terça-feira, 24 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 88ª PARTE — CIÊNCIA X RELIGIÃO

A CIÊNCIA PODE EXPLICAR O UNIVERSO SEM A NECESSIDADE DE UM CRIADOR.

Depois de perder a esposa e o filho pequeno num acidente causado por um motorista embriagado, um pastor subiu ao púlpito e proferiu o sermão que lhe custou o emprego. Segue uma versão resumida da fala do religioso:


Em junho do ano passado, três pequenos tornados atingiram a cidade de May, no Oklahoma. Os danos materiais foram consideráveis, mas ninguém morreu. Quando os moradores se reuniram na igreja batista local para orar e cantar, um quarto tornado varreu a cidade, destruiu o templo, matou 41 pessoas e mutilou dezenas de outras, incluindo crianças. 


Em agosto, um homem saiu de barco com seus dois filhos e o cachorro da família pelo lago Winnipesaukee. Quando o animal caiu na água, os meninos pularam para salvá-lo e foram arrastados pela correnteza. O pai pulou atrás deles, mas acabou virando o barco. Todos se afogaram — exceto o cachorro, que conseguiu nadar até a margem. Em outubro, um furacão devastou Wilmington, na Carolina do Norte. Dez pessoas morreram, incluindo seis crianças que estavam na creche de uma igreja. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Indicado ao STF para ser "o ministro terrivelmente evangélico" que Bolsonaro havia prometido para a porção "religiosa" do seu eleitorado — uma escumalha que o fanatismo, a polarização e a cegueira mental impedem de ver as coisas como elas realmente são —, o pastor André Mendonça vestiu a suprema toga como patinho feio, mas ganhou nova plumagem ao ser agraciado pelo algoritmo da Corte com a relatoria simultânea dos dois inquéritos mais rumorosos desta banânia: o que investiga o assalto aos aposentados e o que apura as fraudes do falecido Banco Master.

Vale destacar que tanto o bolsonarismo quanto o lulopetismo são nefastos, funestos e prejudiciais para o país, e que o "mito" dos apedeutas descerebrados e o demiurgo de Garanhuns são pinga da mesma pipa, dois lados da mesma moeda… ou seja: a merda é a mesma; só mudam as moscas.

A iminente delação do ex-banqueiro que jantava com a República e ora se equipa para JANTAR A REPÚBLICA consolida uma mudança do eixo de poder no STF: as decisões mais explosivas passarão do gabinete de Moraes para o de Mendonça. E a transição tende a ser brusca, já que a merda que o caso Master jogou no ventilador acertou em cheio dois ministros da Corte (dou um doce a quem adivinhar seus nomes).

Levando a condição de cisne a sério, Mendonça terá de instar os investigadores a descobrir o que Vorcaro queria comprar quando firmou contrato de R$ 129 milhões com a banca advocatícia da família Moraes e quando pagou R$ 35 milhões à empresa de Toffoli pelas cotas de um resort.

Nesta sexta-feira, Mendonça declarou que "bom juiz não é estrela" e que não pretende ser "salvador de nada". Sete meses atrás, ele afirmou que "o bom juiz tem que ser reconhecido pelo respeito, não pelo medo". Dando-se por achado na época, Xandão rebateu: "Impunidade, omissão e covardia nunca deram certo na história para nenhum país do mundo".

Se o respeito e a coragem prevalecerem sobre o corporativismo, os magistrados terão a oportunidade de lavar a toga suja em casa. Pelo bem do Supremo e gáudio dos brasileiros de bem.


Anos antes, no Zaire, uma família de missionários que levava alimentos, remédios e o evangelho foi brutalmente assassinada — ou devorada por canibais, como sugeria a reportagem nas entrelinhas. Cristo, dizem, ascendeu aos céus em corpo e espírito. Nós, pobres mortais, ficamos aqui com pedaços de carne mutilada e uma única pergunta: Por quê? 


Leio a Bíblia desde sempre — primeiro no colo de minha mãe, depois na Juventude Metodista e na faculdade de teologia —, e afirmo que a resposta não está nas Escrituras. O que mais se aproxima dela é uma advertência de São Paulo: Não perguntem, irmãos, porque vocês não entenderão. E quando Jó questionou o próprio Deus, recebeu uma resposta ainda mais dura: Onde estavas tu quando eu fundava a Terra? 


Deus é nossa vara e nosso cajado, proclama o grande salmo, e nos guiará no Vale da Sombra da Morte. Outro salmo O descreve como refúgio e fortaleza. A religião deveria ser nosso conforto nas horas mais sombrias, mas o que diriam as pessoas que morreram na igreja de Oklahoma? E aquela família que se afogou tentando salvar seu cachorro? A Bíblia nos exorta a aceitar tudo com fé, como se a vida fosse uma piada cósmica, e o Céu, o lugar onde a moral da história será finalmente revelada.


Quando pesquisei sobre as várias vertentes religiosas, fiquei perplexo com a quantidade. Católicos, metodistas, episcopalianos, mórmons, anglicanos, luteranos, presbiterianos, adventistas do sétimo dia, ortodoxos gregos, quacres, muçulmanos, budistas, judeus, hindus, e por aí vai.


Todas alegam ter linha direta com o Todo-Poderoso, mas muitas delas foram construídas sobre sangue e ossos dos que se recusaram a aceitar a ideia de Deus que elas pregam. Romanos atiraram cristãos aos leões; cristãos mutilaram e queimaram hereges; Hitler sacrificou milhões de judeus ao falso deus da pureza racial; outros milhões de seres humanos foram eletrocutados, enforcados, esquartejados e envenenados... tudo em nome de um deus.


O que ganhamos com nossa fé? A promessa de que o Céu nos espera, e que lá, finalmente, tudo fará sentido? Desde a infância, nos ensinam sobre o Céu como recompensa e o Inferno como castigo. Céu, Céu, Céu!, repetem. Prometem o reencontro com nossos pais, o abraço de nossas mães falecidas. Mas o Paraíso é a cenoura, e o Inferno, a vara. Ameaçamos nossas crianças com o fogo eterno por roubarem uma bala ou mentirem, mas não existe prova alguma disso, apenas uma certeza cega de que tudo tem um propósito.


A religião é como um golpe de seguro: pagamos o prêmio e não temos como reclamar quando descobrimos que a empresa que levou nosso dinheiro não existe. Viemos do mistério e ao mistério retornaremos; se existe algo além, dificilmente será o deus das igrejas."


A morte é a única certeza que temos na vida, mas o que acontece depois — caso realmente exista um "depois" — intriga a humanidade desde os tempos mais antigos. Os católicos não acreditam em reencarnação; os bons vão para o Céu e os pecadores, para o Inferno (não deixe de ler esta anedota). Na visão dos espíritas, os maus reencarnam para evoluir espiritualmente. Quanto aos judeus, cada grupo tem sua versão do que seria a vida após a morte, e o desfile de crenças é tão variado quanto o desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí.


A perspectiva da vida eterna vem sendo explorada desde sempre por proselitistas que alegam falar em nome de um deus cuja existência conseguem provar, embora soem convincentes — afinal, o sucesso do engodo depende da habilidade do enganador em manipular a fé alheia, como bem ilustra a origem do termo conto do vigário


Política e religião não são mutuamente excludentes, mas a influência da religião na política é nefasta. Alegando uma suposta interlocução divina, padres, pastores e outros "religiosos" (dentro ou fora dos parlamentos) exercem forte influência sobre a população, que, fragilizada pelo temor do fogo do inferno, se deixa manipular pelo proselitismo. O truque é velho como o diabo, mas funciona, pois oferece conforto diante das incertezas do porvir.


A fé individual não depende de rituais, hierarquias ou dogmas; ela surge espontaneamente, movida por experiências profundas e pessoais — como um momento inesperado de conexão com a existência — e se desenvolve sem a necessidade de intermediários ou tradições rígidas. Porém, em tempos de desconfiança nas instituições, muitas pessoas encontram na espiritualidade uma forma de se conectarem com uma força maior, enquanto outras veem a fé como uma confiança silenciosa em algo transcendente, uma aceitação do mistério que dispensa "explicações definitivas".

 

A ciência não invalida a fé — ela a expande. Mas a complexidade do Universo pode ser contemplada e apreciada sem uma explicação esotérica. Ao afirmar que somos poeira das estrelas, o astrofísico Carl Sagan descortinou um vasto Universo sem uma figura divina. Ainda assim, a fé (não confundir com religião) pode ser definida como uma admiração pelo Universo, uma disposição para o questionamento, uma abertura ao desconhecido, uma busca por novas respostas, um modo de honrar o mistério da existência. 


Einstein, Spinoza e outros grandes pensadores viam no Universo uma ordem tão majestosa que, mesmo sem acreditar em um deus pessoal, sentiam-se conectados a uma força criadora e consideravam a busca pelo conhecimento um ato quase espiritual. Einstein chegou a dizer que o mistério é a fonte de toda verdadeira arte e ciência.

 

A busca pelo autoconhecimento mostra que a espiritualidade desvinculada das religiões pode ser uma maneira de nos conectarmos com o mundo sem a necessidade de um conjunto de crenças formais. A fé, nesse contexto, se torna uma prática interior, uma jornada de descoberta pessoal que aceita as incertezas da existência.

 

Enquanto as religiões tradicionais impõem normas e rituais rígidos, a espiritualidade pessoal se ajusta aos valores e necessidades de cada um. Meditação, contemplação da natureza ou mesmo o simples exercício de gratidão são maneiras de alinhar a vida com uma ordem maior. Uma fé íntima e universal, que respeita o mistério sem se prender às religiões formais nem enjeitar as tradições, aceita respostas parciais, valoriza o caminho, celebra o mistério e dá um sentido mais original à espiritualidade.


Em outras palavras, uma confiança de que, mesmo sem respostas absolutas, nossa existência tem um propósito, mesmo que seja simplesmente tentar entender o insondável, se torna uma ligação com o que nos transcende que dispensa explicações dogmáticas. 


Continua…