ONDE HOUVER UM FÍSICO TEÓRICO HAVERÁ POSSIBILIDADES TEÓRICAS QUE OS FÍSICOS EXPERIMENTAIS PODERÃO OU NÃO COMPROVAR.
Na segunda-feira 24, Flávio Bolsonaro foi grosseiro com a repórter Ana Luiza Albuquerque, da Folha. Cobrado sobre a prestação de contas dos R$ 61 milhões que mordeu de Daniel Vorcaro, impacientou-se: "Olha só, vocês vão parar no tempo?". Na sexta-feira, indagado sobre o mesmo tema por Renata Vasconcellos, respondeu com respeito e compostura. Ou seja: estava completamente fora de si.
Na véspera, Lula quis ensinar à apresentadora do Jornal Nacional como formular uma pergunta sobre crise fiscal. Caprichando na teatralidade, o filho do capitão solidarizou-se com Renata. E colocou-se à disposição para responder "qualquer tipo de pergunta". Sobreveio uma sabatina sui generis, dura de roer. A plateia teve que ouvir o primogênito do presidiário por 40 minutos para concluir que ele não tem nada a dizer.
Vorcaro é apenas o "patrocinador privado" de uma "obra-prima": a cinebiografia de Bolsonaro. Nada a ver com o sujeito que passou a perna no banco público de Brasília. Ou que surrupiou fundos de aposentadoria de estados e municípios. E Flávio agora acha que não deve nada a ninguém. Muito menos explicações.
Questionado sobre as mentiras que andou dizendo sobre as urnas, Rachadinha deu o braço a torcer. Admitiu ter errado ao trombetear a falsidade segundo a qual urnas eletrônicas foram fabricadas por uma empresa venezuelana. Prometeu respeitar o resultado da eleição. Mas insinuou que seu respeito pode subir no telhado se Lula vencer: "Eu não vou perder. E digo mais: vou ganhar no primeiro turno". Sobre o complô do golpe, percorreu na sabatina o roteiro de sempre. Nesse script, Bolsonaro não fumou a democracia, não bebeu o Estado Democrático de Direito e não cheirou uma anistia em causa própria. Só mentiu um pouco. O filho ecoa a ficção: golpe, que golpe? "Ele foi julgado pelos seus inimigos". E adiciona inverdades novas ao estoque antigo: o brigadeiro Carlos Baptista, que negou apoio ao golpe, hoje "pede voto para o Lula".
A entrevista mostrou que há dois Bolsonarinhos na praça. O Flávio manjado condecorou na cadeia o miliciano Adriano da Nóbrega. Empregou a mãe e a mulher do PM matador na folha da rachadinha da Alerj. O sabatinado da Globo diz ter rendido homenagens a um "policial injustiçado". Não poderia supor que houvesse um facínora escondido dentro da alma do agraciado.
Flávio foi confrontado com um artigo de 2019. Nele, sustentou que o aquecimento global "não existe". Tentou calibrar sua aversão à ciência: "Pra mim, o que acontece hoje são exemplos climáticos extremos". Se os resíduos mentais do bolsonarismo fossem concretos, não haveria esgoto que bastasse. A sabatina de Flávio Bolsonaro foi 100% feita de cinismo.
Para efeito desta postagem, interessa dizer que viajamos no tempo rumo ao futuro desde o instante em que nascemos até o momento em que exalamos o derradeiro suspiro. Mas viajar no tempo como na ficção científica, seja mediante a construção de uma máquina do tempo, seja mergulhando num buraco negro e atravessando um buraco de minhoca… aí o buraco é mais embaixo. Aliás, esse é outro assunto que suscita calorosos debates no meio científico, ainda que, antes de pensar em viajar no tempo, seja preciso compreender o que o tempo realmente é. E é justamente nesse ponto que a física moderna empaca — não por falta de conhecimento, mas porque as duas teorias mais bem-sucedidas já produzidas até agora parecem descrever realidades diferentes em idiomas diferentes.
Enquanto a relatividade geral teorizada por Albert Einstein descreve com precisão o comportamento dos planetas, das estrelas, das galáxias e dos buracos negros, a mecânica quântica explica o comportamento das partículas elementares, dos átomos e dos fenômenos microscópicos, mas segue suas próprias leis. Graças à relatividade, sabemos que espaço e tempo não são entidades separadas, mas partes de uma mesma estrutura — o espaço-tempo. Sem a mecânica quântica, não existiriam computadores, lasers, semicondutores, enfim, praticamente toda a tecnologia moderna. Separadamente, ambas funcionam de maneira extraordinária; juntas, nem sempre.
Imagine dois mapas extremamente precisos. Um deles foi criado para orientar navios através dos oceanos, enquanto o outro foi projetado para guiar pedestres pelas ruas de uma cidade. Cada qual cumpre perfeitamente sua função; o problema surge quando se tenta sobrepor os dois para representar exatamente o mesmo lugar. Mutatis mutandis, algo semelhante acontece com a física moderna. Por um lado, a relatividade descreve um Universo contínuo, suave e geométrico; por outro, a mecânica quântica descreve um Universo probabilístico, descontínuo e repleto de flutuações. Quando ambas precisam atuar simultaneamente, as equações deixam de cooperar.
Não estamos diante de teorias fracassadas ou ultrapassadas. Estamos falando das duas descrições mais bem-sucedidas da realidade já produzidas pela mente humana. Ainda assim, quando confrontadas diretamente, elas se comportam como peças pertencentes a quebra-cabeças diferentes. Não obstante, talvez nenhuma das duas esteja errada; talvez ambas sejam apenas aproximações de algo mais profundo, e é justamente nos ambientes extremos, onde a gravidade se torna intensa demais para ser ignorada e os efeitos quânticos importantes demais para serem desprezados, que as duas teorias precisam trabalhar juntas. Assim, da inquietação advinda do fato de elas parecerem falar idiomas diferentes nasceu uma das maiores ambições científicas de todos os tempos: a busca por uma Teoria de Tudo.
Continua…
