ALGUMAS COISAS SÃO DIFÍCEIS DE ENTENDER, MAS NEM POR ISSO DEIXAM DE SER VERDADEIRAS.
Como a audiência do blog é rotativa, cabe aqui uma breve contextualização, começando por relembrar que, apesar de toda a evolução da tecnologia havida nos últimos séculos, os cientistas ainda não foram capazes de explicar a natureza do tempo nem de acomodar a teoria da relatividade e a mecânica quântica numa mesma equação matemática.
De acordo com a Teoria da Relatividade, a possibilidade de viajar no tempo rumo ao futuro é plausível, mas para isso é preciso construir naves que alcancem velocidades próximas à da luz, aproximar-se do horizonte de eventos de um buraco negro (onde o tempo desacelera significativamente) ou mesmo entrar num buraco de minhoca atravessável e sair em outra galáxia, no presente ou em outro ponto da linha do tempo. Mas voltar ao passado esbarra nas leis da física clássica, sem falar que o simples desembarque do viajante do tempo numa época pretérita altera o futuro — como ilustram magistralmente o efeito borboleta e o paradoxo do avô.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Estava escrito nas estrelas das disfuncionalidades da República que este momento de degradação nas relações, atuações e reputações chegaria. Mesmo porque o enunciado da Constituição sobre a divisão harmônica e autônoma de atribuições entre os três Poderes não está lá por acaso nem é obra de diletantismo do colegiado constituinte, mas um preceito básico, pré-requisito essencial ao regime democrático — aquele em nome de cuja retomada inscreveram-se as normas que passariam a valer depois de 21 anos de submissão do Legislativo e do Judiciário ao mando do Executivo hipertrofiado — a ditadura.
De lá para cá, o país sofreu e venceu solavancos que testaram a firmeza do desenho institucional de 1988. Mas não está conseguindo resistir à inaptidão da geração subsequente em seguir os passos dos arquitetos da redemocratização. Em meio a autoritarismos, voluntarismos, populismos, usurpação de funções e agressão a ritos e regras, assistimos a uma deterioração de condutas cuja solução passa longe da culpa do aludido sistema ao qual se pedem reformas, na tentativa de fugir da responsabilidade que é de seus condutores e operadores.
Visando contornar dificuldades num Legislativo interesseiro e arisco, o chefe do Executivo achou por bem se escorar em magistrados permeáveis a alianças no Judiciário, que, alheios às consequências, entraram numa espiral descendente de desmoralização compartilhada.
A eleição presidencial se dá em ambiente de rejeição e desencanto; o Supremo Tribunal Federal vive um impasse de gravidade inédita e o Congresso não dispõe de lideranças com estatura institucional à altura do desafio. O túnel é escuro e o poço sem fundo. A resposta em outros tempos esteve na política, que perdeu tônus e protagonismo quando decidiu se dedicar primordialmente aos negócios e terceirizar suas funções a juízes com pendores políticos e vocação para santos guerreiros. Queira o bom senso que a saída não esteja em acertos para estancar a sangria com Supremo e com tudo.
Embora nossa compreensão do tempo se baseie na física newtoniana, a teoria da relatividade desafia o pressuposto intuitivo de que os acontecimentos progridem linearmente do passado para o futuro, sugerindo que o espaço-tempo pode se comportar de formas bizarras. Para o físico Lorenzo Gavassino, combinar a teoria da relatividade geral, a mecânica quântica e a termodinâmica permitiria voltar ao passado sem criar contradições.
Conforme foi dito em outros capítulos desta sequência, uma curva temporal fechada criaria linhas do tempo alternativa a cada decisão tomada pelo viajante, que assim seguiria caminhos diferentes sem alterar o futuro. No entanto, essa teoria ainda não foi comprovada experimentalmente, e sem múltiplos universos e LTAs, o efeito borboleta poderia gerar um loop infinito de causas e consequências.
Albert Einstein, Stephen Hawking e vários outros físicos renomados tentaram, sem sucesso, conciliar a física clássica com a mecânica quântica. Ainda assim, não faltam teorias que buscam esse resultado, entre as quais a Teoria de Tudo é uma das mais promissoras. Todavia, antes de detalhar essa e outras teorias afins, lembro que a viagem no tempo é o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade, embora possa ter implicações estranhas e perigosas para os viajantes — e até para seus familiares.
O conceito vem sendo explorado em livros, filmes e seriados de ficção científica desde a publicação do romance A Máquina do Tempo por H.G. Wells, em 1895. Mas a pergunta que não quer calar é: será mesmo possível voltar no tempo, e, se for, será mesmo possível alterar o passado?
Uma das formas mais tradicionais de explorar as consequências da viagem no tempo é através do Paradoxo do Avô, no qual o viajante volta no tempo e mata o próprio avô antes de ele conhecer sua avó, o que impediria o nascimento de um de seus pais e, consequentemente, do próprio viajante, que assim não poderia ter viajado para o passado e matado o avô. Antes de explicar as possíveis soluções do paradoxo e as suas implicações, vale destacar que o viajante precisa matar o avô antes de ele conhecer a avó — se esse encontro não ocorrer, o viajante jamais nascerá.
Como se vê, essas duas premissas são mutuamente excludentes: o avô não pode estar vivo no dia em que conheceu a avó — pois o viajante o matou antes disso —, mas também tem que estar vivo e ter conhecido a avó para o neto ter nascido, voltado ao passado e matado o avô. Mas o avô não pode estar vivo e morto ao mesmo tempo, como o Gato de Schrödinger.
Para resolver o paradoxo do avô, a solução mais óbvia é afirmar que viagem no tempo é impossível — segundo a conjectura de proteção cronológica, viajar no tempo contraria as leis da natureza, só que ninguém descobriu até hoje qual lei exatamente proíbe todas as formas de viagem no tempo. O argumento mais utilizado é que qualquer máquina do tempo se transforma inevitavelmente em um buraco negro.
Imagine que um pouco de energia entre numa máquina sob a forma de radiação, saia da máquina no passado (em relação a quando ela entrou na máquina), entre uma segunda vez, e assim sucessivamente. Nesse contexto, uma única partícula de luz seria suficiente para produzir energia infinita e colapsar a máquina em um buraco negro. Não obstante, alguns físicos argumentam que é possível contornar esse problema adicionando um custo de energia para atravessar a máquina, ou seja, uma forma de pagar pedágio para que a viagem no tempo aconteça. Nas condições certas, isso bastaria para evitar que a máquina colapsasse.
Em última análise, a verdade é que os cientistas não conseguem decidir se viajar no tempo é impossível ou não baseando-se unicamente nas leis da física. Então, o jeito é recorrer a outro campo do conhecimento — no caso, a filosofia. Vamos analisar o Paradoxo do Avô como uma contradição filosófica, sem nos importarmos com o que as leis da natureza têm a dizer.
Como vimos, o Paradoxo do Avô aponta para uma contradição lógica verdadeira, ou seja, um cenário que realmente é impossível. Assim, se a viagem no tempo cria uma contradição lógica, então viajar no tempo é impossível. Da mesma forma, se alguma teoria matemática provar que 1 = 2, fica evidente que a teoria está errada, pois 1 e 2 são comprovadamente números diferentes. Dito isso, se algo permite uma situação logicamente impossível, então esse algo é impossível, e concluir que viajar no tempo é impossível é uma interpretação correta do Paradoxo do Avô. Só que essa não é a única conclusão possível.
A criação do paradoxo depende de outros fatores do cenário, e para que ele se forme, devemos assumir que viajar no tempo é matar o avô no passado são ações possíveis à luz da teoria das linhas do tempo alternativas — segundo a qual o viajante volta ao passado — não para o próprio passado, mas para um passado de um universo até então idêntico ao dele até ele estragar tudo voltando no tempo e chegando até lá.
Mas talvez a viagem no tempo separe o universo em duas linhas, numa das quais o avô do viajante conheceu a avó e outra na qual o viajante executou seu plano assassino. Assim, existe o avô original, que sempre esteve vivo, conheceu a avó e constituiu família, e o avô do universo alternativo que o viajante matou. Em outras palavras, esses dois avôs, tecnicamente diferentes, estariam um morto e o outro vivo ao mesmo tempo.
Uma consequência dessa solução para o paradoxo é que o viajante nunca muda o próprio passado, mas somente um passado alternativo, evitando qualquer paradoxo por conta disso. Claro que essa solução também precisa de algum tipo de universo paralelo para fazer sentido, mas talvez exista outra solução possível.
Em suma, existem basicamente três premissas no paradoxo do avô: a primeira é que viajar no tempo é possível; a segunda é que o viajante pode alcançar as condições certas (8:06) para matar o avô; e a terceira é que o avô que ele matou é o mesmo que se casou com a sua avó, e não uma versão alternativa em outra linha do tempo. A única premissa que ainda não negamos é a de que o passado está determinado e é impossível modificar o que já aconteceu. Assim, ainda que seja possível voltar no tempo, não é possível matar o próprio avô.
Num primeiro momento, essa parece uma boa solução, mas apenas se partirmos do pressuposto de que o livre-arbítrio não existe. Uma vez que a viagem no tempo exista, o que exatamente é o passado e o que exatamente é o futuro são coisas relativas. Hoje, meu futuro é o amanhã, o mês que vem, o ano que vem. Se eu voltasse até maio passado, meu futuro seria o mês de junho, e assim por diante. Assim, se a viagem no tempo for realmente possível, sempre será possível mudar o passado e alterar o futuro.
Isso nos leva de volta ao Paradoxo do Avô, mas a solução aqui é simples: talvez não seja possível mudar nem mesmo o futuro, pois tanto o passado quanto o futuro já têm os seus fatos determinados. Existem verdades que não podem ser mudadas — nem no passado, nem no futuro —, da mesma forma que não é possível alguém voltar no tempo para impedir que o avô conheça a avó. Isso sempre esteve determinado, independente de viagens no tempo. Nesse cenário, toda a história é como um filme; todas as informações do que acontece já estão determinadas, não importa qual parte do filme se esteja assistindo.
Nem todo mundo concorda com a ideia desse universo determinístico, mas existem outros argumentos que embasam a impossibilidade de mudar sem afrontar o livre-arbítrio. A ideia mais popular é o princípio da autoconsistência de Novikov — também conhecido como lei da conservação da história —, segundo o qual a possibilidade de qualquer capaz de causar um paradoxo temporal acontecer é zero.
Dito isso, e considerando que matar o avô no passado cria um paradoxo, então a probabilidade de o viajante ter sucesso nesse intento é zero — talvez a máquina do tempo falhe nessa viagem, ou talvez o viajante chegue ao passado, mas seja atropelado ou sofra outro acidente qualquer que o impeça de evitar que o avô conheça a avó. Ou talvez ele saque a arma, mire o avô e o tiro falhe misteriosamente.
Ao transformar a possibilidade de criar um paradoxo em zero, essa probabilidade tem que ir para outros eventos menos prováveis. Se a chance de a arma falhar atirando normalmente é de menos de 1%, quando o viajante tenta matar o avô, criando um paradoxo, a chance de o tiro falhar misteriosamente aumenta para 100%. Ainda que a arma funcione perfeitamente em qualquer outro cenário, ela sempre irá falhar quando o viajante tentar matar seu avô.
Viajar no tempo talvez seja 100% possível segundo as leis da física, mas impossível à luz da lógica. Talvez o universo crie situações absurdas dignas de um desenho animado para impedir que viajantes do tempo tenham sucesso em mudar o passado. Aliás, o conceito dos paradoxos temporais pode ser usado de forma ainda mais radical, já que a possibilidade de voltar ao passado implica uma infinidade de ações que podem causar inconsistências e contradições, e esses eventos têm todos probabilidades zero de acontecer.
Em face do exposto, é mais provável que toda tentativa de viajar para o passado falhe, mesmo que a viagem no tempo seja fisicamente possíveis. E mais: supondo que seu hipotético neto invente uma máquina do tempo no futuro, as chances de você morrer ou ficar infértil antes de ter filhos aumentam consideravelmente, impedindo, consequentemente, que seu descendente viaje no tempo e crie os indefectíveis paradoxos.
Continua…
