quinta-feira, 20 de agosto de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 107ª PARTE

TEMOS DUAS MÁQUINAS DO TEMPO: AS MEMÓRIAS, QUE NOS LEVAM AO PASSADO, E OS SONHOS, QUE NOS LEVAM AO FUTURO.

Nossa novela sobre viajar no tempo foi interrompida no capítulo 106 (22 de maio) e deu lugar à sequência "Mistérios da Meia-Noite", cujo capítulo mais recente foi ao ar em 8 de agosto. Volto agora ao tema não para brindar o leitor com a tão esperada conclusão, pois o máximo que se pode fazer com assuntos dessa complexidade é especular. Talvez isso frustre o leitor que acompanhou todos os capítulos da novela esperando um final feliz, mas, como disse alguém mais sábio, alguns mistérios jamais serão revelados. 

Claro que isso não muda o fato de que viajar no tempo é o fruto mais cobiçado — e ainda inalcançado — da árvore da relatividade. Além disso, descartar a ideia sob o pretexto de que ela não passa de ficção científica é pura desinformação (ou ignorância, tanto faz), mesmo porque viajar no tempo é uma possibilidade matemática. Só não conseguimos fazê-lo na prática porque nossa tecnologia não evoluiu a ponto de permitir a construção de espaçonaves capazes de atingir velocidades suficientes para tornar expressivos os efeitos da dilatação do tempo.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Ao colecionar troféus do Centrão, Lula ganha palanques e tempo de TV na eleição e constrói base no Congresso e governabilidade, em caso de vitória. Mas foi assim que o Mensalão, o Petrolão e os escândalos de Lula 1 e 2 começaram.

Ciro Nogueira passou os últimos quatro anos xingando Lula, dia sim, outro também. Davi Alcolumbre usou seu poder inquestionável no Senado para detonar pautas-bombas contra o governo e a reeleição. Hugo Motta, como biruta de aeroporto, seguiu os ventos para lá e para cá. Nenhum deles foi ou é aliado de Lula, nenhum trabalha de graça nem brinca em serviço. 

Os ajustes regionais pesam, especialmente para Nogueira e Motta, que são do Nordeste, o bolsão petista do País, mas isso é apenas parte da história. A audácia, a gula e o perigo do Centrão, seus partidos e líderes vão muito além das suas próprias eleições.

A partir daí, voltamos ao Mensalão, ao Petrolão e à defunta Lava-Jato, que começaram justamente quando, sem base sólida no Congresso, o macróbio eneadáctilo se jogou nos braços de adversários não ideológicos, só pragmáticos, dispostos a tudo, para compensar a fragilidade do PT e da esquerda. Isso tem custo, e alto. 

Quem paga, como sempre, é o contribuinte: em nome da governabilidade, para salvar a própria pele, o mandato e seu nome nas futuras urnas, sua insolência abriu os cofres e deu a Petrobras, como bolo fatiado, para os neo-aliados, que podem ir para um lado ou para outro, à custa de uma falsa “neutralidade”.

O eterno demiurgo de Garanhuns salvou o mandato e o apoio no Congresso, mas quase implodiu a Petrobras, a maior, mais rica e mais simbólica estatal deste país, e, via de consequência, não só feriu gravemente sua biografia, a história do PT, a credibilidade da esquerda, como também amargou 580 dias na prisão.

Foi nessa terra arrasada que floresceu o absurdo: a eleição de Jair Bolsonaro, que, aliás, foi bem mais cirúrgico do que o antecessor para se livrar das garras do Congresso à custa do erário. Deu o “coração” do governo a Ciro Nogueira, lavou as mãos e liberou geral as emendas parlamentares, sem limite, controle e fiscalização, enquanto desfrutava do jet ski e divulgava Cloroquina para a covid.

Em favor do ex-presidiário candidato à reeleição, diga-se que o sistema não deixa alternativas, ou o presidente cede ao Congresso e dá um jeito de fazer maioria, ou cai. Simples assim. Petistas e aliados batem na tecla de que Lula não roubou para si nem enriqueceu com o Petrolão; “entrou no jogo da autossobrevivência”.

Em 2027, o novo presidente, seja ele quem for, encontrará um País não apenas polarizado politicamente, mas ameaçado na economia e na frente externa, com uma crise fiscal asfixiante, inimiga de investimentos, políticas públicas e crescimento, e com os avisos de Donald Trump de que pretende intervir no Brasil e na região – algo que ganha contornos reais a cada dia. A pergunta é: como enfrentar crise interna e ameaça externa, com o Supremo jogando a credibilidade pela janela e... sem maioria no Congresso?

Para conquistar essa maioria, mesmo precariamente, sem garantias, é preciso entregar não só os anéis, mas também os dedos para o Centrão. Mas torçamos para que não seja novamente a Petrobras, ainda mais com a descoberta de petróleo na Margem Equatorial.


Num carro a 180 km/h, a dilatação do tempo é imperceptível. Já os relógios atômicos dos satélites GPS que orbitam a Terra a 14 mil km/h adiantam 38 microssegundos por dia, tornando o efeito mensurável. A velocidades próximas à da luz, um segundo no referencial do viajante equivale a anos, décadas ou séculos no tempo terrestre (como bem ilustra o paradoxo dos gêmeos). Vejamos isso melhor.


A alta velocidade orbital faz os relógios atômicos dos satélites atrasarem 7 microssegundos por dia em relação aos da Terra, enquanto a dilatação gravitacional do tempo resultante do campo gravitacional mais fraco na altitude dos satélites faz os relógios adiantarem 45 microssegundos por dia. Pelo mesmo motivo os relógios andam mais devagar ao nível do mar do que no topo do Everest — fato comprovado por relógios atômicos posicionados a alturas diferentes, mesmo quando a diferença é de apenas alguns milímetros. 


Tudo somado e subtraído, o resultado é de +38 µs/dia, que é compensado mediante o pré-ajuste dos relógios atômicos dos satélites GPS para rodarem a 10,22999999543 MHz em vez de 10,23 MHz exatos. Embora essa variação só seja percebida por aparelhos altamente sofisticados, numa hipotética espaçonave a 99,9999999% da velocidade da luz a dilatação do tempo reduziria milhares de anos terrestres a poucos segundos, tornando viagens de centenas ou milhares de anos-luz praticamente instantâneas (no referencial dos ocupantes da espaçonave).


Os cientistas ainda não chegaram a um consenso sobre as viagens ao passado (avançar no tempo é bem menos problemático). Uma corrente afirma que elas esbarram nas leis da natureza e da física, enquanto a outra sustenta que o maior problema é a limitação tecnológica, e que isso será superado em algum momento. 


Um dos principais problemas de voltar no tempo são os famosos paradoxos lógicos — no do avô, citado de passagem linhas acima, se alguém retorna ao passado e mata o próprio avô antes que ele se case com sua avó, esse alguém não teria nascido e, consequentemente, não poderia voltar no tempo para matar seu antepassado. Então, a menos que o assassinato do avô criasse uma bifurcação temporal e o viajante passasse a existir numa linha do tempo paralela, ele estaria destruindo sua própria linha do tempo.


Mas o assunto está longe de ser pacífico. Há quem afirme que a conjectura de proteção cronológica inviabiliza qualquer retorno a um ponto do passado e impede que uma curva fechada do tipo tempo leve de volta ao ponto de partida, ou que, segundo o princípio de autoconsistência, qualquer evento capaz de gerar um paradoxo ou criar inconsistências no Universo tem probabilidade zero de ocorrer, de maneira que uma viagem ao passado só poderia acontecer se ela não alterasse o presente.


Na física clássica, conhecer as condições iniciais permite calcular com precisão a trajetória de uma bala ou o movimento dos planetas, mas a teoria do caos, aplicada ao estudo de sistemas dinâmicos, mostra que pequenas perturbações podem crescer exponencialmente, tornando previsões de longo prazo inviáveis — fenômeno conhecido como efeito borboleta


Não obstante, alguns estudos demonstram que um viajante do tempo que entrasse numa curva rumo ao passado poderia seguir caminhos diferentes sem alterar o resultado de suas ações. Como qualquer tentativa de mudar o que já aconteceu criaria uma linha de tempo alternativa à linha original a partir do ponto de mudança — e a própria chegada ao passado já seria uma mudança —, o viajante se materializaria numa nova linha do tempo, onde nada que ele fizesse mudaria o curso da história na sua linha do tempo original. 


Se cada decisão que tomamos cria uma linha do tempo alternativa, é possível voltar ao passado sem criar paradoxos como o do Avô. Mas essa é apenas mais uma entre muitas teorias que, embora matematicamente plausíveis, carecem de comprovação experimental. Sem múltiplos universos e linhas do tempo alternativas, um loop infinito de causas e efeitos seria criado, da mesma forma que uma pedra jogada num lago cria ondas concêntricas em direção à margem.

 

Tudo parece se acomodar numa inexorável linha do tempo, mas uma das muitas esquisitices da mecânica quântica é a possibilidade de uma mesma partícula estar em dois lugares simultaneamente. Nesse caso, causa e efeito coexistem; o "evento A" pode ser a causa do "evento B" e, ao mesmo tempo, consequência do evento que ele próprio causou. Esse fenômeno, chamado de superposição e ilustrado pelo experimento conhecido como Gato de Schrödinger, ressalta a estranheza do comportamento das partículas em nível quântico, onde a realidade só "se define" quando é observada. 


Da feita que a natureza não está obrigada a obedecer aos postulados da teoria que tenta explicá-la, uma seta do tempo que aponta sempre na mesma direção não passa de um pressuposto. Talvez seja preciso deixar a prancheta de lado e buscar na natureza algum indício de uma superposição de eventos que revogue o princípio da causalidade (o Conselheiro Acácio que coloque as barbichas de molho).

 

Convém ter em mente que viajar para o passado só faz sentido quando admitimos a existência do tempo e o comparamos a uma estrada pela qual se pode avançar em velocidade constante, acelerar, desacelerar e até mesmo parar. Mas a causalidade pode não ser tão absoluta quanto imaginamos, e se a realidade for uma tapeçaria tecida com fios de múltiplas possibilidades, como fica o observador nesse bordado quântico?


Continua…