quinta-feira, 23 de abril de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 98ª PARTE — DE VOLTA À QUESTÃO DOS PARADOXOS

TIME IS THE FIRE IN WHICH WE BURN 

A possibilidade de revisitar o passado continua a fascinar cientistas e leigos, tanto pelo apelo quase mítico da ideia, quanto pelos dilemas lógicos que ela impõe.


Os maiores óbices são os paradoxos — como o célebre paradoxo do avô, no qual uma ação no passado elimina as condições que tornaram possível a própria viagem no tempo. Ainda assim, o estudante de física Germain Tobar, da Universidade de Queensland, na Austrália, propôs uma maneira de “quadrar os números” e tornar a viagem ao passado logicamente viável sem recorrer a universos paralelos ou a remendos conceituais ad hoc.


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A economia brasileira cresceu acima dos 3% por três anos seguidos, até 2024. Em 2025, o crescimento foi menor — 2,3% — mas houve ganhos reais da renda do trabalho ao longo de todo o período, e a taxa de desemprego permaneceu em níveis historicamente baixos. Mesmo assim, a popularidade de Lula permanece no vermelho: segundo o Datafolha, dois em cada três brasileiros (67%) têm algum tipo de dívida financeira, como empréstimos, e a inadimplência atinge 21% da população. Esse cenário foi confirmado pela Quaest: 29% dos eleitores disseram ter muitas dívidas e 43% poucas dívidas. Juntos, os endividados somaram 72%. O endividamento corrói a sensação de bem-estar do eleitor e se reflete no cotidiano das famílias, mas o acúmulo de dívidas, impulsionado pela pandemia, compôs a herança da gestão Bolsonaro: seis meses depois do seu retorno ao Planalto, Lula lançou o programa Desenrola, que visa refinanciar dívidas de até R$ 5 mil. No entanto, aqueles que contornaram o problema contraíram novas dívidas. Tampouco a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil resultou em dividendos eleitorais para o macróbio, lançando dúvidas sobre o efeito político da escala 5X2 de trabalho, em discussão na Câmara. A mesma dúvida recai sobre o novo programa de renegociação de dívidas projetado pelo governo ou a previsão de saques extraordinários no FGTS. Candidato ao quarto mandato, o xamã do partido dos trabalhadores que não trabalham combina as medidas de socorro às famílias com disparos contra o próprio pé. A compulsão consumista foi confirmada pelo Datafolha: 68% dos eleitores ouvidos pelo instituto concordaram com a afirmação de que as ofertas de crédito pelo celular ou pela internet facilitam muito o endividamento por impulso. Mas culpar a população pelo problema é um desabafo que não resolve as aflições do candidato. Atônito, o molusco amarga nas projeções de segundo turno um empate técnico com o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, que sequer tem plano de governo. Considerando-se que a guerra no Oriente Médio eleva os preços dos alimentos, desafiando o controle da inflação da cesta básica, o melhor para o candidato à reeleição seria levar a língua no cabresto. Ou enfiá-la no… ouvido.


Segundo Tobar, conhecer o estado completo de um sistema em um determinado instante basta para determinar toda a sua história, passada e futura. Essa abordagem parte da ideia de que as leis da física, quando formuladas de maneira consistente, não permitem estados contraditórios do Universo — mesmo na presença de viagens temporais.


A relatividade geral de Einstein, por sua vez, prevê a existência das chamadas curvas fechadas do tipo tempo — trajetórias no espaço-tempo que permitem a um evento estar tanto no passado quanto no futuro de si mesmo. Em tese, essas estruturas viabilizam uma viagem de volta ao passado, mas a questão é que elas parecem abrir caminho para paradoxos insolúveis. 


Imagine, por exemplo, um viajante retornando ao passado para impedir que uma doença se espalhe. Se a missão fosse bem-sucedida, ele não teria motivos para viajar ao passado, já que a doença não existiria — um impasse lógico clássico. O trabalho de Tobar sugere uma solução elegante: a doença inevitavelmente escaparia por outra rota, vetor ou circunstância ainda não considerada, eliminando o paradoxo. 


Em outras palavras, por mais que o viajante tentasse alterar o passado, os eventos se organizariam de modo a preservar a consistência global do espaço-tempo. A doença não seria evitada; apenas mudaria a forma pela qual se manifesta, e o passado permaneceria “flexível” nos detalhes, porém rígido no resultado.


Embora não seja palatável para os não-matemáticos, esse modelo demonstra como processos determinísticos — sem qualquer elemento de aleatoriedade — podem influenciar um número arbitrário de regiões no continuum espaço-tempo. Assim, as curvas fechadas do tipo tempo conseguem coexistir tanto com a física clássica quanto com uma noção operacional de livre-arbítrio: o viajante faz escolhas, mas essas escolhas nunca levam a contradições.


“A matemática confirma, e os resultados parecem coisa de ficção científica”, afirma o físico Fábio Costa, que supervisionou a pesquisa. Segundo ele, as ações dos viajantes do tempo não resultariam em paradoxos, ainda que, por enquanto, dobrar o espaço-tempo só seja possível nas equações — construções abstratas que existem apenas como cálculos em uma página.


Ainda segundo Costa, por mais que se tente criar um paradoxo, os eventos sempre vão se ajustar, evitando qualquer inconsistência. A gama de processos matemáticos que descobrimos mostra que a viagem no tempo com livre-arbítrio é logicamente possível em nosso Universo, sem nenhum paradoxo.”


A proposta não garante que viajar ao passado seja tecnologicamente viável, mas sugere algo igualmente provocador: talvez o maior obstáculo às viagens no tempo não seja a física, e sim a nossa intuição — treinada para enxergar o tempo como uma estrada de mão única, quando ele pode ser, ao menos matematicamente, um labirinto que se rearranja para nunca se contradizer.


Continua…

quarta-feira, 22 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — NOÉTICA

O UNIVERSO NÃO PARECE SER NEM BENEVOLENTE NEM HOSTIL, APENAS INDIFERENTE. 

Se pensarmos no cérebro como um aparelho de rádio com um dial físico giratório, esbarrar acidentalmente nesse botão pode dessintonizar nossa emissora preferida e nos fazer ouvir chiados, interferências ou a voz de um locutor de outra estação misturada à música — como ocorria nas antigas linhas cruzadas das ligações telefônicas analógicas.


Da mesma forma que transforma um ginasta em atleta, o treinamento pode configurar o cérebro para receber informações da consciência universal de maneira mais clara e consistente, dando acesso a habilidades e entendimentos notáveis e, ao mesmo tempo, dificultando tarefas rotineiras.


Assim, como um rádio que capta diversas estações em AM ou FM, nosso cérebro talvez acesse porções da matriz informacional inacessíveis a outros animais — não porque somos superiores, mas porque nossa “antena” está sintonizada em frequências diferentes.


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Edson Fachin afirmou na última sexta-feira que o Brasil vive uma crise relacionada à atuação do Judiciário e que ela precisa ser enfrentada com reflexão, autocrítica e autocontenção. Cármen Lúcia, redatora de um Código de Ética que tarda a aparecer, disse que a crise de confiança no Judiciário, especialmente no Supremo, é grave e precisa ser reconhecida. O pano de fundo da conturbação que assedia o Supremo está marcado pelos vínculos de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro. Os laços individuais doem na instituição.

No Congresso, o subsolo voltou a estremecer com a prisão do advogado Daniel Monteiro. Segundo a PF, o doutor ajudou a estruturar a rede de fundos usada pelo dono do falecido Banco Master para comprar políticos e autoridades.

Em Barcelona, onde participa do encontro de um fórum de chefes de Estado progressistas, Lula, acusando o golpe do empate técnico com Flávio Bolsonaro no Datafolha e na Quaest, pensou alto sobre a onda de direita no mundo. Sem respostas, empilhou indagações: "Quero saber onde nós falhamos como democratas. Onde as instituições democráticas deixaram de funcionar? [?] Onde é que o nosso discurso está errado? Onde é que as nossas políticas públicas não estão atendendo às expectativas de uma juventude que quer um novo mundo do trabalho?".

Um observador otimista da conjuntura diria que crises são ruins, mas sempre passam. Um pessimista realçaria que terremotos também passam. E todos sabem que eles sacodem as roseiras e danificam as estruturas.


Um rádio não cria o sinal que recebe; ele o capta, decodifica e torna audível. Mas nosso cérebro parece ir além, pois não só recebe as informações como as processa, filtra, interpreta e — eis o enigma central — cria a experiência subjetiva única que chamamos de “eu”. E não há equação que explique por que processamento vira presença.


Se o modelo receptor estiver correto, cérebros considerados “danificados” — como no caso de alguns autistas ou de savants adquiridos — poderiam, paradoxalmente, ganhar habilidades extraordinárias, como um rádio que sofre uma queda e passa a captar transmissões antes inaudíveis.


As emissoras não deixam de transmitir quando não há ninguém para ouvi-las. Assim, se nosso cérebro for realmente um receptor sofisticado de uma consciência não-local, a morte apenas nos impediria de sintonizar aquela frequência específica — embora o sinal continuasse existindo. Mas se formos realmente parte de um organismo maior, conectados à mesma matriz de consciência, o que resta do conceito de livre-arbítrio?


Nosso sistema ético, jurídico e moral está fundamentado na premissa de escolhas autônomas. Em tese, quem mata vai para a prisão, quem age com bravura recebe medalhas, e por aí vai. Mas e se essas “escolhas” forem apenas manifestações locais de padrões informacionais fluindo através de uma consciência maior, e nossas decisões, atualizações locais de um sistema mais amplo? 


Talvez a individualidade seja uma ilusão de perspectiva — como ondas que parecem separadas, mas são apenas perturbações temporárias na superfície do oceano. Ainda assim, mesmo que exista uma consciência universal, cada cérebro funcionaria como um filtro singular, moldado por genes, experiências, traumas e condicionamentos.


Supondo que o autor do romance "profético" Futility — sobre o naufrágio do Titanic — teve acesso a informações sobre um evento ainda não ocorrido, entramos numa das questões mais perturbadoras da física: a natureza do tempo.


A mesma física que dissolveu o tempo absoluto na relatividade de Einstein e o substituiu por um bloco quadridimensional onde passado e futuro coexistem também admite, na mecânica quântica, estados de superposição em que múltiplas possibilidades permanecem abertas até que algo as selecione.


Talvez nossa percepção linear do tempo e nossa sensação de identidade contínua sejam artefatos cognitivos produzidos por um cérebro tentando sobreviver sob a pressão da entropia crescente, ou talvez estejamos confundindo mapa com território desde o início.


Voltando ao experimento mental proposto por Erwin Schrödinger, a questão não é apenas se o gato colapsa sua própria função de onda — mas quem, ou o quê, colapsa a nossa.


A experiência humana atual é limitada quando comparada ao que poderia ser. Às vezes, basta uma mudança de perspectiva para revelar algo que sempre esteve ali. O fato de não conseguirmos imaginar como algo pode ser verdade não significa que não possamos estar observando seus efeitos.


A Noética ainda engatinha na tentativa de compreender a consciência não-local, e seus defensores são frequentemente acusados de flertar com a pseudociência — sobretudo porque o cérebro opera em temperaturas e condições que parecem incompatíveis com coerência quântica sustentada.


Nosso cérebro representa cerca de 2% do peso corporal, abriga aproximadamente 86 bilhões de neurônios e é capaz de realizar trilhões de sinapses, mas ainda assim sua capacidade de armazenamento é tão limitada quanto a de um celular, que é incapaz de conter todas as músicas do mundo.


Diante dessa impossibilidade física, talvez o cérebro funcione menos como um cofre e mais como uma antena extraordinariamente sofisticada, que seleciona quais sinais específicos acessar em uma nuvem informacional já existente.


Quando milhares de estorninhos voam em perfeita coreografia, pode parecer que todos consultam o mesmo banco de dados simultaneamente, mas talvez estejamos apenas subestimando o poder de sistemas simples operando sob regras locais. Por outro lado, o tempo descrito pela mecânica quântica não se encaixa confortavelmente no tempo geométrico descrito na relatividade geral.


A experiência humana é bastante limitada se comparada com o que poderia ser. Às vezes basta uma mudança de perspectiva para revelar a verdade, e o simples fato de não conseguirmos imaginar como uma coisa pode ser verdade não significa que não observamos essa coisa sendo verdade. 


Enquanto a física tenta reconciliar essas descrições incompatíveis, continuamos chamando ondas de indivíduos, decisões de escolhas, e sejamos apenas perturbações temporárias em algo muito maior.


Continua...

terça-feira, 21 de abril de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 97ª PARTE — TEORIAS DAS CORDAS, DE TUDO E "M"

O TEMPO CURA TODAS AS FERIDAS, MAS NÃO APAGA AS CICATRIZES.

Há muito que os físicos tentam acomodar a Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica em um único modelo matemático, e as teorias das Cordas, de Tudo e M são sérias candidatas a esse papel.


De acordo com Einstein, o espaço é composto por três dimensões — comprimento, largura e profundidade —, e o tempo não é uma constante, mas uma quarta dimensão. À luz dessa premissa, vivemos constantemente entre o presente e o passado.


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Quando a presunção do direito à força prevalece sobre a força do direito, surgem as críticas, que são proporcionais ao excesso de rigor e à ausência de transparência. Se não quiser ser vidraça, o ministro Alexandre de Moraes precisa parar de fornecer pedras. Aliás, talvez valesse a pena trocar os juízes por um algoritmo de IA.

Em abono a essa tese, o jornalista Hélio Schwartsman. pondera que os algoritmos são mais baratos e consistentes do que os magistrados de carne e osso, além de serem menos susceptíveis à corrupção do que o Judiciário brasileiro, com ministros supremos enrolados no escândalo do Master, penduricalhos sob os holofotes da imprensa e venda de sentenças no STJ, entre outras histórias pouco edificantes. Sem falar que as mesmas pessoas e instituições que acertam num caso podem errar em outros. Some-se a isso o menor custo das IAs, a invulnerabilidade dos computadores à corrupção e paixões como ganância, relações de amizade, amor, etc.

Mesmo em países onde os custos do Judiciário são menores e os magistrados não frequentam o noticiário político ou policial diuturnamente, enfatiza-se a superioridade das IAs — não porque os algoritmos são particularmente bons na tarefa, mas porque os humanos são péssimos.


Alguém que vai de casa à padaria da esquina — ou à galáxia mais próxima — tem quatro coordenadas (três espaciais e uma temporal) para se guiar. Quanto mais rápido esse alguém avança nas dimensões espaciais, menos progride na dimensão temporal.


Em outras palavras, quanto mais depressa nos deslocamos pelo espaço (lembrando que o limite teórico é a velocidade da luz, representada pela letra "c" e equivalente a 299.792.458 m/s), mais devagar o tempo passa para nós. Se viajássemos com a velocidade da luz, o tempo pararia de passar, se a superássemos, chegaríamos a nosso destino “antes da partida" — devido à dilatação do tempo (para entender melhor, confira o que diz o paradoxo dos gêmeos).


Corpos celestes supermassivos — como os buracos negros — curvam o espaço-tempo como uma folha de papel dobrada ao meio encurta a distância entre a margem superior e a inferior, como foi detalhado ao longo desta sequência. Assim, uma espaçonave que atravessasse um buraco de minhoca, chegaria numa questão de segundos a um ponto a milhares ou milhões de anos luz, neste ou em outro universo, no presente ou em outro momento da linha do tempo  


As equações relativísticas e a física clássica admitem a existência dos buracos de minhoca, mas supõe-se que eles surgem e se desfazem numa fração de segundo. No entanto, uma física além do chamado Modelo Padrão da Física de Partículas pressupõe a existência de buracos de minhoca grandes e seguros o bastante para serem atravessados. Além disso, Einstein ensinou que o impossível é apenas uma questão de tempo; Carl Sagan, que a ausência de evidências não é evidência de ausência, e Arthur C. Clarke, que desafiar os limites é a única maneira de superá-los.


Se o Universo for realmente um holograma, o Princípio Holográfico não só explicaria inconsistências entre a física quântica e a gravidade de Einstein como proporcionaria uma base sólida para a Teoria das Cordas, que permite derivar toda informação presente no modelo padrão. E uma física além do modelo padrão admite a existência de buracos de minhoca grandes e seguros o suficiente para ser atravessados.


Vale lembrar que há duas vertentes da Teoria das Cordas. Uma sugere que o Universo tem 11 dimensões e a outra, que são pelo menos 26. Três dessas dimensões são espaciais, uma é temporal e as demais estão relacionadas com as perturbações espaciais e temporais produzidas pelas oscilações das cordas, que dão origem a fenômenos elétricos, magnéticos e nucleares.


No fim das contas, talvez o Universo seja mais estranho do que supomos ou mais simples do que conseguimos aceitar. Entre dobrar o espaço, esticar o tempo e esconder dimensões extras em cada canto da realidade, é possível que o maior desafio seja simplesmente entender o óbvio — ou, quem sabe, admitir que ainda estamos olhando tudo isso pelo lado errado da dobra.


Continua…

segunda-feira, 20 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE EQMs

OS HOMENS TEMEM A MORTE COMO AS CRIANÇAS TEMEM A ESCURIDÃO.

Evidências são indícios que apontam para a ocorrência de fatos; fatos são os acontecimentos propriamente ditos; e provas são os meios usados para demonstrar que os fatos efetivamente ocorreram. 


Na percepção distorcida e limitada dos que padecem de cegueira mental, as EQMs (detalhes no capítulo anterior) não são evidências de coisa alguma. Os céticos as veem como um fato, mas não como prova da existência da "alma imortal" ou de que a consciência sobrevive à morte clínica. Para quem tem a mente aberta e cultiva o saudável hábito de raciocinar, esse fenômeno dá o que pensar.


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Até um burro cego morde a cenoura de vez em quando. Lula falou muita bobagem durante suas três gestões (bem menos do que Dilma em uma gestão e meia, mas enfim), e, como ensina o teorema do macaco infinito, toda araruta tem seu dia de mingau. Interessa dizer que o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, seu provável adversário na disputa pela Presidência deste ano (que Deus nos livre da vitória de qualquer um desses dois dejetos) foi o sujeito oculto do macróbio eneadáctilo no Fórum em Defesa da Democracia, no sábado 19, em Barcelona. Sem citá-lo, o xamã petista o tratou como um risco à democracia no Brasil. Em timbre de palanque, Lula disse: "Temos um ex-presidente preso condenado a 27 anos de cadeia, temos quatro generais quatro-estrelas presos porque tentaram dar o golpe." Numa referência ao filho de Bolsonaro, disse que "o extremismo não acabou, ele continua vivo e vai disputar eleição outra vez." Quem sabe ouvir nas entrelinhas percebe na fala a intenção de Lula de reativar em 2026 o fator democrático que lhe rendeu a vitória, por pequena margem, na sucessão de 2022. Na campanha de 2022, Lula prometeu governar para todos. Assegurou que faria um governo "para além do PT". Eleito com uma diferença de 1,8 ponto percentual, preferiu intensificar a polarização. Perdeu ao longo de três anos e meio de mandato o apoio dos eleitores que votaram nele para mandar Bolsonaro mais cedo para casa. Na pesquisa Quaest do mês passado, 48% dos independentes diziam que o filho do pai não era mais moderado que sua família. Na sondagem divulgada nesta semana, esse percentual caiu para 45%. Em janeiro, o molusco estava 16 pontos à frente do rival nesse nicho do eleitorado. Agora, a diferença se inverteu por uma vantagem de sete pontos.


EQMs que acontecem quando não há atividade no córtex frontal (morte clínica) são documentadas a partir de relatos feitos pelos próprios pacientes após a reanimação. Se não há registros delas em casos de morte encefálica, é porque a irreversibilidade dessa condição exclui a possibilidade de reanimação — ou seja, se o paciente já atravessou a via de mão única que leva ao "lado de lá", não há como colher seu depoimento, a menos que ele compareça a uma sessão de mesa branca ou reencarne e preserve lembranças da vida anterior.

 

O "roteiro" da maioria das EQMs documentadas é quase sempre o mesmo: a pessoa "trazida de volta" relata que viu próprio corpo morto, foi "sugada" para um túnel de luz, viu a própria vida como num filme, reencontrou parentes já falecidos, mas sentiu que precisava retornar ao corpo. Alguns pacientes descrevem um profundo sentimento de paz e um estado ampliado de consciência, mas os relatos mais impressionantes são os que incluem detalhes do que aconteceu enquanto eles estavam clinicamente mortos, sobretudo porque esses detalhes são confirmados por médicos, parentes e outras pessoas que assistiram aos procedimentos de reanimação. 

 

Se a consciência é produzida pelo cérebro, como ela pode continuar existindo depois que o cérebro parou de funcionar? Não há uma resposta fácil, a não ser para quem se escora em dogmas meramente impositivos — se Deus quis assim, então é assim e ponto final. Mas à luz da ciência, o buraco é mais embaixo (a propósito, sugiro a leitura do livro Experiências de Quase Morte – Ciência, mente e cérebro, do neurocirurgião Edson Amâncio).


EQMs e vida após a morte são coisas diferentes, ainda que correlacionadas. Tudo se resume — se é que se pode "resumir" conceitos tão complexos — à incerteza sobre o que acontece "depois", ou mesmo se existe um "depois". Os religiosos acreditam na imortalidade da alma, mas o que é a religião senão a evolução do misticismo que levou nossos ancestrais a endeusar o Sol, a Lua, os raios, os trovões e tantos outros fenômenos que hoje sabemos que são naturais? 

 

Para os católicos, a alma é única e eterna e a morte carimba o passaporte que autoriza os "bons" a ingressarem no Reino dos Céus — depois de uma escala no Purgatório — e despacha os "maus" para as profundezas da Inferno, onde serão cozidos em óleo fervente ou assados em espetos por toda a eternidade.


Observação: Aqui caberia abrir um parêntese para discutir o conceito de eternidade, mas vou deixar essa discussão para outra ocasião. Quanto ao inferno, sugiro a leitura desta anedota sobre o "inferno brasileiro".

 

Os espíritas acreditam que a alma sobrevive à morte física e passa para um novo plano astral; que Deus nos criou simples e ignorantes — sem discernimento do mal e do bem —; que quem pratica o mal reencarna várias vezes até evoluir espiritualmente; e que quem pratica a caridade, o bem e o amor só reencarna se quiser. Para eles, os espíritos desencarnados possuem a capacidade de se ligar a outros espíritos — encarnados ou não, de acordo com a sintonia e a afinidade dessas almas —, o que explicaria a existência de lugares com diferentes níveis vibratórios..


O Judaísmo admite múltiplas interpretações. Algumas vertentes acreditam na sobrevivência da alma, mas não têm um roteiro definido sobre o que acontece depois da morte — ou mesmo se existe vida após a morte. Segundo a Cabala, a alma é imortal, e as provações que cada um enfrenta em vida levam a seu aperfeiçoamento. Existem, segundo eles, três tipos de almas, e o desligamento do corpo não é imediato (podendo levar de 30 dias a 1 ano). Enquanto a alma está ligada ao corpo, não há possibilidade de reencarnação, daí os familiares do finado cobrirem os espelhos da casa e rezarem o Kadish.

 

Os budistas acreditam que o espírito reencarna, podendo voltar como gente ou como animal, dependendo de sua conduta durante a vida, e que esse ciclo se repete até que o espírito se liberte de seu carma. No Japão, além de flores no caixão, uma tigela com arroz cozido, água, um vaso com flores, velas e incenso são colocados sobre uma mesa, para que nada falte ao morto. 


Para os islâmicos, a vida é uma preparação para outra existência. A morte dá início ao primeiro dia na eternidade, onde as almas dos muçulmanos ficam aguardando o juízo final. Quem seguiu as leis de Alá e as tradições dos profetas é enviado para o Paraíso; e quem foi desviado por Xeitã é despachado para o Inferno.


Segundo o Candomblé, as pessoas são formadas por elementos constitutivos perecíveis (corpo) e imperecíveis (ori), e a vida continua por meio da força vital (o ori retorna em outro corpo, mas dentro da mesma família. Não há punição eterna nem a ideia preconcebida de Céu e Inferno; a morte é considerada uma passagem para outra dimensão, onde os espíritos se reúnem aos guias e orixás. Já na visão dos umbandistas, o universo é formado por sete linhas, cada qual regida por um orixá, e a morte é uma etapa evolutiva (clique aqui para mais detalhes sobre as religiões afro-brasileiras).

 

No Hinduísmo, a pessoa é a alma, não o corpo físico. Após a morte, a alma se separa do corpo e parte rumo a outra dimensão. Almas evoluídas voltam em altas castas — como a dos brâmanes, composta por filósofos e sacerdotes. Guerreiros e políticos pertencem à casta dos xátrias, e os menos evoluídos reencarnam como comerciantes (casta dos vaishyas) ou trabalhadores (casta dos sudras). Quem consegue se desapegar do mundo material e atinge um patamar elevado não está obrigado a reencarnar.

 

Para os batistas, quem aceitar Jesus terá uma vida de paz e felicidade no Paraíso, e quem não aceitar, uma vida de dor, angústias e sofrimento no inferno. Já os adventistas acreditam que os mortos dormem até o momento da ressurreição, quando então os que cumpriram seu papel na Terra ganham a vida eterna, e os demais desaparecem. Para os sectários da Cientologia — como John Travolta e Tom Cruise — o thetan (espírito) sai em busca de um novo corpo no qual retornará à vida. Segundo seus sectários, 75 milhões de anos atrás havia dezenas de planetas governados como uma confederação por Xenu — um líder maligno que enviou bilhões de espíritos para a Terra. Assim, os terráqueos são reencarnações desses extraterrestres, que são imortais e, portanto, continuam reencarnando ad aeternum.

 

A exemplo dos católicos, os evangélicos acreditam no juízo final e na existência de Paraíso, Inferno e Purgatório. A diferença é que, segundo eles, as almas ficam adormecidas até Jesus voltar à Terra e decidir quem irá com ele para o Reino dos Céus e quem passará a eternidade num lago de enxofre e fogo. Já os protestantes descartam a reencarnação, mas não a existência de Céu e Inferno. Segundo eles, o julgamento ocorre não pelas ações da pessoa em vida, mas pela fé que ela teve na palavra de Deus e pelo amor ao Senhor.


De acordo com o fisicalismo — que é o cientificismo reducionista e materialista aplicado à neurociência — o cérebro produz a mente. Seus sectários desdenham das experiências de quase-morte, escarnecem de quem afirma lembrar de vidas passadas e negam a mediunidade — mas não oferecem uma explicação convincente para casos notórios, como os da norte-americana Leonora Piper e do brasileiro Chico Xavier.

 

Não há provas irrefutáveis de que a consciência (ou alma, ou espírito) sobreviva à morte física, mas sobram indícios que levam água a esse moinho. Parafraseando Shakespeare, há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, e cosmólogo e romancista Carl Sagan, ausência de evidências não é evidência de ausência (na verdade, essa ideia foi desenvolvida por William Wright em 1887; Sagan apenas popularizou o aforismo num livro que escreveu sobre a existência de seres extraterrestres). 

 

Escorar-se na falta de evidências para negar a existência de seja lá o que for é afrontar a ciência, já que ela amplia os limites do conhecimento transitando entre o conhecido e o desconhecido. Os fenômenos que mencionei ao longo deste capítulo existem, mas explicá-los é outra história. Por outro lado, refutá-los de plano é o mesmo que retroceder pelo caminho que levou a humanidade do obscurantismo ao iluminismo. Em outras palavras, em não havendo fraude envolvida, negá-los é comprovar o que teria dito Einstein sobre a infinitude da estupidez humana.

 

Continua…