quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O MONSTRO DE OLHOS VERDES

O CIÚME É UMA FORMA DE AMOR OU APENAS UMA FORMA DE POSSE?

Costuma-se dizer que “ciúme não é de todo ruim: a pessoa se sente valorizada”. No entanto, não se trata de uma opinião unânime. Para muita gente, “ciúme é uma merda” — e ponto final.


Mas afinal, o que é o ciúme? Uma reação natural à ameaça de perder alguém que amamos? Uma característica inata do Homo sapiens, desenvolvida ao longo da evolução para proteger parceiros, vínculos e descendentes? Ou simplesmente uma construção cultural das sociedades que adotaram a monogamia como modelo predominante?


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Ao decidir não decidir, os ministros do STF deram margem a dois finais, nenhum dos dois feliz; na melhor das hipóteses, Alexandre de Moraes passará de juiz implacável a investigado precário; na pior, as suspeitas sobre o relacionamento potencialmente criminoso do magistrado com Daniel Vorcaro serão ignoradas. 

A primeira alternativa seria melhor, pois abriria a perspectiva de que outras togas sob suspeição fossem investigadas. A segunda é pior porque representaria o suicídio do Supremo, que cavou a própria cova em fevereiro, ao ignorar as 35 milhões de razões que a PF apresentou para a abertura de um inquérito contra Dias Toffoli, e, ao blindar Moraes, joga terra em cima de si mesmo.

Não são apenas os erros que matam uma instituição, mas o modo como reagem seus membros depois de cometê-los. Certas togas aprendem tanto com seus erros que flertam com a tentação de cometer mais alguns. Todos são iguais perante a lei, mas são piores os que, tendo a obrigação de proteger a Constituição, afrontam os princípios constitucionais.

Moraes estreou na vida pública como promotor. Foi um exímio acusador. No Supremo, tornou-se um juiz implacável. Forçado pelas circunstâncias a advogar em causa própria, aplica mal os princípios que fizeram seu sucesso. Em vez de se defender, ataca. Rigoroso com os outros, pede ao país que seja condescendente com ele. Sua defesa tem 44 páginas, chama de "farsa" o relatório da PF, sustenta que André Mendonça encomendou o documento por "motivação político-eleitoral" e que é vítima de "vingança" de uma toga bolsonarista pelas condenações de Bolsonaro e seus cúmplices no complô do golpe.

Mendonça, de fato, não é cristão que se cheire. Virou boneco inflável em comício de Flávio Bolsonaro. Mas isso não apaga as 52 mensagens endereçadas por Daniel Vorcaro ao celular do ministro mais poderoso do Supremo até o ano passado. Se pudesse, Moraes diria: não recebo mensagem de bandido. Cuidadoso, preferiu construir um teste de múltipla escolha: Letra A) o conteúdo do bloco de notas de Vorcaro pode não ter sido enviado a alguém; letra B) pode ter sido remetido a diversas pessoas; letra C) as mensagens talvez tenham sido apagadas antes de serem visualizadas; letra D) as mensagens talvez nunca tenham sido efetivamente lidas. Por fim, Moraes realçou que não há vestígio de mensagem enviada por ele a Vorcaro. Portanto, os diálogos são fantasiosos".

O ministro não mencionou que trocou de celular. Como o aparelho não foi cedido nem apreendido pela PF, a tese da fantasia vale até certo ponto: o ponto de interrogação. A dúvida pede investigação. Moraes considera-se merecedor de uma estátua por ter ajudado a salvar a democracia. O problema é que virou pardal de si mesmo. Começou a sujar a calva de bronze ao avalizar o contrato de R$ 131 milhões do Master com o escritório da mulher. Descobre agora que o Olimpo não tem escadas.


A resposta, como quase sempre acontece quando o assunto é comportamento humano, parece ser: um pouco de cada coisa. Pesquisadores que estudam o comportamento sob uma perspectiva evolucionista consideram que o ciúme pode ter desempenhado uma função adaptativa: diante da ameaça real ou imaginária de um rival, ele poderia estimular comportamentos destinados a preservar uma relação considerada valiosa. Daí surgiriam estratégias de “retenção do parceiro”, que podem ir de atitudes perfeitamente inofensivas — demonstrar afeto, aproximar-se, reforçar o vínculo — até comportamentos de controle e, nos casos extremos, violência.


Mas Isso não significa que o ciúme seja um “programa genético” inevitável, nem que comportamentos destrutivos possam ser justificados pela evolução. A própria pesquisa mostra que a intensidade e a forma de manifestação do ciúme variam conforme a cultura, a experiência de vida, as características do relacionamento e até as atitudes de cada indivíduo diante da infidelidade.


Discussões acadêmicas à parte, o ciúme já rendeu muito boa literatura. Ele aparece em textos religiosos antiquíssimos — inclusive no livro de Números, onde existe uma curiosíssima “lei dos ciúmes”, destinada a lidar com a suspeita de infidelidade conjugal. O marido podia levar a mulher diante do sacerdote para que sua suspeita fosse submetida a um ritual. Ou seja: a humanidade já havia descoberto, há muitos séculos, que o ciúme também precisava de burocracia.


Na literatura clássica, o tema aparece sob inúmeras formas. Está por trás de conflitos da Ilíada, explode em episódios do Decameron, de Boccaccio, e reaparece, com roupagens diferentes, em incontáveis histórias de amor, traição e vingança. Mas sua expressão literária mais conhecida talvez seja mesmo Otelo, de William Shakespeare.


Embora a ideia não fosse original — Shakespeare baseou-se em uma narrativa italiana anterior —, o tratamento que deu ao tema, a construção dos personagens e, sobretudo, a exploração dos mecanismos psicológicos envolvidos fizeram da peça uma das obras-primas da literatura universal.


Otelo é, essencialmente, uma peça sobre o ciúme. Resumindo — e simplificando bastante —, a história começa em Veneza. Otelo, um general mouro a serviço da República, casa-se secretamente com Desdêmona, filha de um importante senador veneziano. Entre seus subordinados está Iago, que guarda ressentimento contra o comandante por ter sido preterido numa promoção em favor do jovem Cássio.


Iago é um sujeito ressentido, inteligente e perverso. E descobre uma arma muito mais poderosa que uma espada: a dúvida. Por meio de insinuações, meias-verdades e mentiras cuidadosamente construídas, ele faz Otelo acreditar que Cássio é amante de Desdêmona. O que começa como uma suspeita vai ganhando corpo na imaginação do general até se transformar, para ele, numa certeza. E é aí que Shakespeare mostra o verdadeiro poder destrutivo do ciúme.


Otelo deixa de enxergar o mundo como ele é e passa a enxergá-lo como o ciúme determina que ele seja. Cada gesto de Desdêmona pode ser interpretado como prova de infidelidade; cada coincidência, como evidência; cada explicação, como tentativa de encobrir a verdade.


O ciúme já não precisa de fatos. Ele próprio produz os fatos de que necessita. Iago percebe isso perfeitamente e pronuncia uma das frases mais famosas da literatura: “Oh, tende cuidado com o ciúme. É um monstro de olhos verdes que zomba da carne de que se alimenta.”


A expressão “monstro de olhos verdes” entrou para a linguagem corrente como metáfora do ciúme. E há uma ironia deliciosa na imagem: o monstro alimenta-se justamente da pessoa que o abriga. Quanto mais ciúme, mais sofrimento; quanto mais sofrimento, mais motivos imaginários para sentir ciúme.


Shakespeare volta ao assunto pouco depois, quando Emília observa que certas pessoas “não são ciumentas por causa de alguma coisa: são ciumentas porque são ciumentas”. É uma observação extraordinariamente moderna. O ciúme pode deixar de ser reação a uma ameaça e transformar-se em um sistema autossustentável de suspeitas. É exatamente aí que a literatura encontra a psicologia.


O ciúme começa, muitas vezes, como uma emoção perfeitamente compreensível: “Tenho medo de perder alguém que considero importante.” O problema aparece quando o medo se transforma em vigilância; a vigilância, em controle; o controle, em posse; e a posse, em violência. E talvez seja justamente por isso que o ciúme tenha sobrevivido tão bem ao longo da história humana. Ele toca em algo bastante primitivo: o medo da perda.


Perder o parceiro, perder a atenção, perder o afeto, perder o lugar que ocupamos na vida de alguém. Em termos evolucionistas, a ameaça de um rival poderia representar perda de investimento, de proteção, de parceria ou, em sociedades ancestrais, problemas relacionados à reprodução e à sobrevivência da prole. Não é por acaso que a ciência trata o ciúme como uma emoção associada à ameaça de perda de um relacionamento valioso.


Mas seria simplista concluir que tudo se resume à biologia. A cultura entra em cena com enorme força. O que é considerado traição varia entre sociedades; o que um casal considera aceitável ou inaceitável também varia; e até a importância atribuída à exclusividade sexual e emocional pode mudar conforme a época e o grupo social.


Além disso, as pessoas não sentem ciúme exatamente da mesma maneira. Há quem sofra mais diante da possibilidade de uma ligação emocional do parceiro com outra pessoa; há quem se angustie principalmente diante da possibilidade de uma relação sexual. Pesquisas encontram diferenças médias entre homens e mulheres em determinados cenários, mas também mostram que essas diferenças são influenciadas por fatores culturais, biográficos e relacionais. Portanto, talvez a pergunta correta não seja se o ciúme é “inato” ou “cultural”.


É provável que exista uma predisposição humana para reagir à ameaça de perder um vínculo importante, enquanto a cultura, a personalidade e a história de cada pessoa determinam boa parte da maneira como essa predisposição será expressa. Em outras palavras: a natureza pode fornecer o pavio; a cultura e a experiência decidem, em boa medida, o que será feito com a pólvora.


E, por falar em literatura, há outro personagem que sempre me vem à lembrança quando penso no assunto: Luzia Cambará, de O Continente, primeira parte de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. De todos os volumes da obra, o episódio que mais me fascina é justamente “A Teiniaguá”, narrativa em que surge Luzia, personagem extraordinariamente complexa, sedutora e inquietante.


Luzia é casada com Bolívar Cambará e parece exercer sobre ele uma espécie de fascínio que mistura desejo, medo, sofrimento e ciúme. É uma personagem de personalidade perturbadora, marcada por uma sensualidade quase ameaçadora e por uma relação peculiar com o sofrimento alheio. 


Seu apelido, “Teiniaguá”, não é gratuito: a Teiniaguá pertence à tradição lendária gaúcha da Salamanca do Jarau: uma princesa moura transformada em uma criatura semelhante a uma salamandra, com uma pedra preciosa na cabeça, cuja beleza e fascínio atraem os homens. A lenda foi registrada por João Simões Lopes Neto em Lendas do Sul e serviu de inspiração para Érico Veríssimo.


Luzia é, portanto, uma espécie de Teiniaguá humana: fascinante e perigosa. E aqui aparece uma diferença interessante em relação a Otelo. Em Shakespeare, o ciúme é essencialmente destrutivo para aquele que o sente e, sobretudo, para aquele que dele se torna vítima. Otelo acredita na infidelidade de Desdêmona, deixa-se consumir pela suspeita e acaba assassinando a mulher que ama — que, ironicamente, jamais o traiu.


Em O Tempo e o Vento, o ciúme de Bolívar assume outra configuração. Luzia não é simplesmente uma vítima passiva da paixão possessiva do marido. Ela parece provocar, explorar e até se alimentar desse sofrimento. O ciúme, nesse caso, participa do próprio jogo de poder e sedução entre os personagens. São, portanto, duas faces literárias de uma mesma emoção: Desdêmona é vítima do monstro de olhos verdes. Luzia parece brincar com ele.


E há uma curiosidade pessoal nessa história que talvez seja imperdoavelmente pouco científica, mas absolutamente verdadeira. No seriado O Tempo e o Vento, exibido pela Globo em 1985, e de Carla Camurati interpretando Luzia. O rosto da atriz ficou indelevelmente associado à personagem. Depois disso, tornou-se praticamente impossível encontrar Carla Camurati na televisão ou no cinema sem que aquela Luzia me viesse imediatamente à lembrança. Talvez seja esse o poder da literatura — e, por extensão, do cinema e da televisão: determinados personagens deixam de pertencer exclusivamente ao autor e passam a morar na memória de quem os conheceu.

Voltando ao ciúme, não creio em amor completamente desprovido de qualquer forma de ciúme. Afinal, se alguém ocupa lugar importante em nossa vida, é natural que a possibilidade de perdê-lo provoque alguma inquietação. Mas há uma diferença enorme entre “não quero perder você” e “você não pode pertencer a mais ninguém”. No primeiro caso, existe afeto; no segundo, existe existe posse. E talvez esteja aí a fronteira que realmente importa.


Um pouco de ciúme pode ser apenas o reconhecimento de que o outro é importante. Quando moderado e transformado em diálogo, pode até reforçar a percepção de valor e compromisso dentro de uma relação. Mas, quando se transforma em vigilância, desconfiança permanente, controle, isolamento ou ameaça, deixa de ser demonstração de amor e passa a ser uma forma de sofrimento — para quem sente e, principalmente, para quem é submetido a ele.


No fundo, amar alguém talvez seja aceitar uma coisa bastante incômoda: ninguém possui ninguém. O outro permanece porque quer permanecer, e talvez seja justamente isso que torne uma relação amorosa tão bonita — e tão assustadora. Porque, no amor, não existe contrato de propriedade. Existe escolha. Todos os dias.


E que saudades da Carla Camurati...

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

CRISTAL QUE VIRA BURACO NEGRO

A VIDA É 10% O QUE ACONTECE E 90% COMO A GENTE REAGE A ISSO.

Em 1783, o clérigo e cientista inglês John Michell propôs a existência de "estrelas escuras" e sugeriu que seria possível detectá-las pela influência gravitacional exercida sobre estrelas luminosas que orbitassem ao seu redor.

Treze anos depois, em 1796, o matemático e astrônomo francês Pierre-Simon de Laplace chegou independentemente à mesma conclusão e a publicou no livro Exposition du Système du Monde

Mas foi a Teoria da Relatividade Geral, apresentada por Einstein em 1915 e publicada em sua forma definitiva em 1916, que forneceu as bases matemáticas modernas para a existência dos buracos negros — nome cunhado décadas mais tarde pelo astrônomo norte-americano John Wheeler — e contribuiu para sua popularização tanto na ciência quanto na ficção científica.

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Numa crise institucional, só há duas posições possíveis para um presidente da República: ou é parte da solução ou é parte do problema. 

Flávio Bolsonaro se aproveita do silêncio do Planalto para arrastar Lula para o mesmo pântano em que se encontra Alexandre de Moraes. Antes de reagir, Lula decidiu flertar com a imprudência: testa a profundidade do lodo do Supremo com os dois pés.

Estalando de pureza moral, o filho de Bolsonaro sonega explicações sobre o Dark Horse e cavalga o mote "Fora Lula - Fora Moraes" para turbinar nas redes o ato bolsonarista de 7 de Setembro.. Simultaneamente, Lula se encontrou com três togas em dois dias — na terça-feira, Gilmar Mendes e Edson Fachin; quarta, Flávio Dino.

Gilmar foi o mais explícito. Disse a Lula que o governo é culpado pela crise que engolfa o Supremo. Nessa versão, o Planalto teria ignorado alertas do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, sobre intromissões de André Mendonça nas investigações do caso Master e do INSS. Lula optou pela tentativa de pacificação sugerida pelo advogado-geral Jorge Messias, "irmão em Cristo" de Mendonça.

Há um mês, Lula tomou um lado e assumiu um risco ao fazer as pazes com Davi Alcolumbre num jantar na casa de Moraes. Agora, demora a notar que o silêncio deixou de ser uma opção. O caso das relações promíscuas do togado com Vorcaro passou de problema de um magistrado para crise institucional do Supremo, com respingos na PGR e na PF.

Conviria ao molusco eneadáctilo informar rapidamente de que lado escolheu ficar. Um posicionamento adequado não resolve a crise, mas ajudaria a expor o cinismo do 7 de Setembro bolsonarista.

Einstein morreu 64 anos antes que o telescópio Event Horizon capturasse a primeira imagem de um buraco negro, localizado no centro da galáxia Messier 87, a cerca de 53 milhões de anos-luz da Terra (aproximadamente 503,5 quintilhões de quilômetros). A fotografia, divulgada em 2019, confirmou de maneira impressionante a existência desses objetos, que normalmente se formam quando estrelas muito massivas colapsam ao final de sua evolução, podendo também resultar da fusão entre estrelas de nêutrons ou entre buracos negros menores.

Os buracos negros são invisíveis, mas "engolem" tudo o que se aproxima de seu horizonte de eventos, região onde a força gravitacional é tão intensa que nem mesmo a luz consegue escapar. Vale destacar que o termo singularidade costuma ser usado indevidamente como sinônimo de buraco negro, embora designe, na verdade, um ponto onde, segundo as equações da Relatividade Geral, a densidade tenderia ao infinito, produzindo uma curvatura igualmente infinita no espaço-tempo. Mais correto seria dizer que os buracos negros constituem o melhor exemplo de lugares onde uma singularidade pode existir.

Os cientistas ainda não sabem exatamente o que acontece com um objeto depois que ele cruza o horizonte de eventos. Devido aos efeitos da dilatação gravitacional do tempo, escritores e roteiristas costumam associar os buracos negros às viagens no tempo. Curiosamente, porém, são os hipotéticos buracos de minhoca — também chamados de Pontes Einstein-Rosen — que, em teoria, poderiam funcionar como atalhos cósmicos, encurtando a distância entre dois pontos do Universo ou até mesmo entre diferentes momentos da linha do tempo.

O nome buraco de verme, tradução literal de wormhole, surgiu da analogia com o túnel aberto por um verme ao atravessar uma maçã, chegando ao lado oposto sem percorrer toda a superfície da fruta. Em algumas soluções matemáticas da Relatividade Geral, esses "atalhos" aparecem associados aos buracos negros, razão pela qual muitos especulam que civilizações extraterrestres tecnologicamente avançadas poderiam utilizá-los para viajar pelo cosmos.

Ao contrário dos buracos negros, que já foram fotografados, os buracos de minhoca continuam sendo apenas soluções matemáticas sem qualquer comprovação experimental. Alguns cientistas acreditam que, caso esses túneis possuam entradas com raios entre 100 e 10 milhões de quilômetros e sejam tão numerosos quanto as estrelas, sua detecção poderá ser apenas uma questão de tempo. Por outro lado, considerando que um dos buracos negros conhecidos mais próximos da Terra está a cerca de 1.600 anos-luz de distância, viajar até ele na velocidade da Parker Solar Probe — o artefato mais veloz já lançado pela NASA, que atingiu 0,064% da velocidade da luz em dezembro de 2024 — levaria aproximadamente 2,5 milhões de anos.

Buracos negros microscópicos podem surgir durante um processo conhecido como colapso crítico, quando o espaço-tempo passa a se organizar em uma estrutura regular semelhante a um cristal. Até recentemente, essa possibilidade existia apenas no campo da teoria. Agora, um trio de pesquisadores das universidades de Frankfurt e Viena conseguiu demonstrá-la matematicamente pela primeira vez.

A ideia pode parecer estranha, mas a analogia é simples. Assim como as moléculas de água podem se reorganizar espontaneamente para formar um cristal de gelo, a curvatura do espaço-tempo também pode, em determinadas condições, organizar-se de maneira altamente regular, formando aquilo que os físicos chamam de cristal espaço-temporal.

Trata-se de um estado intermediário extremamente instável, capaz de evoluir em duas direções completamente diferentes: dissolver-se novamente, retornando ao espaço-tempo comum preenchido por partículas em movimento livre, ou seguir outro caminho e colapsar, dando origem a um minúsculo buraco negro.

Para compreender melhor esse comportamento, vale recorrer novamente ao exemplo da água. Pouco antes do congelamento, ela permanece líquida, embora esteja muito próxima da transição para o estado sólido. Nessa situação, uma variação mínima de temperatura basta para reorganizar completamente suas moléculas, transformando água líquida em um cristal de gelo.

Segundo a Relatividade Geral, algo semelhante pode ocorrer com o próprio tecido do Universo. Sempre que se deslocam, as partículas influenciam a geometria do espaço-tempo, que é deformado pela presença da massa e da energia. Corpos gigantescos, como estrelas, produzem curvaturas intensas; objetos menores também deformam o espaço-tempo, porém em escala reduzida. Em circunstâncias muito especiais, essa curvatura pode reorganizar-se espontaneamente em um cristal espaço-temporal, abrindo caminho para o surgimento de um buraco negro microscópico.

Ao estudar esse fenômeno em um universo com muitas dimensões, os pesquisadores descobriram algo surpreendente: em vez de tornar os cálculos mais complicados, o aumento do número de dimensões simplificou drasticamente a matemática, permitindo encontrar uma solução exata para a possível transformação do cristal espaço-temporal em um buraco negro. O próximo desafio será verificar se essa solução também pode ser adaptada ao nosso Universo de quatro dimensões. Se isso acontecer, os físicos poderão compreender melhor a realidade em que vivemos recorrendo, paradoxalmente, a um universo hipotético com infinitas dimensões.

Às vezes, para encontrar o caminho mais curto até a realidade, é preciso fazer um enorme desvio pela matemática. Afinal. o Universo nunca foi adepto do caminho mais fácil. Se ele consegue transformar o espaço-tempo em um cristal e, logo depois, em um buraco negro, quem somos nós para reclamar quando a vida complica um simples quebra-cabeça?

terça-feira, 15 de setembro de 2026

MITOS E VERDADES SOBRE A BATERIA DO CELULAR

QUEM SABE FAZ, QUEM COMPREENDE ENSINA. 

Depois que os dumbphones se tornaram smart, a autonomia da bateria se tornou tão importante quanto a memória e o armazenamento interno. Embora esses componentes tenham evoluído significativamente desde os jurássicos modelos à base de níquel-cádmio, o tempo durante o qual o aparelho opera longe da tomada depende da capacidade de sua bateria, do seu consumo energético e do perfil do usuário.

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Fachin desligou Mendonça da tomada. Assumiu no sábado a relatoria do caso sobre as relações potencialmente criminosas entre Moraes e Vorcaro. Com isso, será o presidente da corte, e não Mendonça, quem fará o relato dos fatos na sessão plenária da próxima terça-feira. Caberá a ele também proferir o primeiro voto e dizer se há indícios fortes o bastante para investigar Moraes.

A conjuntura exala um aroma de história. É a primeira vez que o plenário do Supremo se reúne para decidir se abre investigação criminal contra uma de suas togas. O ineditismo está crivado de suprema ironia. Moraes é vice-presidente do tribunal. Se nada acontecer, assumirá o comando em setembro de 2027.

Há o risco de um pedido de vista na sessão desta terça. Isso adiaria a decisão. Mas antes de executar a manobra, a falange pró-Moraes terá que ouvir o voto de Fachin. Ele tem declarado que seu dever é "assegurar a integridade" do Supremo. Não é desprezível a hipótese de Fachin votar pela investigação. Ainda que surja no plenário um pedido de vista, ministros contrários ao adiamento podem antecipar seus votos. Isso não impediria a postergação, mas pioraria a imagem de Moraes. 

Nunca um vice do Supremo pareceu tão controversa — a ponto de a eventual vitória de um magistrado ser tratada como perdição da instituição.


Uma bateria de 12 V fornecendo uma corrente de 2 A estará entrega 24 W de potência (tensão × corrente). Um mAh (miliampere/hora) corresponde à carga elétrica transferida por uma corrente constante de um miliampere durante uma hora. Já a potência da bateria é expressa em watts (W) ou joules por segundo (J/s). Assim, se uma bateria opera entre 3,7 V a 4,4 V e fornece 2A, sua potência instantânea fica entre 7,4 W e 8,8 W. No entanto, quanto mais recursos forem ativados, mais rápido a reserva de energia irá se esgotar. 

Em tese, quanto maior a capacidade, maior tende a ser a autonomia da bateria. Na prática, porém, dois aparelhos idênticos usados por pessoas de perfis diferentes podem exigir recargas em intervalos distintos. E como nem mesmo as baterias de 5.000 ou 6.000 mAh desobrigam os heavy users de fazer um “pit stop” entre recargas, os carregadores rápidos se tornaram um item de primeira necessidade.


É possível aumentar a capacidade das baterias (haja vista os modelos que equipam os cada vez mais comuns veículos elétricos). O problema é obter esse resultado sem comprometer o tamanho do componente ou elevar excessivamente seu custo de fabricação. 


A chinesa Xiaomi surpreendeu o mercado no ano passado com o lançamento do Redmi K80 Ultra — modelo de preço intermediário que integra uma bateria de silício-carbono de 7.410 mAh, capaz de resistir até dois dias de uso intenso — e carregamento rápido de 100W — que recupera até 80% da carga em menos de 30 minutos. A também chinesa Oukitel oferece modelos com bateria de 18.000 mAh, que proporcionam 10 dias de uso moderado ou até 4 dias de uso intenso sem necessidade de recarga (o WP19 chega a 21.000 mAh e promete uma semana completa mesmo em uso intenso, mas nem todo mundo está disposto a carregar no bolso um "tijolão" que lembra um rádio comunicador militar.


A pergunta é: se é possível equipar smartphones com baterias de mais de 10.000 mAh, o que a Apple, a Samsung e a Motorola estão esperando para lançar modelos com esse "poder de fogo"? A resposta está no equilíbrio entre design e usabilidade: a maioria dos usuários prioriza aparelhos finos e leves, confortáveis no bolso e na mão, e uma bateria convencional dessa capacidade exigiria um aparelho muito mais espesso e pesado que um iPhone. E isso sem falar no custo de fabricação e no tempo de recarga, que pode variar entre 3 e 5 horas, mesmo com carregadores rápidos.


A Honor já oferece smartphones com baterias de silício-carbono que prometem até três dias de autonomia e mantêm a capacidade máxima de carga mesmo após três anos de uso. A Realme já apresentou protótipos com baterias de 10.000 mAh — um avanço significativo em relação às baterias convencionais de 5.000 mAh da concorrência. O iPhone 17 Air integra uma bateria com maior densidade energética do que a dos dispositivos baseados em polímeros de lítio.


Pesquisas em outros segmentos apresentam avanços notáveis: os chineses criaram uma mini bateria nuclear que promete durar mais de 7.000 anos (destinada principalmente a sensores, dispositivos médicos e aplicações de baixíssimo consumo), enquanto os dinamarqueses desenvolveram uma superbateria com eficiência de 90%, capaz de abastecer 100 mil casas por até 10 horas. Mas ainda não se sabe quando — nem se — essas soluções chegarão ao usuário final.


Existem diversas recomendações relacionadas ao uso da bateria que deixaram de fazer sentido quando os fabricantes substituíram o níquel-cádmio pelos íons de lítio (ou polímeros, em alguns casos). Entre outras coisas, essa mudança pôs fim ao famigerado "efeito memória" — perda progressiva da capacidade de carga quando a reserva de energia não era esgotada integralmente antes de a bateria ser recarregada. 


Observação: Os dumbphones passavam dias longe da tomada porque eram usados basicamente em chamadas de voz e mensagens de texto. Já os smartphones rodam sistemas complexos e executam os mais diversos aplicativos, daí seu consumo energético ser maior, e sua autonomia, menor.


Concluído esta (não tão) breve contextualização, resta lembrar a quem interessar possa que tanto a autonomia quanto a vida útil das baterias podem ser prolongadas com a adoção de alguns cuidados simples, mas, de novo, é preciso separar o joio do trigo, ou melhor, os mitos da realidade. 


Usar o aparelho durante a recarga da bateria não causa danos, mas retarda o processo. Para ganhar tempo, ative o "modo avião" ou simplesmente desligue o telefone durante a recarga — isso mata dois coelhos com uma única cajadada, já que reiniciar (ou desligar e religar) o dispositivo diariamente ou a cada dois ou três dias ajuda a manter o desempenho nos trinques. 


Embora não seja o ideal, você pode utilizar carregadores de outras marcas, mas convém fugir de produtos xing-ling, vendidos por uma fração do preço dos originais, pois eles não passam de imitações baratas que podem causar estragos e pôr em risco sua segurança. Use somente dispositivos certificados e compatíveis com os padrões exigidos pelo fabricante (USB Power Delivery, Quick Charge etc.)."


Convém também evitar manter o telefone na carga por mais tempo que o necessário (os fabricantes recomendam manter o nível de carga entre 20% e 80%). É fato que os riscos de superaquecimento e explosão são desprezíveis quando a bateria e o carregador são originais ou homologados pelo fabricante do celular, já que um sistema inteligente interrompe a passagem de corrente quando a bateria está cheia —, mas seguro morreu de velho. 


Retire o carregador da tomada quando terminar de carregar a bateria, — mantê-lo conectado à tomada desnecessariamente gera o chamado "consumo fantasma", diminui a vida útil do dispositivo e aumenta o risco de acidentes. 


Observação: O consumo é extremamente baixo para um carregador original e certificado, mas o desgaste contínuo dos circuitos internos é real, pois o carregador é essencialmente uma fonte de alimentação eletrônica chaveada — quando você o mantém na tomada, seus circuitos ficam permanentemente energizados e aquecidos, sem falar nos danos causados por eventuais picos ou quedas de tensão da rede elétrica (comuns durante tempestades com raios). Quando a bateria está carregada, os aparelhos simplesmente interrompem o processo, mesmo que você o mantenha conectado ao carregador, mas, pelo menos até onde se sabe, cautela e canja de galinha (se me concedem a redundância) nunca fizeram mal a ninguém. 


Se o manual de instruções do seu aparelho recomendar uma carga completa antes de ser colocado em uso (alguns, inclusive, falam em deixar o aparelho carregando por 12 ou mesmo 24 horas), ignore, pois as baterias modernas costumam vir com pelo menos 40% de carga. Por outro lado, considerando que a configuração do aparelho novo — e a importação dos dados armazenados no aparelho antigo — consomem muita energia, de maneira que o ideal é executar esse processo quando a bateria estiver 100% carregada ou com o carregador conectado ao aparelho e à tomada. 


Embora seja normal o smartphone e o carregador aquecerem durante a recarga, executar esse procedimento em local ventilado e abrigado da luz solar ajuda a manter a temperatura em patamares aceitáveis. Além disso, evite deixar a bateria carregando durante toda a noite — mesmo que o processo seja interrompido quando o nível de carga atinge 100%, o ideal é desconectar o telefone do carregador e este da tomada quando a bateria estiver de 80% a 100% carregada, e então remova o carregador da tomada (na hora de colocar o aparelho para carregar, conecte primeiro o carregador na tomada e depois o cabinho no telefone).  


As baterias são projetadas para suportar de 800 a 1.600 ciclos completos de carga (usar 50% da bateria em um dia, carregá-la até 100%, usar outros 50% no dia seguinte e tornar a carregá-la também conta como um ciclo completo), o que representa uma vida útil de 3 a 5 anos. Considerando que a maioria de nós troca o aparelho por um modelo novo a cada 2 anos, em média, essa vida útil costuma ser mais que suficiente. 


A despeito da evolução ocorrida nos últimos anos ter anulado o efeito memória e sanado outros problemas dos tempos de antanho, as baterias continuam sujeitas às leis da Física. Enquanto não inventarem um smartphone que funcione uma semana inteira longe da tomada sem ganhar o tamanho de um tijolo baiano, resta ao usuário administrar bem a energia disponível e desconfiar de receitas milagrosas espalhadas pela internet.


Afinal, quando o assunto é bateria, há muito mais mitos do que miliampères.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

NOVIDADES NO GMAIL

QUANTO MAIS VOCÊ CONHECE UM TEXTO, MENOS VOCÊ O LÊ.


O conceito de correio eletrônico surgiu em meados dos anos 1960, mas a versão aprimorada por Ray Tomlinson em 1971 foi a primeira capaz de enviar mensagens entre diferentes nós conectados à ARPANET — que mais adiante daria origem à Internet.

 

Uma vez que as mensagens chegavam ao destinatário em poucos segundos — enquanto as cartas tradicionais levavam dias ou semanas, conforme a distância —, o e-mail logo se tornou o webservice mais popular entre os internautas, sobretudo quando se tornou capaz de transportar arquivos digitais como anexos.


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Faltando menos de um mês para o primeiro turno das eleições, um relatório da Polícia Federal deflagrou uma crise sem precedentes que atinge em cheio alguns dos princípios mais caros ao sistema judicial. Em meio às investigações sobre as fraudes do Banco Master, foram encontradas mensagens que revelaram a existência de relações aparentemente impróprias entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mentor e protagonista de um dos maiores escândalos financeiros da história do país.

Vieram a público detalhes inéditos da contratação pelo banco do escritório de advocacia da mulher do ministro por 129 milhões de reais, bem como que, ao ser informado (não se sabe como nem por quem) de que a polícia estava na iminência de prendê-lo, Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o país, pediu ajuda para bloquear “as maldades” contra ele e ainda deixou transparecer que ambos contavam com a camaradagem do PGR e do diretor da Polícia Federal. Não se sabe o que o magistrado respondeu, pois as mensagens dele nos diálogos foram enviadas com o recurso de visualização única.

Ao tomar conhecimento do teor das mensagens, o ministro relator do caso, André Mendonça, requisitou ao presidente do Supremo, Edson Fachin, que convocasse o plenário para discutir uma eventual autorização para investigar o colega — um procedimento correto diante da gravidade do que havia sido descoberto. Inconformado com a iniciativa. Moraes acusou Mendonça de usurpar atribuições da polícia, de atuar com parcialidade e de abusar de sua autoridade, além de pedir autorização para investigar Mendonça — e usou o notório inquérito das fake news, uma aberração jurídica que tramita no Supremo há mais de sete anos, para abrigar relatórios de inteligência que levantavam dúvidas sobre a imparcialidade de Mendonça e sugeriam, entre outras barbaridades, que existiria um conluio religioso entre ele e o AGU, Jorge Messias. 

Os relatórios, repassados ao ministro por Andrei Rodrigues, diretor da PF, eram apócrifos, algumas das inferências eram classificadas como de “baixa confiança” e, a certa altura, os autores sugeriam que a comprovação dos fatos autorizava “monitoramento e coleta dirigida”.

Na terça-feira, 8, Mendonça afastou do cargo o delegado Andrei Rodrigues. suspeito de vazar propositalmente informações que visavam embaralhar o trabalho de apuração e proteger algumas pessoas. Os relatórios de inteligência que pousaram no gabinete de Moraes reforçaram essa convicção — Andrei é próximo de Moraes e, como ele, teria interesse em impedir o avanço da apuração sobre as conexões de Vorcaro. O motivo seria a autoproteção.

No despacho que afastou o delegado, Mendonça afirmou que foi espionado de maneira ilegal pela Polícia Federal.

Vamos ver que bicho dá.


Num primeiro momento — e durante muito tempo, diga-se —, os neófitos ostentavam orgulhosamente endereços eletrônicos com seus nomes e sobrenomes, mas à medida que a privacidade se tornou uma preocupação, usar esses endereços é como entregar, numa salva de prata, informações pessoais aos cibercriminosos.


Ainda assim, muita gente mantém em uso suas conta de email de antanho, quanto mais não seja porque seu endereço serve para acessar redes sociais, lojas virtuais, aplicativos financeiros e uma série de webservices, e alterá-lo pode ser tão problemático quanto mudar o número do celular.


A boa notícia é que o Google vem liberando gradualmente uma atualização que permite aos usuários do Gmail alterar o prefixo do endereço (a parte que antecede @gmail.com) sem perder suas compras na Play Store, o acesso a arquivos armazenados no Drive e no Fotos, os logins em aplicativos bancários, lojas virtuais e sites de terceiros que usam o login simplificado do Google como base de acesso.


Realizar a modificação é um procedimento simples, que pode ser feito por meio do painel de informações pessoais da conta Google, em qualquer navegador ou aplicativo móvel. Uma vez atualizado, o sistema vincula automaticamente o endereço anterior como e-mail alternativo, garantindo que todas as mensagens enviadas ao nome antigo continuem chegando normalmente à nova caixa de entrada.


A opção já está disponível no Brasil, mas impõe algumas restrições — entre as quais a criação de novos endereços somente uma vez a cada 12 meses e limitada a três alterações por conta (totalizando quatro endereços diferentes ao longo do tempo). Uma vez criado o novo e-mail — cujo domínio (a porção que fica à direita do "@") deve ser o mesmo (gmail.com) —, não é possível excluí-lo, mas pode-se reverter o endereço principal para o original a qualquer momento — lembrando que a mudança consome uma das três alterações disponibilizadas pela plataforma.


A novidade está sendo distribuída aos poucos e pode não estar disponível imediatamente para todos os perfis. Contas corporativas ou escolares (gerenciadas pelo Google Workspace) dependem de liberação dos administradores do sistema.


Para verificar a disponibilidade, acesse a página de configurações de e-mail da conta do Google (myaccount.google.com/google-account-email) e, no menu à esquerda, clique em "Informações pessoais". Na seção "Email", clique em "Email da Conta do Google". Se a opção "Alterar email da Conta do Google" estiver visível, o recurso já está ativo para o seu perfil.


Observação: Não deixe de fazer um backup dos seus dados, pois a mudança pode redefinir configurações de aplicativos terceiros e/ou afetar conexões ativas do Chrome Remote Desktop. Usuários de Chromebook devem verificar as instruções específicas do sistema operacional. Eventos de agenda criados antes da migração continuarão exibindo o e-mail antigo.

Tomadas as devidas precauções, digite seu novo nome de usuário — lembrando que o sistema não aceita termos que já estejam em uso por outras contas ou que pertençam a contas excluídas no passado — e clique em "Alterar email", confirme em "Sim, alterar email" e siga as instruções em tela para concluir o processo.

domingo, 13 de setembro de 2026

CARNE MAL PASSADA, AO PONTO OU BEM PASSADA?

QUEM GOSTA DE SOLA É SAPATEIRO.

Diz-se que gosto não se discute, mas mau gosto é outra história — como o de pessoas que só comem bife ou churrasco se a carne estiver esturricada.


A a escolha do ponto da carne vai além da simples preferência pessoal: uma pesquisa conduzida pelos cientistas da Escola de Medicina do Hospital Monte Sinai em Elmhurst (EUA) descobriu que, quanto mais bem passada a carne, maior o perigo de lesões cerebrais que podem levar à demência e ao Mal de Alzheimer.


Para selar bifes altos ou carne para rosbife, aqueça uma panela ou frigideira de fundo grosso até fumaçar, adicione uma mistura de azeite e manteiga suficiente apenas para untar o fundo, coloque a carne quando a gordura estiver bem quente e frite a carne por dois minutos de cada lado. Ao final, coloque os bifes numa travessa, cubra com papel laminado e deixe descansar por alguns minutos, para que os sucos que se concentraram na parte central da carne durante a cocção se redistribuam por igual, deixando-a mais macia e suculenta.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O problema de esconder o lixo debaixo do tapete é que a turma do abafa continua transitando por cima, e o chorume se move, escorrendo pelas bordas. André Mendonça convive há sete meses com um relatório explosivo da PF sobre as relações monetárias de Dias Toffoli com Daniel Vorcaro. E nada!

O documento levanta a suspeita de que Toffoli seria o proprietário oculto do fundo de investimento Arleen. Esse fundo era sócio de uma empresa do ministro no resort Tayayá e recebeu R$ 35 milhões de Vorcaro. Posteriormente, o dinheiro foi transferido para uma holding nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal caribenho.

Toffoli declara não ter nada a ver com coisa nenhuma. Sustenta que o relatório da PF foi arquivado com o aval dos colegas. Mendonça alega que o documento não lhe foi encaminhado formalmente, mas não esclarece por que se absteve de requisitá-lo, como fez no caso das mensagens enviadas por Vorcaro a Alexandre de Moraes.

A PF aponta a necessidade de aprofundar as investigações. Cita contatos e encontros com Vorcaro — alguns foram intermediados pelo ex-ministro de Bolsonaro Fábio Faria. O relatório também menciona mudança suspeita de voto de Toffoli em um julgamento caro ao Master. Seus pares na corte se fingem de mortos, sem se darem conta de que o tapete ficou curto.

Uma senhora de pedra, esculpida pelo gênio Alfredo Ceschiatti, fica na frente da sede do STF, representando Têmis, a Deusa da Justiça. Para sua sorte, ela não ouve nem vê. A venda que cobre seus olhos e lhe tapa as orelhas preserva-a do espetáculo constrangedor que se desenrola no interior do prédio. Às vésperas da sessão que tem na pauta os podres de Alexandre de Moraes, o STF virou arena de UFC.

Nesse Ultimate Fighting, não há mocinhos e vilões, apenas duas máquinas de brigar. André Mendonça pede a abertura de investigação sobre as mensagens que deram a Moraes uma aparência de consultor de Vorcaro, enquanto Moraes manobra para incluir na pauta a suspeita de irregularidades e de seletividade de Mendonça. Do contrário, ameaça jogar no ventilador as outras togas que tiveram contato direto ou indireto com o ex-banqueiro — o próprio Mendonça, Toffoli, Nunes Marques e Fux.

Fachin havia programado uma sessão aberta para a próxima terça-feira. Ao nivelar o plenário por baixo, a facção de Moraes espera que o constrangimento afaste do plenário os holofotes e as câmeras da TV Justiça. No escuro, tudo pode acontecer. Inclusive nada. No limite, um dos presentes pode pedir vista do procedimento contra Moraes. Nessa hipótese, o UFC supremo seria convertido num vale-tudo em que o brasileiro entra com a cara.


Para além das preferências pessoais, existe um consenso técnico: o ponto é uma combinação de temperatura interna, cor e textura, não apenas opinião. Guias internacionais de gastronomia e instituições ligadas à segurança alimentar organizam os pontos de cozimento em faixas de temperatura, aparência e textura. 


Para quem gosta de ouvir o boi mugir enquanto degusta um naco de bife ou churrasco — como é o caso deste que vos escreve —, a temperatura interna da carne não deve passar de 46 °C. Para que os bifes criem uma crosta fina dourada, tire-os da geladeira com antecedência, espere a frigideira começar a fumegar antes de colocar a manteiga ou o azeite e limite o tempo de fritura a 3 minutos de cada lado. 


É importante fritar os bifes individualmente e virá-los uma única vez — caso contrário, além de não formar a crosta dourada, eles verterão líquido, cozinharão em vez de fritar e perderão a suculência e a maciez.


JFK teria dito que desconhecia a fórmula do sucesso, mas a do fracasso era tentar agradar a todos ao mesmo tempo. Seja como for, um “meio-termo diplomático” é servir a carne com o centro rosado em vez de vermelho e garantir que ela ofereça alguma resistência ao corte, mas mantendo a umidade e preservando a maciez Nesse caso, a temperatura interna fica entre os pontos malpassado e bem-passado — de 57 °C a 63 °C.


No ponto para mais (ou “ao ponto para bem”), o miolo praticamente perde o rosado intenso (ficando levemente rosado ou bege-rosado) e a textura já é mais firme. Ainda pode haver suculência, principalmente em cortes com mais gordura entremeada, mas a sensação é de carne “mais mastigável”, ou seja, menos macia, com fibras mais contraídas em função da maior perda de umidade. Na prática, esse estágio ocupa a faixa alta das temperaturas — de 64 °C a 68 °C. É o “passinho a mais” que muitos restaurantes usam quando o cliente pede “bem passado, mas sem ressecar”: um interior cozido quase por completo, mas ainda distante da carne totalmente acinzentada.


A carne bem passada é marrom ou acinzentada por dentro, sem partes rosadas. A textura é firme, a quantidade de suco que escorre ao cortar é pequena e, se o fogo passa do ponto, aparecem áreas escurecidas ou quase pretas na superfície. Os quadros culinários posicionam essa faixa a partir de 70 °C de temperatura interna, com interior completamente cozido. Mas volto a frisar que tempo demais em temperaturas muito altas deixa a carne queimada e contribui para a formação de substâncias químicas com possibilidade de aumentar o risco de alguns tipos de câncer.


Na cozinha profissional, o termômetro de carne é o aliado mais confiável, pois permite medir a temperatura interna na parte mais grossa do corte. Em casa, pode-se recorrer ao teste do toque (ou da mão), no qual a firmeza da carne é comparada à região carnuda abaixo do polegar em diferentes posições. Outro recurso é o teste da faca: insira uma faca fina no centro da carne, deixe ali por alguns segundos, retire e encoste a lâmina com cuidado nos lábios. Se ela estiver fria, a carne tende a estar mal passada; se estiver morna, ao ponto; se estiver quente, bem passada. 


No balanço geral, a discussão sobre o ponto da carne mistura ciência de alimentos, segurança sanitária e gosto pessoal. Termômetros, quadros de temperatura e testes de toque ajudam a sair do “achismo” e transformam a conversa em escolha consciente: entender o que cada ponto entrega, da selada à bem passada, é o que permite decidir como vai chegar o próximo bife à sua mesa.


Escolher métodos de cocção com calor úmido, como panela de pressão, não favorece a formação de compostos tóxicos. Além disso, usar temperos e condimentos ajuda a reduzir a formação de substâncias potencialmente nocivas durante o cozimento. Evitar queimar ou chamuscar a carne também é importante, pois temperaturas muito altas podem gerar compostos químicos associados a riscos de saúde. 


Por outro lado, comer carne mal passada ou crua aumenta o risco de contaminação por microrganismos como salmonela, especialmente quando a procedência não é conhecida. Portanto, procure consumir apenas produtos de origem certificada.


Bom apetite.