WE ARE ALL TIME TRIPPERS
Nossos ancestrais começaram a medir a passagem do tempo quando notaram padrões no amanhecer e no anoitecer, nas fases da Lua e nas estações, por exemplo. Mas a física moderna sugere que o tempo pode ser uma ilusão.
O que convencionamos chamar de "dia" é o intervalo de uma meia-noite à seguinte; o que chamamos de "mês", uma sequência de 28 a 31 dias; e o que chamamos de "ano", um ciclo de aproximadamente 365 dias e 6 horas — arredondamento que explica a existência dos anos bissextos.
O que cada pessoa faz a cada dia é subjetivo: no mesmo dia que você volta de férias e desfaz as malas eu posso estar arrumando as malas para sair de férias — e vice-versa. Segundo a teoria da relatividade de Einstein, o Universo é um bloco quadridimensional estático que contém o espaço e o tempo simultaneamente, sem um “agora” especial. Consequentemente, o tempo não flui do passado para o futuro, mesmo porque o que é futuro para um observador pode ser passado para outro. As equações relativísticas de Einstein levaram ao que os filósofos chamam de "eternismo", cuja ideia central é a de que passado, presente e futuro existem com o mesmo status ontológico — ou seja, o que chamamos de "agora" é apenas uma fatia arbitrária desse bloco quadridimensional.
Antes de Einstein, o “presente” era compartilhado por todos no universo: existia um “Grande Agora”. A gente podia olhar para o relógio, ver que marcava meio-dia, por exemplo, e dizer que muitas coisas estavam acontecendo “agora”, mesmo para pessoas muito distantes de nós. Com as equações do físico alemão, isso deixou de ser verdade.
Cada um só pode falar sobre o "presente" a partir de seu próprio referencial. O "Grande Agora", que se estendia por todo o Universo, deixou de existir. O que está acontecendo "agora" da sua perspectiva pode parecer muito diferente para um hipotético alienígena viajando numa nave espacial a uma velocidade incrivelmente alta.
Observação: A 99,999999999999999999981% da velocidade da luz, que é de 1,08 bilhão de km/h, a dilatação do tempo faz com que um segundo no referencial do viajante equivalha a 2,5 anos no tempo terrestre (como bem demonstrado pelo paradoxo dos gêmeos). Em um cenário mais moderado, chegar a Alpha Centauri (que dista 4,367 anos-luz da Terra) viajando a essa velocidade levaria mais de 4 anos terrestres, mas o trajeto seria completado em menos de duas horas no referencial dos astronautas.
O fato de a simultaneidade ser relativa ao observador conflita com a mecânica quântica, na qual o tempo funciona como um parâmetro externo e universal, não sujeito à incerteza quântica como posição e momento. Em outras palavras, a relatividade exige que o tempo seja local e relacional, enquanto a mecânica quântica o trata como um pano de fundo fixo e comum a todos os observadores.
No entanto, a ideia de que o tempo é uma construção mental não é nova (detalhes nesta postagem).. Em meados do século XVII, as Leis de Newton já eram simétricas no tempo — ou seja, suas equações funcionam igualmente bem se imaginarmos pessoas andando para trás, relógios retrocedendo da tarde para a manhã ou frutas subindo do chão para os galhos das árvores.
De acordo com um artigo publicado na revista Physical Review A, o tic-tac do relógio é apenas uma representação conveniente de uma série de eventos emaranhados, pois o tempo não é uma dimensão contínua e independente, mas uma sequência de acontecimentos correlacionados que emergem do entrelaçamento quântico.
Na visão dos autores, o tempo é uma ilusão, e conceitos como passado, presente e futuro são simples convenções que usamos para descrever nossa experiência subjetiva. Isso explica por que as equações da física quântica são simétricas no tempo — ou seja, funcionam tanto para frente quanto para trás. O próprio Einstein costumava dizer que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas "uma ilusão teimosamente persistente". Mas se é assim, de onde vem a flecha do tempo?
A flecha que avança do passado para o futuro surge somente quando nos afastamos do mundo microscópico em direção ao macroscópico. Isso tem a ver com o fato de olharmos para as coisas grandes e ignorarmos os detalhes. Isso não significa que o mundo seja fundamentalmente orientado no espaço e no tempo, mas, quando olhamos à nossa volta, vemos a direção na qual a entropia dos objetos do dia a dia aumenta — como a fruta madura que cai da árvore e apodrece no chão, sem nunca fazer o caminho inverso.
A Segunda Lei da Termodinâmica diz que a entropia de um sistema isolado sempre aumenta. Por estar indissociavelmente ligada à direção do tempo, ela é a única lei da física com direcionalidade temporal que perde essa característica quando se fecha o foco em coisas muito pequenas. A entropia de um cubo de gelo aumenta conforme ele é aquecido, já que suas moléculas se movimentam com mais liberdade quando o gelo derrete e se transforma em água líquida — e mais ainda quando a água ferve e se transforma em vapor. Mas isso levanta uma questão perturbadora: se as leis microscópicas são simétricas no tempo, então a assimetria que sentimos como "o tempo fluindo" pode ser apenas um fenômeno estatístico.
O físico Ludwig Boltzmann passou anos tentando explicar por que o Universo começou com entropia tão baixa. A resposta moderna aponta para o Big Bang como uma condição inicial de baixíssima entropia, mas isso apenas empurra o mistério para trás. Na tentativa de unificar a relatividade geral com mecânica quântica, a gravidade quântica em loop e outras abordagens chegam a uma conclusão chocante. A famosa equação de Wheeler-DeWitt — uma tentativa de equação quântica para o Universo inteiro — simplesmente não tem o tempo como variável. O universo, descrito matematicamente, é estático.
Para o físico Carlo Rovelli, o tempo não existe para uma única partícula, mas emerge de interações entre muitos sistemas, e seu "fluir" seria nossa percepção de um aumento de correlações com o ambiente — nossa velha conhecida entropia novamente. Por outro lado, a física ainda não sabe responder porque, se as leis são simétricas, temos memória do passado e não do futuro? O que exatamente colapsa a função de onda, e isso define um "agora"? Como reconciliar o tempo relativo de Einstein com o tempo como parâmetro externo da mecânica quântica?
Alguns físicos — como Roger Penrose — sugerem que a experiência subjetiva do tempo pode ter raízes quânticas no cérebro. Uma ideia controversa, mas é curioso que nossos ancestrais tinham acesso a algo genuinamente misterioso simplesmente observando o Sol e a Lua, e nós, com toda a física moderna, não sabemos sequer se o tempo existe.
Continua…




