sexta-feira, 14 de agosto de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — CONSCIÊNCIA E CIÊNCIA NOÉTICA

A HUMANIDADE TROCOU OS DEUSES PELOS LABORATÓRIOS, MAS NÃO ABANDONOU AS CRENÇAS.

Em sociedades antigas, a crença no sobrenatural e em prodígios de magia era uma maneira natural de explicar fenômenos incompreendidos, dar sentido ao desconhecido e oferecer conforto diante da incerteza.


Tempestades, eclipses e mudanças sazonais eram interpretados como manifestações divinas ou forças invisíveis. Com o avanço da ciência, porém, aquilo que antes pertencia ao domínio do mito passou a ser compreendido por meio da observação sistemática, da experimentação e do raciocínio lógico. Em outras palavras, o que ontem chamávamos de magia hoje atende pelo nome de ciência e tecnologia.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


As pesquisas mostram que a corrupção é o segundo item na agenda de inquietações do eleitor, perdendo apenas para a segurança pública. Num instante em que a Polícia Federal conduz inquéritos que roçam as campanhas dos dois candidatos mais bem-postos na corrida presidencial, a troca de chumbo entre eles tende a virar um jogo de soma zero.

As investigações que atingem Lulinha, o ex-líder do governo Jaques Wagner e Marcola, ex-assessor do ex-presidiário, desgastam a imagem do candidato do PT. O inquérito que apura o destino dos R$ 61 milhões que o filho do presidiário mordeu de Daniel Vorcaro e a investigação de desvios de verbas de emendas do vice Alfredo Gaspar tornam desconexa a retórica anticorrupção do presidenciável do PL.

Nesse contexto, os ataques que os candidatos e seus aliados fazem uns aos outros tendem a ser neutralizados. A permanência de nhô-ruim e nhô-pior no topo do ranking das pesquisas indica que os eleitores cativos de ambos dão de ombros para as suspeitas sob investigação. Resta acompanhar o comportamento do eleitor dito independente, que não morre de amores nem pelo bolsonarismo nem pelo petismo, e é decisivo no tira-teima da sucessão. 

Por ser mais sensível às denúncias de corrupção, o voto dessa parcela do eleitorado pode migrar de um lado para o outro conforme o movimento da lama, desempatando por pequena margem o placar de zero a zero. 

Quer dizer: a atuação da Polícia Federal tornou-se um dos fatores centrais da disputa eleitoral.


As inovações tecnológicas revelam a extraordinária capacidade humana de transformar o mundo ao seu redor. Voar, conversar instantaneamente a milhares de quilômetros de distância ou observar galáxias remotas eram impossibilidades absolutas até poucas gerações atrás. Em tese, a evolução do pensamento humano desloca-se do plano mítico para o científico — ainda que negacionistas, teóricos da conspiração e seus semelhantes insistam em remar contra a maré num oceano particularmente resistente à razão. Ainda assim, a ciência avançou mais nos últimos duzentos anos do que durante milênios inteiros que os antecederam.


Mais de cinco mil anos separam a invenção da roda da compreensão da eletricidade como a utilizamos hoje. Em contraste, bastaram poucos séculos para que travessias marítimas que exigiam semanas passassem a ser realizadas em horas pelos céus. Aprendemos a prever eclipses, compreender as marés e decifrar o nascimento das estrelas, mas seguimos incapazes de cruzar o espaço em velocidades próximas à da luz. O horizonte continua sempre um pouco além do alcance.


O fruto mais cobiçado da árvore da relatividade permanece inacessível. Ainda assim, a história do conhecimento sugere cautela antes de declarar qualquer fronteira definitiva. Muitas impossibilidades revelaram-se apenas limitações temporárias, dissolvidas pelo surgimento de novas ideias ou novas ferramentas. Talvez o impossível não seja aquilo que jamais acontecerá, mas apenas aquilo que ainda não fomos capazes de explicar. Afinal, estamos longe de explorar todo o potencial das próprias mentes que fazem essas perguntas.


Em 2001, nas horas que se seguiram aos ataques terroristas de 11 de setembro, pesquisadores ligados à chamada ciência noética relataram um fenômeno curioso: medições realizadas por geradores de eventos aleatórios distribuídos pelo planeta teriam apresentado desvios estatísticos durante momentos de intensa comoção coletiva. As interpretações permanecem controversas, mas o episódio reacendeu discussões sobre a possibilidade de relações ainda pouco compreendidas entre consciência humana e sistemas físicos complexos.


A hipótese dialoga, ao menos simbolicamente, com antigas ideias espirituais sobre uma consciência universal compartilhada. Estudos envolvendo meditação, intenção coletiva e estados mentais sincronizados passaram a investigar se processos cognitivos poderiam influenciar organismos vivos ou ambientes experimentais específicos.


Alguns autores defendem que a consciência não estaria totalmente confinada aos limites do cérebro, sugerindo que o pensamento direcionado poderia produzir efeitos mensuráveis em determinadas circunstâncias — uma proposta recebida com cautela pela maior parte da comunidade científica.


A expressão “a mente domina a matéria”, portanto, talvez não deva ser entendida como afirmação literal, mas como metáfora poderosa. Somos menos espectadores do universo do que participantes ativos dele. Expectativas, decisões e percepções moldam profundamente a maneira como interagimos com o mundo — e, por consequência, os resultados que dele emergem.


No nível subatômico, interpretações populares da mecânica quântica frequentemente destacam o papel do observador no processo de medição. Isso não implica que a consciência humana crie a realidade à vontade, mas revela algo igualmente intrigante: aquilo que medimos depende inevitavelmente de como escolhemos medir. Entre possibilidade e resultado existe sempre uma interação. Para alguns pensadores, essa relação sugere que compreender o universo exige também compreender quem o observa.


Resumo da ópera: durante séculos acreditamos habitar um universo sólido, objetivo e indiferente à nossa presença — um palco onde a matéria existia independentemente do olhar humano. Hoje sabemos que o observador raramente é apenas espectador. Seja pela psicologia, pela neurociência ou pela própria física experimental, percepção e interpretação participam ativamente da experiência que chamamos de realidade.


Talvez a intenção seja uma habilidade adquirida. Assim como na meditação, controlar a atenção exige prática. Ao longo da história, a capacidade de abstração de alguns poucos indivíduos redefiniu completamente nossa compreensão do cosmos. Talvez esse seja o verdadeiro elo entre o antigo misticismo e a investigação moderna: não a substituição de perguntas antigas por respostas definitivas, mas a persistência das mesmas perguntas sob novas linguagens.


O conhecimento técnico das civilizações antigas, embora frequentemente romantizado, era impressionante em muitos aspectos. Engenheiros dominavam alavancas e polias muito antes de tais princípios serem descritos matematicamente. Alquimistas, apesar de seus equívocos filosóficos, abriram caminhos que mais tarde conduziram à química moderna. Hoje sabemos que partículas podem permanecer correlacionadas à distância por meio do entrelaçamento quântico — um fenômeno rigorosamente estudado — ainda que comparações diretas com crenças espirituais antigas pertençam mais ao campo da metáfora do que da equivalência científica.


Desde sempre, o ser humano buscou compreender sua conexão com o todo. Diferentes tradições chamaram esse impulso de redenção, iluminação ou união. Talvez todas descrevam o mesmo anseio fundamental: superar a sensação de separação diante de um universo vasto demais para caber apenas na experiência individual. Há quem encontre paralelos simbólicos entre teorias cosmológicas modernas e antigas concepções filosóficas sobre múltiplas dimensões da realidade. A teoria das supercordas, por exemplo, imagina um universo mais complexo do que aquele acessível aos sentidos. 


Comparações com ideias antigas podem ser poeticamente sedutoras, embora pertençam mais à analogia cultural do que a uma continuidade histórica direta. No entanto, toda verdade parece exercer sua própria força gravitacional, e ideias abandonadas retornam, reinterpretadas à luz de novos métodos e novas evidências. Talvez a ciência não avance apenas descobrindo o desconhecido, mas também revisitando perguntas antigas com instrumentos mais precisos. Em certos momentos, temos a impressão de que a humanidade não está apenas aprendendo — mas lembrando.

Às vezes, uma lenda atravessa séculos porque guarda algum fragmento de verdade; noutras, como disse Freud, "às vezes um charuto é apenas um charuto". Talvez o verdadeiro desafio não seja escolher entre ciência ou mito, razão ou mistério, mas descobrir qual história ainda não terminou de ser contada.


Continua...