HOJE É O AMANHÃ DE ONTEM E O ONTEM DE AMANHÃ.
Como vimos, viajar no tempo rumo ao futuro pode ser apenas uma questão de... tempo. No entanto, ainda que seja matematicamente plausível e encontre guarida na física quântica, viajar no tempo de volta ao passado esbarra nas leis da natureza e da física clássica. Mesmo assim, não faltam teorias que buscam resolvem o problema dos paradoxos e outras "questiúnculas" que nos impedem de colher "o fruto mais ambicionado da árvore da relatividade".
Experimentos recentes com tunelamento quântico sugerem que fótons podem atravessar uma barreira em tempo aparentemente nulo ou negativo — como um automóvel que sai do túnel antes de ter entrado —, e que esse não é o único exemplo desconcertante de estranheza temporal em escalas muito pequenas. Uma das muitas esquisitices da mecânica quântica é a "superposição" — possibilidade de uma mesma partícula estar em dois lugares simultaneamente —, o "entrelaçamento quântico" — que Einstein batizou de "ação fantasmagórica à distância" — e a "causalidade" — capacidade das partículas de mudar o passado a partir do futuro.
Diferentemente dos carros em um túnel, os fótons não têm posição ou trajetória fixa no espaço. Dada a impossibilidade de etiquetá-los e rastreá-los, os pesquisadores mediram o tempo gasto na travessia analisando a excitação dos átomos dentro da barreira à medida que as partículas de luz passam por eles ou os atingem, e o resultado apontou a existência do assim chamado "tempo negativo".
Os cientistas entendem matematicamente por que isso acontece, mas não sabem qual o significado, já que não há uma correspondência clara com o mundo físico que vivenciamos. Assim, eles concluem simplesmente que a mecânica quântica "é diferente". E se isso parece estranho, a "retrocausalidade" é ainda mais surpreendente.
Observação: A retrocausalidade — do latim retro, no sentido de 'para trás', e causalidade, a 'relação entre causa e efeito' — é exatamente o que o nome sugere: a possibilidade de que um evento futuro influencie um evento passado. No mundo clássico, isso soa como heresia, já que a causa precede o efeito, o passado determina o futuro e a seta do tempo aponta numa única direção. Quebrar essa regra seria o equivalente a afirmar que os estilhaços de um vaso que caiu no chão podem se reunir espontaneamente — coisa que nossa intuição rejeita enfaticamente. Mas a física quântica não pede licença às nossas intuições. No experimento de dupla fenda, um fóton exibe comportamento de onda quando não é observado (produzindo um padrão de interferência) e comportamento de partícula quando é observado (produzindo dois pontos distintos). No experimento de Wheeler, o momento da observação é deliberadamente adiado — e ainda assim o fóton parece "saber", retroativamente, se seria ou não observado, ajustando seu comportamento no passado de acordo com uma decisão ainda não tomada no presente. Os adeptos da interpretação de Copenhagen preferem dizer simplesmente que a pergunta "qual caminho o fóton tomou" não tem resposta antes da medição — e que portanto não há propriamente um passado sendo alterado, mas sim um passado que só se define no momento da observação. Outros, porém, argumentam que a retrocausalidade oferece uma explicação mais elegante para certos fenômenos quânticos do que a noção de que partículas simplesmente "não têm propriedades" antes de serem medidas. O debate está longe de ser resolvido, mas o simples fato de ele existir nos lembra de que o tempo, nessa escala infinitesimal, pode não ser via de mão-única que a experiência cotidiana nos ensinou a encarar como óbvia.
Embora não tenha a evidência observacional dos experimentos de túnel quântico, a retrocausalidade ajuda a compreender a chamada "ação fantasmagórica à distância", que acontece quando duas partículas estão "entrelaçadas" em lados opostos do Universo, mas quando os cientistas medem o giro ou a polarização de uma delas a parceira entrelaçada responde instantaneamente da mesma maneira. O que torna isso ainda mais assustador é que essas partículas não apresentam tais propriedades até serem medidas, ou seja, elas existem em vários estados simultaneamente até o momento em que algum tipo de sinal instantâneo vai de uma para a outra dizendo qual medição foi realizada, o que é muito estranho.
Nesse cenário, as informações não passam instantaneamente entre as partículas pelo espaço, mas pelo tempo — ou seja, uma partícula medida passa informações para o momento em que foi entrelaçada com seu par e depois para o momento em que ocorre a medição. Esse conceito contraintuitivo substitui uma impossibilidade por outra — uma cura que parece ser pior que a doença —, além de abrir a porta para os paradoxos temporais, nos quais influenciar o passado altera o presente. Mas essa não é a primeira vez que a mecânica quântica desafia o senso comum.
Segundo os defensores da retrocausalidade, ela só parece improvável porque nós — na escala macroscópica — vivenciamos o tempo em uma direção, ao passo que, em escalas muito pequenas, as leis da física são simétricas em relação ao tempo (com algumas exceções). E quanto ao aparente problema da viagem no tempo, isso só se aplica se a partícula foi medida no passado, eles dizem. Enquanto isso não acontece, ela permanece em seu estado quântico indeterminado.
A comprovação dessas teorias implica que o Universo funciona de forma diferente da que imaginamos, num cenário em que duas ou mais linhas do tempo coexistem lado a lado. Mas achar que há uma evolução para frente e uma evolução para trás do Universo — com duas setas causais separadas e independentes — é um tipo de imagem 'dinâmica' da retrocausalidade em que se têm processos literais de avanço e retrocesso acontecendo em alguma combinação. Talvez não seja uma maneira muito elegante de pensar sobre a retrocausalidade, já que se pode deparar facilmente com inconsistências, contradições e paradoxos.
A retrocausalidade é mais plausível se vivermos no que é conhecido como "universo em bloco" — um modelo hipotético e filosoficamente controverso de existência, no qual todos os momentos no tempo (passado, presente e futuro) coexistem em um objeto quadridimensional. Se esse bloco está preenchido com todos os eventos que já aconteceram ou vão acontecer, então é mais fácil ver como alguma influência hipotética poderia passar entre as partículas dentro dele. E para explicar as ações fantasmagóricas à distância das partículas entrelaçadas, as informações não precisam viajar para o passado em alguma linha de tempo retrocausal alternativa, mesmo porque não há fluxo temporal. O tempo é apenas outra dimensão dentro do bloco, e não uma coisa material que se move.
Sendo esse o caso, chegamos ao que pode ser a implicação mais preocupante sobre a mecânica quântica e seu estranho comportamento temporal. Na interpretação mais fatalista do universo em bloco, somos apenas personagens de uma série de TV cósmica. Podemos experimentar a vida episodicamente, mas nosso futuro é tão determinado quanto nosso passado. Então, se estivermos no meio de nossa história, o próprio final — o momento em que a luz se apaga — pode já ter sido escrito.
Continua...
