segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

MAIS UM CARNAVAL

EM CERTAS ÉPOCAS DO ANO, O BOM SENSO ENTRA EM RECESSO COLETIVO, MAS A CONTA SEMPRE CHEGA.

Os feriados católicos têm por base a Páscoa, que é comemorada no primeiro domingo após a primeira lua cheia posterior a 21 de março. Assim, a terça-feira de Carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa, e o feriado de Corpus Christi, 60 dias depois.

"Carnaval" vem da expressão latina carnis levare — o jejum da carne e de outros prazeres mundanos que a Igreja Católica proíbe durante a Quaresma. No Brasil, milhares de blocos arrastam multidões e o povo esquece momentaneamente que a realidade existe. Em algum momento, porém, a música para e a ressaca entra sem pedir licença.

Dor de cabeça, tontura, fadiga, náuseas e outros desconfortos na manhã posterior ao pifão não são consequências do camarão da empadinha, mas de baldes de caipirinha e dúzias de latinhas de cerveja. A ressaca — tão inevitável quanto a morte e os impostos — costuma se manifestar de seis a oito horas após o porre, mas o tempo que leva para passar varia de pessoa para pessoa e da quantidade de álcool ingerida.

Atribui-se a ressaca ao aumento da concentração de substâncias inflamatórias, à alteração dos hormônios que regulam o sono, às oscilações da glicose no sangue e até aos “aditivos” embutidos nas bebidas alcoólicas. Ainda assim, não se sabe exatamente por que os sintomas surgem após a eliminação do álcool pelo organismo. Seja como for, o troço é um porre.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Segundo a pesquisa Meio/Ideia, a maioria dos eleitores (51%) acha que Lula não deve continuar no Planalto. Para 47%, ele merece obter um quarto mandato. Os dados sinalizam três coisas:

1) A maioria do eleitorado chega a 2026 com desejo de mudança; 2) Numa eleição de caráter plebiscitário, a dificuldade em envernizar a própria imagem tornou-se a principal debilidade de Lula; 3) Não há um franco favorito na praça.

No pedaço que traz as intenções de voto, a pesquisa revela que a pulverização da direita favorece o candidato ao quarto mandato. Em todos os cenários, o petista aparece com um pé no segundo turno; numericamente à frente dos adversários, mas amarga um empate técnico com o Flávio Bolsonaro, o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, sua madrasta Micheque e o vassalo bolsonarista Tarcísio de Freitas.

Supondo que Lula vá mesmo ao segundo turno e que a submissão de Tarcísio ao líder preso seja definitiva, postulantes ao Planalto que se oferecem como opções de direita terão que brigar com o filho do pai pela segunda vaga. Em declarações recentes, Ratinho Jr. reiterou ser favorável ao indulto do golpista, e Ronaldo Caiado insinuou um pacto de não agressão a seu primogênito.

O eleitor conservador talvez prefira o herdeiro de sangue aos Bolsonaros genéricos. Nessa hipótese, o molusco enfrentaria 2026 com as armas de 2022, torcendo para que a minoria independente de centro lhe dê novamente a vitória, ainda que por uma margem mixuruca.

Vodca, gim e outras bebidas compostas basicamente por água e álcool castigam menos que uísque e vinho, mas é fundamental atentar para a qualidade: marcas como Popov e Príncipe Igor, nem na caipirinha. O álcool da cerveja é o mesmo do uísque, do vinho, da vodca, do gim, do conhaque e dos demais destilados; o que muda é apenas a concentração. Não misturar destilados e fermentados, não beber de estômago vazio nem comer como um porco na ceva antes de encher o caneco ajuda a amenizar o day after.

A não ser em casos de coma alcoólico — quando se deve procurar um pronto-socorro —, deixar o organismo processar o álcool naturalmente e evitar comidas ácidas, gordurosas ou de difícil digestão minimiza o desconforto. O famoso “tomar mais uma para rebater” pode até funcionar momentaneamente, mas o nível de álcool no organismo terá de baixar mais cedo ou mais tarde.

Observação: O Bloody Mary — que leva vodca, suco de tomate, pimenta-do-reino, tabasco, limão, gelo e uma pitada de sal — é infalível na cura da ressaca… ou pelo menos era o que juravam Frank Sinatra, Judy Garland, Humphrey Bogart, Sammy Davis Jr., Jerry Lewis, Dean Martin, Elizabeth Taylor e outros devotos dessa beberagem.

A única forma eficaz de evitar a ressaca é a abstinência, mas essa recomendação é solenemente ignorada pela maioria. Para piorar, não existe fórmula mágica para curá-la, embora uma boa noite de sono e muita água, água de coco, isotônicos, sucos, frutas, proteínas leves e carboidratos ajudem na recuperação. Caldos e sopas estão liberados, desde que com pouco sal. Dietas líquidas ajudam a hidratar, mas não fazem milagre. Jejuns prolongados, horas na sauna ou corridas sob um sol senegalês também não resolvem — ao contrário, só acentuam a desidratação.

Refrigerantes normais são preferível aos dietéticos — o açúcar (glicose) ajuda a metabolizar o excesso de álcool. Cerveja, vinho e outras bebidas alcoólicas até aplacam a sede, mas não hidratam o organismo. A cafeína bloqueia os receptores de adenosina, ajudando a atenuar os sintomas da ressaca. Analgésicos aliviam a dor de cabeça, mas não atuam na causa do problema. É importante evitar medicamentos à base de paracetamol, que, combinados com o álcool, castigam ainda mais o fígado, que já está combalido pelo excesso de bebida.

Torradas com mel ou geleia no café da manhã, sopa ou salada de legumes cozidos no almoço, muito líquido e uma boa dose de paciência podem tornar a Quarta-feira de Cinzas — dia de penitência e reflexão para os carolas e antessala do inferno para os foliões que abusaram da cangibrina — mais suportável, ainda que o meio-expediente transcorra ao som imaginário de uma bateria de escola de samba tocando a marcha fúnebre.

Por último, mas não menos importante: o grande fluxo de pessoas e a aglomeração em espaços públicos aumentam consideravelmente os casos de furtos e roubos de celulares. As inevitáveis aglomerações e o hábito de falar ao celular ou tirar selfies sem precaução favorecem furtos e roubos de aparelhos. Para reduzir os riscos, recorra a pochetes ou bolsas de uso corporal, evite manusear o telefone em áreas muito expostas e desative temporariamente a função de pagamentos por aproximação sem senha ou autenticação biométrica. 

Para se prevenir contra golpes como a clonagem do WhatsApp e acessos indevidos a contas bancárias — que se tornam mais frequentes nessa época —, ative a verificação em duas etapas nos aplicativos, use senhas fortes e mantenha os softwares atualizados. Se possível, leve para a folia um aparelho alternativo, sem acesso a apps bancários ou outros dados sensíveis.

 Dinheiro, relógios vistosos, pulseiras, correntes e até tênis de grife também atraem a atenção dos amigos do alheio. Expor-se ao sol escaldante sem protetor solar de fator adequado causa danos à pele, e não usar óculos escuros de marcas confiáveis — evite produtos dos melhores camelôs do ramo — pode “queimar” as córneas, acelerar o surgimento de cataratas e comprometer a visão.

Se você sobreviver a mais este Carnaval, tente lembrar do que leu aqui no próximo — ou no Réveillon, ou sempre que sentir aquela vontade irresistível de enfiar o pé na jaca. Porque a festa passa, o confete some, mas o fígado, a conta bancária e o bom senso cobram juros.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

PARA QUEM GOSTA DE CARNE

TUDO QUE COMEÇA COM RAIVA ACABA EM VERGONHA OU ARREPENDIMENTO.


A picanha era vendida como carne de segunda até meados da década de 1970, quando se tornou "rainha das churrascarias". Mas tanto ela quanto a maminha proporcionam excelentes resultados no forno ou na airfryer.


A alcatra e a fraldinha também são boas opções para um assado rápido, mas, qualquer que seja o corte, deve-se fatiá-lo no sentido contrário ao das fibras e assar com a capa de gordura virada para cima.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O Carnaval é uma ocasião em que a política e os políticos são tradicionalmente lembrados, mas raramente pelo lado positivo. Numa dessas exceções que confirmam a regra, a Acadêmicos de Niterói resolveu homenagear Lula contando a história do “menino pernambucano pobre, que enfrentou as dificuldades de um retirante fugindo da fome, engraxou sapatos na cidade grande, virou operário e dirigente sindical, fundou um partido político, enfrentou a ditadura, elegeu-se presidente da República, foi condenado por corrupção, preso, descondenado, reconduzido ao Planalto e fantasiado de respeitado líder mundial".

No primeiro de dois ensaios técnicos antes do desfile, foram projetadas nos telões da Sapucaí vídeos em que o Bolsonaro aparece vestido de presidiário, usando máscaras hospitalares e chorando. Se a ideia era ironizar, o objetivo não foi alcançado, mas se era polemizar, a agremiação ganhou sua primeira nota 10. 

O TCU não só intimou a liga que organiza o desfile, o Ministério da Cultura e a Embratur a dar explicações, como também recomendou a imediata suspensão dos repasses federais. Dos milhões recebidos pela agremiação, R$1 milhão provém da Embratur, R$3,3 milhões do governo do Rio, R$2 milhões da prefeitura carioca, R$4 milhões da prefeitura de Niterói e R$3 milhões dos direitos de imagem. 

O relator do caso deu prazo de quinze dias para as entidades apresentarem os documentos. Se for encontrada alguma irregularidade, os responsáveis podem ser punidos com multas e obrigados a devolver o dinheiro. A Embratur disse que apoia financeiramente o desfile, mas não interfere na escolha dos sambas-enredo..

Além do carro alegórico romanceando a transformação do operário em presidente, uma ala dedicada a Bolsonaro exibe uma escultura do palhaço Bozo, um vampiro que simboliza os anos que o Brasil ficou sem o PT e pessoas virando jacaré após receberem a vacina contra a Covid.

A Sapucaí já foi palco de exaltações póstumas a Getúlio e Juscelino, mas esta é a primeira vez que um presidente no exercício do mandato será homenageado no ano em que busca a reeleição. A folia da agremiação fez subir o tom das críticas ao TSE, que já vinha sendo acusado pela oposição de fazer vistas grossas à propaganda eleitoral antecipada de Lula — na corrida presidencial de 2022, a Corte Eleitoral puniu Bolsonaro e Braga Netto com a ilegibilidade por inflamarem manifestantes no desfile do Dia da Independência. 

Políticos representam fonte natural de inspiração para os carnavalescos em blocos, bailes e nos desfiles das escolas de samba. Em 2018, Michel Temer foi retratado pela Paraíso do Tuiuti como um “vampiro neoliberalista” que sugava o sangue dos brasileiros. Em 2020, a São Clemente apresentou o enredo O Conto do Vigário, no qual o humorista Marcelo, fantasiado de presidente da República, imitou armas com as mãos e reproduziu os trejeitos de Jair Bolsonaro.

A sátira política é uma das riquezas do Carnaval, mas quando o enredo dá margem a bajulação e proselitismo, o resultado é um samba desafinado.


Quem aprecia carne ao ponto ou malpassada deve selá-la em uma frigideira ou chapa de ferro fundido antes de levar ao forno. E como o forno cozinha a carne por calor indireto, cortes com gordura, colágeno ou osso funcionam melhor que cortes magros demais, que tendem a ressecar. O ideal é pré-aquecê-lo a 200 ~ 240 °C e assar as carnes mais duras por 30 a 60 minutos. O forno elétrico é uma alternativa para quem não dispõe do tradicional, mas não deixe de ler o manual do aparelho, pois alguns modelos assam mais rápido.


A costela fica deliciosa assada no forno ou cozida na pressão por horas a fio. O acém é famoso pelo colágeno, que se transforma em maciez quando assado lentamente em forno baixo, e o lagarto — corte magro que exige cozimento lento e controlado —, selado por fora, assado no forno e fatiado fino, rende um excelente rosbife caseiro.


Para quem aprecia carne suína, o pernil é uma ótima opção se a peça for marinada por 8 a 12 horas antes de ser assada lentamente no forno. Já o lombo é uma carne macia e saborosa, mas deve ser assada sempre com molho ou alguma cobertura.


Bom domingo de Carnaval.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

TOFFOLI E O IMBRÓGLIO DO BANCO MASTER

ALGUMA COISA SEMPRE PRECISA MUDAR PARA QUE TUDO SEMPRE PERMANEÇA IGUAL. 

Com as vergonhas expostas no relatório da PF, o ministro Dias Toffoli divulgou uma nota que ofende a inteligência alheia. Embora tenha admitido ser sócio da empresa Maridt e ter vendido sua participação no Resort Tayayá para um fundo ligado ao Banco Master, ele negou ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro e do cunhado dele, Fabiano Zettel, embora o documento da PF mencione expressamente essa conversa.


Toffoli integrava uma sociedade anônima com capital social de R$ 150, sede em uma casa humilde situada na cidade paulista de Marília e administrada por dois irmãos do ministro (um padre e um engenheiro eletricista). O recebimento de dividendos, segundo ele, não era ilegal, pois não exercia funções gerenciais, e os negócios com um fundo ligado ao Master ocorreram antes de ele se tornar relator do caso. Mas sua cunhada negou que o marido tivesse sido sócio do resort, borrifando na conjuntura a percepção de que os irmãos do ministro não passavam de laranjas.


Paulista de Marília (SP), José Antonio Dias Toffoli formou-se bacharel em Direito, foi advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de SBC, consultor jurídico da CUT, assessor jurídico do PT e do ex-ministro José Dirceu. Também atuou advogado nas campanhas de Lula à presidência em 1998, 2002 e 2006 e como subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil da presidência da República. Em 2007, foi promovido a Advogado Geral da União e permaneceu no cargo até 2009.


A despeito de duas reprovações em concursos para juiz de primeiro grau abrilhantarem seu currículo, Toffoli foi indicado por Lula para o STF, numa demonstração cabal de falta de noção do xamã petista sobre a dimensão do cargo. Assim, sem currículo, sem conhecimento, sem luz própria e sem laços com a rede protetora do PT ou com os referenciais do padrinho, o recém-chegado foi buscar apoio em Gilmar Mendes — que é quem melhor encarna a figura do velho coronel políticoe passou a emular a arrogância incontida, a grosseria e a falta de limites do novo padrinho.. 


Em 2005, quando o escândalo do mensalão veio à tona, Toffoli respondia diretamente a José Dirceu, que foi apontado como chefe do esquema. Mas isso não o impediu de participar do julgamento da Ação Penal 470 (vulgo “processo do mensalão”) ou de votar pela absolvição de Dirceu. Em 2015, pediu transferência para a segunda turma, que ficou responsável pelos processos da Lava-Jato no STF. Foi ele quem sugeriu que casos sem conexão com a Petrobras não deveriam ficar sob a pena do então juiz Sérgio Morolivrando por tabela o rabo de Gleisi Hoffmann — e o autor do pedido de vista que interrompeu a votação da limitação do foro privilegiado de políticos quando já se havia formado maioria de ministros a favor.


A Lava-Jato chegou a bafejar o cangote do ministro quando Léo Pinheiro revelou que a OAS havia executado reformas em sua casa, mas a informação vazou, Veja publicou, Rodrigo Janot (que era petista de carteirinha) rodou a baiana e o acordo não chegou a ser firmado. A força-tarefa também descobriu que um consórcio suspeito de firmar contratos espúrios com a Petrobras repassou R$ 300 mil ao escritório de advocacia de Roberta Gurgel, mulher de Toffoli, de quem ele foi sócio até 2007 e de quem recebia uma mesada de 100 mil reais — metade desse valor era transferido para a conta de sua ex, Mônica Ortega, e a outra metade era usada para pagar despesas correntes, como faturas de cartão.


Os indícios de conexão de Toffoli com o caso Master já colocavam em xeque sua relatoria, mas o ministro Fachin, presidente de turno do STF, achou por bem evitar a abertura formal de um incidente de suspeição que poderia prolongar a crise e anular medidas já tomadas no processo.


Toffoli insistia na tese de que não havia impedimento nem suspeição, e se recusava a abrir mão da relatoria. Mas o impedimento decorrente de parentesco era de uma clareza meridiana, e a suspeição tornou-se cristalina quando o ministro buscou engessar as apurações da PF e assumir o o comando da investigação.


Os documentos sobre as transações apontavam para a venda do Resort Tayayá em 2021 e o pagamento de R$ 20 milhões, em 2024, à empresa da qual Toffoli era sócio administrador oculto. Dúvidas acerca do potencial econômico dos irmãos do ministro para a aquisição do empreendimento Tayayá levou seus pares a ponderar que seria melhor ele entregar os anéis do que perder os dedos.


Após novo sorteio, o ministro André Mendonça assumiu a relatoria da investigação  — sob uma chuva de críticas de seus pares à PF a pretexto de o material enviado ao STF ser fruto de uma investigação sem autorização judicial. A troca na relatoria preocupa especialmente setores do Congresso ligados ao senador Davi Alcolumbre, que segurou por cinco meses a sabatina do ministro "terrivelmente evangélico" indicado por Bolsonaro, numa clara tentativa de levar o então presidente a rever sua indicação.


Na avaliação desses parlamentares, Mendonça não deve impor limites para evitar que a investigação avance em eventuais relações políticas do ex-dono do Banco Master. Um dia após ser eleito relator, o ministro agendou um encontro com delegados da PF para avaliar o andamento e as próximas etapas das apurações. e o que não falta no elenco dessa novela é ator de rabo preso — parafraseando Ary do Cavaco e Bebeto di São João, se gritar pega ladrão não fica um.


Lula guarda mágoa de Toffoli porque ele não o autorizou a deixar a cadeia para acompanhar o enterro do irmãoVavá. No entanto, em 1978, quando seu pai foi sepultado como indigente no cemitério de Vicente de Carvalho, nenhuma mulher, ex-mulher ou filho se dignou a lhe conceder um túmulo.


Não se sabe ao certo quantos filhos o "homem das sete mulheres" espalhou pelo Brasil. Pelos cálculos de Frei Chico — que não era padre e tampouco se chamava Francisco — foram 19; pelas contas de Jackson Inácio da Silva, foram 25; e segundo Denise Paraná — biógrafa oficial do molusco —, foram 22. Mas o fato é que Lula nunca foi próximo de seus irmãos. 


Quando era líder sindical, o futuro presidente passou 30 dias nos porões da ditadura, mas o então diretor-geral do DOPS o autorizava a ler jornais, receber visitas importantes e até visitar a mãe, Dona Lindú, que estava com câncer terminal (ele ia deitado no banco traseiro de uma viatura, escoltado por agentes vestidos como operários). Quando ela morreu, ele foi autorizado a comparecer ao velório — onde sindicalistas bradavam Lula Livre e o cantor Agnaldo Timóteo pedia a prisão dos corruptos.


Durante a campanha presidencial de 2002, Lula derramou lágrimas de crocodilo para as câmeras de Duda Mendonça ao relembrar a morte de sua primeira mulher, Maria de Lourdes da Silva, embora não tenha esperado nem dois anos para engatilhar nova família ao lado de Marisa Letícia.


Entre 2003 e 2010, já inquilino Planalto, ele perdeu os irmãos João Inácio — que morreu de câncer em 2004 — e Odair Inácio — vítima de um infarto em 2005 —, mas não compareceu ao enterro de nenhum dos dois. Segundo o site Conexão Política, enquanto o corpo do primeiro era velado, o presidente jantava com ministros e assessores na Granja do Torto.


Em 2017, já em pré-campanha, transformou o velório de Marisa Letícia em comício e o cadáver em arma contra seus adversários políticos. Em 2018, fez de sua prisão um espetáculo de circo mambembe, com direito a missa campal, showmício e utilização de sindicalistas como escudos humanos. Em 2019, hospedado compulsoriamente numa cela VIP da PF em Curitiba, pareceu ter sido acometido por um mui suspeito e inesperado amor fraternal por Vavá.


Pouco antes da sessão administrativa secreta das togas na última quinta-feira, Lula chamou Paulo Gonet para uma conversa — lembrando que o PGR é o único que tem legitimidade para arguir o afastamento de um ministro do STF. Comenta-se nos bastidores que a aposentadoria compulsória de Toffoli chegou a ser cogitada, e que o ministro só desistiu da relatoria depois que o diretor-geral da PF entregou a Fachin um relatório sobre os dados extraídos do celular de Vorcaro, incluindo as menções do relator que motivaram a PF a pedir sua suspeição.

A desistência ocorreu um dia Em última análise, cabe a Gonet pedir autorização ao Supremo para investigar Toffoli criminalmente, sob pena de prevaricação.


No País dos Contrastes — como o Brasil era chamado até algum tempo atrás —, o fato de paradoxos abundarem no Judiciário não chega a surpreender. O mais recente é o comunicado sem pé nem cabeça divulgado pelo STF na noite da última quinta-feira. Sem pé porque o documento diz num trecho que Toffoli deixou a relatoria do inquérito sobre o Master "a pedido" e informa em outro que o plenário do tribunal decidiu por unanimidade que "não havia elementos" para considerá-lo um juiz suspeito. Sem cabeça porque ninguém com dois neurônios avalizaria a conduta do ministro, e seus pares fizeram questão de expressar por escrito seu "apoio pessoal" e enaltecer seu respeito pelos "altos interesses institucionais". 


Toffoli parece achar que o Brasil é 100% formado por idiotas, e esperteza, quando é demais, vira bicho e engole o dono. Já o STF — definido pelo ex-ministro Sepúlveda Pertence como um arquipélago de onze ilhas independentes e em constante conflito — cantou em coro a "dignidade" do colega ora na berlinda — lembrando que havia dez cabeças e poucos miolos na reunião em que o texto escabroso foi esboçado, já que a poltrona que pertencia ao ministro Luís Roberto Barroso ainda não foi ocupada.


Toffoli já perambulava com as indignidades à mostra antes de ser substituído, e ficou inteiramente nu depois que a PF esmiuçou suas relações pessoais e financeiras com Daniel Vorcaro. A questão agora é que o STF precisa liberar a PF para aprofundar a investigação dos indícios de envolvimento de uma toga despida em perversões criminais — blindada, sua
nudez conduz a crise do Judiciário à fase do despudor, e dignidade é como virgindade: não dá segunda safra. Mas ele não é o único que mantinha relações suspeitas com Vorcaro.: Alexandre de Moraes também é citado no relatório da PF, e não tem interesse no derretimento do colega.

Lula ouviu tanto Moraes quanto Gilmar Mendes padrinhos de Gonet em sua ascensão ao cargo de PGR — e ambos se empenharam em defender Toffoli, que tinha maioria de votos a seu favor — só Fachin e Cármen Lúcia sinalizavam ser contrários —, mas prevaleceu sugestão de Flávio Dino para uma nota pública com todos apoiando o ministro e uma troca na relatoria da investigação. Mas o cenário mudou devido aos diálogos revelados pelo site Poder360, que reproduzem as conversas de forma literal e precisa, sugerindo que alguém gravou clandestinamente aa sessão secreta do dia 12.

Toffoli negou ter feito qualquer registro e levantou a suspeita de que algum funcionário do Tribunal seja o responsável, mas a situação sem precedentes gerou uma quebra de confiança inédita, mesmo porque quem fez a gravação divulgou apenas trechos favoráveis ao ministro, sem mostrar a complexidade do que foi discutido na sessão.

Fato é que os supremos togados sabem o que fizeram e do que podem ser acusados pelos colegas, que também têm culpa no cartório. Edson Fachin foi alçado ao STF com apoio dos irmãos Batista, da J & F; Luiz Fux foi apadrinhado por Sérgio Cabral; Gilmar Mendes e André Mendonça fazem parte de organizações que promovem encontros empresariais e seminários patrocinados e/ou financiados por empresas e empresários com ações em trâmite no STF; Nunes Marques também é empresário “nas horas vagas”; enfim, somente Cármen Lúcia e Cristiano Zanin parecem “sobrar”.


Uma matéria recente do Estadão mostrou que cerca de 70% das ações de escritórios de parentes de ministros correm no próprio Supremo — ou seja, o sangue fala mais alto na hora da escolha dos advogados, e o DNA fala mais alto ainda na hora do acerto dos honorários. A despeito do corporativismo estrutural de todos os órgãos públicos, é inegável que há algo estranho nessa relação de compadrio explícito, quase subserviente, que impera na mais alta casa de Justiça deste país. A mídia e a população mais antenada desconfiam do porquê, mas suas excelência sabem muito bem os motivos — tão bem como sabem valorizar o segredo.

Triste Brasil.