Até a invenção da escrita, o tempo era medido com base em fenômenos naturais sazonais. Mais adiante, os sumérios dividiram o ano em 12 meses de 30 dias e os egípcios criaram um calendário lunar baseado no aparecimento anual da estrela Sirius.
No final do século XVI, o calendário Juliano foi substituído pelo modelo Gregoriano, que atualmente é adotado pela maioria dos países. Mas ainda não se sabe se é o tempo que passa ou se somos nós que passamos por ele como areia entre as câmaras de uma ampulheta.
Atribuir um número de série a cada ano é como tentar aprisionar o tempo num calendário de parede — e sempre haverá um ministro do STF disposto a soltá-lo. Ainda assim, podemos comparar o passado a um lugar distante que gostaríamos de visitar. Mas vale lembrar que uma viagem à Disneylândia ou ao Coliseu depende basicamente de quanto podemos gastar, enquanto viajar para tempos idos, mesmo sendo uma possibilidade matematicamente plausível à luz da Teoria da Relatividade Geral, é bem mais complicado.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Edson Fachin presidiu uma sessão com cenas típicas de um bar de quinta instância. Engalfinharam-se as facções de Alexandre de Moraes e André Mendonça. No lance mais violento, Gilmar Mendes partiu para cima de Mendonça e o acusou de atirar contra Moraes perto do 7 de Setembro por razões eleitorais, e o ministro-pastor chamou o desafeto de "leviano". Teve até "pixuleco" na Paulista, lembrou Gilmar, antes de tratar Mendonça como um submafioso: "Até a máfia tem ética".
Em outra garrafada, Moraes acusou Mendonça de estar "a serviço" do bolsonarismo. Disse ter testemunhas de que o rival pressionou a PF para incluí-lo numa delação premiada. Chamado de mentiroso, Moraes não se deu por achado: "Vamos chamar aqui as testemunhas". A condução do caso por Mendonça gerou acusações de parcialidade e abusos. Em reação, Moraes pediu uma investigação contra o rival.
Numa tabelinha com Gilmar, Dino propôs a análise conjunta dos dois casos. O que ocorreria na quarta-feira da semana que vem. Para Dino, o Judiciário vive "o momento mais corrupto da história". Antevê a investigação de outras togas. Toffoli aguarda na fila. Gilmar sustentou que Mendonça protege aliados. Mencionou Nunes Marques. Dino mencionou Luiz Fux e pediu vista, adiando a decisão sobre a investigação de Moraes. Em meio a garrafadas, o Supremo entrou em autocombustão. Cármen Lúcia se disse "envergonhada". Pediu "desculpas" ao país.
Amigos são como táxis. Debaixo de chuva, somem. Apenas 48 horas depois de a Quaest ter trovejado a ultrapassagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula no cenário de segundo turno, Flávio Dino disparou no plenário do Supremo um raio que o parta. Colocou Alexandre de Moraes no colo de Lula.
Diante da tempestade perfeita, Lula tentou abrir o guarda-chuva. Em entrevista à TV Record, defendeu investigações "sem trégua". Disse que Edson Fachin "tem a faca e o queijo na mão" para investigar togas tisnadas pelo Master. Ciente de que o sangramento de Moraes respinga em sua candidatura, Lula repetiu que o Supremo não é lugar para quem deseja enriquecer.
De passagem por Fortaleza, o filho de Bolsonaro realçou o óbvio: com um pedido de vista-bloqueio, Dino tirou a faca das mãos de Fachin. E escondeu o queijo. O debate sobre a investigação de Moraes ficou para depois da eleição. Flávio disse que "a tropa de choque do Lula no Supremo entrou em campo" para blindar Moraes. Não chamou Dino pelo nome. Preferiu chamá-lo de "ex-ministro da Injustiça do Lula."
Segundo o Datafolha, 85% dos eleitores dizem que as acusações contra Moraes não mudam seus votos. Uma ínfima minoria, de 4%, disse ter trocado de candidato. E 7% disseram estar em dúvida. Numa eleição apertada, definida no olho mágico, 7% podem fazer 100% de diferença. Se a minoria indecisa pender para Flávio, um candidato que pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, Lula se lembrará de Dino como um táxi que não apareceu na hora da chuva.
Em tese, qualquer tentativa de alterar o passado é automaticamente corrigida pelo próprio curso dos eventos, de modo que o tempo é imutável — ou pelo menos impermeável a grandes alterações. Por outro lado, a Teoria do Multiverso sustenta que cada decisão ou evento gera um desdobramento alternativo, que não afeta a linha do tempo original.
De um tempo a esta parte, por alguma razão incerta e não sabida, o tempo parece estar passando cada vez mais depressa. Isso acontece porque nossa mente “vê” o tempo passar como uma cena exibida em slow-motion. Uma vez que o registro feito pelo cérebro é flexível e leva em conta emoções, expectativas, o quanto as tarefas exigiam de nós num determinado período, e até os nossos sentidos.
Isso explica por que a maioria das pessoas se lembra mais nitidamente do que viveu entre os 15 e os 25 anos — época em que se têm mais experiências novas, e coisas novas tendem a ter um registro mais intenso na memória, já que nosso cérebro parece perceber esses episódios como mais duradouros. No entanto, conforme envelhecemos, os últimos 10 anos parecem ter passado bem mais rapidamente do que as décadas anteriores.
Enquanto nos deslocamos de casa para o trabalho, por exemplo, temos a impressão de que a viagem demora uma eternidade, mas a sensação é bem diferente quando pensamos nisso na hora do almoço ou no meio da tarde. Mas parece que essa impressão não é só impressão.
Em comparação à época de sua formação, a Terra tem dias muito mais longos. Cerca de 1,4 bilhão de anos atrás, uma rotação levava menos de 19 horas, mas os dias começaram a ficar cerca 13,5 microssegundos mais longos a cada ano, e a precisão dos relógios atômicos levou os cientistas à conclusão de que a Terra vinha desacelerando seu giro muito gradualmente.
Ocorre que, de um tempo a esta parte, nosso planeta voltou a girar mais rapidamente, completando sua rotação em 1,4602 milissegundos a menos do que os habituais 86.400 segundos. Essa aceleração começou a acontecer em 2016, e o dia 29 de junho de 2022 foi o mais curto desde o início das medições. Se a tendência se mantiver, um segundo bissexto negativo será necessário para manter os relógios alinhados com a rotação do planeta.
Observação: Seria a primeira vez na história que se removeria um segundo dos relógios globais, o que poderia ser um problema, pois grande parte da tecnologia moderna é baseada no que se convencionou chamar de “tempo real”. Para alguns especialistas, a solução seria alterar os relógios do mundo da hora solar para a hora atômica, mas essa é uma outra conversa.
Se você vai para a cama com a impressão de que o dia não rendeu, seja bem-vindo ao clube. Embora as horas continuem a ter 60 minutos, o dia solar, 24 horas, e o dia sideral, — tempo que a Terra leva para uma volta completa em torno do seu eixo — 23 horas, 56 minutos e 4 segundos; Mas o tempo medido de uma forma mais sutil e abstrata pela nossa percepção mudou radicalmente ao longo da História.
Para o soldado romano dos tempos de Júlio César, o tempo parecia passar num ritmo; para o camponês do século 18, esse ritmo era outro; há 30 anos, a gente lia o jornal da manhã e esperava até 20h30 para o Jornal Nacional dar as notícias do dia. Séries eram interrompidas para intervalos comerciais — essas pausas eram aceitas como um respiro, entre um segmento e outro de uma antiga série. Hoje, no entanto, ficamos furiosos quando um serviço de streaming interrompe a exibição do filme por meros 60 segundos para exibir propagandas, talvez porque o tempo pareça ter ficado mais escasso e, portanto, mais valioso.
Em outras palavras, na percepção de tempo atual a areia parece escapar de uma
ampulheta quebrada. Não existe começo nem fim, apenas uma sucessão de ansiedades. Antigamente, a gente esperava pacientemente pela resposta
a uma carta; agora somos bombardeados diariamente no WhatsApp por notinhas, frases, memes, desaforos em grupos de colegas de trabalho, de condôminos e de familiares, e por aí vai.
O único momento em que o tempo parece passar devagar é quando temos insônia. Aí não tem jeito; os segundos viram minutos que se arrastam penosamente, enquanto nós oramos ou criamos fantasias para não pensar nas contas a pagar, no câncer que nos está matando e no tratamento médico que estamos adiando por ser chato e tedioso. Ou seja, o tempo passa devagar porque não estamos nos divertindo ou produzindo nada.
O fato de o tempo parecer tão acelerado não é ruim em si, apenas significa que nossas necessidades são atendidas em tempo cada vez menor, e que estamos vivendo mais intensamente, adquirindo experiências e conhecimentos numa velocidade impensável há apenas algumas décadas. E isso vai se acelerar ainda mais para quem souber usar recursos como a inteligência artificial.
A questão é que, por não estarmos mentalmente preparados para isso, a adaptação completa demora. O psicólogo alemão Marc Wittmann destacou no livro Felt Time (“Tempo Sentido”) que nós normalmente filtramos nossas lembranças, e isso faz com que os momentos de grande emoção e alegria parecem se esticar em nossas memórias, como num filme em câmera lenta, enquanto os momentos de rotina parecem sumir. Isso foi demonstrado em vários estudos: quanto mais rotina as pessoas relatam, mais rápido o tempo parece passar em retrospectiva.
Para entender como os ciclos de sono, alimentação e produtividade são afetados pela referência das horas, o pesquisador francês Michel Siffre passou dois meses numa caverna escura, sem relógio nem qualquer outra maneira de saber o tempo. A única fonte de luz disponível era uma lâmpada de mineração, que ele usava para cozinhar, ler e escrever em um diário pessoal. No livro Beyond Time (1964), ele relatou que tomava o próprio pulso e contava os segundos até 120 sempre que se comunicava por rádio com a equipe de apoio, mas o tempo real cronometrado por sua equipe era de quase 5 minutos. Sem os indicadores naturais (como nascer e pôr-do-sol), seu ciclo circadiano passou de 24 para 48 horas, e o tempo psicológico foi reduzido à metade do cronológico. O experimento se estendeu por dois meses, que para ele pareceram menos de um.
Décadas depois — mais exatamente em 21 de novembro de 2021 — uma atleta espanhola chamada Beatriz Flamini entrou numa caverna a 70 metros de profundidade e lá permaneceu isolada do mundo por 500 dias. Monitorada à distância, mas sem manter diálogo com ninguém, ela passou seu tempo fazendo exercícios, desenhando, lendo, fazendo tricô e conversando consigo mesma. Para ela, não havia dia ou noite, nem chuva ou sol. Eventualmente, parou de contar os dias, e quando saiu, um ano e meio depois, disse que achava ter ficado na caverna por cerca de seis meses.
Segundo Adrian Bejan, pesquisador da Duke University, não percebemos a passagem do tempo diretamente; percebemos apenas as mudanças que ocorrem à nossa volta e as registramos como uma sequência mental. É por isso que o presente difere do passado: não porque o relógio avançou, mas porque nossa percepção da realidade mudou. No escuro da caverna, onde quase nada se alterava para Michel Siffre e Beatriz Flamini, havia poucos estímulos para renovar essa sequência de imagens. Sem essas referências, o tempo parecia quase não passar.
Um dos maiores especialistas no tema hoje é o sociólogo alemão Hartmut Rosa, autor de Social Acceleration: A New Theory of Modernity (“Aceleração Social: Uma Nova Teoria da Modernidade”). Segundo ele, vivemos uma ordem social que depende da aceleração para continuar funcionando. Temos que produzir mais, comunicarmo-nos mais rapidamente, tomar decisões em menor tempo, acumular mais experiências durante uma vida limitada, e por aí afora.
Rosa descreve três formas de aceleração. A primeira é a tecnológica — viagens e comunicações encurtaram distâncias, e o tempo, por estar comprimido, torna-se escasso. Um exemplo disso é a correspondência por escrito, um processo lento que o correio eletrônico acelerou significativamente. Todavia, por ser tão rápido e prático, ele nos obriga a lidar com dezenas, centenas de emails por dia. O tempo economizado pela aceleração é ocupado pela multiplicação das tarefas, e assim o dia fica curto.
A segunda aceleração apontada por Rosa é o das transformações sociais. Profissões, conhecimentos, relacionamentos, identidades sociais ocorrem dentro de uma geração, dando azo à “contração do presente”: o intervalo durante o qual nossas experiências passadas ainda servem para orientar o futuro torna-se
cada vez menor. Aquilo que aprendemos ontem pode não funcionar
amanhã. A terceira é a aceleração da vida em si. Viramos multitarefas, reduzimos pausas e intervalos, comemos rapidamente de olho no celular e sentimos culpa por momentos em que não estamos produzindo algo. Esse novo comportamento nos leva à impressão de que o tempo está curto e não temos mais tempo para exercer todas as tarefas que nos impomos.
Tudo isso pode parecer negativo, mas você voltaria ao tempo das cartas, dos telegramas, dos aviões a hélice, dos telefones discados, da televisão com cinco canais, dos empregos fixos pela vida inteira, da aposentadoria no sofá esperando a morte chegar? As sociedades mudam desde que a humanidade se organizou, e o modelo atual precisa dessa aceleração até para sobreviver. Nas palavras de Rosa: “Uma sociedade é moderna quando só consegue estabilizar-se dinamicamente", isto é, quando necessita sistematicamente de crescimento, inovação e aceleração para conservar sua estrutura e reproduzir o status quo.
"Sed fugit interea fugit irreparabile tempus”, dizia o poeta romano Virgílio,
que morreu pouco antes do nascimento de Cristo. Já naquela época, ele constatou que o tempo foge irreversivelmente — e hoje foge com muito mais velocidade. Em face do exposto, a pergunta é: como tocar nossas vidas diminuindo a sensação de
ansiedade?
A resposta é: 1) reduza a fragmentação do dia – mudar de atividade a cada dez minutos aumenta nossa aflição; 2) tente reservar períodos de 30 a 60
minutos para realizar só uma tarefa; 3) Estabeleça intervalos para conferir
mensagens e e-mails e reserve cinco minutos para fazer nada; 4) Mude a rotina – fazer tudo igual todos os dias dá essa sensação de diminuir o tempo; 5) Escreva um diário – não precisa ser um longo relatório das suas atividades, apenas registre-as (em papel ou num computador) em poucas linhas o que aconteceu, especialmente os momentos mais agradáveis.
Adicionalmente, crie prioridades na sua agenda – fazer tudo o tempo todo todos os dias destrói a noção de tempo. Defina tarefas essenciais, valorize suas opções principais, já que a ansiedade tende a aumentar com a sensação de que temos de fazer várias coisas ao mesmo tempo.
Boa sorte.