem-sucedida, ele não teria motivos para viajar ao passado, já que a doença não existiria — um impasse lógico clássico. O trabalho de Tobar sugere uma solução elegante: a doença inevitavelmente escaparia por outra rota, vetor ou circunstância ainda não considerada, eliminando o paradoxo. 


Em outras palavras, por mais que o viajante tentasse alterar o passado, os eventos se organizariam de modo a preservar a consistência global do espaço-tempo. A doença não seria evitada; apenas mudaria a forma pela qual se manifesta, e o passado permaneceria “flexível” nos detalhes, porém rígido no resultado.


Embora não seja palatável para os não-matemáticos, esse modelo demonstra como processos determinísticos — sem qualquer elemento de aleatoriedade — podem influenciar um número arbitrário de regiões no continuum espaço-tempo. Assim, as curvas fechadas do tipo tempo conseguem coexistir tanto com a física clássica quanto com uma noção operacional de livre-arbítrio: o viajante faz escolhas, mas essas escolhas nunca levam a contradições.


“A matemática confirma, e os resultados parecem coisa de ficção científica”, afirma o físico Fábio Costa, que supervisionou a pesquisa. Segundo ele, as ações dos viajantes do tempo não resultariam em paradoxos, ainda que, por enquanto, dobrar o espaço-tempo só seja possível nas equações — construções abstratas que existem apenas como cálculos em uma página.


Ainda segundo Costa, por mais que se tente criar um paradoxo, os eventos sempre vão se ajustar, evitando qualquer inconsistência. A gama de processos matemáticos que descobrimos mostra que a viagem no tempo com livre-arbítrio é logicamente possível em nosso Universo, sem nenhum paradoxo.”


A proposta não garante que viajar ao passado seja tecnologicamente viável, mas sugere algo igualmente provocador: talvez o maior obstáculo às viagens no tempo não seja a física, e sim a nossa intuição — treinada para enxergar o tempo como uma estrada de mão única, quando ele pode ser, ao menos matematicamente, um labirinto que se rearranja para nunca se contradizer.


Continua…

quarta-feira, 22 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — NOÉTICA

O UNIVERSO NÃO PARECE SER NEM BENEVOLENTE NEM HOSTIL, APENAS INDIFERENTE. 

Se pensarmos no cérebro como um aparelho de rádio com um dial físico giratório, esbarrar acidentalmente nesse botão pode dessintonizar nossa emissora preferida e nos fazer ouvir chiados, interferências ou a voz de um locutor de outra estação misturada à música — como ocorria nas antigas linhas cruzadas das ligações telefônicas analógicas.


Da mesma forma que transforma um ginasta em atleta, o treinamento pode configurar o cérebro para receber informações da consciência universal de maneira mais clara e consistente, dando acesso a habilidades e entendimentos notáveis e, ao mesmo tempo, dificultando tarefas rotineiras.


Assim, como um rádio que capta diversas estações em AM ou FM, nosso cérebro talvez acesse porções da matriz informacional inacessíveis a outros animais — não porque somos superiores, mas porque nossa “antena” está sintonizada em frequências diferentes.


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Edson Fachin afirmou na última sexta-feira que o Brasil vive uma crise relacionada à atuação do Judiciário e que ela precisa ser enfrentada com reflexão, autocrítica e autocontenção. Cármen Lúcia, redatora de um Código de Ética que tarda a aparecer, disse que a crise de confiança no Judiciário, especialmente no Supremo, é grave e precisa ser reconhecida. O pano de fundo da conturbação que assedia o Supremo está marcado pelos vínculos de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro. Os laços individuais doem na instituição.

No Congresso, o subsolo voltou a estremecer com a prisão do advogado Daniel Monteiro. Segundo a PF, o doutor ajudou a estruturar a rede de fundos usada pelo dono do falecido Banco Master para comprar políticos e autoridades.

Em Barcelona, onde participa do encontro de um fórum de chefes de Estado progressistas, Lula, acusando o golpe do empate técnico com Flávio Bolsonaro no Datafolha e na Quaest, pensou alto sobre a onda de direita no mundo. Sem respostas, empilhou indagações: "Quero saber onde nós falhamos como democratas. Onde as instituições democráticas deixaram de funcionar? [?] Onde é que o nosso discurso está errado? Onde é que as nossas políticas públicas não estão atendendo às expectativas de uma juventude que quer um novo mundo do trabalho?".

Um observador otimista da conjuntura diria que crises são ruins, mas sempre passam. Um pessimista realçaria que terremotos também passam. E todos sabem que eles sacodem as roseiras e danificam as estruturas.


Um rádio não cria o sinal que recebe; ele o capta, decodifica e torna audível. Mas nosso cérebro parece ir além, pois não só recebe as informações como as processa, filtra, interpreta e — eis o enigma central — cria a experiência subjetiva única que chamamos de “eu”. E não há equação que explique por que processamento vira presença.


Se o modelo receptor estiver correto, cérebros considerados “danificados” — como no caso de alguns autistas ou de savants adquiridos — poderiam, paradoxalmente, ganhar habilidades extraordinárias, como um rádio que sofre uma queda e passa a captar transmissões antes inaudíveis.


As emissoras não deixam de transmitir quando não há ninguém para ouvi-las. Assim, se nosso cérebro for realmente um receptor sofisticado de uma consciência não-local, a morte apenas nos impediria de sintonizar aquela frequência específica — embora o sinal continuasse existindo. Mas se formos realmente parte de um organismo maior, conectados à mesma matriz de consciência, o que resta do conceito de livre-arbítrio?


Nosso sistema ético, jurídico e moral está fundamentado na premissa de escolhas autônomas. Em tese, quem mata vai para a prisão, quem age com bravura recebe medalhas, e por aí vai. Mas e se essas “escolhas” forem apenas manifestações locais de padrões informacionais fluindo através de uma consciência maior, e nossas decisões, atualizações locais de um sistema mais amplo? 


Talvez a individualidade seja uma ilusão de perspectiva — como ondas que parecem separadas, mas são apenas perturbações temporárias na superfície do oceano. Ainda assim, mesmo que exista uma consciência universal, cada cérebro funcionaria como um filtro singular, moldado por genes, experiências, traumas e condicionamentos.


Supondo que o autor do romance "profético" Futility — sobre o naufrágio do Titanic — teve acesso a informações sobre um evento ainda não ocorrido, entramos numa das questões mais perturbadoras da física: a natureza do tempo.


A mesma física que dissolveu o tempo absoluto na relatividade de Einstein e o substituiu por um bloco quadridimensional onde passado e futuro coexistem também admite, na mecânica quântica, estados de superposição em que múltiplas possibilidades permanecem abertas até que algo as selecione.


Talvez nossa percepção linear do tempo e nossa sensação de identidade contínua sejam artefatos cognitivos produzidos por um cérebro tentando sobreviver sob a pressão da entropia crescente, ou talvez estejamos confundindo mapa com território desde o início.


Voltando ao experimento mental proposto por Erwin Schrödinger, a questão não é apenas se o gato colapsa sua própria função de onda — mas quem, ou o quê, colapsa a nossa.


A experiência humana atual é limitada quando comparada ao que poderia ser. Às vezes, basta uma mudança de perspectiva para revelar algo que sempre esteve ali. O fato de não conseguirmos imaginar como algo pode ser verdade não significa que não possamos estar observando seus efeitos.


A Noética ainda engatinha na tentativa de compreender a consciência não-local, e seus defensores são frequentemente acusados de flertar com a pseudociência — sobretudo porque o cérebro opera em temperaturas e condições que parecem incompatíveis com coerência quântica sustentada.


Nosso cérebro representa cerca de 2% do peso corporal, abriga aproximadamente 86 bilhões de neurônios e é capaz de realizar trilhões de sinapses, mas ainda assim sua capacidade de armazenamento é tão limitada quanto a de um celular, que é incapaz de conter todas as músicas do mundo.


Diante dessa impossibilidade física, talvez o cérebro funcione menos como um cofre e mais como uma antena extraordinariamente sofisticada, que seleciona quais sinais específicos acessar em uma nuvem informacional já existente.


Quando milhares de estorninhos voam em perfeita coreografia, pode parecer que todos consultam o mesmo banco de dados simultaneamente, mas talvez estejamos apenas subestimando o poder de sistemas simples operando sob regras locais. Por outro lado, o tempo descrito pela mecânica quântica não se encaixa confortavelmente no tempo geométrico descrito na relatividade geral.


A experiência humana é bastante limitada se comparada com o que poderia ser. Às vezes basta uma mudança de perspectiva para revelar a verdade, e o simples fato de não conseguirmos imaginar como uma coisa pode ser verdade não significa que não observamos essa coisa sendo verdade. 


Enquanto a física tenta reconciliar essas descrições incompatíveis, continuamos chamando ondas de indivíduos, decisões de escolhas, e sejamos apenas perturbações temporárias em algo muito maior.


Continua...