PIOR QUE ENVELHECER, SÓ MESMO MORRER JOVEM
O nascimento dá início a uma viagem rumo a um futuro que nunca chega (o hoje é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã), mas termina quando exalamos nosso derradeiro suspiro.
Não sabemos se o tempo realmente existe ou é apenas uma invenção criada por nossos antepassados para facilitar a compreensão do mundo, mas sabemos que envelhecer é inexorável — em última análise, a morte é a única certeza que temos na vida.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Não são apenas os erros que arruinam um magistrado, mas o modo como ele reage depois de cometê-los. Como se nada tivesse sido descoberto sobre ele, Dias Toffoli cogita participar do julgamento em que a Segunda Turma decidirá se avaliza a prisão de Vorcaro e três comparsas, decretada por André Mendonça.
Armou-se no Supremo um teatro para que Toffoli deixasse a relatoria do inquérito "a pedido", ou seja, sem a pecha da suspeição. Agora, sua excelência sinaliza aos colegas que vai exercitar sua "dignidade" no julgamento sobre a prisão de Vorcaro. É possível que ele lave a própria suspeição votando a favor da tranca, mas o teor do voto importa menos do que o respeito à lógica e às regras. Quem comete um erro e não o corrige está cometendo outro erro. Ou o Supremo amarra o guizo em algumas togas, ou fará da desmoralização de certos magistrados um processo de carbonização da supremacia do tribunal.
Viver para sempre é um sonho antigo. Na Grécia Arcaica (século VIII a.C. e século VI a.C.), acreditava-se que a água de um rio que nascia no Monte Olimpo tornava os homens imortais. Em 1513, Ponce de León partiu de Porto Rico em busca da lendária Fonte da Juventude e descobriu a Flórida, mas morreu oito anos depois sem jamais ter encontrado a tal fonte.
Em 1932, quando a expectativa de vida dos norte-americanos era de 59,7 anos, Walter B. Pitkin publicou seu livro de autoajuda Life begins at forty. Entre 1960 e 2014, a expectativa de vida dos brasileiros aumentou de 48 para 74,6 anos. Aubrey de Grey — co-fundador da SENS — acredita que é possível viver por séculos sem sofrer os transtornos da velhice, mas bem poucas pessoas colhem mais de 100 margaridas dos jardins da existência.
Ainda que a experiência siga as pegadas da maturidade, dizer que a “reta de chegada” é a melhor parte da “viagem” não passa de cantilena para dormitar bovinos, e chamar a terceira idade — fase da vida que começa aos 60 e termina quando as luzes da ribalta se apagam — de "melhor idade" — expressão cunhada por um "influencer" infectado pelo vírus da positividade tóxica, borrifada nas redes sociais por "idioters" e replicada pelos meios de comunicação — é ignorar pérolas de sabedoria como vecchiaia è bruta.
Aos 93 anos, chamado a escolher a palavra mais bonita da língua portuguesa, o poeta Manoel de Barros — que dizia prezar insetos mais que aviões — escolheu "criança", talvez por ter envelhecido com brilho, beleza e arte. “Penso que envelhecer é atravessar uma fronteira invisível, que ninguém nos avisa exatamente quando ela chega; apenas percebemos que o tempo passou a caminhar não mais à frente, mas ao nosso lado, impaciente, silencioso, quase cúmplice”, disse ele.
Nem todo mundo envelhece, e aqueles que envelhecem nem sempre aceitam o passar do tempo com serenidade. Mas a experiência que vem com a idade nos ensina a escolher entre o que vale ficar e o que pode partir. Aliás, é na maturidade que o mundo deixa de ser promessa e passa a ser memória; o coração, cansado de batalhas inúteis, começa a buscar apenas aquilo que o sustenta; o corpo — esse companheiro fiel por décadas — começa a falhar em pequenos sinais — um joelho que reclama, uma visão que pede auxílio, uma dor que se instala sem convite.
A idade nos ensina a negociar com limites, a respeitar fronteiras internas, a aceitar que há ritmos que não voltam. A solidão visita com frequência os que envelhecem em silêncio: amigos partem, amores se transformam, lares se esvaziam e a memória vira companhia — às vezes, consolo; às vezes, ferida.
Dizem que a delícia da velhice está num café sem pressa, num fim de tarde em silêncio, na alegria simples de estar. Que há uma delícia profunda em olhar para trás e reconhecer a própria trajetória, os afetos preservados, os erros superados, os recomeços possíveis. Que envelhecer é aprender a dizer não sem culpa, a escolher com mais clareza, a valorizar a presença de quem ficou. Mas nem todos (bem poucos, na verdade), recebem a velhice filosoficamente, como frisou Ruy Castro na crônica Melhor idade é a puta que te pariu, que merecia ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta. Confira:
A voz em Congonhas anunciou: Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência, etc.. Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" - algo entre os 60 anos e a morte.
Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, se arrepende no meio do caminho porque o sinal abriu e agora precisa correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.
Privilégios da "melhor idade" são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão subindo como placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da "melhor idade", estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.
Outra característica da "melhor idade" é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhe receitam e depois não conseguem retirar. Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: Voltando da farra, Ruy? Respondi, eufórico: Que nada! Estou voltando da farmácia! E esta é, de fato, uma grande vantagem da "melhor idade": você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.
Primeiro, a aposentadoria é pouca e você tem que continuar a trabalhar para melhorar as coisas. Depois vem a condução. Você fica exposto no ponto do ônibus com o braço levantado esperando que algum motorista de ônibus te dê uns 60 anos. A análise é rápida, leva uns 20 metros. Quando ele para, vem a discussão se você tem mais de 60 ou não.
Dias atrás entrei no ônibus e fui dizendo: Sou deficiente. O motorista me olhou de cima a baixo e perguntou: Que deficiência você tem? Eu respondi: Sou broxa"! Ele deu uma gargalhada e eu entrei. Logo apareceu alguém para me indicar um remédio. Algumas mulheres curiosas ficaram me olhando e rindo... Eu disse bem baixinho para uma delas: Uma mentirinha que me economizou R$3,00, não fica triste não.
Fui até o Arpoador ver o pôr do sol. Subi na pedra, mas velho tem mais dificuldade. E tem sempre alguém que quer ajudar a subir: Dá a mão aqui, senhor! Hum, dá a mão é o cacete, penso, mas o que sai é um risinho meio sem graça. Sento na pedra para olhar a paisagem, mas a pedra é dura, e velho já perdeu a bunda; quando senta, sente os ossos em cima da pedra e tem de trocar de posição a toda hora. E para ver a paisagem não pode deixar de levar os óculos, senão nada vê. Resolvo ficar de pé para economizar os ossos da bunda e logo passa um idiota e diz: O senhor está muito na beira pode ter uma tontura e cair. Resmungo entre dentes: Só se cair em cima da sua mãe, mas dou um risinho e digo que está tudo bem.
A merda do sol está demorando a descer, então eu é que vou descer, meus pés já estão doendo e o sol nada. Vou pensando - enquanto desço e o sol não: Voltar de metrô é mais rápido. Já no metrô, me encaminho para a roleta dos idosos, e lá está um puto de um guarda que fez curso sabe Deus em que faculdade, mas tem olho crítico e consegue saber a idade de todo mundo. Ele olha sério para mim, segura a roleta e diz: O senhor não tem 65 anos, precisa pagar a passagem. A esta altura do campeonato eu já me sinto com 90, mas, quando ele me reconhece mais moço, me irrompe um fio de alegria e vou todo serelepe comprar o ingresso.
Durante o trajeto, não fui suficientemente rápido para me sentar nos lugares que esvaziavam. Com os pés doendo, fico em pé, já nem lembrando se o sol baixou ou não. Só quero chegar em casa e tirar os sapatos. E aliviar a ligeira dor de barriga se prenuncia.
Lá pelo centro da cidade, eu me segurando, dou de olhos com uma menina de uns 25 anos que me encarava... Me senti o máximo. Me aprumei todo, estufei o peito, fiz força no braço para o bíceps crescer e a pelanca ficar mais rígida, fiquei uns 3 dias mais jovem. Quando ela ameaçou falar alguma coisa, meu coração palpitou. É agora... Joguei um olhar 32 (aquele olhar de Zé Bonitinho), e ela pegou na minha mão e disse: O senhor me parece tão cansado, não quer se sentar?
Melhor Idade??? Melhor idade é a puta que te pariu!



