O MAPA NÃO É O TERRITÓRIO
Ao longo dos últimos capítulos, falamos de dimensões ocultas, da Teoria das Cordas, da Teoria M, de branas cósmicas e, por fim, dos buracos de minhoca. Como não poderia deixar de ser, algumas ideias paralelas foram omitidas para não quebrar o ritmo da narrativa, e agora chegou o momento de amarrar essas pontas soltas e só então abordar os paradoxos das viagens no tempo.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Não existem ateus em campanhas eleitorais, mas a família Bolsonaro exagera. Ao fazer da facada de 2018 parte de uma via-crúcis particular, o patriarca do clã, hoje em prisão domiciliar, age como messias. Já o primogênito e herdeiro do martírio faz uma associação mórbida entre a tentativa de homicídio e um suposto plano de tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
"Acho que posso considerar uma espécie de facada também essa fake news em mim", disse o filho do "mito" a um podcast católico. Como de hábito, vinculou o criminoso ao ecossistema de Lula — "um ex-integrante do PSOL" —, esquecendo de lembrar ou lembrando de esquecer esquecer que a PF constatou que Adélio Bispo, o agressor, agiu como "lobo solitário", foi diagnosticado com transtorno delirante persistente e está internado numa penitenciária federal de Campo Grande, de onde não sairá antes de 2038.
Um dia depois de acusar a CNBB de orquestrar a aleivosia da tramoia contra Nossa Senhora, o filho do pai disse não ter nada contra religiões diferentes da dele, além de ressaltar que presidente não se mete em religião e definir-se como evangélico, relembrando, emocionado, sua conversão, em 2022.
Considerando-se o histórico do pai, é difícil saber se a conversão do filho é sincera, mas convém não duvidar: para quem aceitou Daniel Vorcaro a ponto de pedir dinheiro a ele, a adesão à metafísica não chega a ser algo tão radical.
A ciência nem sempre avança em linha reta; às vezes ela cresce justamente explorando caminhos que não conduzem a lugar algum. Mas o importante não é que toda hipótese esteja correta, e sim que seja suficientemente consistente para merecer a devida investigação.
Uma dessas hipóteses nasceu da Teoria M, proposta em 1995 pelo físico Edward Witten como uma tentativa de unificar as cinco versões existentes da Teoria das Supercordas, juntamente com a Supergravidade, dentro de um único arcabouço matemático. No entanto, embora ela seja frequentemente apresentada como candidata à chamada Teoria de Tudo, convém não confundir alhos com bugalhos: a Teoria M procura unificar as leis fundamentais da física; a ideia de um multiverso pode surgir dela, mas também aparece em outras áreas da cosmologia e da mecânica quântica.
Se esse modelo estiver correto, talvez o Universo seja apenas uma entre inúmeras "branas" coexistindo em um espaço de dimensões superiores. Embora pareça um tanto bizarra, essa premissa decorre naturalmente das equações utilizadas em alguns modelos matemáticos, levando a uma pergunta inevitável: se existem outras dimensões, por que nunca as percebemos?
A resposta proposta pela teoria é que essas dimensões não seriam grandes extensões ocultas em algum lugar do cosmos, mas estariam compactificadas e enroladas sobre si mesmas em escalas próximas ao comprimento de Planck — cerca de 10⁻³⁵ metro —, uma distância tão pequena que desafia qualquer tentativa atual de observação direta.
Para compreender melhor, imagine — mais uma vez — uma formiga caminhando sobre uma mangueira de jardim. Vista de longe, essa mangueira parece apenas uma linha, mas a formiga percebe algo que escapa ao observador distante: além de seguir para frente ou para trás, ela pode ainda contornar a circunferência — uma dimensão adicional que sempre esteve ali, mas permanecia invisível em razão da escala.
Segundo alguns físicos, algo semelhante poderia acontecer conosco. Se for assim, isso explica a extraordinária fraqueza da gravidade quando comparada às demais forças fundamentais: enquanto o eletromagnetismo e as forças nucleares permaneceriam confinados à nossa "brana", a gravidade se espalharia pelas dimensões extras, chegando até nós bastante diluída. Mas vale destacar que, embora seja uma ideia elegante, ela ainda carece de confirmação experimental.
Outra proposta igualmente fascinante surge na chamada Interpretação dos Muitos Mundos da mecânica quântica. Segundo ela, o Universo não escolheria um único resultado para cada evento quântico. Em vez disso, todas as possibilidades compatíveis com as leis da física continuariam existindo, cada uma em sua própria ramificação da realidade. Note que não se trata de universos separados por dimensões espaciais, como na Teoria M, mas de histórias alternativas que se desdobram continuamente.
À primeira vista, ambas as ideias parecem defender a existência de inúmeros universos, mas elas nascem de fundamentos completamente diferentes e não devem ser confundidas. Em uma, os universos coexistem como branas em dimensões superiores; na outra, eles surgem como ramificações naturais da evolução quântica.
Convém ter em mente que nenhuma dessas hipóteses foi confirmada até agora, mas a história da ciência está repleta de teorias que permaneceram décadas — ou mesmo séculos — aguardando instrumentos capazes de colocá-las à prova, bem como de ideias brilhantes que acabaram abandonadas quando confrontadas com novos dados. E isso também se aplica aos buracos de minhoca, que, diferentemente dos buracos negros — que já foram inclusive fotografados pelo Event Horizon Telescope —, continuam envoltos na bruma das especulações.
As equações da Relatividade Geral admitem soluções que descrevem túneis ligando regiões muito distantes do espaço-tempo, mas o problema é que essas estruturas seriam instáveis e colapsariam antes que qualquer partícula pudesse atravessá-las. Daí surgiu outra formulação igualmente ousada: a utilização de matéria exótica — uma forma hipotética de matéria ou energia capaz de apresentar densidade de energia negativa — que nada tem de extraterrestre ou sobrenatural, pois é apenas uma configuração física diferente daquela observada na matéria comum.
Alguns efeitos previstos pela mecânica quântica — como o efeito Casimir — mostram que pequenas regiões de energia negativa podem surgir em condições muito específicas. O enorme desafio consiste em transformar esse fenômeno microscópico em algo suficiente para manter aberto um túnel através do espaço-tempo.
Há poucos anos, o físico português João Luís Rosa propôs uma alternativa interessante baseada em uma versão modificada da gravidade. Segundo seus cálculos, é possível obter buracos de minhoca atravessáveis sem recorrer às quantidades gigantescas de matéria exótica normalmente exigidas pelos modelos tradicionais. A proposta despertou interesse, mas, como tantas outras ideias de fronteira, ainda aguarda confirmação observacional.
É importante notar que nenhum desses cenários constitui licença para acreditar em qualquer possibilidade imaginável. Pelo contrário. Todos eles nascem de modelos matemáticos rigorosos e permanecem submetidos ao mesmo juiz implacável: a realidade. Isso posto, por que devemos levar essas ideias a sério, mesmo sem provas? Talvez a melhor resposta seja: porque é justamente essa disposição para submeter as próprias ideias ao teste dos fatos que distingue a ciência da fantasia.
É possível que essas teorias não sobrevivam às próximas décadas, mas pode ser que algumas resistam, ou que venhamos a descobrir que o Universo é ainda mais estranho do que todas elas juntas nos levam a imaginar. Ademais, cada hipótese bem construída amplia um pouco mais o horizonte das perguntas possíveis, e mesmo os fracassos ensinam, uma vez que delimitam o caminho pelo qual a natureza decidiu não seguir.
Em última análise, para descobrir como o Universo realmente funciona é preciso aceitar a desconcertante possibilidade de que ele funcione de um modo muito diferente daquele que nossa intuição considera possível.
