O CIÚME É UMA FORMA DE AMOR OU APENAS UMA FORMA DE POSSE?
Costuma-se dizer que “ciúme não é de todo ruim: a pessoa se sente valorizada”. No entanto, não se trata de uma opinião unânime. Para muita gente, “ciúme é uma merda” — e ponto final.
Mas afinal, o que é o ciúme? Uma reação natural à ameaça de perder alguém que amamos? Uma característica inata do Homo sapiens, desenvolvida ao longo da evolução para proteger parceiros, vínculos e descendentes? Ou simplesmente uma construção cultural das sociedades que adotaram a monogamia como modelo predominante?
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Ao decidir não decidir, os ministros do STF deram margem a dois finais, nenhum dos dois feliz; na melhor das hipóteses, Alexandre de Moraes passará de juiz implacável a investigado precário; na pior, as suspeitas sobre o relacionamento potencialmente criminoso do magistrado com Daniel Vorcaro serão ignoradas.
A primeira alternativa seria melhor, pois abriria a perspectiva de que outras togas sob suspeição fossem investigadas. A segunda é pior porque representaria o suicídio do Supremo, que cavou a própria cova em fevereiro, ao ignorar as 35 milhões de razões que a PF apresentou para a abertura de um inquérito contra Dias Toffoli, e, ao blindar Moraes, joga terra em cima de si mesmo.
Não são apenas os erros que matam uma instituição, mas o modo como reagem seus membros depois de cometê-los. Certas togas aprendem tanto com seus erros que flertam com a tentação de cometer mais alguns. Todos são iguais perante a lei, mas são piores os que, tendo a obrigação de proteger a Constituição, afrontam os princípios constitucionais.
Moraes estreou na vida pública como promotor. Foi um exímio acusador. No Supremo, tornou-se um juiz implacável. Forçado pelas circunstâncias a advogar em causa própria, aplica mal os princípios que fizeram seu sucesso. Em vez de se defender, ataca. Rigoroso com os outros, pede ao país que seja condescendente com ele. Sua defesa tem 44 páginas, chama de "farsa" o relatório da PF, sustenta que André Mendonça encomendou o documento por "motivação político-eleitoral" e que é vítima de "vingança" de uma toga bolsonarista pelas condenações de Bolsonaro e seus cúmplices no complô do golpe.
Mendonça, de fato, não é cristão que se cheire. Virou boneco inflável em comício de Flávio Bolsonaro. Mas isso não apaga as 52 mensagens endereçadas por Daniel Vorcaro ao celular do ministro mais poderoso do Supremo até o ano passado. Se pudesse, Moraes diria: não recebo mensagem de bandido. Cuidadoso, preferiu construir um teste de múltipla escolha: Letra A) o conteúdo do bloco de notas de Vorcaro pode não ter sido enviado a alguém; letra B) pode ter sido remetido a diversas pessoas; letra C) as mensagens talvez tenham sido apagadas antes de serem visualizadas; letra D) as mensagens talvez nunca tenham sido efetivamente lidas. Por fim, Moraes realçou que não há vestígio de mensagem enviada por ele a Vorcaro. Portanto, os diálogos são fantasiosos".
O ministro não mencionou que trocou de celular. Como o aparelho não foi cedido nem apreendido pela PF, a tese da fantasia vale até certo ponto: o ponto de interrogação. A dúvida pede investigação. Moraes considera-se merecedor de uma estátua por ter ajudado a salvar a democracia. O problema é que virou pardal de si mesmo. Começou a sujar a calva de bronze ao avalizar o contrato de R$ 131 milhões do Master com o escritório da mulher. Descobre agora que o Olimpo não tem escadas.
A resposta, como quase sempre acontece quando o assunto é comportamento humano, parece ser: um pouco de cada coisa. Pesquisadores que estudam o comportamento sob uma perspectiva evolucionista consideram que o ciúme pode ter desempenhado uma função adaptativa: diante da ameaça real ou imaginária de um rival, ele poderia estimular comportamentos destinados a preservar uma relação considerada valiosa. Daí surgiriam estratégias de “retenção do parceiro”, que podem ir de atitudes perfeitamente inofensivas — demonstrar afeto, aproximar-se, reforçar o vínculo — até comportamentos de controle e, nos casos extremos, violência.
Mas Isso não significa que o ciúme seja um “programa genético” inevitável, nem que comportamentos destrutivos possam ser justificados pela evolução. A própria pesquisa mostra que a intensidade e a forma de manifestação do ciúme variam conforme a cultura, a experiência de vida, as características do relacionamento e até as atitudes de cada indivíduo diante da infidelidade.
Discussões acadêmicas à parte, o ciúme já rendeu muito boa literatura. Ele aparece em textos religiosos antiquíssimos — inclusive no livro de Números, onde existe uma curiosíssima “lei dos ciúmes”, destinada a lidar com a suspeita de infidelidade conjugal. O marido podia levar a mulher diante do sacerdote para que sua suspeita fosse submetida a um ritual. Ou seja: a humanidade já havia descoberto, há muitos séculos, que o ciúme também precisava de burocracia.
Na literatura clássica, o tema aparece sob inúmeras formas. Está por trás de conflitos da Ilíada, explode em episódios do Decameron, de Boccaccio, e reaparece, com roupagens diferentes, em incontáveis histórias de amor, traição e vingança. Mas sua expressão literária mais conhecida talvez seja mesmo Otelo, de William Shakespeare.
Embora a ideia não fosse original — Shakespeare baseou-se em uma narrativa italiana anterior —, o tratamento que deu ao tema, a construção dos personagens e, sobretudo, a exploração dos mecanismos psicológicos envolvidos fizeram da peça uma das obras-primas da literatura universal.
Otelo é, essencialmente, uma peça sobre o ciúme. Resumindo — e simplificando bastante —, a história começa em Veneza. Otelo, um general mouro a serviço da República, casa-se secretamente com Desdêmona, filha de um importante senador veneziano. Entre seus subordinados está Iago, que guarda ressentimento contra o comandante por ter sido preterido numa promoção em favor do jovem Cássio.
Iago é um sujeito ressentido, inteligente e perverso. E descobre uma arma muito mais poderosa que uma espada: a dúvida. Por meio de insinuações, meias-verdades e mentiras cuidadosamente construídas, ele faz Otelo acreditar que Cássio é amante de Desdêmona. O que começa como uma suspeita vai ganhando corpo na imaginação do general até se transformar, para ele, numa certeza. E é aí que Shakespeare mostra o verdadeiro poder destrutivo do ciúme.
Otelo deixa de enxergar o mundo como ele é e passa a enxergá-lo como o ciúme determina que ele seja. Cada gesto de Desdêmona pode ser interpretado como prova de infidelidade; cada coincidência, como evidência; cada explicação, como tentativa de encobrir a verdade.
O ciúme já não precisa de fatos. Ele próprio produz os fatos de que necessita. Iago percebe isso perfeitamente e pronuncia uma das frases mais famosas da literatura: “Oh, tende cuidado com o ciúme. É um monstro de olhos verdes que zomba da carne de que se alimenta.”
A expressão “monstro de olhos verdes” entrou para a linguagem corrente como metáfora do ciúme. E há uma ironia deliciosa na imagem: o monstro alimenta-se justamente da pessoa que o abriga. Quanto mais ciúme, mais sofrimento; quanto mais sofrimento, mais motivos imaginários para sentir ciúme.
Shakespeare volta ao assunto pouco depois, quando Emília observa que certas pessoas “não são ciumentas por causa de alguma coisa: são ciumentas porque são ciumentas”. É uma observação extraordinariamente moderna. O ciúme pode deixar de ser reação a uma ameaça e transformar-se em um sistema autossustentável de suspeitas. É exatamente aí que a literatura encontra a psicologia.
O ciúme começa, muitas vezes, como uma emoção perfeitamente compreensível: “Tenho medo de perder alguém que considero importante.” O problema aparece quando o medo se transforma em vigilância; a vigilância, em controle; o controle, em posse; e a posse, em violência. E talvez seja justamente por isso que o ciúme tenha sobrevivido tão bem ao longo da história humana. Ele toca em algo bastante primitivo: o medo da perda.
Perder o parceiro, perder a atenção, perder o afeto, perder o lugar que ocupamos na vida de alguém. Em termos evolucionistas, a ameaça de um rival poderia representar perda de investimento, de proteção, de parceria ou, em sociedades ancestrais, problemas relacionados à reprodução e à sobrevivência da prole. Não é por acaso que a ciência trata o ciúme como uma emoção associada à ameaça de perda de um relacionamento valioso.
Mas seria simplista concluir que tudo se resume à biologia. A cultura entra em cena com enorme força. O que é considerado traição varia entre sociedades; o que um casal considera aceitável ou inaceitável também varia; e até a importância atribuída à exclusividade sexual e emocional pode mudar conforme a época e o grupo social.
Além disso, as pessoas não sentem ciúme exatamente da mesma maneira. Há quem sofra mais diante da possibilidade de uma ligação emocional do parceiro com outra pessoa; há quem se angustie principalmente diante da possibilidade de uma relação sexual. Pesquisas encontram diferenças médias entre homens e mulheres em determinados cenários, mas também mostram que essas diferenças são influenciadas por fatores culturais, biográficos e relacionais. Portanto, talvez a pergunta correta não seja se o ciúme é “inato” ou “cultural”.
É provável que exista uma predisposição humana para reagir à ameaça de perder um vínculo importante, enquanto a cultura, a personalidade e a história de cada pessoa determinam boa parte da maneira como essa predisposição será expressa. Em outras palavras: a natureza pode fornecer o pavio; a cultura e a experiência decidem, em boa medida, o que será feito com a pólvora.
E, por falar em literatura, há outro personagem que sempre me vem à lembrança quando penso no assunto: Luzia Cambará, de O Continente, primeira parte de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. De todos os volumes da obra, o episódio que mais me fascina é justamente “A Teiniaguá”, narrativa em que surge Luzia, personagem extraordinariamente complexa, sedutora e inquietante.
Luzia é casada com Bolívar Cambará e parece exercer sobre ele uma espécie de fascínio que mistura desejo, medo, sofrimento e ciúme. É uma personagem de personalidade perturbadora, marcada por uma sensualidade quase ameaçadora e por uma relação peculiar com o sofrimento alheio.
Seu apelido, “Teiniaguá”, não é gratuito: a Teiniaguá pertence à tradição lendária gaúcha da Salamanca do Jarau: uma princesa moura transformada em uma criatura semelhante a uma salamandra, com uma pedra preciosa na cabeça, cuja beleza e fascínio atraem os homens. A lenda foi registrada por João Simões Lopes Neto em Lendas do Sul e serviu de inspiração para Érico Veríssimo.
Luzia é, portanto, uma espécie de Teiniaguá humana: fascinante e perigosa. E aqui aparece uma diferença interessante em relação a Otelo. Em Shakespeare, o ciúme é essencialmente destrutivo para aquele que o sente e, sobretudo, para aquele que dele se torna vítima. Otelo acredita na infidelidade de Desdêmona, deixa-se consumir pela suspeita e acaba assassinando a mulher que ama — que, ironicamente, jamais o traiu.
Em O Tempo e o Vento, o ciúme de Bolívar assume outra configuração. Luzia não é simplesmente uma vítima passiva da paixão possessiva do marido. Ela parece provocar, explorar e até se alimentar desse sofrimento. O ciúme, nesse caso, participa do próprio jogo de poder e sedução entre os personagens. São, portanto, duas faces literárias de uma mesma emoção: Desdêmona é vítima do monstro de olhos verdes. Luzia parece brincar com ele.
E há uma curiosidade pessoal nessa história que talvez seja imperdoavelmente pouco científica, mas absolutamente verdadeira. No seriado O Tempo e o Vento, exibido pela Globo em 1985, e de Carla Camurati interpretando Luzia. O rosto da atriz ficou indelevelmente associado à personagem. Depois disso, tornou-se praticamente impossível encontrar Carla Camurati na televisão ou no cinema sem que aquela Luzia me viesse imediatamente à lembrança. Talvez seja esse o poder da literatura — e, por extensão, do cinema e da televisão: determinados personagens deixam de pertencer exclusivamente ao autor e passam a morar na memória de quem os conheceu.
Voltando ao ciúme, não creio em amor completamente desprovido de qualquer forma de ciúme. Afinal, se alguém ocupa lugar importante em nossa vida, é natural que a possibilidade de perdê-lo provoque alguma inquietação. Mas há uma diferença enorme entre “não quero perder você” e “você não pode pertencer a mais ninguém”. No primeiro caso, existe afeto; no segundo, existe existe posse. E talvez esteja aí a fronteira que realmente importa.
Um pouco de ciúme pode ser apenas o reconhecimento de que o outro é importante. Quando moderado e transformado em diálogo, pode até reforçar a percepção de valor e compromisso dentro de uma relação. Mas, quando se transforma em vigilância, desconfiança permanente, controle, isolamento ou ameaça, deixa de ser demonstração de amor e passa a ser uma forma de sofrimento — para quem sente e, principalmente, para quem é submetido a ele.
No fundo, amar alguém talvez seja aceitar uma coisa bastante incômoda: ninguém possui ninguém. O outro permanece porque quer permanecer, e talvez seja justamente isso que torne uma relação amorosa tão bonita — e tão assustadora. Porque, no amor, não existe contrato de propriedade. Existe escolha. Todos os dias.
E que saudades da Carla Camurati...



