sexta-feira, 13 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 84ª PARTE

SOMOS TODOS VIAJANTES DO TEMPO.

Antes da ciência, a mitologia tentava explicar o mundo e tudo o que nos cerca. Na mitologia grega, Cronos era conhecido por devorar seus filhos, deu origem ao termo cronológico, que usamos para situar os acontecimentos na linha do tempo. Para os hindus, a imagem de Shiva dançando representa o próprio universo: nos cabelos da divindade, um crânio e uma lua nova simbolizam a morte e o renascimento; numa das mãos, o tambor do tempo tiquetaqueia à medida que exclui o conhecimento daquilo que é eterno; na outra mão, uma chama queima o véu do tempo, abrindo a mente humana para a eternidade. 


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Luiz Inácio Falou, Luiz Inácio avisou: “São 300 picaretas com anel de doutor”. Os mais jovens talvez não conheçam, mas esse é o refrão de uma música dos anos 1990, da banda Paralamas do Sucesso

Luiz Inácio é Lula, que, à época, achava que o Congresso era composto por “Uma maioria de 300 picaretas”. Como nada é tão ruim que não possa piorar, hoje são bem mais do que três centenas, e o outrora suposto adversário dos 300 picaretas tornou-se um de seus principais cúmplices.

Dias atrás, em “defesa indefensável” de Dias Toffoli — que, dentre outras bizarrices jurídicas, aceitou a relatoria de um inquérito do qual é parte interessada, portanto, suspeita —, o ministro Flávio Dino justificou: “Sou STF Futebol Clube”. Ou por outra: pouco importa o que esteja em questão, o amigão do amigo de meu pai — isto é, Dino e Lula — estará sempre, incondicionalmente, ao lado da sua corporação. Não só ele, claro. Em nota oficial assinada por todos os ministros, inclusive o “suspeito”, o recado foi cristalino.
Dados obtidos a partir da quebra de sigilo bancário de Lulinha indicam que apenas uma de suas contas movimentou R$ 19,3 milhões entre 2022 e 2025, e que R$ 721,3 mil forma transferências pelo próprio Lula.
Investigado por uma suposta ligação societária com o “Careca do INSS”, o "menino de ouro" afirmou através de seus advogados que o vazamento de documentos sigilosos configura “crime grave”, que não teve acesso ao material divulgado, que seu cliente não tem relação com as fraudes investigadas pela comissão, e que levará o caso às autoridades competentes. Procurado, o Palácio do Planalto não se manifestou sobre o caso.
Na esteira do que já havia feito em relação à empresária Roberta Luchsinger, também investigada pela CPI, Flávio Dino suspendeu o envio de dados de Lulinha para a comissão parlamentar, que deverá realizar uma nova votação sobre as quebras de sigilo de todos os alvos atingidos pela decisão tomada no fim de fevereiro. 
Resta saber se a pizza será calabresa, portuguesa ou marguerita. 
Façam suas apostas.

Essas e outras belas histórias ilustram com a riqueza dos mitos um dos mistérios mais difíceis de explicar com provas e evidências concretas — a real natureza do tempo. Mas, à luz da ciência, será que somos mesmo prisioneiros do tempo que avança do passado para o presente e do presente para o futuro? Se tudo que existe está imerso na passagem do tempo como peixes na água, a possibilidade de voltar ao passado é matematicamente admissível. No entanto, isso significaria que toda a ciência que construímos e a tecnologia que desenvolvemos a partir dela estão erradas.


Ainda estamos longe de entender o comportamento do tempo com base em comprovações experimentais. Não sabemos sequer se ele é contínuo ou quântico, se é divisível infinitas vezes, ou se a seta do tempo aponta sempre para o futuro. Um vaso que cai e se espatifa não volta intacto para cima da mesa porque a entropia em um sistema fechado só aumenta.


O espaço-tempo é uma espécie de pano de fundo para todos os fenômenos, de modo que podemos ir e voltar nas três dimensões espaciais, mas, na do tempo, a regra é a ida sem volta. Daí os físicos considerarem o tempo como os bastidores de um fluxo de eventos sucessivos que ocorrem numa direção preferencial: o que aconteceu ontem impõe restrições ao que acontece hoje, e esse hoje, ao se tornar o ontem de amanhã, impõe novos limites ao novo presente.


Em determinadas situações, o cosmos não se sujeita às leis da física clássica, de modo que voltar no tempo não é de todo impossível. É fato que o Universo se tornaria inconsistente em sua evolução e aumento da entropia se as linhas que conectam as causas (no passado) e os efeitos (no futuro) fossem alteradas. Mas e se voltássemos no tempo sem interferir nessas linhas?


Onde há um físico teórico existe sempre uma possibilidade teórica que os físicos experimentais venham ou não a comprovar. Einstein demonstrou que o espaço e tempo estão conectados e que a gravidade de objetos supermassivos pode curvar o espaço-tempo em determinadas regiões do Universo, distorcendo o espaço, encurtando ou dilatando o tempo, e até mesmo criando loops temporais que levam de volta ao começo. Isso ainda não foi observado experimentalmente, mas é uma perspectiva matematicamente possível, e corroborá-la pode ser apenas uma questão de… tempo.


Durante uma palestra, o físico italiano Carlo Rovellium dos “pais” da teoria da gravidade quântica em loop, que busca conciliar a mecânica quântica, que descreve o mundo microscópico de partículas menores que prótons e elétrons, com a relatividade geral, que trata das estrelas, planetas e outros corpos gigantescos do Universo — esticou uma corda de uma ponta a outra do palco, pendurou uma caneta no meio e disse: “É aqui que estamos; à direita fica o futuro e à esquerda, o passado. E acrescentou em seguida: “Só que isso é tão errado quanto afirmar que a Terra é plana.”


A relatividade geral e a mecânica quântica se expressam em idiomas diferentes, mas ambas parecem dizer a verdade. Uma metáfora usada por Rovelli compara a natureza a um velho rabino que, consultado por dois homens para resolver uma disputa, deu razão a ambos, e quando sua mulher ponderou que eles não poderiam ter razão ao mesmo tempo, disse que ela também estava certa.


De acordo com a relatividade geral, o espaço não é uma caixa rígida e inerte, mas algo como um imenso molusco que se comprime e se retorce na presença de massa e energia. Já a mecânica quântica revelou que tudo ao nosso redor é formado por pequenos pacotinhos — como os fótons que formam a luz.


O problema é que as duas teorias não se falam: a relatividade descreve o espaço como contínuo e suave, enquanto a mecânica quântica sugere que tudo o mais é granular e discreto. Conciliá-las é uma das maiores questões em aberto da física. Algumas teorias especulativas apostam que o próprio espaço também seria feito de pacotinhos minúsculos, mas isso ainda está longe de ser confirmado.


A gravidade quântica em loop visa compatibilizar a relatividade geral e a mecânica quântica. Nesse contexto, a hipótese de o espaço ser um recipiente amorfo desaparece da física com a gravidade quântica, e as coisas (quanta) não habitam o espaço, mas os arredores umas das outras. Se o espaço não for um tecido contínuo que tem como limite o limite dos pacotinhos que o formam, então o tempo não é uma linha reta pela qual as coisas fluem, nem tampouco uma sucessão de acontecimentos formados por passado, presente e futuro.


Observação: Um relógio sobre um móvel registra que o tempo passa mais depressa quando comparado com outro que está no chão. Pelo mesmo motivo, o tempo passa mais depressa no cume do Everest do que na praia. Em outras palavras, quanto mais próximo do centro da Terra, mais intensa é a gravidade, e quanto mais intensa for a gravidade, mais devagar o tempo irá passar. Os relógios que usamos no dia a dia não registram diferenças de bilionésimos de segundo, mas relógios atômicos altamente sofisticados e instrumentos de laboratório o fazem.


Para entender a teoria da gravidade quântica é preciso abandonar a ideia de que um gigantesco relógio cósmico marca o tempo do Universo. Um ano é apenas o tempo que a Terra leva para dar uma volta completa em torno do Sol, mas nosso conceito de “ano” só faz sentido no nosso planeta — para um hipotético habitante de Saturno, um ano corresponderia a 29,5 anos terrestres.


Nosso conceito de tempo pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Newton dizia não ser possível medir o “tempo verdadeiro”, mas assumir sua existência ajudava a descrever vários fenômenos da natureza; séculos depois, Einstein postulou que cada objeto do Universo tem seu próprio tempo. Só que o tempo como o concebemos não funciona numa escala muito pequena — como a escala quântica.


Em outras palavras, as coisas mudam apenas umas em relação às outras; no nível fundamental, o tempo não existe.


Continua...

quinta-feira, 12 de março de 2026

MELHOR IDADE É A PQP

PIOR QUE ENVELHECER, SÓ MESMO MORRER JOVEM

O nascimento dá início a uma viagem rumo a um futuro que nunca chega (o hoje é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã), mas termina quando exalamos nosso derradeiro suspiro.


Não sabemos se o tempo realmente existe ou é apenas uma invenção criada por nossos antepassados para facilitar a compreensão do mundo, mas sabemos que envelhecer é inexorável — em última análise, a morte é a única certeza que temos na vida.


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Não são apenas os erros que arruinam um magistrado, mas o modo como ele reage depois de cometê-los. Como se nada tivesse sido descoberto sobre ele, Dias Toffoli cogita participar do julgamento em que a Segunda Turma decidirá se avaliza a prisão de Vorcaro e três comparsas, decretada por André Mendonça.

Armou-se no Supremo um teatro para que Toffoli deixasse a relatoria do inquérito "a pedido", ou seja, sem a pecha da suspeição. Agora, sua excelência sinaliza aos colegas que vai exercitar sua "dignidade" no julgamento sobre a prisão de Vorcaro. É possível que ele lave a própria suspeição votando a favor da tranca, mas o teor do voto importa menos do que o respeito à lógica e às regras. Quem comete um erro e não o corrige está cometendo outro erro. Ou o Supremo amarra o guizo em algumas togas, ou fará da desmoralização de certos magistrados um processo de carbonização da supremacia do tribunal.


Viver para sempre é um sonho antigo. Na Grécia Arcaica (século VIII a.C. e século VI a.C.), acreditava-se que a água de um rio que nascia no Monte Olimpo tornava os homens imortais. Em 1513, Ponce de León partiu de Porto Rico em busca da lendária Fonte da Juventude e descobriu a Flórida, mas morreu oito anos depois sem jamais ter encontrado a tal fonte. 


Em 1932, quando a expectativa de vida dos norte-americanos era de 59,7 anos, Walter B. Pitkin publicou seu livro de autoajuda Life begins at forty. Entre 1960 e 2014, a expectativa de vida dos brasileiros aumentou de 48 para 74,6 anos. Aubrey de Grey — co-fundador da SENS — acredita que é possível viver por séculos sem sofrer os transtornos da velhice, mas bem poucas pessoas colhem mais de 100 margaridas dos jardins da existência. 


Ainda que a experiência siga as pegadas da maturidade, dizer que a “reta de chegada” é a melhor parte da “viagem” não passa de cantilena para dormitar bovinos, e chamar a terceira idade — fase da vida que começa aos 60 e termina quando as luzes da ribalta se apagam — de "melhor idade" — expressão cunhada por um "influencer" infectado pelo vírus da positividade tóxica, borrifada nas redes sociais por "idioters" e replicada pelos meios de comunicação — é ignorar pérolas de sabedoria como vecchiaia è bruta


Aos 93 anos, chamado a escolher a palavra mais bonita da língua portuguesa, o poeta Manoel de Barros — que dizia prezar insetos mais que aviões — escolheu "criança", talvez por ter envelhecido com brilho, beleza e arte. “Penso que envelhecer é atravessar uma fronteira invisível, que ninguém nos avisa exatamente quando ela chega; apenas percebemos que o tempo passou a caminhar não mais à frente, mas ao nosso lado, impaciente, silencioso, quase cúmplice”, disse ele.


Nem todo mundo envelhece, e aqueles que envelhecem nem sempre aceitam o passar do tempo com serenidade. Mas a experiência que vem com a idade nos ensina a escolher entre o que vale ficar e o que pode partir. Aliás, é na maturidade que o mundo deixa de ser promessa e passa a ser memória; o coração, cansado de batalhas inúteis, começa a buscar apenas aquilo que o sustenta; o corpo — esse companheiro fiel por décadas — começa a falhar em pequenos sinais — um joelho que reclama, uma visão que pede auxílio, uma dor que se instala sem convite.


A idade nos ensina a negociar com limites, a respeitar fronteiras internas, a aceitar que há ritmos que não voltam. A solidão visita com frequência os que envelhecem em silêncio: amigos partem, amores se transformam, lares se esvaziam e a memória vira companhia — às vezes, consolo; às vezes, ferida. 


Dizem que a delícia da velhice está num café sem pressa, num fim de tarde em silêncio, na alegria simples de estar. Que há uma delícia profunda em olhar para trás e reconhecer a própria trajetória, os afetos preservados, os erros superados, os recomeços possíveis. Que envelhecer é aprender a dizer não sem culpa, a escolher com mais clareza, a valorizar a presença de quem ficou. Mas nem todos (bem poucos, na verdade), recebem a velhice filosoficamente, como frisou Ruy Castro na crônica Melhor idade é a puta que te pariu, que merecia ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta. Confira:


A voz em Congonhas anunciou: Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência, etc.. Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" - algo entre os 60 anos e a morte.


Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, se arrepende no meio do caminho porque o sinal abriu e agora precisa correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.


Privilégios da "melhor idade" são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão subindo como placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da "melhor idade", estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.


Outra característica da "melhor idade" é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhe receitam e depois não conseguem retirar. Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: Voltando da farra, Ruy? Respondi, eufórico: Que nada! Estou voltando da farmácia! E esta é, de fato, uma grande vantagem da "melhor idade": você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir. 


Primeiro, a aposentadoria é pouca e você tem que continuar a trabalhar para melhorar as coisas. Depois vem a condução. Você fica exposto no ponto do ônibus com o braço levantado esperando que algum motorista de ônibus te dê uns 60 anos. A análise é rápida, leva uns 20 metros. Quando ele para, vem a discussão se você tem mais de 60 ou não.


Dias atrás entrei no ônibus e fui dizendo: Sou deficiente. O motorista me olhou de cima a baixo e perguntou: Que deficiência você tem? Eu respondi: Sou broxa"! Ele deu uma gargalhada e eu entrei. Logo apareceu alguém para me indicar um remédio. Algumas mulheres curiosas ficaram me olhando e rindo... Eu disse bem baixinho para uma delas: Uma mentirinha que me economizou R$3,00, não fica triste não.


Fui até o Arpoador ver o pôr do sol. Subi na pedra, mas velho tem mais dificuldade. E tem sempre alguém que quer ajudar a subir: Dá a mão aqui, senhor! Hum, dá a mão é o cacete, penso, mas o que sai é um risinho meio sem graça. Sento na pedra para olhar a paisagem, mas a pedra é dura, e velho já perdeu a bunda; quando senta, sente os ossos em cima da pedra e tem de trocar de posição a toda hora. E para ver a paisagem não pode deixar de levar os óculos, senão nada vê. Resolvo ficar de pé para economizar os ossos da bunda e logo passa um idiota e diz: O senhor está muito na beira pode ter uma tontura e cair. Resmungo entre dentes: Só se cair em cima da sua mãe, mas dou um risinho e digo que está tudo bem.


A merda do sol está demorando a descer, então eu é que vou descer, meus pés já estão doendo e o sol nada. Vou pensando - enquanto desço e o sol não: Voltar de metrô é mais rápido. Já no metrô, me encaminho para a roleta dos idosos, e lá está um puto de um guarda que fez curso sabe Deus em que faculdade, mas tem olho crítico e consegue saber a idade de todo mundo. Ele olha sério para mim, segura a roleta e diz: O senhor não tem 65 anos, precisa pagar a passagem. A esta altura do campeonato eu já me sinto com 90, mas, quando ele me reconhece mais moço, me irrompe um fio de alegria e vou todo serelepe comprar o ingresso.


Durante o trajeto, não fui suficientemente rápido para me sentar nos lugares que esvaziavam. Com os pés doendo, fico em pé, já nem lembrando se o sol baixou ou não. Só quero chegar em casa e tirar os sapatos. E aliviar a ligeira dor de barriga se prenuncia. 


Lá pelo centro da cidade, eu me segurando, dou de olhos com uma menina de uns 25 anos que me encarava... Me senti o máximo. Me aprumei todo, estufei o peito, fiz força no braço para o bíceps crescer e a pelanca ficar mais rígida, fiquei uns 3 dias mais jovem. Quando ela ameaçou falar alguma coisa, meu coração palpitou. É agora... Joguei um olhar 32 (aquele olhar de Zé Bonitinho), e ela pegou na minha mão e disse: O senhor me parece tão cansado, não quer se sentar?


Melhor Idade??? Melhor idade é a puta que te pariu!

quarta-feira, 11 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 83ª PARTE

O FUTURO JÁ ACONTECEU?

Há quem considere os casos de Fentz, Carlssin, Titor e do hipster de 1941 (vide capítulos anteriores) como evidências de viagens no tempo, e as pirâmides de Gizé e Stonehenge como provas da visita de alienígenas cuja tecnologia permitiu atravessar galáxias a velocidades superluminais e usar os buracos de minhoca como atalhos cósmicos. Para os céticos, nada disso prova coisa alguma, mas mentes obstinadas podem ser montanhas intransponíveis.


Em Ensaio sobre a cegueira, o Nobel de Literatura José Saramago escreveu que a cegueira é uma questão privada entre as pessoas e os olhos com que elas nasceram, e que a pior cegueira é a mental.


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Na última sexta-feira, o ministro Alexandre de Moraes divulgou nota argumentando que os arquivos encontrados no celular de Daniel Vorcaro e repassados à CPMI do INSS indicavam que as mensagens de visualização única atribuídas a ele foram na verdade enviadas ao banqueiro por outro interlocutor. Ato contínuo, a Globo divulgou um texto informando que os softwares usados pela PF permiteM afirmar com certeza que o diálogo se deu entre o dono do Banco Master e o magistrado. 

Durante o fim de semana, o ministro negou que teria visitado a casa de Vorcaro na Bahia. Na manhã do dia 9, sua esposa divulgou detalhes sobre o contrato que manteve com o banco até novembro do ano passado, quando o BC decidiu por sua liquidação. O texto cita supostas reuniões e a elaboração de documentos que justificariam os R$ 3,6 milhões mensais pagos mensalmente ao escritório de advocacia da família do ministro. 

Entre os políticos, os desdobramentos do caso deram à luz a máxima segundo a qual “jantar não é crime”. O receio é que qualquer um que tenha tido contato com Vorcaro se torne radioativo, mesmo sem ter recebido dinheiro ou vantagens.

Sobre a cabeça de Lula paira a quebra de sigilo de Lulinha e a percepção da população de que o STF atua de forma política para beneficiar o petista.

Quanto a Moraes, dá-se de barato que, pelo menos de momento, não se cogita seu afastamento. O magistrado costuma reagir quando pressionado, e tem armas para tal: o inquérito das fake news, a apuração contra servidores da Receita e até a ADPF das Favelas e a recente apuração contra servidores da Receita Federal e do Coaf. Uma das estratégias será desacreditar as informações, sustentando que o vazamento foi seletivo e recortado para criar uma narrativa contra ele e o STF.

Atendendo à defesa de Vorcaro, André Mendonça determinou a abertura de uma investigação sobre quem repassou os dados à imprensa. A ofensiva tende a gerar repercussões, especialmente no Congresso, onde um grupo formado por parlamentares bolsonaristas e do Centrão já está com Moraes na alça de mira, e outro pode apoiar medidas contra vazamentos visando frear as investigações.

O fato é que reputação de Moraes subiu no telhado. Embora ele tente se desvencilhar das mensagens, a crise está posta, e se antes as críticas se concentravam em decisões controversas, agora elas ultrapassam a esfera jurídica e focam possíveis relações não republicanas do togado.

O presidente da CPMI do INSS, Carlos Viana, ficou de convocar o ministro Flávio para explicar por que suspendeu as quebras de sigilo fiscal e bancário de Lulinha. Se aprovado, o gesto será interpretado no STF como uma afronta num momento de tensão entre os Poderes. Em outra frente, as relações entre Alcolumbre e Lula estão estremecidas, devido, sobretudo, ao avanço das investigações da PF no caso Master.

O vazamento de mensagens do celular de Vorcaro e os boatos de delação fortalecem a tese de que a crise dificilmente transcorrerá sem  baixas no mundo político. Dirigentes partidários da oposição e do Centrão, já preparam uma vacina para o que vier nos próximos vazamentos, num movimento de defesa da classe política. Segundo suas insolências, jantar não é crime, amizade não significa corrupção e ter contato salvo, então, não significa absolutamente nada. Mas o temor é de uma “epsteinização” do caso: qualquer um que tenha tido contato com Vorcaro vai se tornar radioativo, mesmo que não tenha recebido dinheiro ou vantagens.

Ainda é cedo para avaliar o estrago que isso fará na campanha de quem foi citado e dos que ainda virão a sê-lo, já que as investigações devem adentrar o período eleitoral e contaminar as disputas. Uma das estratégias dos envolvidos no imbróglio será desacreditar as informações, sustentando que o vazamento foi seletivo e recortado para criar uma narrativa contra ele e atingir o Supremo.

O ministro André Mendonça determinou à Polícia Federal que abra investigação sobre quem repassou os dados à imprensa, atendendo a pedido da defesa de Vorcaro. O eleitorado, majoritariamente ignorante, talvez não compreenda a teia de fraudes e títulos podres do banco Master, mas sabe que a etiqueta que resume o caso é a de corrupção.


Talvez seja por isso que as religiões perduraram milênios — a despeito do manancial de indícios que contradizem seus preceitos, crenças e dogmas — e milhões de pessoas ainda acreditam que Deus criou o mundo em 4004 a.C. e que todos os seres humanos descendem de Adão e Eva — embora haja evidências científicas acachapantes da idade do Universo e da evolução natural.


A ciência evoluiu muito nos últimos séculos, mas ainda não consegue explicar a natureza do tempo nem se é ele que passa ou se somos nós que passamos por ele e o dobramos com as decisões que adiamos e os caminhos que não tomamos. Para viajar no tempo — o fruto mais cobiçado e ainda não alcançado da árvore da relatividade — seria preciso superar inúmeros obstáculos, mas nunca é demais lembrar que Cabral levou 44 dias para cruzar o Atlântico e “descobrir” o Brasil, e menos de 500 anos depois o Concorde fazia a mesma viagem pelo ar em cerca de três horas.


Quiçá viajar no tempo seja apenas uma questão de tempo. A chave pode estar nos buracos de minhoca, nas cordas cósmicas, nos loops temporais, no multiverso e na teoria dos muitos mundos, entre outras possibilidades. Isso pode parecer roteiro de filme de ficção científica, mas o impossível só é impossível até que alguém duvide e prove o contrário. Ademais, a ausência de evidência não é evidência de ausência, e desafiar os limites é o único caminho para superá-los.


Acontecimentos inexplicáveis como os mencionados nos capítulos anteriores levam água ao moinho dos teóricos da conspiração. Há quem considere os casos de Fentz, Carlssin, Titor e do Hipster de 1941 como evidências de viagens no tempo, e as pirâmides de Gizé e Stonehenge, como provas da visita de alienígenas cuja tecnologia permite viagens intergalácticas a velocidades superluminais e uso de buracos de minhoca como atalhos cósmicos. Para os céticos, nada disso prova coisa nenhuma, mas mentes obstinadas podem ser montanhas intransponíveis. 

Dizem que o futuro é um território ainda por vir. Mas e se ele já tivesse acontecido, e nós, distraídos, estivéssemos apenas tentando alcançá-lo? Quiçá o segredo não esteja em viajar pelo tempo, mas em perceber que o tempo sempre viajou por nós, dobrando memórias, adiando sonhos, reinventando passados. No fim das contas, o relógio não marca as horas: ele as fabrica. E nós, confiantes, seguimos acreditando que somos os condutores, embora seja o tempo que nos carrega pela coleira das horas..

Talvez as viagens no tempo aconteçam o tempo todo, só que sem aviso, sem passaporte e, claro, sem reembolso. Afinal, o tempo é o único viajante que nunca se perde… e ainda ri de quem tenta alcançá-lo.

Continua...

terça-feira, 10 de março de 2026

O LIVRO DO DESTINO

LEMBRE-SE DE CAVAR O POÇO MUITO ANTES DE SENTIR SEDE.

Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan nasceu em 6 de maio de 1885, numa aldeia conhecida como Muzalit, na Pérsia Arábica. Ainda muito jovem, ocupou o cargo de queimaçã (prefeito) de El-Medina, que exerceu com inteligência e habilidade. 

Após receber uma vultosa herança do pai, Malba Tahan viajou pelo mundo, passou algum tempo no Brasil e retornou à Arábia Central, onde faleceu em 1921. Mas o mais curioso dessa história é que esse personagem só existiu na imaginação do professor de matemática e escritor carioca Júlio César de Mello e Souza (1895–1974), que também encarnava Bruno Alencar Bianco, o “tradutor” das obras do fictício escriba árabe.

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O clérigo Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, morto durante um ataque aéreo de Israel, foi anunciado sucessor do pai como líder supremo do Irã. Israel, por sua vez, afirmou que perseguirá e atacará o novo líder e aqueles que o nomearam. Autoridades iranianas recomendaram aos moradores de Teerã que evitem atividades ao ar livre, já que a fumaça das explosões e dos incêndios em instalações de combustível deteriorou a qualidade do ar e liberou produtos químicos tóxicos que podem provocar chuva ácida. Os confrontos entre Irã e Israel se estenderam a outros países do Golfo Pérsico, e a Guarda Revolucionária do Irã afirma ter capacidade para manter cerca de seis meses de operações intensas.

A possibilidade de delação premiada de Daniel Vorcaro vem ganhando força, mas o assunto deve ser discutido somente depois que a PF extrair os dados de todos os celulares apreendidos. Caso a delação avance, parte da equipe jurídica do banqueiro deverá ser substituída. 

Segundo o jornalista Lauro Jardim, Alexandre de Moraes frequentou não só a mansão de Vorcaro em Brasília, mas também a casa de R$ 300 milhões que o banqueiro alugava em Trancoso (BA). Em nota, o gabinete do ministro respondeu que é “integralmente falsa a afirmação”, que o magistrado jamais realizou qualquer viagem privada com Vorcaro e que nunca esteve na propriedade citada. O colunista ainda que, menos de um mês antes de as ligações telefônicas com Vorcaro se tornarem públicas,, Moraes trocou o seu número de celular.

A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Xandão, negou ter recebido no dia da primeira prisão de Vorcaro mensagens do próprio sobre seu processo, em resposta à versão divulgada por Alexandre de Moraes. A PF recuperou sete prints enviados pelo banqueiro em 17 de novembro de 2025, escritos no bloco de notas e enviados como mensagens de visualização única, que estariam vinculados a pastas onde aparecem contatos como “Vivi Moraes”, o presidente do União Brasil Antônio Rueda e o senador Irajá Abreu. Todos negaram ter recebido as mensagens. Segundo os peritos, a organização de arquivos após extração de dados não permite concluir automaticamente o destinatário das imagens. A defesa de Viviane pediu apuração sobre possíveis vazamentos e contestou as associações.

O escândalo Master atingiu o coração da política e abalou o STF. Embora não tenha afetado diretamente a reputação dos bancos, a nota de Moraes sobre mensagens com Vorcaro “confunde mais do que esclarece e ajuda a empurrar o Supremo para o fundo do poço e a exacerbar a crise entre STF, PF e PGR, que não é só um embate entre siglas, mas entre instituições”.


O livro mais famoso de Malba Tahan é O homem que calculava — uma coletânea de problemas e curiosidades matemáticas apresentada sob a forma de narrativa das aventuras de um calculista persa, à maneira dos contos de As Mil e Uma Noites. Já a lenda que transcrevo a seguir, digna de ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta, integra a coletânea Maktub (termo que significa “estava escrito” e expressa o tradicional fatalismo dos muçulmanos).

Há muitos anos, quando voltava de Bagdá, encontrei, num caravançará (albergue) próximo a Damasco, um velho árabe do Hedjaz que muito me chamou a atenção. Ele falava agitadamente com mercadores e peregrinos, gesticulando e praguejando sem cessar; fumava uma mistura forte de tabaco e haxixe e, quando ouvia de algum companheiro uma censura qualquer, exclamava, apertando o turbante esfarrapado entre as mãos ossudas:

Mac Allah! (Por Deus!), ó muçulmanos! Eu já fui poderoso! Eu já tive o Destino nesta mão!

É um pobre diabo — diziam. — Não bate bem. Que Allah o proteja!

Eu, porém, sentia irresistível atração pelo desconhecido e procurei aproximar-me dele discretamente, conquistando sua confiança — o que consegui ao cabo de poucos dias.

Os homens da caravana tomam-me por doido — disse-me ele certa noite, enquanto cavaqueávamos a sós. Não querem acreditar que já tive nas mãos o destino da humanidade inteira. Sim, senhor: o destino do gênero humano!

Esbugalhei os olhos, assombrado. Aquela afirmação insistente, de que havia sido senhor do Destino, era característica de seu pobre estado de demência. Mas ele insistiu:

Segundo ensina o Alcorão, o livro de Allah, a vida de todos nós está escrita (maktub!) no grande Livro do Destino, onde cada homem tem uma página com tudo o que de bom ou de mau lhe vai acontecer. Todos os fatos que ocorrem na Terra, do cair de uma folha seca à morte de um califa, estão fatalmente escritos no Livro do Destino!

E, sem esperar que eu o interrogasse, narrou o seguinte:

Em uma viagem pelo deserto, salvei certa vez um velho feiticeiro que ia ser enforcado. Em sinal de gratidão, ele deu-me um talismã raríssimo que possuía: uma pedra maravilhosa que permitia a entrada livre na famosa Gruta da Fatalidade, onde se acha o Livro do Destino.

Depois de sugar longamente a piteira de seu narguilé, o velho prosseguiu:

Viajei durante dois anos até chegar à gruta encantada. Um djinn (gênio benfazejo) que estava de sentinela à porta deixou-me entrar, advertindo, porém, que eu só poderia permanecer ali por poucos minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na página e fazer de mim um homem rico e feliz. Bastava acrescentar com a pena que eu levava comigo: “Terá muito dinheiro!”. Lembrei-me, porém, de meus inimigos. Poderia, naquele momento, fazer um grande mal a todos eles. Movido pela ideia única do ódio e da vingança, abri a página de Ali Ben-Homed, o mercador. Li o que lhe ia acontecer e acrescentei embaixo, cheio de rancor: “Morrerá pobre, sofrendo os maiores tormentos!”. Na página de Zalfah-el-Abarj escrevi, impiedoso, alterando-lhe a vida inteira: “Perderá todos os haveres; ficará cego e morrerá de fome e sede no deserto!”. E assim, sem piedade, arrasei, feri e retalhei meus desafetos.

E na tua vida? — indaguei, curioso. — Que fizeste, ó muçulmano, na página em que estava escrita a tua própria existência?

Ah, meu amigo! — prosseguiu o ancião, cheio de mágoa. — Nada fiz em meu favor. Preocupado em fazer mal aos outros, esqueci-me de fazer o bem a mim mesmo. Agi como um miserável. Semeei largamente o infortúnio e a dor, e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando me lembrei de mim, quando pensei em tornar feliz a minha vida, estava terminado o meu tempo. Sem que eu esperasse, um efrite (gênio do mal que se contrapõe aos djins) agarrou-me fortemente e, depois de arrancar-me o talismã, expulsou-me da gruta. Caí entre as pedras e, com a violência do choque, perdi os sentidos. Quando recuperei a razão, achei-me ferido e faminto, muito longe da gruta, junto a um pequeno oásis no deserto de Omã. Sem o talismã precioso, nunca mais pude descobrir o tortuoso caminho da Gruta do Destino.

E concluiu, entre suspiros, numa atitude de profundo e irremediável desalento:

Perdi a única oportunidade que tive de ser rico e feliz!

Seria verdadeira essa estranha aventura? Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe do Hedjaz encerrava um grande e precioso ensinamento: preocupados em levar o mal a seus semelhantes, quantos homens se esquecem do bem que poderiam fazer a si próprios...