sexta-feira, 20 de março de 2009

O negócio é rir (para não chorar).

Como dizia o saudoso Ferreira Netto, o “brilhantismo” dos nossos tecnocratas ("pilotos de prova de escrivaninha", como ele os chamava) é de se tirar o chapéu. Veja a “Inspeção Veicular”, por exemplo, que foi implementada aqui em São Paulo no início deste ano para melhorar (ou “despiorar”, para ser mais exato) a qualidade do ar que “tragamos”.
Embora a idéia seja louvável do ponto de vista conceitual, causa estranheza(embora não surpreenda, já que vivemos no País dos Contrastes e Paradoxos) que ela se aplique apenas aos veículos fabricados a partir de 2003.
Há quase 20 anos o então Presidente Collor teria se referido aos automóveis nacionais como “carroças” (e a despeito de sua gestão ter acabado em impeachment, esse auto-declarado “homem macho de colhão roxo” abriu as portas para a importação e propiciou a modernização da indústria nacional.). Mais mais adiante, o controverso Itamar Franco incentivou a “ressurreição” do Fusca – uma idéia estapafúrdia, mas que redeu frutos indiretos na forma de um plano de incentivos fiscais e levou as montadoras a produzir versões “populares” de seus veículos básicos.
Atualmente, mesmo que nossas "carroças" não sejam tão sofisticadas quanto seus pares do “primeiro mundo”, elas já não “fazem feio” lá fora: todos os modelos recentes se beneficiam largamente da tecnologia embarcada, e se o seu carro ainda não têm assento inteligente (que memoriza suas preferências e ajusta a altura e distância mediante um simples toque de botão), espelhos fotocromáticos (que escurecem automaticamente quando o carro de trás insiste em manter o farol alto ligado), certamente já conta injeção eletrônica (sistema que substitui o anacrônico carburador por uma central que processa as informações coletadas por sensores estrategicamente posicionados e otimiza a mistura ar-combustível e o ponto de ignição, tornando os motores mais potentes e econômicos, além de menos agressivos ao meio-ambiente).
Voltando ao cerne desta postagem, se a idéia é melhorar a qualidade do ar, não seria mais inteligente iniciar a inspeção pelos carros mais antigos – que, devido ao desgaste natural e a indefectível falta de manutenção, são os que mais poluem?
A despeito da modernização da nossa frota, não é difícil ver Fuscas, Brasílias, Chevettes, Corcéis, Kombis, Opalas, Passats e outras “relíquias” (caindo aos pedaços) capengando pelas ruas e avenidas, soltando mais fumaça do que pizzaria com forno a lenha... não seria o caso de tirá-los de circulação? Ou será que o propósito dos tecnocratas é apenas onerar o contribuinte?
Outro aspecto curioso: a taxa de inspeção veicular em São Paulo é de R$ 52,73; o cidadão recolhe esse valor via boleto, faz a inspeção e é reembolsado no mês seguinte. Mas como esse “trâmite financeiro” tem um custo (recolhimento, processamento, repasse do valor e por aí vai), se pretendem mesmo devolver, por que cobrar?
Resta perguntar para onde vai o dinheiro arrecadado com as multas e a Zona Azul... São Paulo ocupa o primeiro lugar no ranking das metróples com maior concentração de radares em relação ao número de habitantes; será que essa dinheirama toda só serve pra financiar a instalação de mais e mais radares? Nossa malha viária tem mais crateras do que a superfície lunar; os remendos não resistem a três pingos de chuva; é difícil encontrar uma vaga onde estacionar e, se alguém danificar ou roubar o veículo, o problema do proprietário, porque a prefeitura se finge de morta...
E por falar na prefeitura, embora Gilberto Kassab tenha afirmado (antes das eleições) que o município estava preparado para enfrentar as tradicionais águas de Março, faltou dizer onde a população deveria ir buscar o equipamento de mergulho, haja vista o que aconteceu (ou se repetiu, melhor dizendo) na última terça-feira.
Durma-se com um barulho desses!
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