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segunda-feira, 8 de julho de 2024

DE VOLTA À VELOCIDADE DA LUZ E AS VIAGENS NO TEMPO

PARA RESOLVER A VIDA ALHEIA, TODOS TÊM SABEDORIA DE SOBRA.

 
A física clássica se aplica ao mundo macro, onde tudo, desde maçãs hipotéticas caindo sob a ação da gravidade a gigantes gasosos no espaço, funciona em três dimensões. Ou funcionava, já que não há nada como o tempo para passar — falando nele, a Teoria da Relatividade adicionou uma quarta dimensão (o tempo), criou o conceito de "espaço-tempo" e definiu a velocidade da luz — 299.792.458 metros por segundo no vácuo — como limite universal.
 
Nada pode superar a velocidade com que a luz se propaga no vácuo, exceto o próprio Universo, que se expande a uma velocidade maior que a da luz. Mas esse "limite" não se aplica às físicas quântica e de partículas, segundo as quais fótons, elétrons e neutrinos podem viajar mais rápido que a luz sem contrariar as teorias de Einstein. No entrelaçamento quântico, a informação parece ser transmitida instantaneamente; na teoria quântica de campos, partículas podem interagir e se influenciar mutuamente de maneiras que desafiam a intuição clássica sobre velocidades e limites.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

O termo "Efeito Orloff" surgiu de um comercial de vodca veiculado nos anos 80, que não só se tornou icônico como criou o bordão "Eu sou você amanhã". O presidente e candidato à reeleição Biden é o "eu sou você amanhã" do presidente e virtual candidato à reeleição Lula. O americano, que completará 82 anos em novembro, deixou clara sua decrepitude no debate do último dia 27, o que lançou dúvidas sobre sua capacidade de continuar na corrida presidencial. Lula, por sua vez, completará 79 anos em 27 de outubro e terá 81 nas próximas eleições gerais (supondo que ainda esteja caminhado entre os vivos). 
Entre outras promessas de campanha não cumpridas, o macróbio de Garanhuns afirmou enfaticamente que não tentaria outra eleição se vencesse Bolsonaro, que sua intenção era governar o país por quatro anos e deixá-lo "tinindo" em 2026, quando gente nova disputaria a Presidência. No segundo mês do atual mandato, porém, insinuou que poderia concorrer à reeleição "a depender da situação do país”. A partir de então, sua disposição de não largar o osso foi ficando mais e mais evidente. Dias atrás, ele trombeteou não ter receio de etarismo e voltou a dizer que poderá disputar a reeleição para "derrotar o fascismo".
Tanto o governo quanto o mandatário dão sinais claros de decadência senil. Lula está mais preocupado em criar fatos que lhe garantam vantagens eleitorais — como se estivéssemos em julho de 2026 — do que em tomar as decisões qualquer governo responsável deveria tomar. Resta saber que sucumbirá primeiro e torcer para que a volta da extrema direita não seja vista pelo eleitorado como solução para recolocar banânia nos trilhos. 
Triste Brasil 
 
Ainda segundo as equações de Einstein (e até prova em contrário), o tempo é relativo. Aliás, a maneira como percebemos a passagem do tempo depende de diversas variáveis. Quando você está prestes a borrar as calças e ouve de quem está no banheiro o tradicional “só um minuto!”, esse minuto parece durar horas para você. Claro que isso é apenas uma sensação: o ponteiro dos segundos do relógio continua avançando normalmente. Mas o fato é que a velocidade com que o tempo passa varia conforme a velocidade do observador. Isso é praticamente imperceptível num carro a 180 km/h ou num voo comercial a 900 km/h, mas os relógios atômicos dos satélites GPS que orbitam a Terra a 14 mil km/h adiantam 38 milissegundos por dia, tornando o efeito mensurável. 

Se fosse possível viajar a uma velocidade próxima à da luz, um segundo no referencial do viajante representaria anos no tempo terrestre (como bem ilustra o paradoxo dos gêmeos). No entanto, a nave espacial mais veloz lançada pela Nasa atingiu 11.854 km/h (ou 3,3 km/s), mas a sonda espacial Parker Solar Probe chegou a 635 mil km/h (ou 176 km/s) numa viagem em torno do Sol. A essa velocidade, seria possível ir da Terra à Lua em cerca de meia hora, mas levaria quase 10 dias para chegar até o Sol — distância que a luz percorre em 8 minutos e 13 segundos viajando a 1,08 bilhão km/h. 

Se nossa tecnologia permitisse atingir 80% da velocidade da luz, uma viagem de 5 horas pelo cosmos corresponderia a 8 horas e 19 minutos pelos relógios da Terra (devido a um fenômeno conhecido como como dilatação do tempo). E alguém que passasse um ano terrestre viajando a 99% da velocidade da luz envelheceria uns poucos dias (vide o paradoxo dos gêmeos).
 
Observação: A Nasa produziu uma animação que mostra de uma maneira didática e divertida como seria viajar bem próximo da velocidade da luz. Vale a pena assistir. 
 
Toda essa "neura" em relação à velocidade da luz se explica porque ela é um dos pilares das tão sonhadas viagens no tempo, já que o tempo passa mais devagar conforme a velocidade aumenta. Em outras palavras, conforme a velocidade de uma hipotética espaçonave aumenta, o tempo reduz sua na mesma proporção — e para quando a velocidade da luz é alcançada. Nas pegadas desse pressuposto, o relógio passaria a "andar para trás" quando a espaçonave superasse a velocidade da luz.

O detalhe (e o Diabo mora nos detalhes) é que é impossível mover um objeto a uma velocidade superior à da luz, já que a única coisa capaz de mover uma partícula com massa é outra força que viaje à mesma velocidade. Como nossa hipotética espaçonave ganharia massa à medida que a velocidade aumentasse, essa massa seria infinita quando ela atingisse a velocidade da luz, exigindo uma uma força igualmente infinita para fazê-la acelerar ainda mais.
 
Observação: Uma parte "menos lembrada" da famosa equação de Einstein descreve como a massa de um objeto muda quando há movimento envolvido: E = mc² (isto é, energia é igual a massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz). A equação completa é E²=(mc²)²+(pc)², onde a parte final descreve como a massa do objeto muda quando há movimento envolvido
 
Em 2011, pesquisadores lançaram neutrinos do CERN, na Suíça, em direção ao laboratório subterrâneo de Gran Sasso, na Itália, e descobriram que eles percorreram os 730 quilómetros em 2,43 milésimos de segundo, ou seja 60 bilionésimos de segundo mais rápido do que a própria luz, mas verificou-se mais adiante que o resultado se deveu a uma falha nos instrumentos de medição. 
 
A pergunta que se coloca é: será que observadores superluminais poderiam vivenciar dimensões espaciais e temporais acompanhando fenômenos quânticos? The answer, my friend, is blowing in the wind, como veremos no próximo capítulo. 

domingo, 10 de dezembro de 2023

O TEMPO, O BÊBADO E A CIGANA 

 

Operando em ritmo de vai ou racha, Tarcísio de Freitas conseguiu que a privatização da Sabesp fosse aprovada pela Alesp na última quarta-feira, em meio a bombas de gás e spray de pimenta. Dos 64 deputados presentes, 62 votaram a favor. O governador enxerga a privatização como joia da coroa de sua gestão. O êxito não é impossível, mas o brilho imaginado por ele não aparece no projeto avalizado pelos deputados. O texto não traz estimativa do preço de venda, não menciona qual será a participação acionária do Estado nem inclui garantias de elevação dos investimentos. A vaga menção à "redução tarifária" para "a população mais vulnerável" pode ser entendida como aumento de preço para a clientela remediada.
Se as tarifas subirem depois que a empresa virar privada — sem trocadilho —, o eleitor pode não esperar até que todos os banheiros do Estado estejam interligados à rede de esgoto para dar o troco. Melhor faria o governador se se mirasse no exemplo do "Efeito Enel". A concessão do serviço público de energia elétrica em São Paulo à iniciativa privada foi considerada exitosa porque se imaginava que a simples ideia de afastar o Estado dos postes de luz evitaria os apagões. No início de novembro, depois que um temporal deixou milhões de consumidores sem luz por até seis dias, o governador culpou as árvores. A pressa privatista de sua excelência dá à mágica da venda da Sabesp uma aparência de cartola sem coelho. 

***

Em tese, nossa viagem rumo ao futuro (que nunca chega, pois o hoje é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã) começa no instante em que nascemos. Mas o tempo é uma dimensão física entrelaçada com o espaço — nem o cosmo é uma caixa rígida e inerte que contém as coisas, nem o tempo é uma linha reta pela qual as coisas fluem, numa sucessão de acontecimentos formados por passado, presente e futuro. 
 
Nossa percepção da passagem do tempo depende de diversas variáveis. Se estivermos quase borrando as calças e ouvirmos de quem está no banheiro o tradicional “só um minuto!”, esse minuto nos parecerá a antessala da eternidade. A um
leigo que lhe pediu que trocasse em miúdos sua famosa teoria, Einstein respondeu: "Coloque a mão na chama do fogão por um minuto e esse minuto parecerá uma hora; fique junto daquela pessoa especial por uma hora e essa hora parecerá um minuto."
 
Se ficarmos imóveis e observarmos o relógio, veremos o ponteiro dos segundos avançar num ritmo constante, como um trem avançando pelos pelos trilhos. Mas 
a velocidade do "trem do tempo" é inversamente proporcional à nossa; só não nos damos conta disso porque as velocidades que vivenciamos no dia a dia são ínfimas.

Observação: No paradoxo dos gêmeos — proposto pelo físico Paul Langevin em resposta à Teoria da Relatividade de Einstein — um gêmeo que ficava na Terra enquanto o outro viajava pelo cosmo numa velocidade próxima à da luz envelhecia bem mais que o irmão (devido ao fenômeno da dilatação temporal).

A velocidade do tempo é inversamente proporcional à nossa. A 180 km/h, 30 segundos são na verdade 29,99999999999952 segundos. Os relógios internos dos satélites artificiais que orbitam a Terra a 14.000 km/h atrasam 0,007 s/dia em razão da velocidade, mas adiantam 0,0045 s/dia devido à gravidade, que é menor a 20 mil quilômetros de altitude do que na superfície do planeta. Não fosse a relatividade de Einstein, essas compensações não seriam feitas, e a precisão dos GPS ficaria comprometida à razão de 10 km/dia.
 
A maneira como nosso cérebro registra a passagem do tempo é flexível, pois leva em conta emoções, expectativas, o quanto as tarefas exigiam de nós num determinado período e até nossos sentidos. Um evento auditivo, por exemplo, parece durar mais que um efeito visual. À medida que envelhecemos, o último ano parece ter passado depressa que os anteriores 
— depois dos 60, ainda sentirmos o cheiro do quentão das festas juninas quando nos damos conta de que falta menos de 1 mês para o ano novo. 
 
Por falar em ano novo, é comum r
elembrarmos o que aconteceu de ruim no ano que se foi e nos deixamos tomar por um (ilusório) sentimento de esperança em relação ao ano que se inicia. Mas o tempo é uma entidade fluida, impalpável e indivisível, e atribuir a ele um número novo cada vez que a Terra completa uma volta em torno do Sol serve apenas para tentar conferir alguma ordem ao Caos.

Observação: Não é o tempo que passa, nós é que passamos por ele como areia entre as âmbulas de uma ampulheta. Atribuir um número de série a cada ano é como tentar aprisionar o tempo num calendário de parede, pois sempre haverá um ministro do STF disposto a soltá-lo.
 
Até a invenção da escrita, os antigos mediam o tempo com base em fenômenos naturais sazonais. Mais adiante, os sumérios dividiram o ano em 12 meses de 30 dias, e os egípcios criaram um calendário lunar baseado na estrela Sirius (que "passava perto do Sol" a cada 365 dias). No final do século 16, o papa Gregório XIII instituiu o Calendário Gregoriano, que se popularizou porque usar o sistema de marcação de tempo instituído pelo Vaticano facilitava o relacionamento entre as nações européias.
 
Na música O AMANHÃ, a cantora Simone fala em cartomante, bola de cristal, jogo dos búzios e que tais. Conta-se que Lula, quando ainda era
 presidiário, consultou uma cartomante para saber se voltaria a ser presidente. Ela o instruiu a cortar o baralho, dividisse em cinco montes e virar uma carta de cada. O resultado foi uma sequência de reis: KKKKK (para entender melhor, observe a figurinha que ilustra esta postagem). 

Infelizmente, a cigana se enganou.

sábado, 19 de julho de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 37ª PARTE — CAPÍTULO ESPECIAL: LOOPS TEMPORAIS

A VIDA É FEITA DE CICLOS. QUEM NÃO APRENDE A FINALIZÁ-LOS FICA PRESO NUM LOOP INFINITO.

Dias atrás, a caminho do dentista, eu conversava com minha cara-metade sobre como o paradoxo dos gêmeos facilita a compreensão da dilatação temporal. Quando desembarcamos do Uber, agradeci a viagem ao motorista, que, para minha surpresa, agradeceu a aula de física e disse que gostaria de entender melhor a questão dos loops temporais. 

Como não era possível resumir a ópera parado em fila dupla diante do consultório, prometi enviar por mensagem o endereço do meu blog. No entanto, quando tentei localizar o post específico, constatei que havia abordado a assunto em mais de uma oportunidade, mas jamais me aprofundado — na mais detalhada, havia feito somente uma remissão ao filme Feitiço do Tempo.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Ao pedir ao STF a condenação de Bolsonaro a 43 anos de cana, o procurador-geral sinalizou que o xadrez virá com ou sem tarifaço. A certeza de que está prestes a virar presidiário, a briga autofágica entre Tarcísio de Freitas e Eduardo Bolsonaro, o impacto direto do tarifaço de Trump sobre empresários e trabalhadores brasileiros e as medidas cautelares — uso de tornozeleira eletrônica, proibição de acessar redes sociais e de conversar com zero três, entre outras — deixaram o "mito" desnorteado. Ao perceber que se enfiou num redemoinho, ele fez o que sempre faz: criou (mais) uma realidade paralela, onde Tarcísio e Eduardo fizeram as pazes e a família não tem nada a ver com a chantagem americana. Mas a tentativa de escapar de fininho esbarra nos fatos. 
Logo após o tarifaço, Dudu Bananinha imprimiu suas digitais no cabo da arma  comemorando o “intenso diálogo” com o governo dos EUA e afirmando que a carta de Trump a Lula, condicionando a suspensão da medida à anistia do pai, “confirma o sucesso daquilo que viemos apresentando com seriedade e responsabilidade”. Desde então, o clã vem usando o tiro como moeda de troca.
Declarando-se “apaixonado” por Trump, Bolsonaro posou de negociador: “Me deem o passaporte de volta, que eu converso com ele.” A oferta soou mais como tentativa de fuga de um quase-presidiário do que como solução. Alcolumbre e Motta, percebendo o risco de afundar nessa canoa furada, reposicionam-se e se reaproximam do governo — o que, além de destravar a pauta de Lula no Congresso, bloqueia qualquer tentativa de anistiar o patriarca. 
No fim das contas, Trump virou cabo eleitoral de Lula — e está arrastando Bolsonaro e Tarcísio para o buraco.

A história se passa em Punxsutawney, no estado da Pensilvânia (EUA), durante as comemorações do tradicional Dia da Marmota. O protagonista é um repórter meteorológico mal-humorado que cobre a festa pela quarta vez consecutiva, se vê obrigado a pernoitar na cidadezinha devido a uma nevasca e acaba revivendo o dia da festa, a cada manhã, como se o tempo tivesse deixado de passar. Uma boa síntese, sem dúvida, mas limitada ao básico dos básicos. 

Loops temporais são conceitos físicos nos quais o tempo é fechado sobre si mesmo. Em termos técnicos, podemos associá-los à ideia de curvas temporais fechadas (CTCs), previstas como soluções matematicamente válidas da relatividade geral, mas altamente especulativas do ponto de vista físico. Nessas soluções, o espaço-tempo se curva de tal maneira que um viajante poderia, teoricamente, retornar ao próprio passado e reviver eventos. Suas causas podem ser sobrenaturais, científicas ou psicológicas, e somente quem está "consciente" se lembra dos eventos anteriores — o tempo "se reinicia" após cada ciclo, fazendo com que tudo volte ao ponto inicial — e pode usar o conhecimento acumulado para tentar mudar o resultado a cada repetição.

Do ponto de vista narrativo, os loops são usados para explorar a repetição e a transformação: ao vivenciar várias vezes a mesma sequência de eventos, o personagem adquire conhecimento e habilidade suficientes para alterar o curso das coisas — ou, pelo menos, para modificar sua própria compreensão da realidade. É como se a consciência fosse o único elemento fora da curva, ou, mais poeticamente, como se a consciência fosse a única coisa que não se dobra ao tempo.

 

Na ficção científica, o conceito também se articula com questões epistemológicas, éticas e metafísicas: se o tempo se repete infinitamente, qual o valor das escolhas? As ações ainda importam? A previsibilidade dos eventos compromete a liberdade? Longas como No Limite do Amanhã ou episódios como Cause and Effect (de Star Trek: The Next Generation), tensionam essas questões ao limite, mostrando personagens presos em loops que só conseguem romper mediante um aprendizado ou sacrifício extremo.

 

As CTCs são soluções válidas nas equações de Einstein — como no famoso "cilindro relativístico de Tipler" ou nos buracos de minhoca de Kip Thorne —, mas a existência dos loops violaria o princípio da causalidade, exigiria condições de energia negativa (não observadas empiricamente) e levantaria paradoxos temporais. Ainda assim, o físico Igor Novikov propôs a chamada "autoconsistência" como possível resolução: em um universo com CTCs, apenas eventos que não causam paradoxos podem ocorrer, como se o próprio espaço-tempo se autoajustasse.

 

Talvez o fascínio pelos loops não se limite à física ou à ficção: há quem veja neles metáforas existenciais profundas, desde os ciclos de repetição cotidianos até ideias filosóficas — como o "eterno retorno", de Nietzsche. Quiçá essa combinação entre rigor, imaginação e angústia existencial explique por que esse fenômeno continua a nos enredar, seja nas telas, nas páginas da teoria física ou em nossas próprias vidas.

 

No fim das contas, talvez o verdadeiro loop não seja o do tempo físico, mas o das nossas escolhas — repetições obstinadas, disfarçadas de progresso, que invariavelmente conduzem à autossabotagem. Segundo o Gênesis, Deus criou o mundo e tudo que nele existe em seis dias, viu que "tudo era bom" e descansou no sétimo. Mas mal sabia Ele que sua cria se dedicaria, sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia, a arquitetar o colapso e tornar o caos não uma exceção, mas a regra.

 

Espero que isso satisfaça a curiosidade do motorista cujo comentário me deu o tema desta postagem) e interesse aos leitores que têm acompanhado esta longa sequência sobre viagens no tempo.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 15ª PARTE

AS ROSAS CAEM, OS ESPINHOS FICAM.


Vimos que viajar no tempo é uma possibilidade teórica prevista na Teoria da Relatividade e que os efeitos da dilatação do tempoilustrados magistralmente pelo Paradoxo dos Gêmeos, já foram comprovados experimentalmente. No entanto, até que nossa tecnologia permita acelerar uma espaçonave a uma velocidade próxima à da luz, não saberemos o que o século XXX nos reserva nem poderemos saborear um filé de brontossauro com os Flintstones na cidade pré-histórica de Bedrock

Talvez isso seja apenas uma questão de tempo: como vimos em outros capítulos desta série, um engenheiro da NASA está desenvolvendo um motor capaz de impulsionar uma nave a 99% da velocidade da luz, e existem outras possibilidades promissoras, como motores de Alcubierre e conceitos baseados na energia do vácuo.

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A aprovação de um projeto de anistia depende da ronco das ruas. No último domingo, o ato na Paulista concebido para irradiar a força do faraó da direita foi um crepúsculo: segundo dados da USP, apenas 44,5 mil bolsonaristas atenderam ao chamamento — mais que o dobro dos 18,3 mil que se reuniram em Copacabana, mas quatro vezes menos do que os 185 mil que estiveram na avenida em fevereiro do ano passado e menos de 5% da previsão dos organizadores (1 milhão). A título de contextualização, Sampa tem 11,45 milhões de habitantes e a Grande São Paulo, 21 milhões.
Enquanto o STF constrói o sarcófago, os governadores 
Tarcísio, Caiado, Zema e Ratinho Jr. atuam embalsamadores, de olho nos votos dos devotos. Na manifestação, o faraó de fancaria acusou o Supremo de conluio com Lula em 2022, disse que há um plano para matá-lo e reafirmou que vai disputar a Presidência no ano que vem, mesmo inelegível (esquecendo de lembrar ou lembrando de esquecer que ele pode estar na cadeia em outubro de 2026). A construção da vitória da direita em 2026 é mero exercício de quiromancia. Por enquanto, sobressai o constrangimento de erguer uma alternativa supostamente democrática a partir do embalsamamento de uma múmia golpista. 
Sob reserva, líderes do Centrão na Câmara dizem que não concordam com o projeto da anistia, mas que o líder do PL está cumprindo seu papel ao tentar angariar apoios. Bolsonaro insiste que não será beneficiado, mas aliados admitem que a anistia seria a primeira etapa na construção de algum tipo de salvo-conduto, já que o ex-presidente pode pegar até 40 anos de prisão por crimes como tentativa de golpe e de abolição violenta do Estado democrático. O movimento hoje é para que o Congresso dê aval a uma proposta que enquadre os manifestantes do 8 de janeiro apenas nos crimes de dano ou depredação, o que, se aprovado, enfraqueceria a acusação de que Bolsonaro liderou os atos golpista para retomar o poder. 
Depois de três décadas defendendo a ditadura militar, o refugo da escória da humanidade deveria terminar seus dias na cadeia. Lamentavelmente, o risco de isso não acontecer num país como o Brasil é considerável. Basta lembrar que Lula foi preso em 7 de abril de 2018 e solto após míseros 580 dias, embora suas penas nos processos do tríplex e do sítio somassem 25 anos e as sentenças condenatórias tivessem transitado em julgado no STJ. Mesmo sendo septuagenário, o petista sobreviveu para subir a rampa no Palácio do Planalto pela terceira vez e ameaçar disputar a reeleição em 2026 (que Deus nos livre de mais essa desgraça).

Supõe-se que os buracos de minhoca se formem no fundo dos buracos negros e funcionem como atalhos cósmicos, permitindo percorrer quase instantaneamente os milhares ou milhões de anos-lua que separam dois pontos no espaços-tempo, neste ou em outro universo, no presente ou em outro momento da linha do tempo. Mas é preciso ter em mente que sua existência ainda não foi comprovada experimentalmente — mesmo porque o buraco negro mais próximo fica a quase 1.600 anos-luz da Terra. 

Supondo que existam, esses "túneis" tendem a ser minúsculos e instáveis. Para que suas paredes não colapsem, seria preciso uma grande quantidade de matéria exótica, cuja massa negativa poderia se converter em energia negativa. No entanto, não há evidências de que esse tipo de matéria exista no Universo, e tampouco se sabe os túneis têm "entrada e saída" ou se engolem matéria por ambas as bocas.

ObservaçãoO nome "buraco de minhoca" (ou "buraco de verme", na tradução literal de "wormhole") surgiu de uma analogia usada para explicar o fenômeno: da mesma forma que um verme que perambula pela casca da maçã poderia pegar um atalho para o lado oposto abrindo caminho através do miolo da fruta, um viajante que passasse por um buraco de minhoca poderia chegar ao lado oposto do universo através de um túnel topologicamente incomum. 

Toda a matemática usada para criar buracos de minhoca teóricos se baseia na relatividade, que não consegue descrever o centro dos buracos negros nem é compatível com a física quântica. Sem embargo, o cientista português João Rosa propôs em um artigo publicado no arXiv que a chamada gravidade híbrida generalizada-Palatini — uma extensão da relatividade que flexibiliza as relações entre matéria/energia e espaço/tempo — permitiria a criação de buracos de minhoca atravessáveis. 

Para contornar a exigência de energia negativa, Rosa sugeriu que as entradas dos túneis fossem estruturadas em camadas, como cascas de cebola duplas e finas, feitas de matéria comum. Essa proposta ainda precisa ser amplamente debatida e testada, mas representa um passo importante na busca por soluções para a viabilidade dos buracos de minhoca.
 
Segundo o astrofísico americano Ron Mallet, seria possível usar o laser para formar um "feixe de luz circundante" que produziria uma curvatura no espaço-tempo e permitiria atravessar esse "túnel" e voltar ao passado ou avançar para o futuro. Mas ele reconhece que sua "máquina do tempo" ainda não foi comprovada na prática, e que existem desafios significativos a serem superados — entre os quais a necessidade de criar fontes de energia extremamente poderosas e materiais capazes de suportar as enormes forças geradas pela rotação do anel laser.

Continua...

sábado, 3 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 64ª PARTE

QUANTO MAIS LONGA A EXPLICAÇÃO, MAIOR A MENTIRA.

No ano 800 d.C., Tikal pulsava sob o sol, em meio à selva guatemalteca. Cem mil almas caminhavam entre pirâmides, templos e mercados. Nenhum sinal de chips, circuitos ou propulsores interplanetários — apenas pedra, suor e engenho humano. 


Se os deuses vieram das estrelas, por que demoraram tanto a ensinar o básico? Ou será que o verdadeiro milagre é o tempo e o que fazemos com ele? 

 

A tese de que os deuses mitológicos eram seres extraterrestres que transmitiram técnicas e conhecimentos avançados aos humanos primitivos não deixa de ser sedutora — como dizem os espanhóis, yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O conservadorismo nacional esperava chegar a janeiro de 2026 em triunfo. Se tudo corresse como planejado, os aliados adulariam Bolsonaro com o projeto de redução da sua pena, Tarcísio de Freitas compraria o apoio do aliado preso com a apólice do indulto e o centrão se unificaria em torno de um anti-Lula competitivo, cultivando o sonho de conquistar o Planalto e virar um centrãozão. Mas faltou combinar com os russos.

Aprovada na Câmara e no Senado, a proposta da dosimetria subiu para a mesa de Lula como matéria-prima para um veto esperando na fila para acontecer na simbólica data de 8 de janeiro. Com pavor de se tornar irrelevante, o ex-mito preferiu trocar a promessa de um indulto a prazo por uma cobrança à vista do apoio dos aliados à candidatura presidencial do primogênito Flávio.

A manobra aprisionou o centrão num cercadinho familiar, o sonho presidencial de Tarcísio apodreceu antes de amadurecer, e a direita chega ao Ano Novo zonza.

A nada negligenciável hipótese de uma pulverização das forças conservadoras favoreceria o projeto de reeleição de Lula, a despeito de a popularidade do presidente continuar no vermelho em todas as pesquisas de opinião.

 

Ao estabelecer os fundamentos da lógica e do pensamento científico, Aristóteles postulou que, diante de múltiplas hipóteses para um mesmo conjunto de evidências, a mais simples tende a ser a correta. Mas, como bem se diz, os sábios falam porque têm algo a dizer; os tolos, porque precisam dizer algo — e adoram o som da própria voz.

 

A Teoria da Relatividade Especial, publicada por Albert Einstein em 1905, introduziu o conceito de espaço-tempo. Dez anos depois, a Relatividade Geral expandiu esse conceito ao demonstrar que a gravidade não é uma força propriamente dita, mas a curvatura do espaço-tempo provocada pela presença de massa e energia. Segundo Einstein, viajar para o futuro é teoricamente possível, mas retornar ao passado envolve desafios complexos, como o célebre “paradoxo do avô”.

 

De acordo com o fenômeno da dilatação temporal, quanto mais rápido alguém se move, mais lentamente o tempo passa para ele em relação a um observador em repouso. O famoso “paradoxo dos gêmeos” ilustra isso com clareza: um astronauta que viajasse por um ano a uma velocidade próxima à da luz e retornasse à Terra teria envelhecido apenas alguns segundos, enquanto seus contemporâneos teriam comemorado dezenas de aniversários.

 

Na prática, os relógios internos dos satélites artificiais confirmam essa teoria, pois avançam 0,00447 segundo por dia em razão da velocidade com que orbitam a Terra e da menor gravidade a 20 mil km de altitude. Sem as devidas correções, os sistemas de GPS apresentariam erros de até 10 km por dia.

 

A curvatura extrema do espaço-tempo causada por objetos supermassivos pode dar origem aos buracos de minhoca — hipotéticos atalhos entre regiões distantes do Universo, ou mesmo entre diferentes momentos da linha temporal. Em tese, dobrar o espaço-tempo como se fosse uma folha de papel permitiria deslocamentos instantâneos entre dois pontos, seja no espaço, seja no tempo.

 

No entanto, criar e estabilizar um buraco de minhoca exigiria a manipulação de energia negativa ou exótica em escala cósmica — algo ainda não observado na prática. Especula-se que, se uma extremidade do buraco permanecesse na Terra e a outra fosse levada por uma nave em velocidade relativística, quem o atravessasse poderia emergir em um momento anterior ao início da viagem. Isso resolveria o paradoxo do avô: se o buraco só permitisse viagens a momentos posteriores à sua criação, não haveria como alterar os eventos que levaram à sua existência.

 

Segundo os princípios da mecânica quântica, o espaço-tempo está sujeito a variações de energia — inclusive negativa — que poderiam, em teoria, deformá-lo a ponto de permitir viagens temporais. Contudo, as flutuações quânticas são extremamente raras e efêmeras, o que torna sua exploração um desafio tecnológico colossal.

 

A viagem no tempo é o fruto mais cobiçado da árvore da Relatividade. Quando — e se — ele for colhido, surgirão dilemas filosóficos profundos sobre livre-arbítrio, determinismo e a própria natureza do tempo. Se for possível alterar o passado, como isso afetaria o presente e o futuro? E mais: a criação de tecnologias capazes de manipular o espaço-tempo teria implicações monumentais, não apenas para a exploração do cosmos, mas para a própria estrutura da realidade como a conhecemos.

 

As viagens no tempo alimentam a imaginação humana e a criatividade literária desde a publicação de A Máquina do Tempo (1895), mas sua realização prática continua sendo um desafio. A ciência oferece pistas teóricas e possibilidades fascinantes, mas alcançar esse sonho requer avanços profundos na física fundamental — e na engenharia capaz de dobrar o tecido do Universo.

 

Se um dia dominarmos o tempo, não será para corrigir erros do passado, mas para entender por que os cometemos. A viagem temporal não será um bilhete dourado para mudar destinos, mas um espelho cruel — revelando que, mesmo com todo o conhecimento do Universo, ainda somos reféns das escolhas que fazemos agora.

 

Continua...