quarta-feira, 16 de setembro de 2026

CRISTAL QUE VIRA BURACO NEGRO

A VIDA É 10% O QUE ACONTECE E 90% COMO A GENTE REAGE A ISSO.

Em 1783, o clérigo e cientista inglês John Michell propôs a existência de "estrelas escuras" e sugeriu que seria possível detectá-las pela influência gravitacional exercida sobre estrelas luminosas que orbitassem ao seu redor.

Treze anos depois, em 1796, o matemático e astrônomo francês Pierre-Simon de Laplace chegou independentemente à mesma conclusão e a publicou no livro Exposition du Système du Monde

Mas foi a Teoria da Relatividade Geral, apresentada por Einstein em 1915 e publicada em sua forma definitiva em 1916, que forneceu as bases matemáticas modernas para a existência dos buracos negros — nome cunhado décadas mais tarde pelo astrônomo norte-americano John Wheeler — e contribuiu para sua popularização tanto na ciência quanto na ficção científica.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Numa crise institucional, só há duas posições possíveis para um presidente da República: ou é parte da solução ou é parte do problema. 

Flávio Bolsonaro se aproveita do silêncio do Planalto para arrastar Lula para o mesmo pântano em que se encontra Alexandre de Moraes. Antes de reagir, Lula decidiu flertar com a imprudência: testa a profundidade do lodo do Supremo com os dois pés.

Estalando de pureza moral, o filho de Bolsonaro sonega explicações sobre o Dark Horse e cavalga o mote "Fora Lula - Fora Moraes" para turbinar nas redes o ato bolsonarista de 7 de Setembro.. Simultaneamente, Lula se encontrou com três togas em dois dias — na terça-feira, Gilmar Mendes e Edson Fachin; quarta, Flávio Dino.

Gilmar foi o mais explícito. Disse a Lula que o governo é culpado pela crise que engolfa o Supremo. Nessa versão, o Planalto teria ignorado alertas do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, sobre intromissões de André Mendonça nas investigações do caso Master e do INSS. Lula optou pela tentativa de pacificação sugerida pelo advogado-geral Jorge Messias, "irmão em Cristo" de Mendonça.

Há um mês, Lula tomou um lado e assumiu um risco ao fazer as pazes com Davi Alcolumbre num jantar na casa de Moraes. Agora, demora a notar que o silêncio deixou de ser uma opção. O caso das relações promíscuas do togado com Vorcaro passou de problema de um magistrado para crise institucional do Supremo, com respingos na PGR e na PF.

Conviria ao molusco eneadáctilo informar rapidamente de que lado escolheu ficar. Um posicionamento adequado não resolve a crise, mas ajudaria a expor o cinismo do 7 de Setembro bolsonarista.

Einstein morreu 64 anos antes que o telescópio Event Horizon capturasse a primeira imagem de um buraco negro, localizado no centro da galáxia Messier 87, a cerca de 53 milhões de anos-luz da Terra (aproximadamente 503,5 quintilhões de quilômetros). A fotografia, divulgada em 2019, confirmou de maneira impressionante a existência desses objetos, que normalmente se formam quando estrelas muito massivas colapsam ao final de sua evolução, podendo também resultar da fusão entre estrelas de nêutrons ou entre buracos negros menores.

Os buracos negros são invisíveis, mas "engolem" tudo o que se aproxima de seu horizonte de eventos, região onde a força gravitacional é tão intensa que nem mesmo a luz consegue escapar. Vale destacar que o termo singularidade costuma ser usado indevidamente como sinônimo de buraco negro, embora designe, na verdade, um ponto onde, segundo as equações da Relatividade Geral, a densidade tenderia ao infinito, produzindo uma curvatura igualmente infinita no espaço-tempo. Mais correto seria dizer que os buracos negros constituem o melhor exemplo de lugares onde uma singularidade pode existir.

Os cientistas ainda não sabem exatamente o que acontece com um objeto depois que ele cruza o horizonte de eventos. Devido aos efeitos da dilatação gravitacional do tempo, escritores e roteiristas costumam associar os buracos negros às viagens no tempo. Curiosamente, porém, são os hipotéticos buracos de minhoca — também chamados de Pontes Einstein-Rosen — que, em teoria, poderiam funcionar como atalhos cósmicos, encurtando a distância entre dois pontos do Universo ou até mesmo entre diferentes momentos da linha do tempo.

O nome buraco de verme, tradução literal de wormhole, surgiu da analogia com o túnel aberto por um verme ao atravessar uma maçã, chegando ao lado oposto sem percorrer toda a superfície da fruta. Em algumas soluções matemáticas da Relatividade Geral, esses "atalhos" aparecem associados aos buracos negros, razão pela qual muitos especulam que civilizações extraterrestres tecnologicamente avançadas poderiam utilizá-los para viajar pelo cosmos.

Ao contrário dos buracos negros, que já foram fotografados, os buracos de minhoca continuam sendo apenas soluções matemáticas sem qualquer comprovação experimental. Alguns cientistas acreditam que, caso esses túneis possuam entradas com raios entre 100 e 10 milhões de quilômetros e sejam tão numerosos quanto as estrelas, sua detecção poderá ser apenas uma questão de tempo. Por outro lado, considerando que um dos buracos negros conhecidos mais próximos da Terra está a cerca de 1.600 anos-luz de distância, viajar até ele na velocidade da Parker Solar Probe — o artefato mais veloz já lançado pela NASA, que atingiu 0,064% da velocidade da luz em dezembro de 2024 — levaria aproximadamente 2,5 milhões de anos.

Buracos negros microscópicos podem surgir durante um processo conhecido como colapso crítico, quando o espaço-tempo passa a se organizar em uma estrutura regular semelhante a um cristal. Até recentemente, essa possibilidade existia apenas no campo da teoria. Agora, um trio de pesquisadores das universidades de Frankfurt e Viena conseguiu demonstrá-la matematicamente pela primeira vez.

A ideia pode parecer estranha, mas a analogia é simples. Assim como as moléculas de água podem se reorganizar espontaneamente para formar um cristal de gelo, a curvatura do espaço-tempo também pode, em determinadas condições, organizar-se de maneira altamente regular, formando aquilo que os físicos chamam de cristal espaço-temporal.

Trata-se de um estado intermediário extremamente instável, capaz de evoluir em duas direções completamente diferentes: dissolver-se novamente, retornando ao espaço-tempo comum preenchido por partículas em movimento livre, ou seguir outro caminho e colapsar, dando origem a um minúsculo buraco negro.

Para compreender melhor esse comportamento, vale recorrer novamente ao exemplo da água. Pouco antes do congelamento, ela permanece líquida, embora esteja muito próxima da transição para o estado sólido. Nessa situação, uma variação mínima de temperatura basta para reorganizar completamente suas moléculas, transformando água líquida em um cristal de gelo.

Segundo a Relatividade Geral, algo semelhante pode ocorrer com o próprio tecido do Universo. Sempre que se deslocam, as partículas influenciam a geometria do espaço-tempo, que é deformado pela presença da massa e da energia. Corpos gigantescos, como estrelas, produzem curvaturas intensas; objetos menores também deformam o espaço-tempo, porém em escala reduzida. Em circunstâncias muito especiais, essa curvatura pode reorganizar-se espontaneamente em um cristal espaço-temporal, abrindo caminho para o surgimento de um buraco negro microscópico.

Ao estudar esse fenômeno em um universo com muitas dimensões, os pesquisadores descobriram algo surpreendente: em vez de tornar os cálculos mais complicados, o aumento do número de dimensões simplificou drasticamente a matemática, permitindo encontrar uma solução exata para a possível transformação do cristal espaço-temporal em um buraco negro. O próximo desafio será verificar se essa solução também pode ser adaptada ao nosso Universo de quatro dimensões. Se isso acontecer, os físicos poderão compreender melhor a realidade em que vivemos recorrendo, paradoxalmente, a um universo hipotético com infinitas dimensões.

Às vezes, para encontrar o caminho mais curto até a realidade, é preciso fazer um enorme desvio pela matemática. Afinal. o Universo nunca foi adepto do caminho mais fácil. Se ele consegue transformar o espaço-tempo em um cristal e, logo depois, em um buraco negro, quem somos nós para reclamar quando a vida complica um simples quebra-cabeça?