O longa O Agente Secreto não ganhou o Oscar, mas virou munição num campo de batalha que já estava armado há tempos.
Essa reação diz mais sobre o Brasil atual do que sobre o filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura transporta o público para o Recife de 1977, em plena ditadura militar, com uma narrativa que mistura suspense, política e melancolia.
Em um ambiente hiperpolarizado, qualquer produto cultural com a mínima leitura política vira símbolo, bandeira ou ameaça, e o conteúdo importa menos do que aquilo que cada lado acha que ele representa.
O longa foi indicado em quatro categorias, mas ficou aquém das expectativas e ganhou apenas experiência — ou, como diriam os mais maledicentes, “o que Luzia ganhou atrás da horta”. Ainda assim, foi uma das produções brasileiras com maior número de indicações, ao lado de O Beijo da Mulher-Aranha (1985) e Cidade de Deus. (2004).
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
A decisão do ministro Gilmar Mendes — a verdadeira herança maldita de FHC — de anular a quebra de sigilo do fundo que comprou cotas do resort Tayayá chega nas pegadas da pesquisa feita pela Quaest, segundo a qual 49% dos eleitores não confiam nos togados, 72%, acham que o tribunal tem poder demais e 66% dizem que pretendem eleger candidatos ao Senado favoráveis ao impeachment de ministros.
A tentativa do decano de proteger Dias Toffoli, insulta à inteligência dos brasileiros. A suposta rigidez moral do Maquiavel de Marília é um escárnio a uma cena que já era em si mesma vergonhosa. Mas não é só.
Com seus despachos, Gilmar converteu-se no principal cabo eleitoral de candidatos ao Senado que se apresentam aos eleitores como alavancas para impulsionar a aprovação de pedidos de deposição de ministros do Supremo na legislatura que será inaugurada em fevereiro de 2027.
Toffoli admitiu ser sócio de dois de seus irmãos numa empresa que vendeu cotas do resort Tayayá para o Reag — um fundo gerido por Fabiano Zettel,, cunhado de Daniel Vorcaro, que enfiou R$ 35 milhões no resort para adquirir a cota de Toffoli e foi preso pela PF quando tentava embarcar para o exterior.
Vorcaro foi transferido da Papudinha para a Superintendência da PF no DF depois que assinou um termo de confidencialidade — marco inicial para negociação de uma delação premiada onde não haverá espaço para "salvar" uns em detrimento de outros. Todos os órgãos envolvidos no processo — PF, PGR e STF — indicam que não haverá espaço para uma colaboração parcial, frustrando a intenção inicial do ex-banqueiro, que era delatar políticos e poupar ministros do STF.
No total, 16 produções brasileiras já foram indicadas ao Oscar. Orfeu Negro (1959), baseado na peça Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes, venceu como Melhor Filme Internacional — mas a estatueta ficou com a França. O Pagador de Promessas (1962) foi o primeiro filme 100% brasileiro a concorrer nessa categoria, mas voltou sem prêmio. E mesmo destino teve Raoni (1978) indicado à estatueta de Melhor Documentário.
O Beijo da Mulher-Aranha (1985) concorreu em quatro categorias, mas só ganhou a estatueta de melhor ator. O Quatrilho (1995), O que é isso, companheiro? (1997), Central do Brasil (1998), Uma história de futebol (1998) e Cidade de Deus (2002) só ganharam experiência. Diários de Motocicleta (2004) venceu na categoria de Melhor Canção Original no Oscar de 2005. Lixo Extraordinário (2010), O Sal da Terra (2014), O Menino e o Mundo (2014) e Democracia em Vertigem (2019) foram indicados, mas não foram premiados. Em contrapartida, Ainda Estou Aqui (2025) gerou uma mobilização imensa, especialmente pela atuação de Fernanda Torres, e conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional.
Observação: O Academy Award of Merit passou a ser chamado de Oscar em 1939, depois que Margaret Herrick, bibliotecária da Academia, comentou que a estatueta "era a cara de seu tio Oscar". O Brasil possui um Oscar honorário (entregue a Carmen Miranda, que era portuguesa de nascimento) e participações técnicas vitoriosas em co-produções.
Em suma, o cinema brasileiro no Oscar é uma história de persistência. A despeito de algumas vitórias pontuais, acumulamos indicações e amargamos frustrações. O Beijo da Mulher-Aranha abriu o caminho vencendo em Melhor Ator. Depois, vivemos décadas de 'quase': A exceção solitária era Diários de Motocicleta, — com o prêmio de Melhor Canção Original em 2005 —, mas tudo mudou com Ainda Estou Aqui, que finalmente deu ao Brasil a inédita estatueta de Melhor Filme Internacional, consagrando nossa história nas telas do mundo.
Eu assisti à maioria desses filmes, e acho que eles realmente não mereciam ganhar. Isso não tem nada a ver com patriotismo (ou com a falta dele), mas como reconhecer nossas limitações. Aliás, convém não confundir patriotismo com chauvinismo.. A seleção brasileiro mereceu perder de 7 a 1 para a Alemanha na Copa de 2014. Dar o braço a torcer não é falta de patriotismo, é enxergar as coisas como realmente são.
Observação: José Saramago ensinou que o pior tipo de cegueira é a mental; Albert Einstein, que o Universo e a estupidez humana são infinitos; e Nelson Rodrigues, que os idiotas vão dominar o mundo — não pela capacidade, mas pela quantidade.
Lançado em 1972, baseado no best-seller de Mario Puzo e dirigido por Francis Ford Coppola — que escreveu o roteiro a quatro mãos com Puzo — o filme The Godfather (exibido no Brasil como O Poderoso Chefão) venceu nas categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, além de levar a estatueta de Melhor Ator pela atuação lendária de Marlon Brando.
Enquanto o filho mais velho do capo mafioso Vito Corleone (Sonny, vivido por James Caan) esbanja impulsividade, contrastando com Tom Hagen (interpretado por Robert Duvall), o ponderado consiglieri, o caçula, Michael (encarnado por Al Pacino) tenta se manter à margem dos negócios da Famiglia, mas logo percebe que o destino não é uma escolha.
Virgil Sollozzo (Al Lettieri) propõe uma parceria no lucrativo mercado de narcóticos a Don Corleone, que recusa a oferta, alegando que o tráfico de drogas comprometeria suas alianças de longa data. Isso dá início a uma guerra que empurra Michael para um caminho sem retorno: ao saber que o pai foi baleado e se encontra entre a vida e a morte, ele mata Sollozzo e o capitão de polícia corrupto interpretado por Sterling Hayden e se exila na Sicília, selando sua transição definitiva para o submundo.
A despeito do orçamento modesto para os padrões hollywoodianos (cerca de US$ 7 milhões), o filme se tornou um fenômeno global de público e de crítica, arrecadando impressionantes US$ 250 milhões nas bilheterias mundiais. A atmosfera sombria e inconfundível é mérito da cinematografia impecável de Gordon Willis, sempre embalada pela icônica trilha sonora do compositor Nino Rota.
Vale a pena conferir a trilogia (disponível na Netflix), sem embargo de ela ficar muito aquém do livro que lhe deu origem.

