A Psicotrônica — como os russos chamavam suas primeiras pesquisas envolvendo fenômenos paranormais, leitura da mente, percepção extrassensorial, controle do pensamento e estados alterados de consciência — é frequentemente apontada como uma espécie de precursora daquilo que hoje se convencionou chamar de ciência noética.
O covarde nunca aproveita uma oportunidade. Na verdade, ele é a oportunidade que os outros aproveitam.
Isolado no seu domicílio prisional, Bolsonaro se aproveita da covardia de Tarcísio, Caiado, Zema e Ratinho Júnior para manter a centralidade política que conquistou nos últimos oito anos. Na sucessão de 2026, paralisou o conservadorismo nacional, submetendo-o aos seus interesses — que não coincidem com o interesse nacional.
A última pesquisa Datafolha (no sentido de mais recente, embora bem poderia ser a última "literalmente", já que essas abordagens antecipadas prestam um desserviço ao influenciar a opinião de ameba da maioria do eleitorado) mostrou que as obscuras relações financeiras com Daniel Vorcaro corroeram a moderação cenográfica de Flávio Bolsonaro, mas não o retiraram da posição de principal representante do antipetismo — combustível que move as forças oposicionistas. O primogênito do "mito" preso continua sendo o anti-Lula mais competitivo da praça.
No primeiro turno, o filho do refugo da escória da humanidade aparece nove pontos atrás de Lula, mas numa hipotética segunda rodada ele estaria apenas quatro pontos atrás do macróbio petista. Com o escândalo do Master em movimento, a corrosão pode aumentar, mas é improvável que o primogênito do clã Bolsonaro perca os eleitores que se mantêm acorrentados ao pai — o que lhe garante um piso eleitoral de algo como 20% a 30% do eleitorado.
Ainda que o molusco eneadáctilo prevaleça sobre o filho do pai, o Brasil continuará convivendo com um estorvo condenado por atentar contra a democracia. Nessa hipótese, Bibo Pai conservaria intacto o título de principal líder da oposição, enquanto o PL manteria viva a perspectiva de obter uma polpuda bancada parlamentar. Em 2022, a despeito da vitória de Lula, o partido do ex-presidiário do mensalão Valdemar Costa Neto conquistou a maior bancada da Câmara e a mais vistosa caixa registradora do sistema partidário.
Quer dizer: mesmo derrotado, Bolsonaro emergiria da sucessão de 2026 como vitorioso, porque a direita presumivelmente democrática deixou de aproveitar — por fidelidade tosca ou medo atávico — as oportunidades que a conjuntura ofereceu para a construção de um projeto conservador à margem da quadrilha Bolsonaro. Não foram poucas as chances: a pandemia, o ataque às urnas eletrônicas, o complô golpista, o tarifaço americano urdido por Dudu Bananinha, o lero-lero da anistia e um interminável etcétera.
Uma democracia genuína pressupõe o convívio entre diferentes. É essencial para a estabilidade democrática a existência de conservadores direita ou de centro com projetos nítidos de poder e de país. Isso não é coisa que se construa do dia para a noite, na base do improviso. Governadores autoproclamados moderados, cultivaram a ilusão de que um Bolsonaro inelegível e condenado passaria graciosamente o seu bastão para um deles, e se tornaram reféns de um preso que levou às urnas um herdeiro biológico cujos únicos projetos eram manter Vorcaro no armário e conservar a hegemonia do pai sobre uma direita que não teve a coragem de se endireitar.
Toda covardia política tem um preço, e quem usa o cinismo para regatear aumenta o custo.
Nos Estados Unidos, um projeto similar — batizado de Stargate — acabou se tornando um dos episódios mais constrangedores da história recente da CIA. Alvo de zombaria pública, o programa foi acusado de desperdiçar milhões em pseudociência, truques questionáveis e tentativas pouco ortodoxas de treinar algo próximo de “espiões psíquicos”. No fim das contas, há quem diga que a Agência apenas mordeu a isca de uma possível campanha de desinformação soviética e passou anos correndo atrás do próprio rabo — desta vez, guiada por ciências marginais que jamais entregariam o que prometiam.
O Stargate tentou desenvolver uma técnica de vigilância inédita, conhecida como “visualização remota”, na qual um indivíduo — o “visualizador” —, sentado em um ambiente controlado, entraria em estado de transe profundo para projetar sua consciência para além do próprio corpo, “materializando-a” em qualquer ponto do planeta com o objetivo de observar eventos à distância.
Apesar do histórico de fracassos e do constrangimento institucional, essas tentativas de explorar fenômenos mentais extraordinários não se limitavam ao campo da espionagem. Elas dialogavam, direta ou indiretamente, com áreas que hoje seriam classificadas como metafísica ou parapsicologia. E, de certo modo, com ideias muito mais antigas.
A noção de projeção da consciência, por exemplo, remonta ao Antigo Egito. Alguns intérpretes defendem que os dutos internos das pirâmides teriam sido projetados com inclinações específicas para permitir que o “Ka” dos faraós — frequentemente traduzido como “alma”, embora haja quem o entenda como uma espécie de “veículo” da consciência — pudesse viajar até as estrelas e retornar. Nesse contexto, o conhecimento adquirido nessas jornadas estaria associado à ideia de uma consciência capaz de operar de forma independente do corpo físico.
O conceito de uma entidade consciente incorpórea, aliás, atravessa culturas, religiões e épocas. Mas o fato de uma crença ser amplamente difundida não a transforma automaticamente em evidência científica. Para desacreditar a afirmação de que “todos os corvos são pretos”, basta a existência de um único corvo branco.
Ainda assim, algumas mentes respeitáveis — como Harold Puthoff, Russell Targ e Edwin May, entre outros — exploraram, em diferentes momentos, hipóteses relacionadas à possibilidade de uma consciência não local, transitando por áreas como a física de plasma, a matemática não-linear e a antropologia da consciência. O tema também ganhou espaço em obras populares que ajudaram a difundir essas ideias para além dos círculos acadêmicos.
A noção de uma mente separada do corpo, portanto, não é tão exótica quanto pode parecer à primeira vista. Milhões de praticantes de meditação relatam experiências em que, ao focar intensamente a atenção, o corpo físico parece “desaparecer”, restando apenas a percepção de uma consciência desancorada. Em alguns casos mais raros — e controversos —, praticantes avançados descrevem a sensação de deslocamento da própria consciência para fora do corpo.
Relatos semelhantes surgem também em contextos neurológicos específicos, como certos episódios epilépticos, bem como em experiências de quase morte (EQMs), nas quais indivíduos descrevem a sensação de observar o próprio corpo à distância, como se estivessem pairando sobre ele.
Os chamados “sonhos lúcidos” talvez sejam uma das manifestações mais intrigantes dessa fronteira entre consciência e percepção. Trata-se de um estado em que o indivíduo desperta dentro do próprio sonho e, consciente de que está sonhando, passa a interagir ativamente com o ambiente onírico. Durante muito tempo considerados apenas curiosidades subjetivas, os sonhos lúcidos começaram a ser estudados de forma mais sistemática a partir da década de 1970, especialmente graças ao trabalho do psicofisiologista Stephen LaBerge.
LaBerge demonstrou que indivíduos em estado de sonho lúcido são capazes de se comunicar com pesquisadores por meio de padrões específicos de movimentos oculares previamente combinados — uma evidência curiosa de que, mesmo imerso em uma realidade subjetiva, o cérebro mantém uma ponte mensurável com o mundo externo. Hoje, sabe-se que a indução desse estado pode ser facilitada por técnicas específicas, dispositivos de monitoramento do sono e até substâncias como a galantamine.
No caso das EQMs, os relatos são ainda mais impactantes. Muitos pacientes que passaram por estados críticos, com sinais vitais drasticamente reduzidos, descrevem experiências fora do corpo nas quais afirmam ter observado, com detalhes surpreendentes, o ambiente ao seu redor — incluindo ações e diálogos ocorridos durante procedimentos médicos, mesmo quando seus olhos estavam fechados ou cobertos.
A ciência, no entanto, ainda não chegou a um consenso sobre a origem dessas experiências. Para alguns pesquisadores, tratam-se de alucinações complexas provocadas por fatores como hipóxia cerebral, estresse extremo ou descargas neuroquímicas. Para outros, podem representar algo mais profundo — talvez um vislumbre de uma realidade que ainda não compreendemos.
O fato é que continuamos tateando no escuro quando o assunto é a natureza da consciência — e, sobretudo, da morte. Ao contrário de muitos outros mistérios da existência, este carrega uma peculiaridade incômoda: se a resposta existe, ela é invariavelmente revelada de forma individual… e irreversível.
No fim das contas, nossos últimos instantes de vida podem muito bem ser nossos primeiros momentos de verdade. Infelizmente, quando finalmente tivermos a resposta… já não haverá ninguém por perto para conferir se acertamos.
Continua…
