quinta-feira, 3 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 114ª PARTE

QUEM PENSA DEMAIS NO FUTURO NÃO TEM TEMPO DE VIVER O PRESENTE.

Vimos que a ciência em geral e a tecnologia em especial evoluíram significativamente nos últimos 200 anos, e mesmo assim os cientistas ainda não conseguem explicar a natureza do tempo, afirmar com certeza se ele realmente existe e tampouco esclarecer o que são as experiências de quase-morte e o déjà-vu, entre outros "mistérios". 


Também como vimos, viajar para o futuro é apenas uma questão de tempo (sem trocadilho). Isso porque os efeitos da dilatação temporal só são expressivos em velocidades próximas à da luz (cerca de 1,08 bilhão de km/h), e a sonda mais veloz que a Nasa lançou até agora atingiu "apenas" 0,064% dessa velocidade. Assim, uma viagem de ida até Proxima Centauri, que fica a 4,2 anos-luz do nosso sistema solar (1 ano-luz = 9,5 trilhões de km), levaria cerca de 6,5 mil anos.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O circo do Supremo pegou fogo. André Mendonça riscou o fósforo ao expor detalhes das relações promíscuas de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes. Os vínculos estão estampados em relatório de 218 páginas da Polícia Federal. Num prenúncio do que está por vir, Moraes bateu boca com Mendonça a portas fechadas na segunda-feira. 

O Supremo vive uma crise inédita. Coisa jamais vista nos 135 anos de existência do tribunal. Por muito menos, Xandão já teria decretado a prisão cautelar de Alexandre de Moraes. Já fez isso com inúmeros investigados de menor influência, sob a alegação de que poderiam comprometer investigações. Junto com o mandado de prisão, expediria uma ordem de busca e apreensão do celular do contato supremo de Vorcaro.

Mendonça deseja que o plenário do Supremo decida, em sessão pública, se Moraes deve ser investigado. Se abafar o caso, como fez com a venda do resort de Toffoli para o Master, o tribunal pode ser carbonizado junto com Moraes num processo de impeachment no Senado em 2027.

Mendonça levantou o tapete. O PGR Paulo Gonet opinou pela anulação da imundície sob o pretexto de "dupla nulidade": a Polícia Federal e a Procuradoria não pediram a vassoura. E o plenário do Supremo não autorizou a faxina nas relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro.

A coisa se encaminha para mais um acobertamento de rotina. Mas a turma do abafa precisará responder a uma pergunta singela: "E a sujeira?". O que fazer com as mensagens endereçadas a Moraes? Com o pedido de proteção? Com os apelos para que intercedesse junto aos chefes da PF, da PGR e do BC? Com a pergunta de Vorcaro a Moraes sobre se deveria sair do país pouco antes de ser preso?

Gonet aparece no relatório que Mendonça encomendou à PF como parte do detrito. Numa mensagem, manda um advogado amigo dizer a Vorcaro que está "com saudade". Confirma presença num evento patrocinado pelo banqueiro mafioso em Londres: "Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan". Pede a inclusão do filho, Pedro Gonet, no convescote.

Mendonça é evangélico, não santo. A 32 dias da eleição presidencial, maneja seletivamente os ventiladores do caso Master. A ventania não chega com a mesma intensidade à crina bolsonarista de Dark Horse. Mas o rigor processual de Gonet ignora outras flexibilidades do Supremo.

Aberto por Dias Toffoli sem o aval da PGR, o inquérito das fake news é conduzido por Moraes há quase oito anos. A liberalidade metodológica, quando é muita, acaba engolindo os donos. O tapete do Supremo ficou pequeno. O resort vendido por Toffoli ao cunhado de Vorcaro já vaza pelas bordas. Com Moraes, o excesso tende a tornar tudo insignificante, exceto a pergunta: "E a sujeira?"


Por outro lado, estudos matemáticos sugerem que um hipotético viajante do tempo que entrasse numa curva temporal fechada e retornasse ao passado poderia seguir caminhos diferentes sem alterar o resultado de suas ações. Isso porque quaisquer mudanças nos acontecimentos criariam linhas de tempo alternativas, paralelas à original, a partir do ponto de mudança. 


A existência de uma LTA para cada decisão tomada tornaria a viagem ao passado factível, pois eliminaria paradoxos temporais como o do Avô. Todavia, essa teoria ainda não foi comprovada experimentalmente, e sem múltiplos universos e LTAs, o efeito borboleta poderia gerar um loop infinito de causas e efeitos.  


Hoje é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã. Quando dobramos à direita em vez de à esquerda numa encruzilhada do hoje, desencadeamos uma sucessão de consequências que se espalham no amanhã como as ondas produzidas por uma pedra na superfície de um lago. Isso sem falar que as viagens no tempo só fazem sentido se o tempo realmente existir e for como uma estrada pela qual podemos avançar numa velocidade constante, acelerar, desacelerar e até mesmo parar.


Voltando agora às incompatibilidades entre a física clássica e a mecânica quântica (mais detalhes no capítulo anterior), Einstein já sonhava encontrar uma forma de acomodar ambas numa mesma equação matemática capaz de explicar todas as partículas, todas as forças fundamentais e, quem sabe, o próprio espaço e o próprio tempo. Mas nem ele nem quem mais perseguiu essa solução tiveram sucesso até agora. 


Desde as mais priscas eras, a humanidade procura algum tipo de unidade fundamental — os filósofos gregos buscavam o elemento primordial, os alquimistas, a substância universal, e por aí vai. O tempo passou, o método mudou e as ferramentas evoluíram, mas os físicos modernos continuam perseguindo uma equação capaz de descrever a realidade inteira. E a pergunta continua surpreendentemente parecida: existe uma regra fundamental escondida por trás da diversidade do Universo, ou será que estamos diante de uma realidade complexa demais para caber em uma única explicação?


Foi nesse contexto que surgiu uma proposta tão ousada quanto controversa: e se elétrons, quarks e todas as demais partículas fundamentais não fossem pontos sem dimensão, e sim minúsculas cordas vibrando em diferentes frequências, como as cordas de um violão cósmico? A ideia soa bizarra, mas está longe de ser a parte mais estranha dessa história.


Durante uma palestra, o físico Carlo Rovelli — um dos “pais” da teoria da gravidade quântica em loop — esticou uma corda de uma ponta a outra do palco, pendurou uma caneta no meio e disse: “É aqui que estamos; à direita fica o futuro e à esquerda, o passado". Depois de uma breve pausa, ele acrescentou: “Só que isso é tão errado quanto afirmar que a Terra é plana.”


A gravidade quântica em loop busca compatibilizar a relatividade geral e a mecânica quântica. Nesse contexto, a ideia de que o espaço seja um recipiente vazio e contínuo dá lugar a uma visão bastante diferente. Segundo essa hipótese, o espaço seria formado por estruturas elementares extremamente pequenas, algo semelhante a "pacotinhos" de espaço, da mesma forma que a luz é formada por fótons. Isso significa que as coisas não existem dentro de um espaço preexistente, mas sim umas em relação às outras, e o espaço não seria um palco imóvel onde os acontecimentos ocorrem, mas algo que emerge das próprias relações entre os objetos físicos.


Se essa interpretação estiver correta, então o tempo também deixa de ser uma linha reta pela qual tudo flui do passado para o futuro. Em vez disso, passado, presente e futuro podem ser apenas maneiras humanas de organizar uma realidade muito mais complexa do que nossa experiência cotidiana sugere.


Para entender a teoria da gravidade quântica, devemos pôr de lado a ideia de que um gigantesco relógio cósmico marca o tempo do Universo. Um ano corresponde ao tempo que a Terra leva para dar uma volta completa em torno do Sol, e nosso conceito de “ano” só faz sentido em nosso planeta — em Saturno, por exemplo, um ano corresponde a 29,5 anos terrestres. 


Como se vê, nosso conceito de tempo pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Newton dizia não ser possível medir o “tempo verdadeiro”, mas que assumir sua existência ajudava a descrever vários fenômenos da natureza. Séculos depois, Einstein postulou que cada objeto do Universo tem seu próprio tempo, só que o tempo como o concebemos não funciona numa escala muito pequena — como a escala quântica. 


As coisas mudam apenas umas em relação às outras; no nível fundamental, o tempo não existe, e viajar para o passado só faz sentido se admitirmos sua existência. Mas talvez a causalidade não seja tão absoluta quanto imaginamos, e se ela for uma tapeçaria tecida com fios de múltiplas possibilidades, como fica o observador nesse bordado quântico?


Para não estender demais este capítulo, achei por bem abordar a Teoria das Cordas e que tais na próxima postagem. Até lá. 


Continua…