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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O TEMPO E O SUICÍDIO QUÂNTICO

QUANDO O RELÓGIO BATE TREZE VEZES.

Ainda que o tempo seja uma invenção criada por nossos antepassados para facilitar a compreensão do mundo, o nascimento inaugura uma viagem rumo a um futuro que nunca chega (hoje é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã). Envelhecer é inexorável e a morte é a única certeza que temos nesta vida, mas viver para sempre é um sonho antigo.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA 


Se nunca houve reviravolta entre os dois turnos, nunca a distância do primeiro para o segundo lugar foi tão pequena. A dúvida é se o presidente terá força e discernimento suficientes para corrigir os erros a tempo de ganhar.

O desempenho da direita impressionou, mas não o suficiente para consolidar a impressão de que a eleição esteja resolvida, de que Jair Bolsonaro esteja indultado e de que os golpistas estejam anistiados.

É verdade que não há registro de virada do segundo sobre o primeiro colocado de um turno a outro, mas também é fato que nunca a distância foi tão estreita — menos de dois pontos percentuais —, dianteira que a oposição tem motivo para comemorar, mas que o governo tem condição de inverter nas próximas três semanas se souber disputar com competência os cerca de 8% dados aos demais candidatos.

Posta a bola no chão, fica a lição de que a subestimação do adversário é péssima conselheira. Isso valeu para Lula, que desde o início menosprezou a oponente, e vale agora para Flávio, que será imprudente se desdenhar da capacidade de reação de Lula, decorrente do susto.

O choque de realidade ficou evidente no semblante de decepção dos aliados e na aparente calma da manifestação do molusco logo após a confirmação do resultado do primeiro turno: ele mediu palavras e procurou se ater aos limites da normalidade, a fim de ganhar tempo e não se precipitar sobre o que fazer.


Na Grécia Arcaica (séculos VII e VI a.C), acreditava-se que a água de um rio que nascia no Monte Olimpo tornava os homens imortais. Em 1513, Ponce de León partiu de Porto Rico em busca da lendária Fonte da Juventude e descobriu a Flórida, mas morreu sem jamais ter encontrado a tal fonte. Em 1932, quando a expectativa de vida dos norte-americanos era de 59,7 anos, Walter B. Pitkin publicou seu livro de autoajuda Life begins at forty (A vida começa aos quarenta).


Segundo a mitologia grega, Urano, temendo ser destronado pelos filhos, devolvia-os ao útero de Gaia. Até que um dia, cansada de gerar para perder, a deusa escondeu Cronos e lhe pediu que, quando crescesse, castrasse o pai. Cronos atendeu ao pedido da mãe, mas passou a devorar a própria cria. O ciclo só foi interrompido quando Réia, sua esposa, escondeu Zeus e lhe pediu que obrigasse o pai a regurgitar seus irmãos. Zeus não só cumpriu a missão como derrotou Cronos numa guerra que durou dez anos, tornando-se o deus dos deuses.


Urano, Cronos, Kairós e Saturno — a versão romana de Cronos — são tão reais quanto o céu, o purgatório e o inferno dos católicos, mas há na mitologia grega uma distinção fundamental: Enquanto Cronos representa o tempo cronológico, linear e mensurável, Kairós é associado ao tempo da experiência, do acontecimento e do instante significativo. Por convenção, o tempo que rege nossas vidas é o de Cronos, que o relógio mede, que os calendários registram, que transforma segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias, meses e anos. 


Essa lógica nos leva a tratar o tempo como algo mensurável e manejável — um recurso a ser administrado, otimizado e explorado, quase sempre a serviço do trabalho, do consumo e da vida acelerada que naturalizamos no cotidiano —, mas outras formas de compreender e viver o tempo persistem entre povos tradicionais, originários, indígenas, africanos e do sul global. 


Nessas cosmovisões, em vez de se comportar como uma flecha que avança inexoravelmente para a frente, o tempo pode ser cíclico, circular ou espiral, pois nem o passado está morto, nem o futuro é um alvo fixo, nem o presente é apenas um ponto de passagem. O tempo cronológico foi adotado como padrão universal por colonizar o presente, capturar o passado e comprometer o futuro. Na era das métricas, notificações e algoritmos, Cronos deixou de ser apenas uma abstração para se tornar um sistema de controle íntimo, automático e permanente. 


No fim das contas, Cronos venceu, não como mito, mas como método. Ele já não empunha uma foice, mas um relógio digital. Não reina no Olimpo, mas rege os calendários, as metas, os prazos e as notificações. Não precisa mais devorar os filhos; basta convencê-los de que estão sempre atrasados. E nós, acreditando dominá-lo, seguimos oferecendo aquilo que ele sempre exigiu: nossa própria vida, em parcelas mensais.


Entre 1960 e 2014, a expectativa de vida dos brasileiros aumentou de 48 para 74,6 anos. Aubrey de Grey — co-fundador da SENS — acredita ser possível viver por séculos sem sofrer os transtornos da velhice, mas poucas pessoas colhem mais de 100 margaridas dos jardins da existência e quase ninguém aceita o passar do tempo com serenidade. Aos 93 anos, chamado a escolher a palavra mais bonita da língua portuguesa, o poeta Manoel de Barros — que dizia prezar insetos mais que aviões — escolheu "criança", talvez por ter envelhecido com brilho, beleza e arte. 


A experiência que vem com a idade nos ensina a escolher entre o que vale ficar e o que pode partir. É na maturidade que o mundo deixa de ser promessa e passa a ser memória; que o coração, cansado de batalhas inúteis, começa a buscar apenas aquilo que o sustenta; que o corpo, companheiro fiel por décadas, começa a falhar em pequenos sinais — um joelho que reclama, uma visão que pede auxílio, uma dor que se instala sem convite.


A idade ensina a negociar com limites, respeitar fronteiras internas e aceitar que há ritmos que não voltam. A solidão visita com frequência os que envelhecem em silêncio: amigos partem, amores se transformam, lares se esvaziam e a memória vira companhia — às vezes, consolo; às vezes, ferida. 


Diz-se que a delícia da velhice está num café sem pressa, num fim de tarde em silêncio, na alegria simples de estar, que há uma delícia profunda em olhar para trás e reconhecer a própria trajetória, os afetos preservados, os erros superados, os recomeços possíveis, e que envelhecer é aprender a dizer não sem culpa, a escolher com mais clareza, a valorizar a presença de quem ficou.


Mas nem todos aceitam a velhice filosoficamente, como frisou Ruy Castro na crônica Melhor idade é a puta que te pariu, que merece ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta.


Continua…

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

SERÁ QUE VIVEMOS NUMA SIMULAÇÃO?

SE CIVILIZAÇÕES AVANÇADAS CRIARAM MUITAS SIMULAÇÕES COM SERES CONSCIENTES, É MAIS PROVÁVEL QUE ESTEJAMOS VIVENDO DENTRO DE UMA DESSAS SIMULAÇÕES DO QUE NA REALIDADE BASE.

O mundo está cada vez mais estranho. Se fossemos Keanu Reeves vivendo em uma simulação de computador, diríamos que estamos constantemente passando por “falhas na Matrix”.


A franquia Matrix explora um futuro distópico onde a realidade que conhecemos é, na verdade, um sistema de inteligência artificial chamado "Matrix". Thomas Anderson, — conhecido pelo apelido Neo e atormentado por falhas na sua realidade — é contatado por Morpheus e Trinity para invadir a simulação, recrutar e treinar "despertados". Morpheus oferece a Neo a escolha entre duas pílulas: a azul (para continuar na ilusão) e a vermelha (para descobrir a verdade). Ao escolher a pílula vermelha, o programador acorda em um mundo devastado e descobre que as máquinas dominam o planeta, mantendo os corpos humanos em cápsulas para extrair energia (bioeletricidade).


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Os púlpitos vazios de Lula e Flávio Bolsonaro chamaram a atenção, mas a ausência dos favoritos já era esperada. Dos seis convidados, restaram apenas três. Romeu Zema se juntou aos fujões. Augusto Cury ameaçou desistir, mas foi convencido pelo jornalista Fernando Mitre a desistir da desistência, juntando-se no estúdio a Ronaldo Caiado e Renan Santos. Os três somam 11% das intenções de voto no Datafolha, contra 71% atribuídos ao molusco macróbio e ao rebento do refugo da escória da humanidade..

A cena mais marcante da palhaçada estava na plateia, não no palco. Vice de Ronaldo Caiado, Gilberto Kassab cochilou várias vezes — inclusive durante uma fala do seu companheiro de chapa. Com suas sonecas, foi o vice-campeão do "debate", perdendo apenas para o eleitorado que foi dormir antes dele.

Em última análise, foi "debate" entre aspas, sem embates. Lula apanhou mais que Bolsonarinho. Zema foi ignorado — ninguém quis chutar cachorro morto.

Com linguajar de sarjeta, Renan exibiu cortes para a internet, não ideias. Disse que Lula e Flávio fugiram como "duas cadelas". Escorregou entre a misoginia e a homofobia. Fez ataques gratuitos a Janja e Erika Hilton.

Com sorriso robótico, Caiado soou menos como presidenciável do que como guia turístico do seu estado. Prometeu transformar o Brasil numa espécie de Goiás hipertrofiado. Com ares professorais, o psiquiatra Cury forneceu receitas de autoajuda para um país "doente". 

A 41 dias do primeiro turno, dificilmente o "debate" influenciará significativamente os ponteiros das pesquisas. Lulistas e bolsonaristas aplaudem os fujões. O eleitor que atrasou o sono não se livrou do pesadelo da polarização.


Isso cheira a ficção, mas e se nosso Universo for mesmo um gigantesco holograma, como afirmam pesquisadores da Universidade de Southampton, no Reino Unido, Universidade de Waterloo e Instituto Perimeter, no Canadá, Lecce e Universidade de Salento, na Itália, que publicaram um estudo sobre o assunto no periódico Physical Review Letters após constatarem que uma das explicações para a formação do Universo cabe direitinho em um modelo de duas dimensões (2D)? 


Essa é uma entre as mais de 10 mil pesquisas sérias relacionadas ao conceito do Universo Holográfico, criado pelo físico Leonard Susskind nos anos 1990. Só que, até onde se sabe, o cosmos é formado por três dimensões espaciais (altura, profundidade e largura) e uma quarta, de natureza temporal. Dito isso, como ele poderia funcionar com uma dimensão a menos (sendo que é só olhar para a frente para ver que tudo ao nosso redor é em 3D)?


Imagine que tudo o que você vê, sente e ouve em três dimensões (mais a sua percepção de tempo), na verdade, emana de um campo plano de duas dimensões. A ideia é semelhante à dos hologramas comuns, nos quais uma imagem em 3D está decodificada em uma superfície plana, como o holograma de um cartão de crédito. A diferença é que agora é o Universo inteiro que está decodificado. Mas isso não significa que estamos vivendo agora em um holograma, e sim que isso pode ter acontecido no surgimento do Universo, há quase 14 bilhões de anos. 


Como mencionado em dezenas de oportunidades, a ciência sabe muito, mas não sabe tudo, e ainda não foi capaz de conciliar o modelo da mecânica quântica (que regula o universo das coisas menores do que um átomo) com o modelo da relatividade geral (aquela mesma proposta por Einstein, que regula os corpos gigantescos como estrelas e planetas). Isso fica especialmente evidente ao se tentar descrever o surgimento do Universo, quando, segundo a teoria do Big Bang, toda a massa e energia existentes estavam contidas em um único ponto menor do que uma ervilha, mas com densidade infinita.


Em outras palavras, existem duas físicas que falam línguas diferentes, já que a mesma gravidade que explica tão bem o comportamento dos planetas, por exemplo, não funciona para explicar o comportamento de partículas subatômicas. No entanto, uma teoria que tenta fazer as duas físicas conversarem é conhecida como gravidade quântica.


De acordo com o físico italiano Carlo Rovelli, apesar de ainda não ter sido comprovada experimentalmente (como muita coisa na física teórica), essa teoria é a que melhor explica a realidade que nos cerca, pois para a gravidade quântica não existe o espaço-tempo. Segundo esta concepção de mundo, tudo seria formado por campos quânticos — compostos pelas partículas que, como os fótons, por exemplo, não precisam do espaço-tempo para lhes servir de suporte porque eles próprios são o espaço-tempo.

 

Além do tempo e do espaço, a teoria elimina também o universo infinitamente pequeno, menor do que as partículas subatômicas, onde a mecânica quântica atua. Assim, as relações espaciais que tecem o espaço curvo de Einstein são as mesmas interações que tecem as relações entre os sistemas elementares da mecânica quântica — que se tornam compatíveis quando se conclui que espaço e tempo são aspectos de um campo quântico que podem viver mesmo sem serem escorados num espaço externo.


Como se vê, o cosmos é um lugar fascinante e nada óbvio. E o mais interessante da gravidade quântica é que ela prevê que, se eliminarmos uma dimensão, podemos eliminar também a gravidade, tornando os cálculos muito mais fáceis. Com esta ideia em mente, os pesquisadores desenvolveram um modelo com duas dimensões (mais o tempo) para explicar como o princípio do holograma poderia explicar os acontecimentos do Big Bang e suas consequências.


Vale reforçar que eles estão longe de provar que o nosso Universo era um holograma no começo, mas o fato de as evidências observacionais do mundo real explicarem partes faltantes das leis da física em duas dimensões significa que não devemos descartar a ideia. Por outro lado, nenhum de nós é um desenho animado vivendo em um mundo sem profundidade. Segundo Niayesh Afshordi, da Universidade de Waterloo, talvez não vivamos em um holograma, mas podemos ter saído de um. Seja como for, até prova em contrário o Universo tem três dimensões.


Dada a quantidade de universos criados, a ideia encontra eco nos trabalhos tanto de filósofos contemporâneos como David Chalmers, da Universidade de Nova York, quanto de filósofos clássicos como Platão — com sua alegoria da caverna — e modernos como Descartes, para quem não podemos confiar cegamente em nossas percepções. Por exemplo, o resultado de uma final de copa do mundo pode ser o mesmo para os dois países, mas dificilmente quem perdeu vai ter a mesma percepção daquele que ganhou (pergunte a um torcedor alemão se ele ficou triste com o 7x1). Tem-se aí duas realidades alternativas baseadas em um único fato.

A Hipótese da Simulação ficou ainda mais conhecida em 2016, quando o magnata Elon Musk, CEO da SpaceX, disse que fazemos parte de um mundo simulado e que a nossa realidade poderia ser só uma entre muitas. Mas a tecnologia de hoje é muito mais avançada do que há dez anos, quando agíamos como neandertais e usávamos o Orkut, tínhamos que ir ao banco pagar boletos, ou passávamos madrugadas baixando músicas na internet. 


A questão que os filósofos propõem é exatamente esta: a humanidade poderia evoluir a ponto de criar uma inteligência que vivesse em um mundo simulado e que fosse capaz de ter consciência? Há quem diga que já chegamos a esse nível, e que fazemos parte desse imenso game que seria a realidade que nos cerca, manipulados por seres avançados de um universo “acima” do nosso.


Em um podcast do jornal The Guardian, Chalmers afirma que seria impossível conseguirmos qualquer prova desta teoria, por causa de um simples fator: qualquer evidência que a gente consiga pode ser ela própria uma simulação. Mas isso não nos impede de caçá-las. Como afirmou o cosmólogo do MIT Max Tegmark, quanto mais aprendemos sobre o nosso Universo, mais ele parece ser baseado nas leis da matemática, pois elas apenas refletem os códigos de computadores em que foram escritas. 


Mas nem todos concordam. A física teórica Lisa Randall, da Universidade Harvard, afirma que usar a Hipótese da Simulação como desculpa para eventos que dão errado, como a cerimônia do Oscar ou a eleição de Donald Trump, é uma forma de abdicar das responsabilidades. Segundo ela, seria mais frutífero focar no que podemos fazer para evitar os erros e melhorar o mundo do que atribuir resultados indesejáveis a forças externas incontroláveis.


Na física, não se consegue provar de fato uma teoria, apenas excluir teorias alternativas. Então, não se pode afirmar que nenhuma teoria da física é absolutamente correta (ou incorreta) porque não se tem acesso a todos os níveis de informação. O fato de vivermos em um jogo de videogame não significaria que a realidade não existe, apenas que ela seria feita de informação.


O problema é que, caso a hipótese se confirmasse e todos descobríssemos que somos feitos de bits, teríamos dilemas morais muito mais complexos para resolver. Por exemplo, a entidade que criou a nossa realidade poderia ser um deus ou apenas hackers em um Universo ‘acima’ do nosso. E não há razão para pensarmos nesta inteligência superior como superpoderosa só porque ela controla o que fazemos. 


Ou talvez não se trate de videogame, mas de algo mais autônomo, que não precisa necessariamente de um controlador. Em uma simulação, colocamos as leis da física e da natureza e criamos um Universo, mas não interferimos no que criamos, apenas colocamos os princípios fundamentais e observamos. 

 

Outra questão a ser respondida seria: uma inteligência artificial consciente é menos humana do que um ser humano de verdade — ou pelo menos o que consideramos humano? Como afirmou um dos robôs do parque de Westworld quando foi confrontado com a sua “falta de humanidade”: “A dor existe na mente; ela é sempre imaginada. Então qual é a diferença entre a minha dor e a sua, entre você e eu?”

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE NOSSO SISTEMA SOLAR

DIANTE DA IMENSIDÃO DO COSMOS, SOMOS APENAS UM REFLEXOS NA JANELA DO UNIVERSO.

Depois que Plutão foi rebaixado a objeto transnetuniano (2006), nosso sistema solar ficou reduzido a 8 planetas, sendo quatro internos (os rochosos Mercúrio, Vênus, Terra e Marte) e quatro externos (os gasosos Júpiter, Saturno, Urano e Netuno). 

A União Astronômica Internacional batizou os planetas com nomes de divindades da mitologia romana. Mercúrio — o menor e mais próximo do Sol — ganhou o nome do deus associado ao comércio, às viagens e à eloquência (correspondente a Hermes, o mensageiro dos deuses na mitologia grega). Ele completa sua translação em 87 dias terrestres, mas leva 58 dias e 16 horas para girar em torno do próprio eixo. Ainda que tenha pouco mais de um terço do tamanho da Terra, pode ser visto nas primeiras horas da manhã ou logo após o pôr do Sol. 

Observação: Ainda que Marte seja tido e havido como nosso vizinho mais próximo, Mercúrio permanece a uma distância menor ao longo do tempo devido às dinâmicas das órbitas planetárias.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Ex-fritador de hambúrgueres numa unidade da rede de fast-food Popeyes (que serve somente frango) no Maine, ex-escrivão da PF e ex-deputado federal, Eduardo "Bananinha" Bolsonaro poupou tempo à Justiça Eleitoral trocando a candidatura a uma vaga de suplente de senador por São Paulo pela de candidato imbatível ao ostracismo nos Estados Unidos.
Desde que se tornou um autoexilado, Bananinha vem colecionando revezes, incluindo uma condenação criminal por articular junto a autoridades dos Estados Unidos a imposição de sanções econômicas e políticas contra o Brasil, tentar intimidar o Judiciário e interferir no julgamento da ação penal que condenou seu pai por tentativa de golpe de Estado. Uma adversidade é acontecimento, duas, coincidência, três, aviso, quatro, destino, e o destino não mudou o filho do pai, apenas o desmascarou.
O filósofo Descartes concluiu: "Penso, logo existo". Cérebro do clã Bolsonaro, Bananinha interroga o espelho: "Por que é que eu penso? Para que diabos eu existo?" Mas não é só: enquanto investiga o déficit localizado entre suas orelhas, zero três é investigado no caso Dark Horse — a PF suspeita que parte dos R$ 61 milhões que Flávio Bolsonaro mordeu de Daniel Vorcaro financie o irmão nos Estados Unidos. 
Dudu nega. Diz que dispõe de uma "renda passiva". No português das ruas: não precisa trabalhar para viver. Pelo andar da carruagem, o fiduma terá um ostracismo dourado, sem o incômodo do suor.
 
Vênus, o segundo por ordem de afastamento do Sol, recebeu o nome da deusa do amor e da beleza (correspondente a Afrodite no panteão grego). Por ser visível a olho nu, os antigos achavam que se tratava uma estrela, e "a" batizaram de Vésper ("tarde" em latim.). Sua rotação, retrógrada como a de Urano, dura 243 dias terrestres, e sua translação, 224. Um dia venusiano é mais longo que seu próprio ano, e ainda que o tamanho, massa e composição química do planeta equivalham aos da Terra, a atmosfera densa, composta basicamente de dióxido de carbono, eleva a temperatura em sua superfície a mais de 400°C, e a pressão atmosférica a cerca de 90 vezes a da Terra.

Durante anos, acreditou-se que Vênus teria tido oceanos líquidos no passado e poderia ter mantido condições habitáveis, mas uma equipe da Universidade de Cambridge concluiu que o interior do planeta é seco demais para ter formado oceanos na superfície. A recente reanálise de dados da sonda Pioneer Venus levaram à conclusão de que as nuvens venusianas contém água em quantidades muito superiores às que se imaginavam, tornando plausível a existência de extremófilos. Ademais, a presença de gases como fosfina e amônia é difícil de ser explicada por processos puramente geológicos, levando a crer que a existência de vida microbiana nas camadas médias da atmosfera é plausível. 
 
Terceiro planeta por ordem de afastamento do Sol, a Terra foi chamada inicialmente de Gaia (nome da entidade titânica grega que representa a "Mãe Terra"). Até onde se sabe, trata-se do único planeta do Sistema Solar onde a vida surgiu e se desenvolveu. No entanto, considerando que algumas bactérias e outros organismos unicelulares são capazes de sobreviver no espaço sideral, há sementes de vida flutuando por toda a galáxia, o que torna viável a hipótese de a vida ter sido trazida por rochas que se desprenderam de Marte ou de suas duas luas.

A Terra fica na zona habitável do Sistema Solar — que os astrônomos chamam de "Cachinhos Dourados" numa alusão ao conto infantil homônimo, no qual a protagonista não gosta do mingau doce como o do bebê urso nem salgado como o do papai urso, mas "no ponto certo", como o da mamãe ursa. Mas isso não significa que não existam exoplanetas que abrigam formas de vida diferentes das que se desenvolveram por aqui, como sugerem os contatos do terceiro grau, nos quais os avistamentos envolvem não só os OVNIs, mas também seus tripulantes.

Diferentemente de Mercúrio, que não tem satélites, e de Marte, que tem dois, nosso planeta tem a Lua, que é responsável pelas marés e fundamental para a vida. Seu diâmetro é cerca de um quarto do da Terra, mas seu volume é 49 vezes menor e dia lunar dura 27,3 dias terrestres. Devido a um fenômeno conhecido como rotação sincronizada, o satélite leva exatamente o mesmo tempo para girar em torno de si mesmo e para orbitar a Terra (período chamado de mês sideral ou mês orbital). 

Devido a esse sincronismo, vemos sempre a mesma face lunar, daí ser comum falarmos em "lado escuro da Lua", quando na verdade ele é iluminado pelo Sol, apenas fica invisível para nós. Assim, o correto é dizer "face oculta da Lua", embora o célebre álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, ajudou a confundir o imaginário popular. Já o mês sinódico, como é chamado o período médio entre duas fases idênticas, como duas luas cheias consecutivas, e ligeiramente maior que o mês sideral, já que a Terra também se move ao redor do Sol durante esse intervalo. 

Marte é maior que Mercúrio e um pouco menor que Terra e Vênus. O nome do deus da guerra dos antigos romanos é uma alusão à sua cor avermelhada, resultante do óxido de ferro presente na atmosfera, que lembra o sangue derramado nas batalhas. A temperatura na superfície varia de -120 °C a 20 °C, conforme a região e a estação do ano, e as tempestades de poeira são comuns. Sua rotação leva 24,6 horas terrestres, com velocidade orbital de 24 km/s, e a translação, 687 dias terrestres. A origem de suas luas — Deimos e Phobos — é controversa: alguns cientistas acreditam que elas sejam asteroides capturados pela gravidade do planeta, enquanto outros atribuem sua formação a detritos lançados ao espaço pelo impacto de um meteoro gigante.

Existem projetos envolvendo a construção de uma cidade habitável em Marte, provavelmente na planície vulcânica Arcádia Planitia, mas Elon Musk reviu suas prioridades e resolveu construir uma base lunar, que ficaria pronta em menos de uma década, contra mais de 20 anos em Marte. Isso porque permanências muito longas no espaço causam perda de densidade óssea e muscular, diminuição do tamanho do coração, sono irregular, enfraquecimento do sistema imunológico e impactos na saúde mental dos astronautas. A NASA vem buscando maneiras de minimizar os efeitos da exposição prolongada à microgravidade, radiação cósmica e outras condições ambientais adversas, mas é mais fácil falar do que fazer. 

As missões Apollo percorriam a distância média entre a Terra e a Lua (384.400 km) em 3 dias; mas as sondas modernas fazem o mesmo trajeto em menos de 24 horas. O problema é o tempo que os astronautas teriam de permanecer no satélite para construir uma base que servisse de "trampolim" para a exploração de Marte e outros planetas do Sistema Solar. 

Uma viagem à Marte com a tecnologia disponível atualmente leva de 128 a 333 dias (a "oposição" entre os dois planetas ocorre a cada 26 meses, ao passo que a Lua fica mais próxima da Terra a cada 10 dias). Considerando o tempo de ida e volta e duas semanas de estada em solo marciano, os astronautas ficariam mais de um ano fora de casa. Mesmo assim, Mesmo assim, a SpaceX tenciona levar humanos até lá entre o final desta década e meados da próxima, e a Rússia vem desenvolvendo um motor elétrico de plasma que promete reduzir o tempo de viagem para menos de dois meses.

Mesmo que a prioridade de Musk passou a ser o projeto lunar, Marte continua sendo o destino final na visão da SpaceX, enquanto a Lua é o próximo passo concreto — mais rápido, mais iterável e mais atraente também para investidores.

Continua…

quinta-feira, 9 de julho de 2026

HÁ ALGO DE PODRE NO REINO DOS BOLSONAROS

FALAR EM POLÍTICA NO BRASIL, ULTIMAMENTE, É COMO PISAR NA MERDA.

Se Shakespeare exagerasse um pouco no vinho, talvez escrevesse um dramalhão parecido com o que a família Bolsonaro ora protagoniza para todo o Brasil.

Há de tudo ali: intrigas entre madrasta e enteados, o patriarca que não pode falar por si, conspiradores que instigam a cizânia e, sobretudo, a sede irrefreável de poder.

Seria divertido, se fosse apenas uma peça de teatro. Mas não: a exposição pública das vísceras da família Bolsonaro, por meio de um vídeo publicado pela ex-primeira-dama com duras críticas ao enteado e pré-candidato à Presidência, é uma pequena amostra da natureza degenerada do clã que tem chances consideráveis de voltar a governar o Brasil.


Essa novela só interessa aos brasileiros na medida em que abre uma fresta para testemunhar o projeto político de uma família que fez da via eleitoral um atalho para a dolce vita.


Desde que Jair Bolsonaro deixou o Exército – depois de ser punido por insubordinação e acusado de envolvimento num plano para explodir unidades militares –, migrou com sucesso para a política e construiu com os filhos algo que muito apropriadamente pode ser chamado de uma empresa familiar voltada à conquista e à manutenção do poder no seio da própria família. Mas não para implementar um projeto de desenvolvimento do Brasil, e sim para que todos, sobretudo o patriarca, pudessem viver à custa do Estado.


O bolsonarismo nunca foi uma visão de país, que dirá uma plataforma de governo. É uma máquina de mobilização emocional de setores da sociedade construída sobre ressentimentos e a irresignação com as conquistas civilizatórias da Constituição de 1988. Nesse balaio de rancores e teorias da conspiração, entram o reacionarismo travestido de “conservadorismo de costumes”, a desconfiança nas instituições republicanas, o desdém pelo conhecimento, a hostilidade ao diálogo e o antipetismo, donde vem sua força eleitoral.


Sem o nome do patriarca nas urnas, o que resta é essa briga interna por seu espólio político. A mulher, uma espécie de Lady Macbeth da Casa de Bolsonaro, dá sinais de querer trilhar uma carreira política autônoma, ainda que negue publicamente essa intenção. O primogênito do marido é pré-candidato à Presidência da República, e o restante da prole tem suas próprias pretensões eleitorais. Cada um se ocupa de seus interesses particulares, e o Brasil, claro, não entra nessa equação.


Nenhum dos protagonistas desse reality show perde tempo ou tem competência para discutir assuntos que considera menores, como a carestia, o descontrole das contas públicas, a baixa produtividade, o desalento entre os jovens, as deficiências da educação básica e a violência urbana. Seria pedir demais. Afinal, a família Bolsonaro nunca se preocupou com nada disso. Sempre foi mais fácil apontar o inimigo – o PT, a imprensa profissional, o Supremo e o comunismo internacional, entre outros fantasmas – do que propor soluções para problemas reais sobejamente conhecidos, que exigem competência técnica, habilidade política, respeito por adversários e, acima de tudo, interesse genuíno no bem comum.


O bolsonarismo só sobrevive porque o antipetismo é uma força real e legítima na sociedade brasileira, e Bolsonaro soube como nenhum outro político se apresentar como o candidato anti-Lula. Mas, no que concerne aos interesses do Brasil, isso não basta. Apresentar-se como a nêmesis do petista não é um plano de governo. É, quando muito, uma eficiente estratégia eleitoral.


Lady Michelle fez um grande favor ao Brasil ao gravar e divulgar seu depoimento a respeito do enteado, dando aos eleitores conservadores a chance de ver com os próprios olhos a matéria prima do bolsonarismo original. Quem sabe os estimule, finalmente, a procurar alternativas que estejam genuinamente interessadas em governar o Brasil com bom senso e dignidade – qualidades estranhas a Jair Bolsonaro e sua grei.


Com ESTADÃO


SOBRE A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 9 DE JUHO


Para não dizer que não falei das flores, hoje os paulistas comemoram o nonagésimo quarto aniversário da revolução constitucionalista de 1932. Para quem não se lembra das aulas de história, voltemos no tempo até 1926, quando Washington Luís enfrentava a crise internacional de 1929 e a resistência de militares de ideais nacionalistas.
As revoltas tenentistas no RS, em 1923, e em SP, em 1924, somadas à insatisfação de parte das oligarquias com a candidatura e posterior eleição de Júlio Prestes, levaram à sua deposição. E assim, mais um golpe militar empurrou a Velha República para a cova.
Prestes havia vencido Getúlio Vargas num pleito marcado por denúncias de fraude e rachas entre as oligarquias. Em julho de 1930, os ânimos se acirraram ainda mais com o assassinato de João Pessoa, que havia sido candidato a vice na chapa de Vargas.
Em outubro, os militares depuseram Washington Luís e abriram caminho para a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. O presidente deposto foi levado preso do Palácio do Catete ao Forte de Copacabana um mês antes da data em que passaria o cargo a Prestes — que nem chegou a ocupá-lo: uma junta militar assumiu o poder em 24 e passou-o a Vargas em 03 de novembro, dando início ao "governo provisório".
Os primeiros anos da Era Vargas foram marcados pelo clima de tensão entre as oligarquias e os militares, principalmente no estado de São Paulo, levando à Revolução Constitucionalista de 1932. Para os que faltaram às aulas de história, a Revolução de 32 não foi essencialmente um movimento separatista, e sim constitucionalista, já que exigia uma nova Carta Magna. Mas foi o maior confronto armado do século XX no Brasil, mobilizando 100 mil homens e mulheres (entre tropas paulistas e federais) e resultando em quase 800 mortes (número superior ao das baixas contabilizadas durante a participação do Brasil na Segunda Grande Guerra).
Em última análise, tudo começou quando Getúlio Dornelles Vargas, derrotado nas urnas e apoiado por militares e pelas oligarquias dissidentes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, tomou o poder pela força. Apoiado pelos mineiros, gaúchos e paraibanos, o tiranete usurpou para si a presidência desta Banânia. Até o início da “Era Vargas”, o Brasil era regido pela “política do café com leite”, assim chamada porque as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais se revezavam na presidência do País. Ao tomar o poder, o tiranete de São Borja dissolveu os congressos estaduais e municipais e nomeou interventores nos estados, o que desagradou a elite paulista.
Vale frisar que São Paulo concentrava a produção cafeeira, responsável pela maior parte do orçamento do País, e os grandes fazendeiros não viram com bons olhos a legislação trabalhista articulada por Vagas, a quem atribuíam a pecha de “comunista”. Com o getulismo, as relações entre São Paulo e o governo federal se tornaram cada vez mais tensas e marcadas pela insatisfação dos paulistas, que não só se viram obrigados a “engolir” os interventores, mas também perderam o controle sobre as decisões referentes à política econômica — o que afrontou os cafeicultores. Mas o acirramento atingiu seu ápice com a nomeação de um interventor, que deveria ser civil e paulista, segundo as exigências das forças políticas agregadas na Frente Única.
No dia 23 de maio (que hoje dá nome a uma das principais avenidas de Sampa), quando seria anunciado o secretariado de Pedro de Toledo (que empresta o nome a uma rua e um viaduto aqui na capital), formou-se um monumental comício na Praça do Patriarca, e uma parte dessa multidão, inflamada, dirigiu-se ao Palácio dos Campos Elísios, onde seria feito o anúncio. Na confusão, jornais getulistas foram atacados e o tumulto resultou na morte de 13 pessoas, além de muitos feridos. Entre os mortos estavam os estudantes Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo, alçados à condição de símbolos do movimento por meio da sigla “MMDC” (que os menos informados tomam pela representação do número 2.600 em algarismos romanos).
A revolução eclodiu na noite de 9 de julho e terminou a 1º de outubro, com a rendição dos paulistas. Nesse interregno, centenas de combatentes se alistaram, indústrias se mobilizaram para oferecer armamentos e a população se uniu na chamada campanha do Ouro para o Bem de São Paulo. Numa tentativa de aproximação com a elite local, Vargas nomeou o paulista Armando de Sales Oliveira — engenheiro, empresário e cunhado de Júlio de Mesquita Filho, herdeiro do fundador do jornal O Estado de S. Paulo — para a chefia do governo da "locomotiva do Brasil". O tão falado viés separatista foi secundário, mas nem por isso deixou de existir: figuras proeminentes como Monteiro Lobato, Alfredo Ellis Júnior e Tácito de Almeida, eram separatistas. Assim, visando obter p apoio de outros estados para combater a revolução, Vargas classificou o movimento de separatista.
Desde 1822, quando o Brasil se libertou do jugo português, vez por outra surgem movimentos separatistas aqui e acolá. Segundo o site do Movimento São Paulo Livre — que luta por tornar o estado uma unidade independente —, existem documentos que comprovam que o rei de Portugal era alertado para vigiar de perto os paulistas, devido a seu “excessivo amor à liberdade”.
Ainda existem grupos que visam separar seus estados ou regiões dos demais, e alguns pontos em comum os levam a se unir pela mesma causa, qual seja lutar pela independência regional ou estadual, hoje proibida por cláusula pétrea Constituição Federal. Movimentos separatistas de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Roraima, Paraná e Rio Grande do Sul formaram em 2016 uma Aliança Nacional visando mudar a Constituição e permitir a independência. Em junho do ano seguinte, nove desses grupos publicaram o Manifesto dos Movimentos Independentistas do Brasil, assinado por representantes de entidades que defendem a separação das regiões Sul, Nordeste e Norte e os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo.

terça-feira, 2 de junho de 2026

AINDA SOBRE O TEMPO CRONOLÓGICO

 O HOJE TECE O AMANHÃ COM A TEIA DO ONTEM.

Temendo ser destronado, Urano devolvia os filhos ao útero de Gaia. Um belo dia, cansada de gerar para perder, a deusa escondeu Cronos e lhe pediu que castrasse o pai. 

Cronos atendeu ao pedido da mãe, mas passou a devorar a própria cria. O ciclo só foi interrompido quando Réia escondeu Zeus e lhe pediu que obrigasse o Cronos a regurgitar seus irmãos. Zeus não só cumpriu a missão como derrotou o genitor numa guerra que durou dez anos e, ao final, tornou-se o deus dos deuses.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Bolsonarinho enxergou na Casa Branca o local ideal para fugir da realidade. Trump tirou momentaneamente o efeito Master do noticiário, mas enfiou seu pé-frio na campanha eleitoral do Brasil ao classificar o PCC e o CV como facções terroristas.

Trata-se apenas um fetiche para disfarçar a ausência de um projeto para a área da segurança pública, mas os criminosos respiram aliviados.

Do ponto de vista prático, além de ofender a soberania, a novidade afeta a reputação do Brasil, afugentando investidores. Já o efeito eleitoral é duvidoso: fugindo do contágio de Daniel Vorcaro, o filho do presidiário caiu na órbita radioativa da calopsita alaranjada, que molhou o paletó para interferir em eleições alheias e perdeu no Canadá, Austrália, Romênia e Hungria.

Se a vida ensina algo, é que a vida nada ensina ao bolsonarismo.


Não sabemos se Urano e Cronos realmente existiram, nem se Saturno — a versão romana de Cronos, posteriormente associada ao tempo — ceifava os dias com sua foice. Tampouco sabemos se o tempo existe de fato ou se não passa de uma convenção criada por nossos ancestrais para dar sentido a eventos recorrentes, como o amanhecer e o entardecer, as fases da lua e as estações do ano. Mas sabemos que há na mitologia grega uma distinção fundamental entre Cronos e Kairós: o primeiro representa o tempo cronológico, linear e mensurável; o segundo, o tempo da experiência, do acontecimento, do instante significativo.


Alguns pensadores da Antiguidade ainda falavam de Aión, um terceiro modo de tempo: não aquele que se mede nem aquele que se aproveita, mas o que se habita — o tempo da duração, da permanência, do que escapa ao relógio e às urgências do agora.

Por convenção, o tempo que rege nossas vidas é o de Cronos, que o relógio mede, que os calendários registram, que transforma segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias, meses e anos. Essa lógica nos leva a tratá-lo como algo mensurável e manejável, um recurso a ser administrado, otimizado e explorado, quase sempre a serviço do trabalho, do consumo e da vida acelerada que naturalizamos no cotidiano.

É esse mesmo tempo que sustenta a ideia de crononormatividade, trabalhada pela pesquisadora estadunidense Elizabeth Freeman. Trata-se do conjunto de convenções temporais que normalizam trajetórias consideradas “corretas”, como ser alfabetizado até certa idade, casar até os 30, ter filhos até os 35, alcançar o sucesso profissional — seja lá o que isso signifique — antes dos 40. Nesse contexto, o tempo deixa de ser apenas uma medida e passa a funcionar como critério moral.

Outras formas de compreender e viver o tempo persistem entre povos tradicionais, povos originários, povos indígenas, africanos e do sul global. Nessas cosmovisões, o tempo não se comporta como uma flecha que avança inexoravelmente para a frente. Ele pode ser cíclico, circular ou espiralar. O passado não está morto, o futuro não é um alvo fixo, e o presente não é apenas um ponto de passagem.

Convencionou-se adotar o tempo cronológico como padrão universal por ser um tempo que coloniza o presente — sequestrando nossa atenção —, captura o passado — reduzindo a memória a registro — e compromete o futuro — empobrecendo nossa capacidade de imaginá-lo. Na era das métricas, notificações e algoritmos, Cronos deixou de ser apenas uma abstração: tornou-se um sistema de controle íntimo, automático e permanente. 

Essa não é a única ideia de tempo que existe, mas as formas não cronológicas são desconsideradas justamente por não servirem à produtividade, ao consumo e às tecnologias que exigem pressa, desempenho e obediência ao relógio.

No fim das contas, Cronos venceu, não como mito, mas como método. Ele já não empunha uma foice, mas um relógio digital. Não reina do Olimpo, e sim dos calendários, das metas, dos prazos e das notificações. Não precisa mais devorar os filhos; basta convencê-los de que estão sempre atrasados. E nós, acreditando dominá-lo, seguimos oferecendo aquilo que sempre exigiu: nossa própria vida, em parcelas mensais.