QUANDO A LÓGICA PROTESTA, MAS O CÉREBRO INSISTE.Se você entra em um lugar pela primeira vez, conversa com alguém sobre um assunto inédito, presencia uma situação totalmente nova, e ainda assim surge uma sensação desconcertante de "eu já vivi isso antes", seja bem-vindo ao curioso universo do déjà vu — expressão francesa que significa literalmente “já visto”, mas pode ser traduzida como “já vivi isso” — ou, em bom português, “tenho certeza de que já passei por essa cena”.
O enredo de Micheque contém dois ingredientes que estão presentes em onze de cada dez novelas de grande audiência: humilhação e vingança. Nesse script, o papel reservado para o enteado é o de machista. "Ele disse que eu não entendia nada de política", contou a madrasta má.
Uma das síndromes mais características da família Bolsonaro é o impulso de, mal terminada uma crise, providenciar a próxima. Michelle Bolsonaro agravou essa patologia. Quando o noticiário ainda estava repleto de Dark Horse, acusou Flávio Bolsonaro de desrespeitá-la, maltratá-la e humilhá-la. Elevou a fervura quando Valdemar Costa Neto chegou com a água fria.
Michelle abdicou da presidência do núcleo feminino do PL. Avisou que não cogita dar as caras na primeira reunião de Flávio com as mulheres do partido e ameaçou jogar para o alto uma poltrona no Senado que o partido considerava favas contadas nas eleições de Brasília. Ou seja: a madrasta atravessou na campanha do enteado não uma encrenca nova, mas um turbilhão de crises.
As motivações da bruxa-má suscitam muitas dúvidas, mas formou-se uma sólida certeza quanto às consequências dos seus gestos: a menos de cem dias da eleição, ela aprisionou o enteado dentro de uma agenda negativa.
Flávio Bolsonaro capricha na adulação às mulheres e diz que procura uma para ser sua vice. Mas não dá um pio contra os ataques misóginos que os aliados fazem a Michelle. Quer que acreditem que se dispõe a matar ou morrer por ideias e valores que não tem.
Os otimistas dizem que foi reativada a percepção de que a família Bolsonaro é um saco de gatos. Os pessimistas sustentam que o saco contém bichos mais repulsivos.
Num país em que mais de 52% dos votos são femininos, o filho de Bolsonaro vai se consolidando como um candidato bem cotado para tornar o molusco macróbio e indigesto presidente pela quarta vez.
A explicação mais aceita é que o cérebro ativa o mecanismo de familiaridade sem conseguir localizar uma lembrança real correspondente. Em outras palavras, o “alarme” de reconhecimento dispara antes que o sistema de memória contextualizada confirme de onde aquilo veio. É como encontrar um rosto conhecido na rua, acenar com entusiasmo e só depois perceber que nunca viu aquela pessoa na vida.
Estruturas como o hipocampo e o lobo temporal são fundamentais para distinguir o que é novo daquilo que já foi vivido. Quando ocorre um pequeno descompasso entre esses sistemas, o cérebro interpreta o presente como repetição do passado. Alguns pesquisadores sugerem que o déjà vu funciona como uma espécie de “verificação de fatos” interna: ao detectar essa familiaridade suspeita, o cérebro sinaliza que algo no processamento não bate.
Outra hipótese é que o fenômeno esteja relacionado à fluência cognitiva. Quando processamos uma informação de forma rápida e automática, ela pode parecer familiar mesmo sem motivo concreto. É o cérebro dizendo: “Já vi isso.” E a memória respondendo: “Tem certeza?”
Entre outras condições que podem aumentar a probabilidade de episódios estão o estresse, a ansiedade, a privação de sono, o cansaço mental e o abuso do álcool, de drogas e de alguns medicamentos. Em resumo, quando o cérebro está sobrecarregado, as chances de ele confundir novidade com familiaridade aumentam. Nada muito diferente de chamar alguém pelo nome errado depois de uma noite mal dormida.
Estima-se que a maioria das pessoas já tenha experimentado essa sensação ao menos uma vez, e que episódios ocasionais sejam comuns e, em geral, totalmente benignos. Mas, se o déjà vu ocorre com muita frequência, dura mais do que alguns segundos ou vem acompanhado de sintomas como: Medo, alterações da consciência, lapsos de memória e comportamentos automáticos, a avaliação médica costuma ser recomendável. Mesmo porque, em alguns casos, o fenômeno está associado à epilepsia do lobo temporal, em que o déjà vu pode funcionar como uma aura neurológica — um aviso de que uma crise epiléptica está prestes a ocorrer.
Apesar de relativamente comum, o déjà vu ainda não é totalmente compreendido — e talvez esse seja justamente o seu encanto. Por alguns segundos, o cérebro nos oferece a estranha sensação de que o presente já aconteceu. É como se o tempo tivesse escorregado, se a realidade piscasse, se o roteiro tivesse sido repetido... e então tudo voltasse ao normal. Ou quase.
Porque, convenhamos, poucas coisas são tão intrigantes quanto sentir que você já leu este parágrafo antes.






