O fato de o tempo não ser universal nem fixo afronta nossa noção de simultaneidade, já que dois eventos que parecem acontecer ao mesmo tempo para um observador podem não parecer simultâneos para outro. Voltando ao exemplo do trem (capítulo anterior), se dois relâmpagos atingirem a locomotiva e o último vagão ao mesmo tempo, ambas as descargas parecerão simultâneas para quem está na plataforma e sucessivas para quem está no trem em movimento.
Embora tenha sido considerada inicialmente absurda, essa ideia abriu caminho para toda a física moderna — da mecânica quântica à cosmologia, da compreensão dos buracos negros ao estudo da origem do universo, e continua valendo quase um século depois. Mas a questão que se coloca é: se o tempo não é universal e cada qual segue sua própria linha temporal, a possibilidade de se desviar, pegar atalhos ou fazer o caminho inverso permitiria voltar ao passado?
Guindado por Bolsonaro a uma poltrona do Supremo sob o argumento de que o tribunal precisava de um ministro "terrivelmente evangélico", André Mendonça rodou a toga, na última quinta-feira, e serviu ao filho do pai o pão que o Tinhoso amassou ao autorizar a Polícia Federal a abrir inquérito para investigar o financiamento de Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse.
A física moderna trata a viagem no tempo para o futuro como uma consequência direta das leis do universo, pois quanto mais rápido algo ou alguém se move, mais lentamente o tempo passa para esse alguém em relação a um observador parado. Para entender melhor, a velocidade da luz — representada pela letra "c" considerada o limite máximo no universo — equivale a 299.792.458 m/s. Viajando a 99% de "c" e voltando à Terra depois de 5 dias, um hipotético astronauta encontraria seus familiares e amigos 35 dias mais velhos.
Vale ressaltar que a diferença (fator de Lorentz) cresce à medida que o viajante se aproxima de "c." A 99,9999%, os mesmos 5 dias na nave representam cerca de 9 anos na Terra, e a 99,99999999%, a quase 1.000 anos. Com energia suficiente, seria possível cruzar galáxias inteiras numa questão de minutos, enquanto milhares de anos se passariam na Terra.
Observação: Teoricamente, o fator de Lorentz não tem limite, mas qualquer objeto com massa precisa de energia para ser acelerado, e, na velocidade da luz, a energia necessária para ele continuar acelerando seria infinita.
Não se trata de ficção científica, mas de evidências comprovadas experimentalmente: partículas subatômicas aceleradas em laboratórios vivem mais tempo do que se estivessem paradas, e relógios atômicos colocados em aviões viajando a grandes velocidades atrasam exatamente como a relatividade prevê.
Colher o fruto mais ambicionado da árvore da relatividade — ou seja, viajar no tempo — é admissível à luz das leis da física; se não o fazemos na prática, é porque o custo é altíssimo: para que a dilatação do tempo seja realmente significativa, é preciso atingir velocidades muito próximas à da luz, e nossas tecnologias de propulsão ainda não o permitem.
A sonda espacial mais veloz lançada pela NASA cravou "modestos" 693 mil km/h (ou 0,0643 da velocidade da luz) no final de 2024 — e isso porque se aproveitou da gravidade solar. A essa velocidade, seria possível ir da Terra à Lua em meia hora, a Marte em 15 dias e aos confins do Sistema Solar em pouco menos de 3 anos, mas uma viagem de ida a Alpha Centauri levaria mais de 6 mil anos.
Resumo da ópera: viajar para o futuro, embora seja possível em teoria, é impraticável com os recursos de que dispomos atualmente. Mas o que realmente mexe com a imaginação é a ideia de voltar para o passado, pois aí as coisas ficam mais complicadas, como veremos no próximo capítulo.
Continua...
