A IDADE TRANSFORMA O TEMPO NUM ARTIGO RARO. QUANTO MAIS VELHOS FICAMOS, MAIS ESCASSO ELE SE TORNA.
Toda cultura no mundo tem seu livro sagrado — para os cristãos, o "Verbo" é a Bíblia; para os muçulmanos, o Alcorão; para os judeus, a Torá, e assim por diante. Cada um é diferente do outro, mas no fundo são todos iguais, e os mais estudados são justamente os menos entendidos.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Às vésperas do megacomício de estreia da campanha, no domingo, em São Bernardo, Lula disse acreditar nas juras de inocência que ouve do filho, mas evitou levar a mão ao fogo por Lulinha: "Só ele sabe a verdade. Só ele", disse o presidente em entrevista. "Eu não sei a verdade. Ele sabe se ele fez ou não fez. Ele jura que não fez. Se não fez, então brigue. Se meu filho tiver culpa, ele pagará".
Lulinha é alvo de três inquéritos da PF — dois são relatados pelo ministro do Supremo André Mendonça e o terceiro, por Flávio Dino. Lula disse ter feito uma recomendação aos advogados do filho: "Ninguém vai pedir o fechamento de processo do meu filho. Quer fazer inquérito? Faça."
Lula foge de sabatinas jornalísticas e evita confirmar a presença em debates. Optou por falar no ambiente controlado dos podcasts. Desde o mês passado, já havia conversado com os canais no YouTube "Inteligência Ltda.", "Meteoro Brasil" e "Os Três Elementos". Nesta sexta-feira, falou aos podcasts "Não Inviabilize" e "As Cunhãs". Flávio Bolsonaro adota a mesma estratégia. Ambos desviam da fricção com jornalistas e do embate com adversários. Com isso, privam o eleitor do contraditório.
Deve haver uma razão para os monges cristãos passarem a vida tentando decifrar as escrituras e místicos e cabalistas judeus se debruçarem sobre o antigo testamento. Talvez o motivo seja a linguagem cifrada, usada para compartilhar os "misteriosos segredos" — como o próprio Evangelho segundo João alerta: "falarei em parábolas e direi coisas ocultas". Até porque esses livros supostamente escondem um vasto acervo de conhecimento inexplorado esperando para ser desvendado — ou pelo menos é isso que muitos estudiosos afirmam.
Mesmo considerando os chamados livros sagrados uma mistura de mitos, lendas e tradições orais acumuladas ao longo dos séculos, eu reconheço que eles constituem um importante repositório da sabedoria e dos ensinamentos atribuídos aos antigos mestres. Não obstante, eles não fornecem uma explicação científica ou histórica do passado — e nem poderiam, pois literatura religiosa não é jornalismo, não registra acontecimentos em tempo real nem leva em conta o conhecimento acumulado nos últimos séculos em áreas como física, astronomia e biologia.
Enquanto dogmas religiosos pedem fé inquestionável, a ciência busca evidências e procura comprová-las por meio de experimentos. Por outro lado, se a Bíblia não contém um significado oculto, por que cientistas brilhantes da Real Sociedade de Londres ficaram tão obcecados com seu estudo?
O próprio Isaac Newton escreveu milhares de páginas sobre o verdadeiro significado das Escrituras — incluindo um manifesto de 1704 alegando que ele havia extraído informações científicas da Bíblia. Sir Francis Bacon ficou tão convencido de que as escrituras continham um significado cifrado que escreveu seus próprios códigos, que são estudados até hoje. E até mesmo o poeta iconoclasta William Blake sugeriu que deveríamos ler nas entrelinhas.
Nos Estados Unidos, John Adams e Benjamin Franklin alertaram sobre os riscos de interpretar a Bíblia de forma literal. Thomas Jefferson estava tão convencido de que a verdadeira mensagem estava escondida que recortou páginas e reeditou o livro, tentando, em suas próprias palavras, "eliminar a estrutura artificial e restaurar as doutrinas genuínas".
Há quem diga que os Antigos Mistérios são uma chama acesa que, nas mãos de um mestre, pode iluminar o caminho, mas nas mãos de um louco pode abrasar a Terra. Talvez sejam mesmo, mas isso não significa que a Bíblia e os Antigos Mistérios se contraponham: enquanto a Bíblia fala do "Deus acima de nós" — e nela o homem seja um pecador impotente — os Mistérios aludem ao deus dentro de nós — ou do homem como deus. Mas é inegável que as vozes dos antigos mestres se perderam na ladainha caótica daqueles que se autoproclamam "escolhidos" e dizem ser os únicos a compreender a Palavra — que, segundo eles, está escrita na sua língua e em nenhuma outra. Diante disso, fica evidente que as religiões se tornaram uma cabine de pedágio para o céu.
Um homem sábio disse certa vez que a diferença entre o homem e Deus é que o homem esqueceu que é divino. Buda disse: "você mesmo é Deus", e Jesus, que "o reino de Deus está entre vós" — além de prometer que quem crê Nele fará as coisas que Ele faz e até maiores do que elas. O primeiro antipapa — Hipólito de Roma — criou a mesma mensagem: "Abandone a busca por Deus e, em vez disso, procure por Ele tomando a si mesmo como ponto de partida".
Quiçá isso tudo não passe de velhas histórias fabricadas pelo homem que o tempo se encarregou de exagerar, mas há fortes indícios de que os antigos compreendiam o pensamento de modo mais profundo do que o compreendemos hoje. Mesmo sendo uma disciplina nova, a noética é a ciência mais antiga do mundo — o estudo da mente humana —, e talvez um dia nossa ciência alcance a sabedoria dos antigos.
A mente humana era a única tecnologia à disposição dos antigos, e os primeiros filósofos a estudaram de forma incansável. Os Vedas descrevem o fluxo de energia mental; a Pistis Sophia fala sobre a consciência universal, e o Zohar explora a natureza da mente-espírito. Os textos xamanísticos produzem a "ação fantasmagórica à distância" de Einstein em termos de cura remota.
Quando a Bíblia diz que devemos "construir nosso templo" e fazer isso "sem ferramentas e sem ruído", tudo indica que se trata do nosso corpo — "Vós sois o tempo de Deus" (Coríntios 3:16). E o Evangelho segundo João diz a mesma coisa. Infelizmente, parece que grande parte do mundo religioso está esperando que um templo de tijolos seja construído — como prega a Profecia Messiânica — em vez da construção do tempo de nossas mentes.
Pode-se argumentar que as Escrituras descrevem em detalhes um templo físico que precisa ser construído, cuja estrutura seria dividida em um templo externo chamado Santo e um santuário interno chamado Santo dos Santos. As duas partes estão separadas uma da outra por um tênue véu, da mesma forma que, em nosso cérebro, a membrana aracnoide separa a dura-mater da pia-mater. Segundo alguns cientistas, quando em estado avançado de concentração o cérebro humano produz uma secreção que supostamente tem um efeito curativo capaz de regenerar células e pode ser o motivo por trás da longevidade dos iogues.
Curiosamente, a Bíblia fala em "maná dos céus" — uma substância mágica que teria caído do céu para alimentar os famintos. Consta que ela curava os doentes, dava vida eterna e, estranhamente, não produzia dejetos ao ser consumida. Diante disso, alguns estudiosos interpretam "templo" como uma código para o corpo, "céu", um código para a mente, a Escada de Jacó, a coluna vertebral, e o "maná", essa rara substância produzida pelo cérebro. Aliás, essa mesma substância aparece em todos os Antigos Mistérios com outros nomes, como "néctar dos deuses", "elixir da vida", "a,brosia", "fonte da juventude", "pedra filosofal", e por aí afora.
Segundo Mateus 6:22, "quando teu olho for bom, todo o teu corpo terá luz". Se usado corretamente, nosso cérebro pode invocar poderes literalmente sobre-humanos. Mas, por incrível que pareça, a ciência ainda não alcançou todo o potencial da mente. Os antigos já conheciam muitas das verdades científicas que estão sendo redescobertas atualmente. É provável que dentro de mais alguns anos seremos forçados a aceitar o que hoje é impensável: nossas mentes podem gerar energia capaz de transformar a matéria física. E se as partículas reagem ao pensamento, então os pensamentos têm o poder de mudar o mundo.
Talvez Deus seja na verdade uma energia mental que permeia tudo, e os seres humanos foram criados à sua semelhança. Nossos corpos evoluíram com o passar do tempo, mas nossas mentes é que foram criadas à imagem e semelhança desse "Deus". Pelo mundo todo, os religiosos olham para o céu em busca de Deus, sem perceberem que nós somos criadores, embora desempenhamos ingenuamente o papel de criaturas. Vemos a nós mesmos como ovelhas indefesas, ajoelhamo-nos como crianças assustadas implorando ajuda, perdão, ou seja lá o que for. Quando percebermos que fomos realmente feitos à imagem do Criador, entenderemos que nós também somos criadores. E esse entendimento fará com que as portas do conhecimento humano se escancarem.
A grande ironia é que, durante séculos, a maioria das religiões incentivou seus sectários a abraçarem os conceitos de fé e crença. Agora a ciência, que passou séculos considerando as religiões como mera superstição, está construindo uma ponte para atravessar o abismo que ela própria criou. Mas usar a mente é como tocar violino: requer dedicação e um longo período de aprendizado. O pensamento bem direcionado é uma habilidade que se adquire. E como no caso do violino, algumas pessoas demonstram uma aptidão natural maior do que as outras. Há relatos de casos incomuns e ainda não totalmente explicados de remissão espontânea de certos tipos de câncer, fenômeno que alguns pesquisadores associam a fatores psicológicos e fisiológicos pouco compreendidos. Os noéticos, por sua vez, atribuem esses casos à capacidade da mente de transformar células cancerosas em células saudáveis apenas pelo pensamento.
Talvez seja a hora de aceitarmos que o mundo não é exatamente como imaginamos. Historicamente, todos os grandes avanços científicos começaram com uma ideia simples que ameaçou virar todas as crenças de cabeça para baixo. A simples afirmação de que a Terra é redonda foi desprezada e tachada de impossível porque as pessoas acreditavam que, se fosse assim, os oceanos se derramariam do planeta, e o heliocentrismo foi chamado de heresia.
As mentes medíocres sempre atacaram aquilo que não entendem, mas os criadores sempre acabam encontrando quem lhes dê ouvidos. Então a quantidade de seguidores cresce até alcançar um número crítico, e de repente o mundo se torna redondo e o Sol passa a ser o centro do sistema solar. Ou seja, a percepção se transforma e uma nova realidade nasce. Não faltam evidências de que o poder do pensamento humano cresce exponencialmente em proporção à quantidade de mentes que compartilham um mesmo pensamento. É esse o poder inerente aos grupos de oração, aos círculos de cura, aos cantos coletivos e às devoções em massa.
Em última análise, Deus pode estar na união de muitos, e não em um só. Aliás, a palavra hebraica usada no Antigo Testamento para se referir a Deus — Elohim — está no plural, talvez porque as mentes dos homens são plurais e, portanto, Deus é plural.
