quarta-feira, 11 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 83ª PARTE

O FUTURO JÁ ACONTECEU?

Há quem considere os casos de Fentz, Carlssin, Titor e do hipster de 1941 (vide capítulos anteriores) como evidências de viagens no tempo, e as pirâmides de Gizé e Stonehenge como provas da visita de alienígenas cuja tecnologia permitiu atravessar galáxias a velocidades superluminais e usar os buracos de minhoca como atalhos cósmicos. Para os céticos, nada disso prova coisa alguma, mas mentes obstinadas podem ser montanhas intransponíveis.


Em Ensaio sobre a cegueira, o Nobel de Literatura José Saramago escreveu que a cegueira é uma questão privada entre as pessoas e os olhos com que elas nasceram, e que a pior cegueira é a mental.


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Na última sexta-feira, o ministro Alexandre de Moraes divulgou nota argumentando que os arquivos encontrados no celular de Daniel Vorcaro e repassados à CPMI do INSS indicavam que as mensagens de visualização única atribuídas a ele foram na verdade enviadas ao banqueiro por outro interlocutor. Ato contínuo, a Globo divulgou um texto informando que os softwares usados pela PF permiteM afirmar com certeza que o diálogo se deu entre o dono do Banco Master e o magistrado. 

Durante o fim de semana, o ministro negou que teria visitado a casa de Vorcaro na Bahia. Na manhã do dia 9, sua esposa divulgou detalhes sobre o contrato que manteve com o banco até novembro do ano passado, quando o BC decidiu por sua liquidação. O texto cita supostas reuniões e a elaboração de documentos que justificariam os R$ 3,6 milhões mensais pagos mensalmente ao escritório de advocacia da família do ministro. 

Entre os políticos, os desdobramentos do caso deram à luz a máxima segundo a qual “jantar não é crime”. O receio é que qualquer um que tenha tido contato com Vorcaro se torne radioativo, mesmo sem ter recebido dinheiro ou vantagens.

Sobre a cabeça de Lula paira a quebra de sigilo de Lulinha e a percepção da população de que o STF atua de forma política para beneficiar o petista.

Quanto a Moraes, dá-se de barato que, pelo menos de momento, não se cogita seu afastamento. O magistrado costuma reagir quando pressionado, e tem armas para tal: o inquérito das fake news, a apuração contra servidores da Receita e até a ADPF das Favelas e a recente apuração contra servidores da Receita Federal e do Coaf. Uma das estratégias será desacreditar as informações, sustentando que o vazamento foi seletivo e recortado para criar uma narrativa contra ele e o STF.

Atendendo à defesa de Vorcaro, André Mendonça determinou a abertura de uma investigação sobre quem repassou os dados à imprensa. A ofensiva tende a gerar repercussões, especialmente no Congresso, onde um grupo formado por parlamentares bolsonaristas e do Centrão já está com Moraes na alça de mira, e outro pode apoiar medidas contra vazamentos visando frear as investigações.

O fato é que reputação de Moraes subiu no telhado. Embora ele tente se desvencilhar das mensagens, a crise está posta, e se antes as críticas se concentravam em decisões controversas, agora elas ultrapassam a esfera jurídica e focam possíveis relações não republicanas do togado.

O presidente da CPMI do INSS, Carlos Viana, ficou de convocar o ministro Flávio para explicar por que suspendeu as quebras de sigilo fiscal e bancário de Lulinha. Se aprovado, o gesto será interpretado no STF como uma afronta num momento de tensão entre os Poderes. Em outra frente, as relações entre Alcolumbre e Lula estão estremecidas, devido, sobretudo, ao avanço das investigações da PF no caso Master.

O vazamento de mensagens do celular de Vorcaro e os boatos de delação fortalecem a tese de que a crise dificilmente transcorrerá sem  baixas no mundo político. Dirigentes partidários da oposição e do Centrão, já preparam uma vacina para o que vier nos próximos vazamentos, num movimento de defesa da classe política. Segundo suas insolências, jantar não é crime, amizade não significa corrupção e ter contato salvo, então, não significa absolutamente nada. Mas o temor é de uma “epsteinização” do caso: qualquer um que tenha tido contato com Vorcaro vai se tornar radioativo, mesmo que não tenha recebido dinheiro ou vantagens.

Ainda é cedo para avaliar o estrago que isso fará na campanha de quem foi citado e dos que ainda virão a sê-lo, já que as investigações devem adentrar o período eleitoral e contaminar as disputas. Uma das estratégias dos envolvidos no imbróglio será desacreditar as informações, sustentando que o vazamento foi seletivo e recortado para criar uma narrativa contra ele e atingir o Supremo.

O ministro André Mendonça determinou à Polícia Federal que abra investigação sobre quem repassou os dados à imprensa, atendendo a pedido da defesa de Vorcaro. O eleitorado, majoritariamente ignorante, talvez não compreenda a teia de fraudes e títulos podres do banco Master, mas sabe que a etiqueta que resume o caso é a de corrupção.


Talvez seja por isso que as religiões perduraram milênios — a despeito do manancial de indícios que contradizem seus preceitos, crenças e dogmas — e milhões de pessoas ainda acreditam que Deus criou o mundo em 4004 a.C. e que todos os seres humanos descendem de Adão e Eva — embora haja evidências científicas acachapantes da idade do Universo e da evolução natural.


A ciência evoluiu muito nos últimos séculos, mas ainda não consegue explicar a natureza do tempo nem se é ele que passa ou se somos nós que passamos por ele e o dobramos com as decisões que adiamos e os caminhos que não tomamos. Talvez seja por isso que viajar no tempo continua sendo o fruto mais cobiçado — e ainda não alcançado — da árvore da relatividade. São inúmeros os obstáculos a superar, mas não podemos esquecer que Cabral levou 44 dias para cruzar o Atlântico e “descobrir” o Brasil, e que menos de 500 anos depois o Concorde já fazia a mesma viagem pelo ar em cerca de três horas.


Quiçá viajar no tempo seja apenas uma questão de tempo. A chave pode estar nos buracos de minhoca, nas cordas cósmicas, nos loops temporais, no multiverso e na teoria dos muitos mundos, entre outras possibilidades. Isso pode parecer roteiro de filme de ficção científica, mas o impossível só é impossível até que alguém duvide e prove o contrário. Ademais, a ausência de evidência não é evidência de ausência, e desafiar os limites é o único caminho para superá-los.


Acontecimentos inexplicáveis como os mencionados nos capítulos anteriores levam água ao moinho dos teóricos da conspiração. Há quem considere os casos de Fentz, Carlssin, Titor e do Hipster de 1941 como evidências de viagens no tempo, e as pirâmides de Gizé e Stonehenge, como provas da visita de alienígenas cuja tecnologia permite viagens intergalácticas a velocidades superluminais e uso de buracos de minhoca como atalhos cósmicos. Para os céticos, nada disso prova coisa nenhuma, mas mentes obstinadas podem ser montanhas intransponíveis. 

Dizem que o futuro é um território ainda por vir. Mas e se ele já tivesse acontecido, e nós, distraídos, estivéssemos apenas tentando alcançá-lo? Quiçá o segredo não esteja em viajar pelo tempo, mas em perceber que o tempo sempre viajou por nós, dobrando memórias, adiando sonhos, reinventando passados. No fim das contas, o relógio não marca as horas: ele as fabrica. E nós, confiantes, seguimos acreditando que somos os condutores, embora seja o tempo que nos carrega pela coleira das horas..

Talvez as viagens no tempo aconteçam o tempo todo, só que sem aviso, sem passaporte e, claro, sem reembolso. Afinal, o tempo é o único viajante que nunca se perde… e ainda ri de quem tenta alcançá-lo.

Continua...

terça-feira, 10 de março de 2026

O LIVRO DO DESTINO

LEMBRE-SE DE CAVAR O POÇO MUITO ANTES DE SENTIR SEDE.

Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan nasceu em 6 de maio de 1885, numa aldeia conhecida como Muzalit, na Pérsia Arábica. Ainda muito jovem, ocupou o cargo de queimaçã (prefeito) de El-Medina, que exerceu com inteligência e habilidade. 

Após receber uma vultosa herança do pai, Malba Tahan viajou pelo mundo, passou algum tempo no Brasil e retornou à Arábia Central, onde faleceu em 1921. Mas o mais curioso dessa história é que esse personagem só existiu na imaginação do professor de matemática e escritor carioca Júlio César de Mello e Souza (1895–1974), que também encarnava Bruno Alencar Bianco, o “tradutor” das obras do fictício escriba árabe.

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O clérigo Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, morto durante um ataque aéreo de Israel, foi anunciado sucessor do pai como líder supremo do Irã. Israel, por sua vez, afirmou que perseguirá e atacará o novo líder e aqueles que o nomearam. Autoridades iranianas recomendaram aos moradores de Teerã que evitem atividades ao ar livre, já que a fumaça das explosões e dos incêndios em instalações de combustível deteriorou a qualidade do ar e liberou produtos químicos tóxicos que podem provocar chuva ácida. Os confrontos entre Irã e Israel se estenderam a outros países do Golfo Pérsico, e a Guarda Revolucionária do Irã afirma ter capacidade para manter cerca de seis meses de operações intensas.

A possibilidade de delação premiada de Daniel Vorcaro vem ganhando força, mas o assunto deve ser discutido somente depois que a PF extrair os dados de todos os celulares apreendidos. Caso a delação avance, parte da equipe jurídica do banqueiro deverá ser substituída. 

Segundo o jornalista Lauro Jardim, Alexandre de Moraes frequentou não só a mansão de Vorcaro em Brasília, mas também a casa de R$ 300 milhões que o banqueiro alugava em Trancoso (BA). Em nota, o gabinete do ministro respondeu que é “integralmente falsa a afirmação”, que o magistrado jamais realizou qualquer viagem privada com Vorcaro e que nunca esteve na propriedade citada. O colunista ainda que, menos de um mês antes de as ligações telefônicas com Vorcaro se tornarem públicas,, Moraes trocou o seu número de celular.

A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Xandão, negou ter recebido no dia da primeira prisão de Vorcaro mensagens do próprio sobre seu processo, em resposta à versão divulgada por Alexandre de Moraes. A PF recuperou sete prints enviados pelo banqueiro em 17 de novembro de 2025, escritos no bloco de notas e enviados como mensagens de visualização única, que estariam vinculados a pastas onde aparecem contatos como “Vivi Moraes”, o presidente do União Brasil Antônio Rueda e o senador Irajá Abreu. Todos negaram ter recebido as mensagens. Segundo os peritos, a organização de arquivos após extração de dados não permite concluir automaticamente o destinatário das imagens. A defesa de Viviane pediu apuração sobre possíveis vazamentos e contestou as associações.

O escândalo Master atingiu o coração da política e abalou o STF. Embora não tenha afetado diretamente a reputação dos bancos, a nota de Moraes sobre mensagens com Vorcaro “confunde mais do que esclarece e ajuda a empurrar o Supremo para o fundo do poço e a exacerbar a crise entre STF, PF e PGR, que não é só um embate entre siglas, mas entre instituições”.


O livro mais famoso de Malba Tahan é O homem que calculava — uma coletânea de problemas e curiosidades matemáticas apresentada sob a forma de narrativa das aventuras de um calculista persa, à maneira dos contos de As Mil e Uma Noites. Já a lenda que transcrevo a seguir, digna de ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta, integra a coletânea Maktub (termo que significa “estava escrito” e expressa o tradicional fatalismo dos muçulmanos).

Há muitos anos, quando voltava de Bagdá, encontrei, num caravançará (albergue) próximo a Damasco, um velho árabe do Hedjaz que muito me chamou a atenção. Ele falava agitadamente com mercadores e peregrinos, gesticulando e praguejando sem cessar; fumava uma mistura forte de tabaco e haxixe e, quando ouvia de algum companheiro uma censura qualquer, exclamava, apertando o turbante esfarrapado entre as mãos ossudas:

Mac Allah! (Por Deus!), ó muçulmanos! Eu já fui poderoso! Eu já tive o Destino nesta mão!

É um pobre diabo — diziam. — Não bate bem. Que Allah o proteja!

Eu, porém, sentia irresistível atração pelo desconhecido e procurei aproximar-me dele discretamente, conquistando sua confiança — o que consegui ao cabo de poucos dias.

Os homens da caravana tomam-me por doido — disse-me ele certa noite, enquanto cavaqueávamos a sós. Não querem acreditar que já tive nas mãos o destino da humanidade inteira. Sim, senhor: o destino do gênero humano!

Esbugalhei os olhos, assombrado. Aquela afirmação insistente, de que havia sido senhor do Destino, era característica de seu pobre estado de demência. Mas ele insistiu:

Segundo ensina o Alcorão, o livro de Allah, a vida de todos nós está escrita (maktub!) no grande Livro do Destino, onde cada homem tem uma página com tudo o que de bom ou de mau lhe vai acontecer. Todos os fatos que ocorrem na Terra, do cair de uma folha seca à morte de um califa, estão fatalmente escritos no Livro do Destino!

E, sem esperar que eu o interrogasse, narrou o seguinte:

Em uma viagem pelo deserto, salvei certa vez um velho feiticeiro que ia ser enforcado. Em sinal de gratidão, ele deu-me um talismã raríssimo que possuía: uma pedra maravilhosa que permitia a entrada livre na famosa Gruta da Fatalidade, onde se acha o Livro do Destino.

Depois de sugar longamente a piteira de seu narguilé, o velho prosseguiu:

Viajei durante dois anos até chegar à gruta encantada. Um djinn (gênio benfazejo) que estava de sentinela à porta deixou-me entrar, advertindo, porém, que eu só poderia permanecer ali por poucos minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na página e fazer de mim um homem rico e feliz. Bastava acrescentar com a pena que eu levava comigo: “Terá muito dinheiro!”. Lembrei-me, porém, de meus inimigos. Poderia, naquele momento, fazer um grande mal a todos eles. Movido pela ideia única do ódio e da vingança, abri a página de Ali Ben-Homed, o mercador. Li o que lhe ia acontecer e acrescentei embaixo, cheio de rancor: “Morrerá pobre, sofrendo os maiores tormentos!”. Na página de Zalfah-el-Abarj escrevi, impiedoso, alterando-lhe a vida inteira: “Perderá todos os haveres; ficará cego e morrerá de fome e sede no deserto!”. E assim, sem piedade, arrasei, feri e retalhei meus desafetos.

E na tua vida? — indaguei, curioso. — Que fizeste, ó muçulmano, na página em que estava escrita a tua própria existência?

Ah, meu amigo! — prosseguiu o ancião, cheio de mágoa. — Nada fiz em meu favor. Preocupado em fazer mal aos outros, esqueci-me de fazer o bem a mim mesmo. Agi como um miserável. Semeei largamente o infortúnio e a dor, e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando me lembrei de mim, quando pensei em tornar feliz a minha vida, estava terminado o meu tempo. Sem que eu esperasse, um efrite (gênio do mal que se contrapõe aos djins) agarrou-me fortemente e, depois de arrancar-me o talismã, expulsou-me da gruta. Caí entre as pedras e, com a violência do choque, perdi os sentidos. Quando recuperei a razão, achei-me ferido e faminto, muito longe da gruta, junto a um pequeno oásis no deserto de Omã. Sem o talismã precioso, nunca mais pude descobrir o tortuoso caminho da Gruta do Destino.

E concluiu, entre suspiros, numa atitude de profundo e irremediável desalento:

Perdi a única oportunidade que tive de ser rico e feliz!

Seria verdadeira essa estranha aventura? Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe do Hedjaz encerrava um grande e precioso ensinamento: preocupados em levar o mal a seus semelhantes, quantos homens se esquecem do bem que poderiam fazer a si próprios...

segunda-feira, 9 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 82ª PARTE

O REAL NÃO ESTÁ NA SAÍDA NEM NA CHEGADA, MAS NO MEIO DA TRAVESSIA.

Compreender o tempo como ele realmente é pode ser tão letal quanto dobrá-lo, e talvez por isso não existam provas, vestígios e testemunhas confiáveis, apenas histórias mal contadas, registros truncados e um estranho fenômeno: toda vez que alguém tenta provar que o experimento nunca existiu, novos indícios surgem, como se o próprio tempo conspirasse para manter viva a lembrança de quem ousou desafiá-lo.

Igualmente emblemático é o caso do OOPArt — acrônimo de Out Of Place Artefact — encontrado em 2008 dentro de uma tumba da Dinastia Ming que ficou selada por mais de 400 anos. A caixa do artefato que não poderia estar ali exibia a inscrição Swiss, e os ponteiros marcavam 10h06. Para os entusiastas do insólito, trata-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo; para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos, publicações acadêmicas e imagens confiáveis indicam fraude.


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Lulinha ficou tão isolado que precisa parar de andar sozinho se quiser evitar as más companhias. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, confirmou a votação da CPI do INSS que quebrou o sigilo bancários do "Ronaldinho dos negócios", e a bancada governista desistiu de resistir: "A gente luta para vencer, mas aceita quando perde", disse Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso. 

Deve-se a resignação ao fato de o ministro André Mendonça ter autorizado em janeiro a PF a invadir as contas bancárias e o Imposto de Renda de Lulinha, dada a suspeita de que ele recebeu dinheiro do Careca do INSS, operador do assalto contra os aposentados.

O Planalto passaria atestado de burrice se continuasse erguendo barricadas numa CPMI que deve terminar em 28 de março. O filho do pai já havia recebido um chega-prá-lá: "Se tiver filho meu metido nisso, será investigado." Haddad também tomou distância: "Lulinha não participa do governo, não conheço a sua vida."

Sem apoio no Congresso e com a PF dentro das suas contas, enteado de Lula logo estará cantarolando versos do clássico de Cazuza "Maior Abandonado".


Numa foto tirada durante a reabertura da ponte South Fork em British Columbia (Canadá), em 1941, um indivíduo se destaca na multidão pelos cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada. Para os conspirólogos de turno, o Hipster de 1941 — como ele ficou conhecido — e outra pessoa segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna são viajantes do tempo; para os céticos, óculos escuros como aqueles eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. 

 

No início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100, necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o efeito 2038. O modelo em questão havia sido lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação fazia sentido. Além disso, a IBM reconheceu o “desaparecimento misterioso” de uma unidade dotada de uma interface que dava acesso a todos os códigos da empresa.


Titor detalhou seus deslocamentos temporais, disse que o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001 e que as máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Postou desenhos esquemáticos e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo".


A guerra civil que ele revelou que aconteceria em 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial, que teria início em 2015 e dividiria os EUA em cinco países. Mas a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. 


Em março de 2001, após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, Titor desapareceu dos fóruns, deixando uma frase misteriosa — traga uma lata de gasolina com você para quando seu carro morrer na estrada — e diversas perguntas sem resposta.


Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o suposto viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de John Titor Foundation, onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida.


Para os teóricos da conspiração, as previsões de Titor não falharam, apenas deram a abertura temporal para que ele as corrigisse a tempo de não ocorrerem. O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o modelo Everett-Wheeler da física quântica estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo; a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. 


Ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Se sua narrativa for mesmo uma fraude, quem a criou sabia muito bem do que estava falando.


Observação: A Interpretação de Muitos Mundos (IMM) postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um universo paralelo e resolve o paradoxo do avô, segundo o qual alguém que voltasse ao passado e matasse o próprio avô se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal, já que não poderia existir na dele.


A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Os Contos das Mil e Uma Noites estão repletos de tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz e outros prodígios tecnológicos que passariam a existir dali a milhares de anos.


Sherlock Holmes ensinou que “uma vez descartado o impossível, qualquer coisa que sobre, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade”, e o princípio da parcimônia, que “se houver múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si”. 


Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias. Foi o que faz Júlio Verne ao imaginar submarinos atômicos e viagens à Lua quase um século antes de se tornarem realidade. Mas quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como memória do futuro fica ainda maior. 


Resumo da ópera: A maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. O grosso das “provas” não resiste a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios terem trabalhado duro durante três décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar os blocos de pedra”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua...

domingo, 8 de março de 2026

O SEGREDO DO CHURRASCO ESTÁ NO DESCANSO

CORTAR A CARNE CEDO DEMAIS PODE ARRUINAR SEU CHURRASCO.

Para a maioria das pessoas, basta acender a churrasqueira, colocar a carne na grelha e temperar com sal grosso para fazer um churrasco memorável. Mas o resultado que todo mundo elogia depende menos do corte, do fogo ou do tempero do que de algo quase sempre ignorado: o tempo de descanso da carne.

Esse intervalo vai do instante em que a carne sai da grelha até o momento em que ela é fatiada — e define a suculência, a textura e até o sabor percebido em cada mordida. Durante o preparo, os sucos internos ficam em movimento intenso por causa do calor; se a carne é cortada imediatamente, esses líquidos “escapam”, deixando o interior mais seco.

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Não são apenas os erros que arruinam um magistrado, mas o modo como ele reage depois de cometê-los. No caso Master, Dias Toffoli, como se nada tivesse sido descoberto sobre ele, o ministro insiste em participar normalmente do julgamento em que a Segunda Turma avalizará ou não a prisão de Daniel Vorcaro e três integrantes do seu grupo criminoso.

Desde que admitiu ser sócio da empresa que vendeu por R$ 35 milhões parte de um resort para um fundo do grupo Master, o Maquiavel de Marília percorre os salões do Supremo como um inquérito esperando na fila da PF para acontecer. 

Armou-se na Corte um teatro e, que os ministros torpedearam a PF, enalteceram "a dignidade" de Toffoli e registraram em nota oficial uma hipotética "inexistência de suspeição ou de impedimento". Agora, o magistrado sinaliza aos colegas a intenção de exercitar sua dignidade no julgamento sobre a prisão de Vorcaro. Suspeita-se que ele usará o julgamento para lavar a própria suspeição, votando a favor da tranca, mas o teor do voto importa menos do que o respeito à lógica e às regras. 

Quem comete um erro e não o corrige está cometendo outro erro. Ou o Supremo amarra o guizo em algumas togas, ou fará da desmoralização de certos magistrados um processo de carbonização da supremacia do tribunal.


Descansar a carne é simples e não exige técnica complexa. Basta retirá-la da grelha e deixá-la parada por alguns minutos, sem furar, cortar ou pressionar. Nesse tempo, os sucos se redistribuem, as fibras relaxam e a temperatura se estabiliza, resultando em uma carne mais macia e uniforme.

O ideal é colocá-la sobre uma tábua ou prato, cobri-la levemente — sem abafar — e resistir à tentação do corte imediato. O tempo varia conforme o tamanho da peça: de 2 a 3 minutos para cortes pequenos, de 4 a 6 para cortes médios e de 8 a 10 para peças grandes. Poucos minutos já transformam completamente o resultado.

Quando o descanso é respeitado, o churrasco de respeito aparece nos detalhes: menos líquido no prato, carne mais brilhante, gordura melhor integrada e uma textura muito mais agradável.

Bom apetite.

sábado, 7 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 81ª PARTE

ÀS VEZES, BASTA UMA MUDANÇA DE PERSPECTIVA PARA REVELAR A VERDADE.

Ninguém sabe ao certo quem ele foi ou de onde veio. Há quem jure que se chamava Rudolph Fentz e que apareceu do nada em plena Times Square, trajando roupas do século XIX e segurando moedas antigas no bolso. Outros sustentam que se tratava de Andrew Carlssin, um investidor anônimo que multiplicou o capital em 126 operações seguidas na Bolsa por ter vindo do futuro (2256), e os mais céticos afirmam que ele nunca existiu, que sua "aparição" não passou de uma sucessão de coincidências, boatos e más interpretações.

O que poucos percebem é que as três versões contam a mesma história: Fentz, Carlssin, ou seja lá quem for, teria descoberto o segredo que há séculos atormenta físicos e filósofos: não é o tempo que nos atravessa, somos nós que o dobramos sem perceber — nas decisões que adiamos, nos caminhos que não tomamos, nas lembranças que nos visitam fora de hora.

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É enorme o empenho suprapartidário para acobertar o escândalo do Master, mas, a despeito das articulações anti-CPI, o avanço das investigações é proporcional à quantidade de dados estocados nos dispositivos eletrônicos de Daniel Vorcaro, e os abafadores vêm enfrentando dificuldades para conter a sujeira nos limites das bordas do tapetão.

A conjuntura está assentada sobre um paiol em que se misturam os favores de Vorcaro e as facilidades que os favorecidos — entre eles autoridades dos Três Poderes e políticos de todas as ideologias — ofereceram ao dono do Master para praticar crimes — as gentilezas incluíram desde contribuições de campanha a contratos milionários, além de convites para festas de arromba.

Se a apuração é incontornável, procrastinar a limpeza é conspirar pela conturbação do processo eleitoral, que pode transformar a sucessão presidencial num grande ventilador.

A ventania aumentou desde André Mendonça acumulou a relatoria do roubo das aposentadorias do INSS e o caso Master. Os dados obtidos por meio da quebra do sigilo telemático de Vorcaro já estão sendo processados pelos computadores da CPI, e o vazamento é tão certo quanto o nascer no leste.

Há em Brasília dois tipos de políticos: os que temem o enrosco e os que desejam desgastar os enroscados. Numa escala de zero a dez, a hipótese de uma combinação como essa terminar bem é de menos onze.


A história teria começado com um projeto confidencial de pesquisa em física experimental, conduzido fora dos grandes centros, sem patrocínio estatal e longe de olhares curiosos. O objetivo oficial era estudar os efeitos da ressonância quântica do vácuo — uma expressão bonita para designar o comportamento errático das partículas virtuais que simplesmente aparecem e desaparecem. Extraoficialmente, porém, havia quem falasse em curvatura artificial do espaço-tempo.


Segundo alguns conspirólogos, o homem misterioso — cujo verdadeiro nome ninguém soube ao certo — trabalhava num laboratório subterrâneo e, engolido acidentalmente pela própria criação, acabou saltando para um ponto qualquer entre o ontem e o amanhã. Mas talvez ele tenha conseguido o que todos sonham e ninguém admite: voltar ao instante em que tudo ainda podia ser diferente. Fala-se que ele acreditava que o tempo era um campo vibratório que, sob determinadas condições de frequência e energia, poderia provocar uma espécie de desalinhamento temporal — talvez não uma viagem física no sentido clássico, mas uma transposição de perspectiva em que a mente se projetaria para um outro ponto da linha temporal… e foi aí que o impossível aconteceu.


Os registros fragmentários e contraditórios falam de um experimento realizado às três da madrugada numa câmara blindada revestida de chumbo e grafeno. Há menção a uma sequência de pulsos eletromagnéticos sincronizados com a rotação da Terra, a um breve colapso de energia e a uma luminosidade azulada que “parecia vibrar como se tivesse vontade própria”. Depois disso, silêncio. Nenhum alarme, nenhuma explosão, nenhuma evidência de falha. Passados 30 segundos, o sistema religou sozinho. O ar estava ionizado, o relógio da câmara marcava um horário diferente dos demais relógios do laboratório — e o homem havia simplesmente desaparecido.


Há quem diga que o homem nunca saiu do lugar, que sua consciência apenas “saltou de trilho”, enxergando simultaneamente o passado, o presente e o futuro — e que isso o enlouqueceu. No entanto, um guarda noturno de Nova York em 1951 disse ter deparado com um sujeito desorientado, vestindo roupas antiquadas e incapaz de explicar onde estava. Uma semana depois, jornais sensacionalistas publicaram a história de um "viajante do tempo acidental". Coincidência? Talvez. Mas algumas coincidências soam mais como recados.


Talvez compreender o tempo como ele realmente é seja tão letal quanto dobrá-lo, e por isso não há provas, nem vestígios, nem testemunhas confiáveis, apenas histórias mal contadas, registros truncados e um estranho fenômeno: toda vez que alguém tenta provar que o experimento nunca existiu, novos indícios surgem, como se o próprio tempo conspirasse para manter viva a lembrança de quem ousou desafiá-lo.


Igualmente emblemático é o caso do OOPArt — acrônimo de Out Of Place Artefact — encontrado em 2008 no interior de uma tumba da Dinastia Ming que permaneceu selada por mais de 400 anos. A caixa do artefato que não poderia estar ali exibia a inscrição Swiss, e os ponteiros marcavam 10h06. Para os entusiastas do insólito, trata-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo; para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos, publicações acadêmicas e imagens confiáveis sugeriam fraude.


Numa foto tirada em 1941, durante a reabertura da ponte South Fork, em British Columbia (Canadá), um indivíduo se destaca na multidão pelos cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada. Para os conspirólogos, o Hipster de 1941 — como ele ficou conhecido — e outra pessoa segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna são viajantes do tempo; para os céticos, óculos escuros eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. 

 

No início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100, necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o efeito 2038. O modelo em questão havia sido lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação fazia sentido. Além disso, a IBM reconheceu o “desaparecimento misterioso” de uma unidade dotada de uma interface que dava acesso a todos os códigos da empresa.


Titor detalhou seus deslocamentos temporais, disse que o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001 e que as máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Postou desenhos esquemáticos e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo". Mas a guerra civil que ele revelou que aconteceria em 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial, que teria início em 2015 e dividiria os EUA em cinco países. Por outro lado, a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. 


Em março de 2001, após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, Titor desapareceu dos fóruns, deixando uma frase misteriosa — traga uma lata de gasolina com você para quando seu carro morrer na estrada — e diversas perguntas sem resposta. Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o suposto viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de John Titor Foundation, onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida.


Para os teóricos da conspiração, as previsões de Titor não falharam, apenas deram a abertura temporal para que ele as corrigisse a tempo de não ocorrerem. O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o modelo Everett-Wheeler da física quântica estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo; a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. 


Ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Se sua narrativa for mesmo uma fraude, quem a criou sabia muito bem do que estava falando.


Observação: A Interpretação de Muitos Mundos (IMM) postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um universo paralelo e resolve o paradoxo do avô, segundo o qual alguém que voltasse ao passado e matasse o próprio avô se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal, já que não poderia existir na dele.


A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Os Contos das 1.001 Noites estão repletos de tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz e outros prodígios tecnológicos que passariam a existir dali a milhares de anos. Sherlock Holmes nos ensinou que “uma vez descartado o impossível, qualquer coisa que sobre, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade”, e o princípio da parcimônia —, que “quando houver múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si”. 


Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias. Foi o que faz Júlio Verne ao imaginar submarinos atômicos e viagens à Lua quase um século antes de se tornarem realidade. Mas quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como memória do futuro fica ainda maior. 


Resumo da ópera: A maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. A maioria das “provas” não resiste a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios terem trabalhado duro durante três décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar os blocos de pedra”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua…