sábado, 17 de outubro de 2026

OS DEUSES DO TEMPO — CONCLUSÃO

ALICE: "QUANTO TEMPO DURA O ETERNO?" COELHO: "AS VEZES, APENAS UM SEGUNDO."

Por volta do século 4 a.C., Lisipo, um dos três grandes escultores da Grécia clássica, criou uma estátua de Kairós que se tornou famosa. A obra em si se perdeu, mas permaneceu na memória graças a textos como os do poeta Posidipo de Pela (310-240 a.C.), que compôs um diálogo imaginário com a estátua.

Até onde sabemos, Kairós tinha asas nos pés e uma navalha na mão, que, segundo a interpretação mais difundida, representava sua natureza escorregadia, aquele instante crítico em que um segundo antes pode ser cedo demais e um segundo depois ser tarde demais. Seus cabelos longos e abundantes se concentravam na parte da frente, caindo sobre o rosto.

O poeta pergunta: "Por que seus cabelos caem para a frente?" "Para que quem me encontrar de frente possa me segurar", responde a estátua. "Por Zeus!", exclama o poeta, e então pergunta: "E por que a parte de trás da cabeça é calva?" "Para que ninguém possa me agarrar por trás depois que eu passar correndo com meus pés alados." Ou seja: o fato de Kairós ser calvo atrás não era um capricho estético, mas um aviso: é possível agarrar o momento oportuno quando ele vem em sua direção, quando ainda está de frente. Depois que passa, não há como segurá-lo.

Os filósofos e oradores gregos se interessaram por Kairós como ideia, convencidos de que ele não dependia da magia nem da sorte, mas de uma habilidade que podia ser cultivada. Para Isócrates, o célebre educador ateniense, a verdadeira cultura não consistia em acumular conhecimento abstrato, mas na capacidade de se orientar em um mundo onde nada se repete exatamente e não existem fórmulas infalíveis.


Embora não estivessem falando explicitamente sobre o Kairós, muitos estudiosos viram em suas palavras uma das expressões mais claras do pensamento kairológico: a ideia de que a sabedoria consiste, em grande medida, em saber interpretar as circunstâncias. Há momentos que duram segundos, mas mudam uma vida inteira: uma porta pela qual se passa, uma ligação que se atende, uma pergunta que se faz ou se deixa passar. Aristóteles, em sua Retórica, transformou Kairós no momento e no contexto em que um argumento é apresentado: ainda que você tenha toda a razão do mundo, ela será ignorada se for expressada no momento errado.


Na tradição sofística, kairós era ainda mais central. Górgias de Leontinos, um dos grandes mestres da retórica, compreendia a persuasão como uma arte que exige captar, nos momentos oportunos, aquilo que é apropriado e sugerir aquilo que é possível. Ele e vários outros pensadores ao longo da história compartilharam essa mesma intuição: a importância de estar atento à ocasião. Não por acaso, essa palavra tem uma história tão sugestiva: ela vem de Occasio — nome da deusa romana que personificava a mesma ideia representada por Kairós, cuja raiz remete a algo que se apresenta de repente. 


Uma vez que a ocasião não é uma abstração, mas uma conjuntura favorável que surge diante de alguém e pode desaparecer com a mesma rapidez, Occasio herdou a mesma iconografia de Kairós: a mecha de cabelo sobre a testa e a nuca descoberta. Se você a deixasse passar, já não haveria por onde segurá-la. Isso até gerou ditados em algumas línguas, como o italiano, que são falados até hoje: "L'occasione và presa per il ciuffo" ("é preciso agarrar a oportunidade pelo topete") ou "La fortuna è calva" ("a sorte é careca."). Em português, essas expressões têm um sentido parecido com "Cavalo encilhado não passa duas vezes".


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Visto que a vida continua depois da eleição qualquer um dos dois finalistas que vença o torneio terá necessariamente um encontro marcado com a revisão das próprias convicções, e são tantas as incoerências e tão improvisadas as mudanças de posição que o outro caminho do vencedor será o confronto com o estelionato eleitoral. Ademais, aquele que ficar no papel de líder da oposição tampouco escapará de precisar dar o dito pelo não dito.

Luiz e Flávio tornaram-se convertidos a uma fé invertida em relação ao que habitualmente praticavam e/ou pensavam. Na undécima hora, o molusco deu de abraçar causas que desprezou a vida toda e que no atual governo ignorou, não obstante tivesse poder para levá-las adiante. Para citar só algumas, aderiu à doutrina da prosperidade; descobriu o mal das apostas eletrônicas; percebeu-se de repente na era digital; deu-se conta de que lugar de criminoso é na prisão; tirou a família tradicional da lata de conservas e a incluiu na carta de adesão aos princípios dos evangélicos.
A fim de se adaptar aos reclames por moderação, o filho do golpista ora presidiário passou a oferecer defesa da democracia na mesma bandeja em que se dispõe a entregar anistia a golpistas e arremedos ditatoriais do salvadorenho Bukele. À teoria do "tesouraço", o fã do argentino Javier Milei acoplou a ampliação dos gastos com benefícios sociais, uma contradição em termos. Seguiu na toada da incongruência ao tirar a PEC do fim da jornada 6x1 do lugar de "hipocrisia oportunista" para a condição de proposta digna de apoio por representar "a vontade da maioria".

O populismo tem lá suas vantagens eleitorais, dada a existência de contingente expressivo de necessitados, crédulos e manipuladores travestidos de inocentes —mas cobra um preço. No caso, maior para Lula; se reeleito, terá de pagar a conta da demagogia. Para o filho do pai, sai mais barato: na oposição, assume o lugar de atacante; no governo, dá um calote na figura do candidato e faz fumaça das palavras de anteontem.


Mais de dois mil anos depois, continuamos enfrentando o mesmo desafio: reconhecer o momento certo antes que seja tarde demais. Vivemos na era de Cronos por excelência. Temos calendários sincronizados em vários dispositivos, notificações que nos avisam quando devemos sair de casa, aplicativos que transformam as horas em blocos de cores. Somos, em termos quantitativos, os seres mais conscientes do tempo que já existiram na história da humanidade. No entanto, às vezes somos tomados por uma estranha sensação de ter deixado passar coisas importantes.


Talvez o problema não seja tanto a falta de tempo cronológico, mas o fato de que, ao nos preocuparmos tanto em administrar o tempo quantitativo, às vezes nos tornamos menos sensíveis ao tempo qualitativo. Sem perceber, podemos estar tão atentos ao próximo item da lista que não notamos que o que está acontecendo neste exato momento é algo que não vai se repetir. Estamos tão ocupados olhando para o relógio que deixamos de interpretar a situação — e Kairós passa diante de nós. Ou por outra: estamos tão focados no amanhã que deixamos de viver o hoje em sua plenitude.


Kairós não é uma teoria sobre o tempo, mas algo que conhecemos empiricamente e que podemos aproveitar, algo fugaz trazido por um deus com cabelo na frente, mas não atrás. Kairós não exige que façamos menos coisas, mas pede que esteja presente quando as fazemos. Não se trata de ficar ansioso e tentar transformar cada segundo em uma oportunidade épica. Isso seria distorcer o conceito. Os gregos não pregavam uma urgência permanente: estavam descrevendo uma textura do tempo que inclui tanto os longos períodos do Cronos comum quanto os instantes de kairós que o pontuam.


Isócrates não dizia que seus alunos deveriam criar os momentos oportunos. Dizia que deveriam reconhecê-los quando surgissem. E reconhecê-los é, em parte, uma questão de atenção: uma escuta um pouco mais apurada, uma presença um pouco mais completa, que permite perceber quando algo está pronto para ser dito, feito, iniciado ou concluído.


Na última estrofe do poema de Posídipo de Pela, que encerra o diálogo com a estátua de Kairós, o interlocutor pergunta para quem ela foi criada. E a estátua responde: "Para você, viajante. Para você fui feito; aqui, no limiar, sou um ensinamento". Não no templo, não na praça pública, mas num lugar entre o dentro e o fora, entre o que está por vir e o que já passou.


É difícil imaginar um lugar mais adequado para Kairós.