No tempo das cavernas, tempestades, terremotos, eclipses e outros fenômenos naturais eram atribuídos a forças sobrenaturais. Esse misticismo deu origem às religiões, mas é importante não confundir religião com fé: embora ambas andem de mãos dadas, tanto é possível ter fé e não ser religioso quanto seguir uma religião sem ter fé (apenas por tradição familiar ou convenção social),
A religião deveria servir para "religar" o homem a Deus, mas cada vertente — cristã, budista, hinduísta, xamânica, espiritualista, gnóstica, etc. — define "Deus" a sua maneira. Ao longo da História, Cristo, Buda, Maomé, Krishna e outros ícones religiosos deixaram mensagens para determinados povos em determinadas épocas. No entanto, em vez de levarem à unidade, ao amor e ao bem de todos, essas mensagens foram deturpadas para atender a interesses escusos daqueles que detêm o poder e o utilizam para manipular seus semelhantes. Os primeiros textos védicos remontam a 1.500 a.C., mas os conceitos que eles encerram foram transmitidos oralmente durante séculos. A frase "este é meu corpo" — que Cristo teria dito na Última Ceia — é repetida até hoje durante a Eucaristia. Quando "lavou as mãos", Pilatos deixou clara a ligação entre religião e política — aliás, Igreja e Estado foram as duas faces da mesma moeda até a Revolução Francesa, e velhos vícios e maus hábitos costumam ser difíceis de erradicar.
Toda sociedade tem uma religião, toda religião tem um propósito social e toda cerimonia religiosa tem um ritual. O Seder de Pessach e a comunhão, por exemplo, são adaptações litúrgicas de uma pratica observada nos chimpanzés. As religiões perderam muito da empatia que tinham nos tempos de antanho, mas fenômenos complexos se desenvolvem a partir de começos simples, e como tudo o que fazemos é influenciado por nossa história biológica e cosmológica, a conclusão é óbvia.
Diferentemente do que se imaginava alguns séculos atrás, o Universo surgiu há 13,8 bilhões de anos e o homo sapiens, há cerca de 300 mil anos — a partir da evolução de outros primatas, e não de Adão e Eva. O Velho Testamento é um conjunto de lendas e tradições culturais que foram transmitidas oralmente até 1200 a.C., quando então foram compiladas por Moisés em algum momento de sua longa jornada pelo deserto do Sinai, em busca da terra prometida a Abraão por Jeová.
Observação: Talvez os efeitos do sol escaldante explique por que o autor do Pentateuco retratou o Criador como uma entidade rancorosa e vingativa, tão diferente da imagem vendida nas igrejas, templos por padres e pastores que se locupletam do dinheiro que extorquem dos fiéis ameaçando-os com a "danação eterna" — quando deveriam lhes oferecer orientação e conforto espiritual.
As religiões, como os vaga-lumes, precisam da escuridão para brilhar e são úteis para os poderosos, que lhes dão ares de verdade para ludibriar os menos esclarecidos. É imperativo questionar as crenças enraizadas, pois é a partir da reflexão que se alcança uma espiritualidade mais ampla e profunda. A possibilidade de existir um ente superior é admissível, mas como acreditar num "criador" que concede livre-arbítrio às criaturas, promete recompensar os "bons" com a vida eterna num inverossímil "paraíso celestial" e punir os "maus" com o fogo eterno num hipotético inferno comandado por um "anjo caído"?
A rigidez das religiões tende a perpetuar tradições e práticas que raramente resistem ao questionamento crítico, ao passo que a fé resultante de experiências espirituais e emocionais leva as pessoas a acreditar em algo que não lhes foi enfiado goela abaixo por dogmas religiosos. A flexibilidade faz com que a fé se adapte aos valores e interpretações de cada um, e sua relação com a religião é ainda mais intrigante quando se questiona a natureza da divindade — aliás, dizem que Deus criou a fé e o amor, e o diabo, invejoso, as religiões e o casamento.
Segundo Aristóteles, "o sábio duvida e o sensato reflete". Dito isso, qualquer pessoa minimamente esclarecida deveria questionar a ideia de passar a eternidade tocando harpa numa nuvem ou assando lentamente num espeto. Ainda assim, toda religião é a verdade absoluta para aqueles que a professam e mera fantasia para os devotos das outras seitas. Em pleno século XXI, doutrinas as mais inverossímeis têm hostes de seguidores que pegam em lanças para defender seus rituais e liturgias.
No Mito da Caverna, Platão ensinou que que a sabedoria e o conhecimento estão além das aparências superficiais, e que só a reflexão crítica leva à compreensão das nossas convicções e narrativas que escolhemos abraçar. Infelizmente, argumentar com quem renunciou à lógica é como dar remédio a um defunto...
Continua...