ALGUMAS COISAS SÃO MELHORES QUANDO NÃO SÃO DITAS, MAS O PROBLEMA É QUE QUASE SEMPRE A GENTE SÓ SE LEMBRA DISSO DEPOIS DE DIZÊ-LAS.
O título desta postagem dá margem a interpretações escatológicas, mas na verdade tem a ver com uma descoberta dos astrônomos, referente ao vento que emana de um buraco negro localizado no centro da nossa galáxia.
Num artigo publicado em junho passado na revista Astrophysical Journal Letters após 5 década de tentativas inexitosas, os autores do estudo finalmente identificaram uma cavidade cônica preenchida com gás quente e eletricamente carregado ao lado de Sagitário A*. Essa cavidade teria sido esculpida pelo vento soprado pelo buraco negro, que varreu ou aqueceu o gás frio que antes ocupava a região, e a energia necessária para criá-la só poderia ser gerada por um buraco negro supermassivo.
Como bem sabe quem acompanha minhas postagens, buracos negros são objetos extraordinariamente densos, com gravidade tão forte que nem mesmo a luz consegue escapar deles. Buracos negros supermassivos existentes no centro das galáxias normalmente atraem gases e outros materiais ao seu redor.
Décadas atrás, cientistas postularam que qualquer buraco negro supermassivo ativo, devido à sua física, expulsaria parte do gás e de outros materiais para o espaço, seja como um vento se propagando para fora, seja como um jato concentrado. Posteriormente, eles identificaram esse comportamento em buracos negros supermassivos de outras galáxias, mas, até então, não haviam comprovado que isso se repetia com Sagitário A*, cuja massa é 4 milhões de vezes a massa do Sol e que está localizado a 26 mil anos-luz da Terra.
A ponta da cavidade em forma de cone surge do entorno do buraco negro e se expande para fora dele. Embora os pesquisadores não tenham certeza da escala total da cavidade — que se estende além do campo de visão de suas observações —, supõe-se que ela chegue a 6,5 anos-luz de comprimento.
No atual estado de Sagitário A*, o vento gerado por ele não é tão intenso quanto o observado em outros buracos negros supermassivos, nem forte o suficiente para reestruturar drasticamente o centro galáctico. Buracos negros supermassivos passam a maior parte do tempo nesse estado calmo e suave, mas, às vezes, passam por explosões, e seus ventos ou jatos mais intensos podem desestabilizar completamente as galáxias hospedeiras e regiões muito além delas.
Conforme gás e outros materiais vão em direção a um buraco negro, eles se aproximam da velocidade da luz, criando energia e pressão suficientes para arremessar parte deles para fora. Enquanto parte do gás continua caindo, outra parte é ejetada.
A diferença entre um jato e um vento é geométrica. Os jatos são estreitos e não se expandem muito ao deixar sua fonte, produzindo, com frequência, um feixe de matéria. Os ventos, no entanto, são mais largos e se expandem ao deixar sua fonte — é quase como a diferença entre uma caneta laser e uma lanterna.
Fica, então, a lição de sempre que os buracos negros nos ensinam: mesmo o mais discreto deles, aquele que passa cinco décadas fingindo estar em silêncio absoluto, um dia se revela um respirador contumaz — soprando, ainda que morno, seu hálito de gás e plasma pelo centro da galáxia.
Sagitário A* não ruge como seus primos mais espalhafatosos de outras galáxias, mas também não fica parado: como todo bom introvertido cósmico, ele apenas prefere expressar sua energia em segredo, longe dos holofotes — até que a ciência, com sua teimosia de meio século, resolva ir lá espiar.
