FALAR EM POLÍTICA NO BRASIL, ULTIMAMENTE, É COMO PISAR NA MERDA.Se Shakespeare exagerasse um pouco no vinho, talvez escrevesse um dramalhão parecido com o que a família Bolsonaro ora protagoniza para todo o Brasil.
Há de tudo ali: intrigas entre madrasta e enteados, o patriarca que não pode falar por si, conspiradores que instigam a cizânia e, sobretudo, a sede irrefreável de poder.
Seria divertido, se fosse apenas uma peça de teatro. Mas não: a exposição pública das vísceras da família Bolsonaro, por meio de um vídeo publicado pela ex-primeira-dama com duras críticas ao enteado e pré-candidato à Presidência, é uma pequena amostra da natureza degenerada do clã que tem chances consideráveis de voltar a governar o Brasil.
Essa novela só interessa aos brasileiros na medida em que abre uma fresta para testemunhar o projeto político de uma família que fez da via eleitoral um atalho para a dolce vita.
Desde que Jair Bolsonaro deixou o Exército – depois de ser punido por insubordinação e acusado de envolvimento num plano para explodir unidades militares –, migrou com sucesso para a política e construiu com os filhos algo que muito apropriadamente pode ser chamado de uma empresa familiar voltada à conquista e à manutenção do poder no seio da própria família. Mas não para implementar um projeto de desenvolvimento do Brasil, e sim para que todos, sobretudo o patriarca, pudessem viver à custa do Estado.
O bolsonarismo nunca foi uma visão de país, que dirá uma plataforma de governo. É uma máquina de mobilização emocional de setores da sociedade construída sobre ressentimentos e a irresignação com as conquistas civilizatórias da Constituição de 1988. Nesse balaio de rancores e teorias da conspiração, entram o reacionarismo travestido de “conservadorismo de costumes”, a desconfiança nas instituições republicanas, o desdém pelo conhecimento, a hostilidade ao diálogo e o antipetismo, donde vem sua força eleitoral.
Sem o nome do patriarca nas urnas, o que resta é essa briga interna por seu espólio político. A mulher, uma espécie de Lady Macbeth da Casa de Bolsonaro, dá sinais de querer trilhar uma carreira política autônoma, ainda que negue publicamente essa intenção. O primogênito do marido é pré-candidato à Presidência da República, e o restante da prole tem suas próprias pretensões eleitorais. Cada um se ocupa de seus interesses particulares, e o Brasil, claro, não entra nessa equação.
Nenhum dos protagonistas desse reality show perde tempo ou tem competência para discutir assuntos que considera menores, como a carestia, o descontrole das contas públicas, a baixa produtividade, o desalento entre os jovens, as deficiências da educação básica e a violência urbana. Seria pedir demais. Afinal, a família Bolsonaro nunca se preocupou com nada disso. Sempre foi mais fácil apontar o inimigo – o PT, a imprensa profissional, o Supremo e o comunismo internacional, entre outros fantasmas – do que propor soluções para problemas reais sobejamente conhecidos, que exigem competência técnica, habilidade política, respeito por adversários e, acima de tudo, interesse genuíno no bem comum.
O bolsonarismo só sobrevive porque o antipetismo é uma força real e legítima na sociedade brasileira, e Bolsonaro soube como nenhum outro político se apresentar como o candidato anti-Lula. Mas, no que concerne aos interesses do Brasil, isso não basta. Apresentar-se como a nêmesis do petista não é um plano de governo. É, quando muito, uma eficiente estratégia eleitoral.
Lady Michelle fez um grande favor ao Brasil ao gravar e divulgar seu depoimento a respeito do enteado, dando aos eleitores conservadores a chance de ver com os próprios olhos a matéria prima do bolsonarismo original. Quem sabe os estimule, finalmente, a procurar alternativas que estejam genuinamente interessadas em governar o Brasil com bom senso e dignidade – qualidades estranhas a Jair Bolsonaro e sua grei.
Com ESTADÃO
SOBRE A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 9 DE JUHO
Para não dizer que não falei das flores, hoje os paulistas comemoram o nonagésimo quarto aniversário da revolução constitucionalista de 1932. Para quem não se lembra das aulas de história, voltemos no tempo até 1926, quando Washington Luís enfrentava a crise internacional de 1929 e a resistência de militares de ideais nacionalistas.As revoltas tenentistas no RS, em 1923, e em SP, em 1924, somadas à insatisfação de parte das oligarquias com a candidatura e posterior eleição de Júlio Prestes, levaram à sua deposição. E assim, mais um golpe militar empurrou a Velha República para a cova.
Prestes havia vencido Getúlio Vargas num pleito marcado por denúncias de fraude e rachas entre as oligarquias. Em julho de 1930, os ânimos se acirraram ainda mais com o assassinato de João Pessoa, que havia sido candidato a vice na chapa de Vargas.
Em outubro, os militares depuseram Washington Luís e abriram caminho para a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. O presidente deposto foi levado preso do Palácio do Catete ao Forte de Copacabana um mês antes da data em que passaria o cargo a Prestes — que nem chegou a ocupá-lo: uma junta militar assumiu o poder em 24 e passou-o a Vargas em 03 de novembro, dando início ao "governo provisório".
Os primeiros anos da Era Vargas foram marcados pelo clima de tensão entre as oligarquias e os militares, principalmente no estado de São Paulo, levando à Revolução Constitucionalista de 1932. Para os que faltaram às aulas de história, a Revolução de 32 não foi essencialmente um movimento separatista, e sim constitucionalista, já que exigia uma nova Carta Magna. Mas foi o maior confronto armado do século XX no Brasil, mobilizando 100 mil homens e mulheres (entre tropas paulistas e federais) e resultando em quase 800 mortes (número superior ao das baixas contabilizadas durante a participação do Brasil na Segunda Grande Guerra).
Em última análise, tudo começou quando Getúlio Dornelles Vargas, derrotado nas urnas e apoiado por militares e pelas oligarquias dissidentes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, tomou o poder pela força. Apoiado pelos mineiros, gaúchos e paraibanos, o tiranete usurpou para si a presidência desta Banânia. Até o início da “Era Vargas”, o Brasil era regido pela “política do café com leite”, assim chamada porque as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais se revezavam na presidência do País. Ao tomar o poder, o tiranete de São Borja dissolveu os congressos estaduais e municipais e nomeou interventores nos estados, o que desagradou a elite paulista.
Vale frisar que São Paulo concentrava a produção cafeeira, responsável pela maior parte do orçamento do País, e os grandes fazendeiros não viram com bons olhos a legislação trabalhista articulada por Vagas, a quem atribuíam a pecha de “comunista”. Com o getulismo, as relações entre São Paulo e o governo federal se tornaram cada vez mais tensas e marcadas pela insatisfação dos paulistas, que não só se viram obrigados a “engolir” os interventores, mas também perderam o controle sobre as decisões referentes à política econômica — o que afrontou os cafeicultores. Mas o acirramento atingiu seu ápice com a nomeação de um interventor, que deveria ser civil e paulista, segundo as exigências das forças políticas agregadas na Frente Única.
No dia 23 de maio (que hoje dá nome a uma das principais avenidas de Sampa), quando seria anunciado o secretariado de Pedro de Toledo (que empresta o nome a uma rua e um viaduto aqui na capital), formou-se um monumental comício na Praça do Patriarca, e uma parte dessa multidão, inflamada, dirigiu-se ao Palácio dos Campos Elísios, onde seria feito o anúncio. Na confusão, jornais getulistas foram atacados e o tumulto resultou na morte de 13 pessoas, além de muitos feridos. Entre os mortos estavam os estudantes Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo, alçados à condição de símbolos do movimento por meio da sigla “MMDC” (que os menos informados tomam pela representação do número 2.600 em algarismos romanos).
A revolução eclodiu na noite de 9 de julho e terminou a 1º de outubro, com a rendição dos paulistas. Nesse interregno, centenas de combatentes se alistaram, indústrias se mobilizaram para oferecer armamentos e a população se uniu na chamada campanha do Ouro para o Bem de São Paulo. Numa tentativa de aproximação com a elite local, Vargas nomeou o paulista Armando de Sales Oliveira — engenheiro, empresário e cunhado de Júlio de Mesquita Filho, herdeiro do fundador do jornal O Estado de S. Paulo — para a chefia do governo da "locomotiva do Brasil". O tão falado viés separatista foi secundário, mas nem por isso deixou de existir: figuras proeminentes como Monteiro Lobato, Alfredo Ellis Júnior e Tácito de Almeida, eram separatistas. Assim, visando obter p apoio de outros estados para combater a revolução, Vargas classificou o movimento de separatista.
Desde 1822, quando o Brasil se libertou do jugo português, vez por outra surgem movimentos separatistas aqui e acolá. Segundo o site do Movimento São Paulo Livre — que luta por tornar o estado uma unidade independente —, existem documentos que comprovam que o rei de Portugal era alertado para vigiar de perto os paulistas, devido a seu “excessivo amor à liberdade”.
Ainda existem grupos que visam separar seus estados ou regiões dos demais, e alguns pontos em comum os levam a se unir pela mesma causa, qual seja lutar pela independência regional ou estadual, hoje proibida por cláusula pétrea Constituição Federal. Movimentos separatistas de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Roraima, Paraná e Rio Grande do Sul formaram em 2016 uma Aliança Nacional visando mudar a Constituição e permitir a independência. Em junho do ano seguinte, nove desses grupos publicaram o Manifesto dos Movimentos Independentistas do Brasil, assinado por representantes de entidades que defendem a separação das regiões Sul, Nordeste e Norte e os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo.