NENHUM TELESCÓPIO ALCANÇA A DISTÂNCIA DE UM PENSAMENTO DETERMINADO.
Uma questão que intriga os cientistas é se um buraco negro é ou não capaz de engolir uma galáxia inteira. Embora não haja consenso, a opinião dominante é de que essa possibilidade é desprezível, e a razão é basicamente uma questão de escala e de mecânica orbital.
Mesmo os buracos negros mais colossais, com massas bilhões de vezes superiores à massa solar, são minúsculos comparados às galáxias que os hospedam (algo como 0,1% a 0,5% da massa do bojo de sua galáxia). Isso já dá uma pista de como a hierarquia de escalas é desproporcional, porém o fator decisivo é orbital.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Noutros tempos, o 7 de Setembro era o sagrado Dia da Independência. Sob Bolsonaro, a data tornou-se alerta de golpe. Hoje, virou comício. Mas não deve mexer significativamente nos ponteiros das pesquisas.
Lula acionou clarins gastos, que ele toca desde o ano passado. Na noite de domingo, num discurso transmitido em rede nacional, disse que "defender a independência é defender a soberania" e que o Brasil "não será colônia de ninguém".
Espelhando-se no pai, Flávio Bolsonaro apimentou o ato convocado para a Avenida Paulista e adicionou ao "fora Lula" o "fora Moraes". Atira pedras no magistrado sob um telhado de vidro. Pediu R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro — valor da mesma magnitude dos R$ 131 milhões do contrato firmado entre o Master e o escritório de Viviane Barci, a mulher de Moraes.
Nos gráficos das pesquisas eleitorais, as linhas que representam candidatos rivais são como mandíbulas de jacaré. Quando a diferença aumenta, a boca se abre. Quando diminui, ela se fecha. Nas sondagens mais recentes, o molusco macróbio e o primogênito do refugo da escória da humanidade aparecem estatisticamente empatados no segundo turno. Mas a visão de ambos sobre a força eleitoral do 7 de Setembro pode ser apenas ilusão de ótica; o jacaré não deve bocejar. Talvez nem soluce.
A campanha de Lula é assombrada pelo espírito do Curupira — figura lendária do folclore brasileiro, o Curupira é um moleque que vive na floresta, tem os cabelos avermelhados e os pés virados para trás. Entre maio e julho, o petista abriu oito pontos de vantagem sobre o rival na simulação de segundo turno da Quaest. Desde então, só deu marcha à ré. A distância caiu para zero. No levantamento desta segunda-feira, 7 de Setembro, os dois aparecem empatados em 41%. O jacaré fechou a boca.
Lula recua com dois espinhos nos pés: endividamento e corrupção. O percentual de eleitores que dizem ter muitas dívidas (28%) voltou ao patamar de maio, mês em que foi lançado o Desenrola 2. Desde a semana passada, a menção à corrupção como maior problema do país saltou seis pontos — de 14% para 20%. O tema só perde para a violência no ranking das preocupações do eleitor.
Não bastasse o efeito Lulinha, o candidato ao quarto mandato agora receia ser atingido por estilhaços da vidraça de Alexandre de Moraes. Entrementes, fingindo que não pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, Bolsonarinho ajustou seu bordão, colando no "fora Lula" um "fora Moraes".
A síndrome do Curupira corrói também o índice de avaliação de Lula. Em julho, o saldo entre sua aprovação e a desaprovação estava positivo em um ponto percentual. Agora, está sete pontos no vermelho. A 26 dias do primeiro turno, é uma péssima notícia para quem reivindica uma re-re-re-reeleição.
A grande maioria das estrelas de uma galáxia segue órbitas estáveis e de longa duração em torno do centro galáctico, e o mesmo vale para a maior parte do gás e da poeira interestelar — exceto, claro, pela fração que está sendo ativamente perturbada, em colisão, ou caindo em direção ao centro por perda de momento angular (que é uma fração pequena, mas não nula). Por outro lado, a gravidade não é uma força de "sucção" — ela rege órbitas. Para algo cair num buraco negro, esse algo precisa perder momento angular, e isso normalmente exige um evento dissipativo (colisão, atrito com gás, perturbação gravitacional de outra estrela) que retire energia orbital. Sem isso, a matéria simplesmente continua girando, possivelmente por bilhões de anos.
Os buracos negros supermassivos surgem durante fusões entre galáxias, quando dois buracos negros centrais eventualmente coalescem, somando massas — mas isso ainda está longe de "engolir uma galáxia". Mesmo cenários dramáticos, como o destroçamento de uma estrela que se aproxima demais (os chamados tidal disruption events), afetam objetos isolados, não a galáxia como um todo.
Os buracos negros supermassivos engordam por dois caminhos, nenhum deles parecido com o de um predador faminto. O primeiro é o acréscimo paciente de gás, que espirala lentamente disco adentro — processo capaz de acender um núcleo galaticamente ativo, ou até um quasar, mas que mal arranha a quantidade de matéria disponível na galáxia. O segundo se dá nas fusões entre galáxias, quando os buracos negros centrais de cada uma, depois de uma dança gravitacional que pode levar éons, acabam coalescendo e somando suas massas. De qualquer forma, isolados ou combinados, esses processos seguem a anos-luz de distância de qualquer coisa parecida com "engolir uma galáxia inteira
Por outro lado, existe uma exceção teórica de prazo extremamente longo: em uma escala de tempo muito além da idade atual do universo (estimativas especulativas falam em 1019 - 1020 anos), e interações gravitacionais cumulativas poderiam, em princípio, ejetar a maior parte das estrelas de uma galáxia ou fazê-las espiralar para o centro — um processo de "relaxamento" dinâmico de longuíssimo prazo. Mas isso é qualitativamente diferente de um buraco negro "puxando" tudo para si de forma ativa; é mais um efeito coletivo e gradual do sistema como um todo, e permanece no campo da extrapolação teórica.
Concluído esse (não tão) breve preâmbulo, passamos ao tema central desta postagem, que tem a ver com uma nova técnica desenvolvida por cientistas da USP que identifica estrelas que engoliram planetas. Além disso, segundo os pesquisadores, sistemas solares estáveis como o nosso talvez sejam menos comuns do que se imaginava, o que impacta o surgimento de vida complexa.
O estudo analisou um sistema binário formado por duas estrelas muito semelhantes entre si — chamadas HD 129171 e HD 129209 — ambas com características físicas, químicas e de atividade magnética semelhantes às do nosso Sol. Em princípio, estrelas binárias como essas deveriam apresentar praticamente a mesma composição química, pois nasceram ao mesmo tempo e da mesma nuvem molecular (aglomerados de poeira e gás que funcionam como berçários estelares). Não obstante, os pesquisadores encontraram diferenças significativas entre elas.
Os cientistas já suspeitavam que algumas estrelas poderiam incorporar planetas ou fragmentos planetários, mas o diferencial do novo trabalho foi demonstrar pela primeira vez que diferenças na abundância de berílio em estrelas binárias podem funcionar como marcadores confiáveis desse processo.
A estrela HD 129171 apresenta enriquecimento em elementos refratários — ou seja, que normalmente condensam em estado sólido e constituem planetas rochosos. Isso sugere fortemente que ela engoliu material planetário ao longo de sua evolução.
O berílio possui uma característica importante: ele não é fabricado no “coração” das estrelas ao longo de sua evolução. Por isso, a assinatura desse elemento na luz que a estrela emite indica a presença de material rochoso – como restos de planetas – supostamente "engolido" muito tempo depois de ela ter se formado.
A maioria dos elementos químicos têm sua origem na nucleossíntese primordial — a formação dos primeiros núcleos atômicos nos minutos iniciais logo após o Big Bang — ou na nucleossíntese estelar — o processo de fusão nuclear que ocorre no interior das estrelas ao longo de suas vidas —, mas o berílio e o boro surgem principalmente por um processo chamado ‘espalação cósmica’, no qual partículas de alta energia fragmentam núcleos mais pesados, como carbono, nitrogênio e oxigênio, produzindo elementos mais leves. O lítio também é produzido principalmente por espalação, embora uma quantidade ínfima tenha surgido na nucleossíntese primordial e possa surgir também, em circunstâncias especiais, em alguns tipos de estrelas.
Para realizar o estudo, a equipe utilizou dados obtidos com o espectrógrafo UVES, instalado no Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul, no Chile. As observações mostraram que a HD 129171 possui abundância significativamente maior de elementos refratários – como ferro, magnésio, silício, cálcio e titânio – em comparação com sua companheira HD 129209. Além disso, a estrela apresenta excesso tanto de lítio quanto de berílio — padrão compatível com a ingestão equivalente a mais de 11 vezes a massa da Terra de material rochoso. Esse material pode ter vindo de um único grande planeta ou da soma de vários corpos menores, mas, no caso de estrelas semelhantes ao Sol, a mistura interna é tão eficiente que a assinatura química final não permite distinguir esses cenários.
Os cientistas também discutiram os mecanismos dinâmicos capazes de levar planetas a cair em suas estrelas hospedeiras, entre os quais as interações gravitacionais entre planetas, perturbações produzidas por estrelas companheiras e processos de migração orbital. Uma implicação importante do estudo diz respeito à possível raridade de sistemas solares estáveis, como o nosso, com planetas gigantes em órbitas externas quase circulares e planetas rochosos em órbitas internas estáveis. Além desses sistemas não surgirem com frequência, poucos análogos de Júpiter em órbitas comparáveis à do gigante gasoso do nosso sistema solar foram observados até agora.
Sistemas binários são muito comuns na Via Láctea. Estimativas atuais indicam que aproximadamente metade das estrelas da nossa galáxia possui uma companheira gravitacional, e como ambas se formam praticamente ao mesmo tempo e a partir da mesma nuvem molecular, diferenças químicas entre elas constituem um forte indício de que processos posteriores – como a ingestão de planetas – alteraram sua composição original.
Isso pode ter implicações diretas para a existência de vida complexa, que não só precisaria de bilhões de anos para surgir e evoluir, como também o planeta teria que permanecer em uma órbita suficientemente estável para sobreviver a perturbações gravitacionais importantes.
Resumo da ópera: Se as diferenças químicas observadas em estrelas binárias fossem causadas por heterogeneidades na nuvem primordial que lhes deu origem, isso exigiria revisão de modelos atualmente aceitos sobre formação estelar. Os resultados obtidos pela equipe favorecem, porém, a hipótese de ingestão planetária.




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