ANTIGOS MISTÉRIOS DERAM ORIGEM A MUITOS MITOS, MAS ISSO NÃO SIGNIFICA QUE ELES PRÓPRIOS FOSSEM APENAS LENDAS.
Vimos que fé e religião são coisas distintas, que tanto é possível ter fé e não ser religioso quanto seguir uma religião apenas por tradição familiar ou convenção social, e que a fé é uma experiência subjetiva e visceral, enquanto a religião funciona como mapa, rito e código social.
Os primeiros textos védicos remontam ao ano de 1500 a.C. Antes de chegar ao papiro, o conceito que eles encerram foi transmitido oralmente durante séculos e preservado mediante métodos mnemônicos de recitação cruzada, onde cada sílaba tinha uma entonação matemática precisa. Quando os textos foram finalmente compilados, o mundo viu nascer uma das maiores bibliotecas do pensamento humano.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Está acontecendo de novo. A exemplo das eleições de 2018 e 2022, a deste ano se parece muito com uma feijoada rala. Com excesso de pesquisas, tem mais caldo do que feijão. Carne, nem pensar. Os candidatos gastam tempo e energia espinafrando-se mutuamente. Há uma inanição de ideias e projetos, mas de concreto, por enquanto, o que há além dos ataques é o alto custo da campanha — R$ 4,9 bilhões.
Dividindo-se a conta pela população, cada brasileiro entra com R$ 22,95. Parece pouco, mas é dinheiro suficiente para comprar 3,2 quilos de feijão preto. Em condições normais, o custo bilionário seria apenas vergonhoso. Numa era em que as campanhas digitais atenuam a necessidade de grandes comícios, a coisa tornou-se escabrosa.
Donos das maiores bancadas no Congresso, o PL e o PT beliscaram, respectivamente, R$ 881,6 milhões e R$ 615,4 milhões. O filho do presidiário e o ex-presidiários frequentam as pesquisas numa condição paradoxal: somam simultaneamente os maiores percentuais de intenção de voto e as maiores taxas de rejeição. Quer dizer: a disputa de 2026 repetirá o script das últimas sucessões. Parte do eleitorado irá ao segundo turno optar pelo "mal menor", ou seja, votar em um candidato para não ver o outro no Planalto. Como o menor dos males não deixa de ser um mal para quem odeia, a metade do país representada pelo polo perdedor sairá do processo eleitoral com a sensação de que pagou por uma feijoada ruim, e o Brasil terá a partir de 2027 não um presidente, mas um novo terceiro turno de quatro anos.
Curiosamente, enquanto a tradição oral védica sobreviveu quase intacta por milênios, uma parcela significativa dos registros físicos foi destruída por incêndios, enchentes e outras catástrofes naturais, e os que restaram se tornaram reféns de governantes despóticos e líderes religiosos mais preocupado com a manutenção do poder institucional do que com a busca da verdade.
Para muitos conquistadores, o conhecimento de um povo era uma ameaça à nova ordem, e destruir os textos era uma forma de "desmemoriar" a população para facilitar a dominação. Na Índia, a Grande Biblioteca de Nalanda foi queimada no século XII por invasores — reza a lenda que a quantidade de manuscritos era tão vasta que a biblioteca queimou por três meses seguidos. A Biblioteca de Alexandria é, talvez, o símbolo máximo dessa tragédia cultural — se os Vedas representam a sobrevivência pela voz, Alexandria representa a vulnerabilidade do suporte físico (o papiro e o pergaminho) diante da intolerância e do tempo.
O fim de Alexandria foi uma lenta agonia causada por uma combinação de fatores, começando pelos conflitos geopolíticos (que resultaram em sucessivas guerras pelo poder), seguindo pelo fanatismo e pela intolerância (com a ascensão do cristianismo como religião oficial do Império Romano, o conhecimento contido em Alexandria foi visto como "pagão" e perigoso) e destruído pela "negligência" de governantes que pararam de financiar os estudiosos e a manutenção dos rolos (sem investimento, os escribas pararam de copiar os textos antigos, e papiro, por ser um material orgânico, apodrece se não for cuidado).
Com o desaparecimento de milhares de rolos, perderam-se as obras completas de Aristarco de Samos — que já propunha o heliocentrismo 1.800 anos antes de Copérnico —, textos de Sófocles, Eurípides e Ésquilo, bem como mapas antigos e registros de navegação que poderiam ter antecipado a era das descobertas em séculos. Foi como se a humanidade tivesse sofrido uma amnésia coletiva: o que os Vedas salvaram através do som, Alexandria perdeu no silêncio das cinzas.
É curioso notar que muitos dos que destruíram essas bibliotecas o fizeram em nome de uma "religião", embora certamente carecessem daquela "fé" que busca a verdade e respeita a criação intelectual humana. Se um texto antigo oferecia uma visão de fé que não exigia intermediários ou que contradizia a convenção social estabelecida, ele era rotulado como herético ou perigoso. Em outras palavras, em nome do poder ou de uma suposta "pureza" da fé, variações regionais dos textos foram destruídas para impor uma versão única que servisse ao status quo.
É irreparável o dano causado pela perda de nossa "infância intelectual" em fogueiras de vaidade e ignorância. O pouco que restou e foi recuperado por meio da arqueologia e da filologia ainda é vasto. No caso dos Vedas, a tradição oral acabou sendo a "nuvem de backup" mais segura da antiguidade: enquanto o papiro queimava e a tinta desbotava, o som e a métrica eram passados de mestre para discípulo, sobrevivendo onde a pedra e o papel falharam.
Resumo da ópera: É ingenuidade achar que o apagamento da memória decorre apenas de causas naturais — na maioria das vezes ele é perpetrado por quem detém o poder —, e o mesmo fenômeno de controle que vitimou Alexandria se repetiu de forma ainda mais insidiosa na sistematização da Bíblia.
O que hoje o senso comum aceita como uma unidade indivisível é, em essência, o resultado de uma curadoria política e arbitrária, realizada por "religiosos" poderosos, que se autoconcederam o poder de decidir o que era sopro divino e o que era "conhecimento nocivo".Sob o pretexto de proteger os fiéis de heresias, esses editores da fé filtraram a pluralidade das experiências espirituais primitivas e descartaram textos que ofereciam uma visão de transcendência direta, sem a necessidade de pedágios institucionais.
Quando se entrega aos lobos a chave do redil, perde-se o direito de reclamar do sumiço das ovelhas: o que foi sacrificado foram meros pergaminhos, mas a própria liberdade do pensamento em busca do sagrado. Ao canonizar uma versão e demonizar as outras, as lideranças inescrupulosas não só moldaram uma religião; mas também criaram um cerco intelectual: aquilo que ia contra o establishment ou empoderava o indivíduo fora das amarras da convenção social foi rotulado como apócrifo e condenado ao esquecimento.
Assim, a "pureza" da fé tornou-se o álibi perfeito para uma das maiores operações de silenciamento da história, garantindo que o mapa nunca fosse maior do que o território permitido pelo palácio.
Continua…
