NÃO FORCE DEMAIS AS COISAS. O QUE FLUI, FLUI, O QUE TERMINA, TERMINA, E O QUE TIVER DE SER, SERÁ.
A ciência não sabe se o tempo existe realmente ou é somente uma convenção criada por nossos antepassados para explicar o dia e a noite, as fases da lua, as estações do ano e demais eventos sazonais. Ainda assim, consultamos o relógio acreditando que o tempo flui inexoravelmente do passado para o futuro como as águas de um rio correm da nascente para a foz, mas e se esse fluxo não passar de uma ilusão?
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Durou pouco o entusiasmo de Bolsonarinho com a Casa Branca. Quatro dias após batizar de terroristas o PCC e o CV, Trump acenou com a imposição de novo tarifaço contra produtos brasileiros (desta vez de 25%) e incluiu entre os motivos o Pix.
A ameaça de nova paulada chega como resultado da investigação por supostas práticas comerciais injustas do Brasil, aberta no ano passado junto com o tarifaço de 50% — uma das medidas adotadas pela calopsita alaranjada em resposta ao que chamou de "caça às bruxas" contra Bolsonaro, atribuída à influência do traidor da pátria autoexilado Dudu Bananinha.
Na semana passada, o filho do presidiário disse ter sinalizado a Trump que, se eleito presidente desta republiqueta de bananas, os EUA teriam "um presidente aliado", o que tornaria desnecessária a adoção de retaliações tarifárias. Dias antes, Lula, o macróbio, havia dito que, se conseguisse fazer Trump sorrir, conseguiria "outras coisas". Nos últimos dias, voltou a atribuir o rosnado do imperador laranja à traição dos Bolsonaro contra a pátria.
Se Deus o intimasse Trump a optar entre a conveniência da quadrilha Bolsonaro e seus próprios interesses, ele certamente diria algo como "fuck Bolsonaro and Lula", e os protagonistas da sucessão brasileira talvez percebessem que o único amigo do tresloucado mandatário americano é sua imagem refletida no espelho.
A decisão sobre as novas tarifas será tomada até 15 de julho. Se forem baixadas, será péssimo para o Brasil, mas pode impulsionar a reeleição de Lula. Para o clã Bolsonaro e seu presidenciável, um novo tarifaço editado a três meses e meio da eleição seria como um beijo da morte.
Desde tempos imemoriais, cientistas e filósofos buscam desvendar a verdadeira natureza do tempo, mas ainda não descobriram se ele é uma propriedade natural ou um componente da teoria que introduzimos manualmente.
Para os físicos, o tempo é um problema que se apresenta em pelo menos três versões difíceis de conciliar. Em primeiro lugar, existe o que se chama de "tempo coordenado": em muitas das equações que descrevem fenômenos físicos o tempo aparece simplesmente como um parâmetro matemático, uma coordenada numérica que indica quando um evento ocorre. Nesse contexto, o tempo não aparece como algo que flui, mas como um parâmetro que nos permite ordenar mudanças.
Einstein revolucionou a física ao demonstrar que o tempo relativístico não é um relógio comum a todos — se dois observadores movendo-se a velocidades diferentes podem discordar sobre a ordem dos eventos, então o tempo deixa de ser um relógio e passa a fazer parte da estrutura do espaço-tempo, que é afetada pela gravidade e pelo movimento —, e complicou ainda mais o cenário ao demonstrar que o "agora" não é universal.
Já o tempo termodinâmico — talvez a única indicação clara de que o tempo parece se mover em apenas uma direção — surge da segunda lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia, que descreve o grau de desordem em um sistema, tende a aumentar. É por isso que um ovo que se quebrou, os cacos de um copo que se espatifou e a fumaça que se dispersou no ar, por exemplo, não voltam espontaneamente ao status quo ante.
O problema é que nenhuma dessas versões se alinha completamente entre si nem com nossa experiência subjetiva do tempo, e muitas das equações mais fundamentais funcionam da mesma maneira, tanto para frente quanto para trás — não há nenhuma seta nos números que aponte para o futuro.
Para alguns pensadores, o que percebemos como o "fluxo do tempo" nada mais é do que uma história que contamos a nós mesmos. Ou seja: o cérebro constrói uma linha do tempo para dar coerência à experiência e, assim como acontece com as cores, nós confundimos essa construção com uma propriedade do mundo externo.
A relatividade reforça essa suspeita: acontecimentos que parecem simultâneos para um observador podem ocorrer em momentos distintos para outro, pois o que existe não é um "agora" universal, e sim uma rede de eventos distribuídos pelo espaço-tempo, onde o passado, o presente e o futuro coexistem — nessa perspectiva, a distinção entre eles seria nada mais que uma ilusão, ainda que persistentemente convincente.
Mas a física vai ainda mais longe: no reino quântico, não há uma maneira direta de medir o tempo como há com outras propriedades físicas. Pode-se medir onde uma partícula está, mas nunca quando ela está, pois o tempo aparece menos como uma propriedade natural dos sistemas quânticos e mais como um parâmetro que introduzimos manualmente para descrevê-los. Esse paradoxo levou alguns físicos a formularem uma questão radical: e se o tempo não for fundamental, mas emergir de uma estrutura mais profunda que ainda não compreendemos?
Em 1983, os físicos Don Page e William Wootters propuseram que o universo seria uma gigantesca função de onda quântica atemporal, mas dividir essa estrutura em duas partes — uma descrevendo toda a matéria observável e a outra atuando como um "relógio interno" — faz com que o entrelaçamento quântico entre as duas enseje o surgimento da percepção do tempo. De acordo com essa ideia, ao consultarmos o relógio estamos selecionando (ou fixando) o estado correlacionado do restante do sistema naquele momento, ou seja, o tempo, surge como um efeito do entrelaçamento.
Para entender melhor essa ideia, imagine um manuscrito sobre uma mesa, onde o início, o meio e o fim já existem simultaneamente. Porém, para que a história faça sentido é preciso ler suas páginas em ordem, pois a numeração conecta cenas que, na realidade, permanecem fixas. Algo semelhante poderia acontecer com o universo: a mudança não estaria necessariamente na história em si, mas na maneira como a vivenciamos.
Durante décadas, essa ideia não passou de um elegante exercício teórico, mas em 2024 a física Paola Verrucchi, do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, conseguiu construir um modelo matemático funcional inspirado nesse mecanismo: um sistema que entrelaçava um relógio magnético com outro sistema quântico análogo a uma mola. Vista de fora, essa estrutura permanecia estática, mas, em relação ao relógio interno, a mola parecia esticar e contrair seguindo sequências temporais.
O mais surpreendente é que esse comportamento persistiu mesmo quando o sistema foi ampliado, sugerindo que a ilusão do tempo pode não estar limitada apenas ao mundo quântico. O entrelaçamento quântico entre um relógio interno e a matéria observável permitiria o surgimento do tempo, de acordo com a teoria de Page-Wootters proposta em 1983.
Outra descoberta surpreendente dessa linha de pesquisa é que a medição do tempo gera entropia. Em outras palavras, os relógios — mesmo os mais simples — não apenas registram a passagem do tempo, mas também produzem calor. Marcus Huber, da Universidade Técnica de Viena, e Natália Ares, da Universidade de Oxford, estão investigando o que acontece quando desmontamos um relógio até seu nível quântico mais básico, e seus resultados descrevem uma relação de compromisso: quanto mais preciso e frequente o tique-taque (quanto mais informação temporal for extraída), maior a tendência de geração de entropia. Mesmo um relógio quase perfeito torna-se instável quando se tenta extrair informações dele.
Tudo isso abre uma possibilidade intrigante: e se a sensação de que o tempo está passando não depender de sua existência como algo fundamental, mas sim de nossa interação com os sistemas que usamos para medi-lo? Alguns cientistas sustentam que o universo já possui relógios naturais, que são os buracos negros — corpos celestes extremamente massivos, de cuja atração gravitacional nem a própria luz consegue escapar.
Stephen Hawking demonstrou que os buracos negros podem se emaranhar com o mundo exterior através da radiação que emitem, abrindo espaço para a hipótese de que eles possam funcionar como relógios cósmicos. Se assim for, seu tique-taque deveria deixar rastros na entropia da radiação Hawking. Mas poderiam os buracos negros desempenhar o papel de relógio quântico do universo através do entrelaçamento com essa radiação?
A chave desse mistério pode estar em algo ainda mais fundamental do que a entropia. Em 1935, Erwin Schrödinger demonstrou o paradoxo da superposição propondo que um gato em uma caixa lacrada, ligado a um evento radioativo aleatório, poderia ser considerado simultaneamente vivo e morto até que a caixa fosse aberta e o estado observado. Isso significa que uma partícula quântica pode existir em múltiplos estados até que a meçamos. Como esse colapso é irreversível — uma vez que o medimos, não há como voltar atrás —, a flecha do tempo pode ser simplesmente um registro do que foi medido. Assim, nós não apenas participamos do tempo, mas o criamos sempre que perguntamos que horas são.
Essa perspectiva não nega o significado da nossa experiência temporal. Embora seja genuína, a interpretação metafísica que lhe atribuímos é opcional. Nossa vida continua sendo uma sequência de escolhas e memórias, mas essa sequência reside dentro de nós, não em um cosmos que flui independentemente. E se o fluxo do tempo é uma espécie de construção cognitiva, talvez isso altere a forma como vivenciamos a urgência dos prazos, lidamos com a perda ou sentimos que o tempo nos roubou algo. Talvez a flecha do tempo não nos atinja: somos nós que seguimos em frente, construindo memórias enquanto percorremos o mundo.
A física moderna dispõe de ferramentas capazes de explorar questões antes restritas à filosofia, mas suas grandes teorias — relatividade, mecânica quântica e termodinâmica — ainda entram em conflito quando tentam descrever o que o tempo realmente é. E talvez essa tensão seja o indício mais claro de que o tempo, como o imaginamos, não existe como uma entidade única. Talvez o tempo só seja real em diferentes sentidos: como experiência, como aumento da entropia, como ilusão cognitiva ou como efeito da forma como interpretamos o mundo.
Por ora, o tempo ainda está aí, pelo menos para nós, marcando cada segundo.
Continua...
