segunda-feira, 9 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 82ª PARTE

O REAL NÃO ESTÁ NA SAÍDA NEM NA CHEGADA, MAS NO MEIO DA TRAVESSIA.

Compreender o tempo como ele realmente é pode ser tão letal quanto dobrá-lo, e talvez por isso não existam provas, vestígios e testemunhas confiáveis, apenas histórias mal contadas, registros truncados e um estranho fenômeno: toda vez que alguém tenta provar que o experimento nunca existiu, novos indícios surgem, como se o próprio tempo conspirasse para manter viva a lembrança de quem ousou desafiá-lo.

Igualmente emblemático é o caso do OOPArt — acrônimo de Out Of Place Artefact — encontrado em 2008 dentro de uma tumba da Dinastia Ming que ficou selada por mais de 400 anos. A caixa do artefato que não poderia estar ali exibia a inscrição Swiss, e os ponteiros marcavam 10h06. Para os entusiastas do insólito, trata-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo; para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos, publicações acadêmicas e imagens confiáveis indicam fraude.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Lulinha ficou tão isolado que precisa parar de andar sozinho se quiser evitar as más companhias. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, confirmou a votação da CPI do INSS que quebrou o sigilo bancários do "Ronaldinho dos negócios", e a bancada governista desistiu de resistir: "A gente luta para vencer, mas aceita quando perde", disse Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso. 

Deve-se a resignação ao fato de o ministro André Mendonça ter autorizado em janeiro a PF a invadir as contas bancárias e o Imposto de Renda de Lulinha, dada a suspeita de que ele recebeu dinheiro do Careca do INSS, operador do assalto contra os aposentados.

O Planalto passaria atestado de burrice se continuasse erguendo barricadas numa CPMI que deve terminar em 28 de março. O filho do pai já havia recebido um chega-prá-lá: "Se tiver filho meu metido nisso, será investigado." Haddad também tomou distância: "Lulinha não participa do governo, não conheço a sua vida."

Sem apoio no Congresso e com a PF dentro das suas contas, enteado de Lula logo estará cantarolando versos do clássico de Cazuza "Maior Abandonado".


Numa foto tirada durante a reabertura da ponte South Fork em British Columbia (Canadá), em 1941, um indivíduo se destaca na multidão pelos cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada. Para os conspirólogos de turno, o Hipster de 1941 — como ele ficou conhecido — e outra pessoa segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna são viajantes do tempo; para os céticos, óculos escuros como aqueles eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. 

 

No início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100, necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o efeito 2038. O modelo em questão havia sido lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação fazia sentido. Além disso, a IBM reconheceu o “desaparecimento misterioso” de uma unidade dotada de uma interface que dava acesso a todos os códigos da empresa.


Titor detalhou seus deslocamentos temporais, disse que o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001 e que as máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Postou desenhos esquemáticos e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo".


A guerra civil que ele revelou que aconteceria em 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial, que teria início em 2015 e dividiria os EUA em cinco países. Mas a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. 


Em março de 2001, após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, Titor desapareceu dos fóruns, deixando uma frase misteriosa — traga uma lata de gasolina com você para quando seu carro morrer na estrada — e diversas perguntas sem resposta.


Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o suposto viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de John Titor Foundation, onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida.


Para os teóricos da conspiração, as previsões de Titor não falharam, apenas deram a abertura temporal para que ele as corrigisse a tempo de não ocorrerem. O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o modelo Everett-Wheeler da física quântica estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo; a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. 


Ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Se sua narrativa for mesmo uma fraude, quem a criou sabia muito bem do que estava falando.


Observação: A Interpretação de Muitos Mundos (IMM) postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um universo paralelo e resolve o paradoxo do avô, segundo o qual alguém que voltasse ao passado e matasse o próprio avô se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal, já que não poderia existir na dele.


A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Os Contos das Mil e Uma Noites estão repletos de tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz e outros prodígios tecnológicos que passariam a existir dali a milhares de anos.


Sherlock Holmes ensinou que “uma vez descartado o impossível, qualquer coisa que sobre, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade”, e o princípio da parcimônia, que “se houver múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si”. 


Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias. Foi o que faz Júlio Verne ao imaginar submarinos atômicos e viagens à Lua quase um século antes de se tornarem realidade. Mas quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como memória do futuro fica ainda maior. 


Resumo da ópera: A maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. O grosso das “provas” não resiste a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios terem trabalhado duro durante três décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar os blocos de pedra”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua...

domingo, 8 de março de 2026

O SEGREDO DO CHURRASCO ESTÁ NO DESCANSO

CORTAR A CARNE CEDO DEMAIS PODE ARRUINAR SEU CHURRASCO.

Para a maioria das pessoas, basta acender a churrasqueira, colocar a carne na grelha e temperar com sal grosso para fazer um churrasco memorável. Mas o resultado que todo mundo elogia depende menos do corte, do fogo ou do tempero do que de algo quase sempre ignorado: o tempo de descanso da carne.

Esse intervalo vai do instante em que a carne sai da grelha até o momento em que ela é fatiada — e define a suculência, a textura e até o sabor percebido em cada mordida. Durante o preparo, os sucos internos ficam em movimento intenso por causa do calor; se a carne é cortada imediatamente, esses líquidos “escapam”, deixando o interior mais seco.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Não são apenas os erros que arruinam um magistrado, mas o modo como ele reage depois de cometê-los. No caso Master, Dias Toffoli, como se nada tivesse sido descoberto sobre ele, o ministro insiste em participar normalmente do julgamento em que a Segunda Turma avalizará ou não a prisão de Daniel Vorcaro e três integrantes do seu grupo criminoso.

Desde que admitiu ser sócio da empresa que vendeu por R$ 35 milhões parte de um resort para um fundo do grupo Master, o Maquiavel de Marília percorre os salões do Supremo como um inquérito esperando na fila da PF para acontecer. 

Armou-se na Corte um teatro e, que os ministros torpedearam a PF, enalteceram "a dignidade" de Toffoli e registraram em nota oficial uma hipotética "inexistência de suspeição ou de impedimento". Agora, o magistrado sinaliza aos colegas a intenção de exercitar sua dignidade no julgamento sobre a prisão de Vorcaro. Suspeita-se que ele usará o julgamento para lavar a própria suspeição, votando a favor da tranca, mas o teor do voto importa menos do que o respeito à lógica e às regras. 

Quem comete um erro e não o corrige está cometendo outro erro. Ou o Supremo amarra o guizo em algumas togas, ou fará da desmoralização de certos magistrados um processo de carbonização da supremacia do tribunal.


Descansar a carne é simples e não exige técnica complexa. Basta retirá-la da grelha e deixá-la parada por alguns minutos, sem furar, cortar ou pressionar. Nesse tempo, os sucos se redistribuem, as fibras relaxam e a temperatura se estabiliza, resultando em uma carne mais macia e uniforme.

O ideal é colocá-la sobre uma tábua ou prato, cobri-la levemente — sem abafar — e resistir à tentação do corte imediato. O tempo varia conforme o tamanho da peça: de 2 a 3 minutos para cortes pequenos, de 4 a 6 para cortes médios e de 8 a 10 para peças grandes. Poucos minutos já transformam completamente o resultado.

Quando o descanso é respeitado, o churrasco de respeito aparece nos detalhes: menos líquido no prato, carne mais brilhante, gordura melhor integrada e uma textura muito mais agradável.

Bom apetite.

sábado, 7 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 81ª PARTE

ÀS VEZES, BASTA UMA MUDANÇA DE PERSPECTIVA PARA REVELAR A VERDADE.

Ninguém sabe ao certo quem ele foi ou de onde veio. Há quem jure que se chamava Rudolph Fentz e que apareceu do nada em plena Times Square, trajando roupas do século XIX e segurando moedas antigas no bolso. Outros sustentam que se tratava de Andrew Carlssin, um investidor anônimo que multiplicou o capital em 126 operações seguidas na Bolsa por ter vindo do futuro (2256), e os mais céticos afirmam que ele nunca existiu, que sua "aparição" não passou de uma sucessão de coincidências, boatos e más interpretações.

O que poucos percebem é que as três versões contam a mesma história: Fentz, Carlssin, ou seja lá quem for, teria descoberto o segredo que há séculos atormenta físicos e filósofos: não é o tempo que nos atravessa, somos nós que o dobramos sem perceber — nas decisões que adiamos, nos caminhos que não tomamos, nas lembranças que nos visitam fora de hora.

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É enorme o empenho suprapartidário para acobertar o escândalo do Master, mas, a despeito das articulações anti-CPI, o avanço das investigações é proporcional à quantidade de dados estocados nos dispositivos eletrônicos de Daniel Vorcaro, e os abafadores vêm enfrentando dificuldades para conter a sujeira nos limites das bordas do tapetão.

A conjuntura está assentada sobre um paiol em que se misturam os favores de Vorcaro e as facilidades que os favorecidos — entre eles autoridades dos Três Poderes e políticos de todas as ideologias — ofereceram ao dono do Master para praticar crimes — as gentilezas incluíram desde contribuições de campanha a contratos milionários, além de convites para festas de arromba.

Se a apuração é incontornável, procrastinar a limpeza é conspirar pela conturbação do processo eleitoral, que pode transformar a sucessão presidencial num grande ventilador.

A ventania aumentou desde André Mendonça acumulou a relatoria do roubo das aposentadorias do INSS e o caso Master. Os dados obtidos por meio da quebra do sigilo telemático de Vorcaro já estão sendo processados pelos computadores da CPI, e o vazamento é tão certo quanto o nascer no leste.

Há em Brasília dois tipos de políticos: os que temem o enrosco e os que desejam desgastar os enroscados. Numa escala de zero a dez, a hipótese de uma combinação como essa terminar bem é de menos onze.


A história teria começado com um projeto confidencial de pesquisa em física experimental, conduzido fora dos grandes centros, sem patrocínio estatal e longe de olhares curiosos. O objetivo oficial era estudar os efeitos da ressonância quântica do vácuo — uma expressão bonita para designar o comportamento errático das partículas virtuais que simplesmente aparecem e desaparecem. Extraoficialmente, porém, havia quem falasse em curvatura artificial do espaço-tempo.


Segundo alguns conspirólogos, o homem misterioso — cujo verdadeiro nome ninguém soube ao certo — trabalhava num laboratório subterrâneo e, engolido acidentalmente pela própria criação, acabou saltando para um ponto qualquer entre o ontem e o amanhã. Mas talvez ele tenha conseguido o que todos sonham e ninguém admite: voltar ao instante em que tudo ainda podia ser diferente. Fala-se que ele acreditava que o tempo era um campo vibratório que, sob determinadas condições de frequência e energia, poderia provocar uma espécie de desalinhamento temporal — talvez não uma viagem física no sentido clássico, mas uma transposição de perspectiva em que a mente se projetaria para um outro ponto da linha temporal… e foi aí que o impossível aconteceu.


Os registros fragmentários e contraditórios falam de um experimento realizado às três da madrugada numa câmara blindada revestida de chumbo e grafeno. Há menção a uma sequência de pulsos eletromagnéticos sincronizados com a rotação da Terra, a um breve colapso de energia e a uma luminosidade azulada que “parecia vibrar como se tivesse vontade própria”. Depois disso, silêncio. Nenhum alarme, nenhuma explosão, nenhuma evidência de falha. Passados 30 segundos, o sistema religou sozinho. O ar estava ionizado, o relógio da câmara marcava um horário diferente dos demais relógios do laboratório — e o homem havia simplesmente desaparecido.


Há quem diga que o homem nunca saiu do lugar, que sua consciência apenas “saltou de trilho”, enxergando simultaneamente o passado, o presente e o futuro — e que isso o enlouqueceu. No entanto, um guarda noturno de Nova York em 1951 disse ter deparado com um sujeito desorientado, vestindo roupas antiquadas e incapaz de explicar onde estava. Uma semana depois, jornais sensacionalistas publicaram a história de um "viajante do tempo acidental". Coincidência? Talvez. Mas algumas coincidências soam mais como recados.


Talvez compreender o tempo como ele realmente é seja tão letal quanto dobrá-lo, e por isso não há provas, nem vestígios, nem testemunhas confiáveis, apenas histórias mal contadas, registros truncados e um estranho fenômeno: toda vez que alguém tenta provar que o experimento nunca existiu, novos indícios surgem, como se o próprio tempo conspirasse para manter viva a lembrança de quem ousou desafiá-lo.


Igualmente emblemático é o caso do OOPArt — acrônimo de Out Of Place Artefact — encontrado em 2008 no interior de uma tumba da Dinastia Ming que permaneceu selada por mais de 400 anos. A caixa do artefato que não poderia estar ali exibia a inscrição Swiss, e os ponteiros marcavam 10h06. Para os entusiastas do insólito, trata-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo; para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos, publicações acadêmicas e imagens confiáveis sugeriam fraude.


Numa foto tirada em 1941, durante a reabertura da ponte South Fork, em British Columbia (Canadá), um indivíduo se destaca na multidão pelos cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada. Para os conspirólogos, o Hipster de 1941 — como ele ficou conhecido — e outra pessoa segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna são viajantes do tempo; para os céticos, óculos escuros eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. 

 

No início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100, necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o efeito 2038. O modelo em questão havia sido lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação fazia sentido. Além disso, a IBM reconheceu o “desaparecimento misterioso” de uma unidade dotada de uma interface que dava acesso a todos os códigos da empresa.


Titor detalhou seus deslocamentos temporais, disse que o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001 e que as máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Postou desenhos esquemáticos e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo". Mas a guerra civil que ele revelou que aconteceria em 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial, que teria início em 2015 e dividiria os EUA em cinco países. Por outro lado, a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. 


Em março de 2001, após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, Titor desapareceu dos fóruns, deixando uma frase misteriosa — traga uma lata de gasolina com você para quando seu carro morrer na estrada — e diversas perguntas sem resposta. Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o suposto viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de John Titor Foundation, onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida.


Para os teóricos da conspiração, as previsões de Titor não falharam, apenas deram a abertura temporal para que ele as corrigisse a tempo de não ocorrerem. O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o modelo Everett-Wheeler da física quântica estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo; a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. 


Ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Se sua narrativa for mesmo uma fraude, quem a criou sabia muito bem do que estava falando.


Observação: A Interpretação de Muitos Mundos (IMM) postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um universo paralelo e resolve o paradoxo do avô, segundo o qual alguém que voltasse ao passado e matasse o próprio avô se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal, já que não poderia existir na dele.


A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Os Contos das 1.001 Noites estão repletos de tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz e outros prodígios tecnológicos que passariam a existir dali a milhares de anos. Sherlock Holmes nos ensinou que “uma vez descartado o impossível, qualquer coisa que sobre, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade”, e o princípio da parcimônia —, que “quando houver múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si”. 


Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias. Foi o que faz Júlio Verne ao imaginar submarinos atômicos e viagens à Lua quase um século antes de se tornarem realidade. Mas quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como memória do futuro fica ainda maior. 


Resumo da ópera: A maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. A maioria das “provas” não resiste a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios terem trabalhado duro durante três décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar os blocos de pedra”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua…

sexta-feira, 6 de março de 2026

O ZERO, A AUSÊNCIA E A CONSCIÊNCIA

MELHOR 50% DE ALGO QUE 100% DE NADA.

Detectar rapidamente a presença de um leopardo faminto ou de frutos suculentos era uma questão de vida ou morte para nossos ancestrais na savana africana, e uma vez que nosso cérebro evoluiu para nos manter vivos pelo maior tempo possível, tornamo-nos especialistas em perceber a presença das coisas. Mas o cérebro também é capaz de perceber o vazio, a ausência.

A entrada de um objeto no campo visual ativa neurônios no córtex visual, mas sua ausência demanda outro tipo de operação mental, que pode ser compreendida pela maneira como o cérebro representa o número zero. Assim como temos mais dificuldade em compreender o zero do que os números positivos, a ausência é mais difícil de perceber do que a presença.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

As crises no Brasil são reprises de um mesmo parto. Quando ousamos imaginar que vem algo novo, a conjuntura sempre dá um jeito de parir outra aberração. No Supremo, Fachin fazia pose de pai do código de ética, mas deu à luz o acobertamento das perversões associadas a Toffoli e fez papel de coveiro de prova viva no teatro armado na Corte para converter o funeral da reputação do colega num exemplo de desprendimento. 

É fato que a investigação perdeu o objeto quando Toffoli abriu mão da relatoria do processo do Banco Master, mas Fachin enterrou a última réstia de esperanças de abertura de um inquérito criminal para investigar o magistrado quando mandou para o arquivo as 200 páginas escritas pela PF sobre a suspeição do dito-cujo.

A manobra não ressuscitou a biografia de Toffoli, mas, mesmo assim, o STF anotou no atestado de óbito que ele continua sendo um juiz insuspeito e que deixou de ser relator "a pedido". Como se não bastasse, num funeral secreto, as togas preferiram atacar a PF a avaliar as provas do conflito de interesses entre o cargo de ministro e os negócios do Maquiavel de Marília e seus irmãos com a organização criminosa de Daniel Vorcaro.

Há oito meses, o Datafolha revelou que 58% dos brasileiros têm vergonha dos ministros do Supremo. Há dez dias, a Quaest revelou que 82% concordam que o tribunal precisa de um código de ética para os seus membros.

Crianças familiarizadas com a letra F, por exemplo, demonstram surpresa quando ela é substituída pela letra E, mas essa reação desaparece se a troca ocorre no sentido inverso — ou seja, a ausência do traço horizontal inferior passa despercebida. Os adultos também têm mais dificuldade de notar a omissão de uma palavra do que de perceber uma inserção de uma palavra indevida. Além disso, fenômenos similares já foram observados no comportamento de animais.

Sabemos que nosso cérebro contém neurônios “especializados em zero”, que reagem exclusivamente — ou de modo preferencial — quando observamos conjuntos vazios ou a própria representação simbólica do número zero. De modo análogo, cérebros de macacos e até de algumas aves possuem neurônios ativados especificamente em situações de ausência. O papel exato desses neurônios ainda não foi totalmente esclarecido, mas sua existência sugere que a percepção da ausência não é simplesmente a falta da atividade neuronal associada à presença. Até porque ideias de “presença” e “ausência” parecem envolver mecanismos mentais distintos.

Perceber a ausência exige um tipo de raciocínio por contradição: “se o objeto estivesse lá, eu o veria; o fato de não vê-lo indica que ele está ausente”. Essa explicação pressupõe que o cérebro tem consciência de seus próprios processos sensoriais e é capaz de avaliar se eles estão funcionando normalmente. Então, se a ausência não decorre simplesmente de desatenção ou falha perceptiva — e há evidências nesse sentido — e se as representações neurais de “ausência” e de “zero” são essencialmente análogas, então o estudo de como compreendemos o zero pode ajudar a responder esclarecere o que é a consciência.

O zero foi “descoberto” ao menos duas vezes na história da humanidade: na Mesopotâmia, ao final do século IV a.C., e de forma independente na Mesoamérica, perto do início da nossa era. Em ambos os casos, ele servia apenas como marcador de posições vazias na notação numérica (como em 103, onde a posição das dezenas está vazia), mas passou a ser tratado como um número de pleno direito, na Índia, por volta do século VII. No Ocidente, porém, a ideia encontrou forte resistência: para o pensamento grego clássico — e em especial para Aristóteles (384–322 a.C.) — o nada simplesmente não existia, e um número que representasse o nada seria um contrassenso.

Quando olhamos para uma árvore e percebemos que não há pássaros em seus galhos, nosso cérebro conclui: “se houvesse pássaros, eu os veria; logo, eles estão ausentes”. Essa inferência parece simples, mas envolve algo sofisticado: a consciência dos próprios processos mentais. Mas será que apenas seres conscientes são capazes de compreender a ausência e, por extensão, o zero?

Pesquisadores monitoraram a atividade cerebral de macacos enquanto eles observavam conjuntos com diferentes números de pontos e descobriram neurônios especializados em zero. Foi a primeira evidência experimental de que o cérebro de primatas trata o zero de maneira distinta das demais quantidades. Alguns desses neurônios reagem exclusivamente a conjuntos vazios, permanecendo indiferentes a qualquer outro número, ao passo que outros respondem mais fortemente ao vazio, menos a conjuntos com um ponto e menos ainda a conjuntos com dois pontos, sugerindo que o cérebro entende o zero de forma relacional, como o menor dos números.

Estudos recentes envolvendo tanto conjuntos de pontos quanto a representação simbólica dos números (0, 1, 2…) reforçam essas conclusões. Um deles analisou a atividade de neurônios individuais e confirmou a existência de células especializadas em zero, ou seja, distintas daquelas que respondem a números positivos. Outro examinou a atividade coletiva de milhares de neurônios e encontrou indícios de que, em certos contextos, o cérebro trata o zero como o menor dos números. Esse mesmo estudo revelou que as respostas neurais a conjuntos vazios e ao símbolo “0” são notavelmente semelhantes, indicando que os neurônios especializados em zero podem estar ligados à nossa compreensão mental do nada, da ausência — e talvez tenham evoluído a partir dela.

No fim das contas, o zero pode não ser apenas um número; mas sim o nada fazendo força para existir dentro da nossa cabeça.

quinta-feira, 5 de março de 2026

AINDA SOBRE O ANDROID

A DOR DOS OUTROS É SEMPRE SUPORTÁVEL.

O código aberto torna o Android mais personalizável, mas menos seguro que o iOS, já que os fabricantes de celulares recebem do Google o sistema puro (AOSP) e criam interfaces personalizadas, com recursos e funções que variam conforme a marca e o modelo do aparelho.

Tanto a Samsung quanto a Motorola, a Xiaomi e o próprio Google (fabricante dos dispositivos da linha Pixel) pré-instalam uma porção de inutilitários que não só poluem visualmente a tela dos aparelhos, como consomem recursos preciosos — espaço, memória e ciclos de processamento, principalmente. Uma vez que a maioria desse bloatware não pode ser removida da maneira convencional, o jeito é desativá-los tocando em Configurações > Apps > Mostrar todos os aplicativos, selecionando os programas indesejáveis e tocando em Desativar.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Como ministro da Justiça de Lula, Flávio Dino federalizou a investigação do assassinato de Marielle Franco; com a toga sobre os ombros, preside o encerramento do caso na 1ª Turma do STF. Numa sessão secreta realizada semanas atrás, o magistrado chamou de "lixo jurídico" o relatório em que a PF expôs os negócios suspeitos de Toffoli, e agora conduz em sessão aberta um julgamento que não existiria se não fosse o trabalho da mesma PF.

Figuras poderosas travaram as investigações sobre o assassinato de Marielle Franco por cinco anos. O crime é 100% estatal, mas a coisa só andou quando a PF entrou no caso. Na execução, estavam dois ex-policiais militares, já condenados. Como planejadores e patrocinadores, irão a julgamento um ex-deputado federal, um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado e um ex-chefe da polícia civil. Oito anos depois dos 13 disparos que mataram a vereadora e seu motorista, o caso está em via de ser encerrado.

Voltando a Toffoli e o Banco Master, além de Dino, outras duas togas da 1ª Turma torpedearam a PF no escurinho. Para Moraes, relator do caso Marielle, o relatório sobre o colega de toga resultou de uma "investigação ilegal"; na opinião de Zanin, "é tudo nulo".

A PF não é a oitava maravilha, mas continua sendo o melhor aparato de que o Estado brasileiro dispõe para combater organizações criminosas. Os ministros renderiam homenagens ao óbvio se reconhecessem que uma corporação não pode ser ótima para investigar complôs golpistas e assassinatos intrincados e péssima para apontar togas suspeitas.

Outro recurso incômodo que vem habilitado por padrão faz a tela escurecer e clarear automaticamente conforme a iluminação do ambiente. Para desligá-lo, acesse as Configurações, toque em Tela e, em Brilho adaptável, mova o botão para a esquerda.

Já o modo escuro — que reduz o cansaço visual e melhora a experiência em ambientes com pouca luz alterando a interface do sistema para tons escuros — vem desabilitado. Para ativá-lo, faça como na dica anterior e mova a chavinha ao lado de Tema escuro para a direita.

Se você tem muitos aplicativos instalados e está sempre ativo nas redes sociais, a enxurrada de alertas pode ser incomodativa. Para gerenciar as notificações, acesse Configurações, toque em Notificações > Notificações de apps, selecione o aplicativo que deseja silenciar e mova o botão correspondente para a esquerda.

Se precisa de mais tranquilidade, o modo Não Perturbe silencia chamadas, alertas e notificações, mas permite configurar exceções para contatos importantes em caso de emergência. Para ativá-lo, toque em Configurações > Notificações > Não Perturbe e personalize as opções conforme suas preferências.