sábado, 14 de março de 2026

A ALEGORIA DA CAVERNA E O ELEITORADO BRASILEIRO

TENTAR ARGUMENTAR COM QUEM ABDICOU DA LÓGICA É COMO MEDICAR DEFUNTOS.

Quanto mais não seja, a desditosa passagem de Jair Bolsonaro pelo Planalto deixou duas importantes lições: a primeira foi ministrada pelo ortopedista Luiz Henrique Mandetta, que nos brindou com sua versão da Alegoria da Caverna, e a segunda foi ensinada pelo oncologista Nelson Teich, que substituiu Mandetta no comando do Ministério da Saúde — e se demitiu antes de completar um mês no cargo.

Numa alusão velada ao negacionismo desbragado do então presidente, Mandetta se valeu do Mito da Caverna — uma alegoria sobre o conhecimento na qual Platão ensinou que, acorrentados à ignorância, os homens são privados do aprendizado. Ao comunicar à imprensa seu desembarque, Teich enfatizou que "a vida é feita de escolhas", e que ele havia escolhido sair.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Alexandre de Moraes sobrevoava a conjuntura com ares de Super-Homem, mas, ao se relacionar com Vorcaro, o homem se sobrepôs ao herói e descobriu de maneira trágica que pedestal não tem escada e, pior, que não se pode girar a Terra ao contrário para retroceder no tempo.

Sua proximidade com o banqueiro era tão inusitada quanto uma parceria de Lex Luthor com Super-Homem. Sem Moraes, Vorcaro se considera "fogueira sem brasa, futebol sem bola, Piu-piu sem Frajola." Tudo muito constrangedor

Discursando para chefes de tribunais de todo país nesta terça-feira, Edson Fachin incluiu a "crise de confiança pública" entre os desafios que o Judiciário precisa enfrentar, mas se absteve de citar o caso Master e o descrédito que assedia seus colegas Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Segundo ele, é "a imparcialidade" que conduz à "equidade", e as decisões judiciais devem ser "capazes de sobreviver ao mais impiedoso exame público".

O problema é que, ao invés de elevar a própria estatura, os magistrados preferem rebaixar o pé direito do Judiciário ao se recusarem a limitar os contracheques ao teto constitucional.

Quanto às debilidades éticas, faltam explicações aceitáveis para o relacionamento piromaníaco de Moraes e Toffoli com Vorcaro. Sem esclarecimentos convincentes, a pregação de Fachin em favor da restauração da "confiança pública" soa como uma análise das normas de prevenção contra o incêndio em meio a labaredas que disseminam o cheiro de queimado, convertendo em cinzas a supremacia do Supremo.

Para piorar, Viviane Barci de Moraes demorou quase três meses para se explicar, e quando o fez, a emenda ficou pior do que soneto.. A banca da família Moraes recebeu R$ 3,6 milhões mensais durante 22 meses. Coisa de R$ 79,2 milhões. O trabalho resultou em 267 horas de reuniões e 36 pareceres.

Bons advogados conhecem vasta jurisprudência. Grandes advogados conhecem muitos juízes. Para Vorcaro, a advogada genial é casada com o ex-xerife do Supremo. A diferença básica entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites.

Ironicamente, a doutora informa que parte do seu tempo a serviço de Vorcaro foi desperdiçado com a produção de coisas como a revisão do "Código de Ética" do Master e a formulação de políticas de "relacionamento com o poder público" e de "conflito de interesses". A ética de Vorcaro é a amoralidade. Seu apreço por compliance é nulo. Seu relacionamento com o poder é monetário. Quanto ao conflito de interesses, ele salta do contrato firmado com a esposa de Moraes como pulgas do dorso de um vira-latas.

Todos têm seu preço, dizem as línguas ferinas. Não é verdade. O que leva certas pessoas a se complicarem é a mania de morder oportunidades antes de se certificar do tamanho do anzol oculto.


A metáfora criada por Platão descreve o processo de libertação da ignorância rumo ao conhecimento real. Para os prisioneiros da caverna, as sombras projetadas na parede representam toda a realidade possível — sem que percebam tratar-se apenas de reflexos distorcidos de objetos que não conseguem ver. Ela mostra como aceitamos percepções superficiais como se fossem fatos absolutos, sem questionar sua origem.

A metáfora criada por Platão descreve o processo de libertação da ignorância rumo ao conhecimento real e profundo. Mandetta traçou um paralelo entre a caverna e a administração do aspirante a genocida, que vivia acorrentado a superstições num universo paralelo de sombras. A insistência em combater o coronavírus à luz da ciência fazia do médico o ex-acorrentado que viu a luz e foi morto ao tentar libertar os demais dos grilhões da ignorância.

Para os prisioneiros da caverna, as sombras projetadas na parede representavam a única verdade existente e inquestionável em suas vidas limitadas. Eles não percebiam que aquelas formas eram apenas reflexos distorcidos de objetos reais carregados por pessoas fora de seu campo de visão habitual. Essa limitação sensorial reflete como aceitamos informações superficiais sem questionar a origem.


Viver em um estado de ignorância confortável impede que o indivíduo explore o potencial máximo de sua própria consciência e intelecto crítico. As sombras modernas podem ser comparadas às notícias falsas ou às percepções sociais distorcidas que aceitamos como fatos absolutos no dia a dia. Desafiar essas ilusões exige coragem para encarar o desconhecido além das paredes familiares.


Quando o prisioneiro se liberta e sai da caverna, inicialmente a luz do sol causa dor e cegueira em seus olhos desacostumados. Esse desconforto físico simboliza a dificuldade de abandonar crenças antigas para abraçar novas verdades que desafiam o senso comum estabelecido.


O processo de aprendizado real raramente é fácil ou livre de resistências internas profundas. Com o tempo, porém, a visão se ajusta e o indivíduo passa a contemplar o mundo em sua plenitude cromática e estrutural vibrante. Essa transição marca o nascimento do pensamento filosófico e da autonomia intelectual necessária para governar a própria vida com sabedoria. A luz representa a clareza mental que surge quando decidimos buscar o conhecimento além das aparências superficiais.


Atualmente, a caverna pode ser vista como as bolhas de algoritmos que reforçam nossos próprios preconceitos e limitam o acesso a perspectivas divergentes. Sair dessa escuridão digital requer um esforço consciente para buscar fontes diversas e praticar a reflexão crítica constante sobre o que consumimos. A educação é a ferramenta principal para romper essas correntes invisíveis.


Devido à polarização semeada por Lula com seu "nós contra eles" — e estrumada por Bolsonaro, que ora cumpre pena na Papudinha pela tentativa malograda de golpe de Estado —, o eleitorado tupiniquim, que teima em repetir a cada eleição, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez, por curiosidade, cultua seus bandidos de estimação. O fiel da balança é representado pelos "isentões", que não apoiam o macróbio eneadáctilo nem o rebento do refuto da escória da humanidade. Mas essa minoria não é suficiente para furar a bolha e abrir espaço para um candidato alternativo (a chamada "terceira via").    


Voltando à alegoria, o filósofo que conheceu a luz sente o dever moral de retornar à escuridão para libertar seus antigos companheiros de prisão. No entanto, ele enfrenta a resistência e o deboche daqueles que ainda acreditam nas sombras como única realidade possível e segura. Esse conflito ilustra a dificuldade de comunicar verdades complexas em uma sociedade resistente a mudanças.


Tentar educar os outros exige paciência e empatia, pois a ignorância funciona como um mecanismo de defesa contra o medo do novo. A verdadeira liderança intelectual consiste em guiar as pessoas para fora da caverna sem impor a verdade de forma agressiva. O diálogo persistente continua sendo a ponte mais eficaz entre a escuridão e a clareza.


A lição de Platão fundamenta a ideia de que o conhecimento é a base para uma governança justa e ética na sociedade. Políticos e cidadãos devem buscar a luz da verdade para evitar que o poder seja exercido através da manipulação de imagens e ilusões.


Sem o compromisso com a realidade, qualquer sistema social corre o risco de desmoronar rapidamente. No entanto, argumentar com quem abdicou da lógica é como medicar defuntos.