sábado, 31 de outubro de 2026

A VERDADE (AINDA) ESTÁ LÁ FORA — PARTE 7

AUSÊNCIA DE EVIDÊNCIA NÃO É EVIDÊNCIA DE AUSÊNCIA — CARL Sagan

No final da década de 1970, militares da Força Aérea Brasileira liderados pelo Capitão da Aeronáutica Uyrangê de Hollanda Lima, então comandante do Para-Sar,  foram enviados ao Pará pelo Coronel Camilo Ferraz de Barros, chefe da 2ª Seção do Comar 1, para investigar relatos de fenômenos luminosos observados por moradores de localidades próximas a Belém e à região de Colares.


Durante meses, a chamada Operação Prato recolheu depoimentos, fez registros, produziu desenhos e fotografias e acompanhou os fenômenos relatados.


A missão visava investigar um fenômeno apelidado de chupa-chupa, que começou a ser relatado em 1976 por moradores da região oeste do Maranhão e se espalhou por Colares, a 80 quilômetros da capital paraense. No total, 400 pessoas teriam sido atingidas por luzes que, segundo os depoimentos, sugavam-lhes o sangue. A médica que atendeu a maioria dos pacientes disse que eles apresentavam "paresia, cefaleia, tonturas, tremor generalizado e queimaduras de primeiro grau, bem como marcas de pequenas perfurações". 


Tomados pelo pavor, os moradores da região se uniram para afugentar os invasores. Não passava pela cabeça deles que o intruso pudesse ser de outro planeta. A hipótese mais provável era obra do demônio ou castigo divino. À noite, famílias inteiras acendiam fogueiras, batiam latas e soltavam fogos de artifício. Outras, mais religiosas, rezavam o terço. Outras, ainda, empunhavam paus, pedras e espingardas. Diante do desespero da população, o prefeito pediu socorro às Forças Armadas.

 

Para desmistificar o fenômeno, a equipe foi designada para colher depoimentos durante o dia e ficar em campana à noite, munida de câmeras com teleobjetivas de 300 mm a 1000 mm, filmadoras e gravadores. "Meu irmão viu várias naves", contou o comandante da operação, que, no auge das investigações, relatou que um disco voador do tamanho de um DC-10 ficou a 50 metros de sua cabeça, e que sua equipe havia filmado e fotografado tudo. 


A ocorrência número 16 da pasta Registro de Observações de OVNIs descreve o avistamento de um corpo luminoso emitindo lampejos azulados, que se movia a uma velocidade estimada de 800 km/h. O incidente ocorreu em Colares, às 19h do dia 1º de novembro de 1977, e foi testemunhado por militares do I Comar. Além da luminosidade, o objeto apresentava um pequeno semicírculo avermelhado na parte superior e se deslocava do sudoeste para o nordeste sem fazer ruído nem provocar deslocamento de ar. Os arquivos contêm ainda depoimentos de civis, trocas de correspondências entre militares sobre UFOs, recortes de jornais da época e várias conversas entre pilotos e controladores de voos sobre estranhos fenômenos no espaço aéreo nacional.


Continua...

 

Parentes e amigos do capitão Uyrangê relataram que ele e o sargento João Flávio Costa tiveram um contato imediato de terceiro grau em dezembro de 1977. A nave de cerca de 100 metros de comprimento e formato de bola de futebol americano havia pousado em pé na outra margem do rio Guajará-Mirim, no Pará. Na sequência, uma porta se abriu, um ET saiu e ficou flutuando sobre a água. 


Na hora da reunião, após ouvir atentamente a história, o brigadeiro Protásio mandou suspender a operação — uma decisão que até hoje intriga ufólogos. A maioria dos militares que participaram da missão já morreram, incluindo o próprio capitão Hollanda, que concedeu uma entrevista ao jornalista e ufólogo Ademar José Gevaerd, editor da revista UFO, em agosto de 1997. 


Na oportunidade, o militar reformado relembrou seus muitos avistamentos, admitiu que teve medo de ser abduzido e revelou que a investigação foi amplamente documentada. Só de fotografias havia mais de 500. Isso sem falar das 16 horas de filmagens (nos formatos Super-8 e Super-16) e de um calhamaço de 2 mil páginas de relatórios. "Aquele monstro azul, embora tivesse um brilho muito forte, podia ser olhado diretamente sem que ardessem as vistas", declarou à revista UFO.


Dois meses após a bombástica entrevista, Hollanda se enforcou em casa, com a corda de seu roupão. Houve quem especulasse que ele teria sido assassinado por revelar informações sigilosas e colocar a segurança nacional em risco., bem como quem afirmasse que ele não morreu: apenas mudou de identidade e deixou o país. Mas não há evidências que sustentem essas versões.


Por essas e outras razões, a Operação Prato continua a ser apontada por ufólogos do Brasil inteiro como um dos mais intrigantes casos de avistamento de ovnis já registrados no país. "Foi a maior missão militar para investigar OVNIs de que se tem notícia no mundo", classifica Gevaerd. Thiago Luiz Ticchetti, presidente da Comissão Brasileira de Ufólogos concorda: "O que mais impressiona é o fato de termos investigado algo tão incrível e, ainda hoje, não sermos capazes de explicar o que aconteceu."


O 1º tenente médico Pedro Ernesto Póvoa integrava a equipe chefiada pelo Capitão Hollanda. No dia 26 de outubro de 1977, o psiquiatra foi a um vilarejo chamado Santo Antônio de Ubintuba, no município de Vigia, ouvir relatos de avistamentos e ataques de luzes insólitas, e seu veredito foi "histeria coletiva". A certa altura da operação, agentes do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) foram chamados para ajudar nas investigações. Em sua primeira noite na Ilha do Mosqueiro, a 80 km de Belém, Jorge Bessa — um dos oficiais do SNI deslocados para a missão — avistou um objeto luminoso que realizou pequenas manobras e desapareceu em grande velocidade, deixando claro que obedecia a um comando inteligente. 


Cercada de segredos, histórias e fenômenos sem explicação, a Operação Prato se tornou uma espécie de caso Roswell tupiniquim. A diferença é que, enquanto os militares americanos primeiro admitiram e depois negaram a existência dos OVNIs, os brasileiros que atuaram em Belém afirmaram taxativamente que viram diversas vezes os objetos não identificados sobrevoarem a Amazônia.


Quarenta anos depois, ufólogos ainda tentam ter acesso ao material coletado durante a operação. "Onde estão as fotos que o capitão Hollanda e sua equipe tiraram? E as filmagens? Que fim levou esse material?", pergunta Thiago Luiz Ticchetti, da CBU. Por intermédio de sua assessoria de imprensa, a Aeronáutica informou que todo o material disponível já foi encaminhado ao Arquivo Nacional, e que não dispõe de profissionais especializados para realizar investigações científicas ou emitir parecer a respeito deste tipo de fenômeno aéreo. Mas nem sempre foi assim. 


Entre 1969 e 1972, a Aeronáutica chegou a ter um órgão específico para tratar do assunto. Até ser extinto pelo governo militar, o Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados apurou mais de 70 casos de avistamentos de discos voadores. Hoje, o acervo sobre OVNIs é um dos mais visitados do Arquivo Nacional. Somente em julho de 2021, foram registrados mais de 12 mil acessos. 


Do total de 753 relatórios disponibilizados, material que abrange um período de 63 anos (1952-2015), apenas seis dizem respeito à Operação Prato. Vão de 2 de setembro de 1977 a 28 de novembro de 1978 e englobam 15 municípios do interior do Pará. "O material disponível para consulta pública é apenas a ponta do iceberg", afirma o ufólogo Edison Boaventura Júnior, presidente do Grupo Ufológico do Guarujá (GUG). Segundo ele, a filha do Brigadeiro Protásio, uma pedagoga aposentada, é uma das poucas felizardas que tiveram acesso às filmagens ultrassecretas. "Entre outros fatos aterradores, ela cita a nave-mãe pairando sobre o rio Amazonas", alega.


Outra cena impressionante, aponta Edison, é a que revela um OVNI submergindo nas águas do rio Tapajós em plena luz do dia. A filmagem, segundo o ufólogo, teria sido feita pelo Sargento João Flávio Costa, braço-direito do Capitão Hollanda. "A única certeza que tenho é que estamos diante de um dos maiores enigmas da ufologia. E mais: os avistamentos não acabaram", diz Edison, alegando que "40 anos depois, discos voadores continuam aparecendo naquela região".


O simples fato de militares brasileiros terem sido mobilizados para investigar relatos de ocorrências aéreas anômalas já é, por si só, um capítulo bastante curioso da nossa história. Talvez seja justamente esse o ponto que une Roswell, Blue Book, Nimitz, K2-18 b, Operação Prato e tantos outros episódios aparentemente desconexos. A rigor, "ainda não sabemos” pode ser uma resposta frustrante, mas também pode ser o começo de uma descoberta.


Se um dia encontrarmos vida fora da Terra, provavelmente não será porque uma nave pousou na Casa Branca, um ET saiu pela porta e pediu para falar com o presidente. Talvez seja muito mais sutil, como uma molécula numa atmosfera distante, um sinal de rádio, uma alteração química impossível de explicar por processos naturais conhecidos, uma assinatura tecnológica, ou mesmo alguma coisa que sequer sabemos procurar. 


E aí teremos chegado ao ponto mais interessante desta história, até porque, se existe uma diferença gigantesca entre acreditar que estamos sendo visitados e descobrir que não estamos sozinhos, a primeira depende de interpretação, mas a segunda exige evidência. E talvez seja justamente essa evidência — e não os discos voadores, os homenzinhos verdes ou as teorias conspiratórias — que deveríamos estar procurando.


A pergunta que se coloca não é “existem extraterrestres?”, mas sim "se finalmente encontrarmos alguma coisa lá fora, seremos capazes de reconhecer que a encontramos?”


Continua…