Dias atrás, Augusto Aras, que Bolsonaro conduziu e reconduziu à PGR ao arrepio da lista tríplice do MPF, bateu boca e partiu para cima do subprocurador-geral Nívio de Freitas. O episódio remete a outra exibição do passador-de-pano-geral, por ocasião a posse do ministro Luiz Fux na presidência do STF. Durante a cerimônia, o jurista soteropolitano disse ao ministro (que é lutador de jiu-jitsu) que também pratica artes marciais.
O bom senso na reunião partiu da corregedora-geral Célia Regina Delgado, que mandou Aras e Freitas se sentarem. O valentão tem maioria no Conselho Nacional do Ministério Público, mas está prestes a perder um apoiador no Conselho Superior, onde ele tem quatro aliados e pode ficar com três. O melhor comentário sobre o excesso de macheza de Aras foi feito pelo procurador aposentado, Airton Florentino de Barros, fundador e ex-presidente do Movimento do Ministério Público Democrático, que disse à Folha: “O PGR dá uma de corajoso onde não deve. Onde deveria demonstrar coragem, não demonstra”.
Triste Brasil.
A Vaza-Jato de Verdevaldo das Couves foi a arma disparada com a mão do gato por políticos e agentes públicos corruptos que, com a inestimável ajuda de Jair Bolsonaro, desferiram o golpe de misericórdia na maior operação anticorrupção da história deste país.
A intenção dessa caterva sempre foi livrar o próprio rabo e o rabo dos comparsas, além de, se possível, criminalizar a ação dos procuradores, policiais federais e magistrados que realmente se empenhavam no combate à corrupção. A conspiração contou com o apoio da cúpula do Judiciário, que libertou Lula da cadeia, transformou-o em “ex-corrupto” e o colocou de volta jogo da sucessão presidencial — para gáudio da patuleia ignara e de quem mais sonha em ver o picareta de volta na Presidência.
Tudo começou com a derrubada da prisão em segunda instância. Aprovada pelo STF por 5 votos a 4, a mudança de jurisprudência feriu de morte a Lava-Jato: sem a perspectiva de mofar na cadeia, políticos e empresários corruptos deixaram de ter interesse em delatar seus comparsas. Lula, que chegou a figurar com réu em nada menos que 20 ações criminais, deixou a prisão após cumprir míseros 580 dias dos mais de 25 anos de prisão (soma das condenações nos processos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia).
Diferentemente dos outros 22 presos com quem dividiu a
carceragem da PF em Curitiba, o petralha dispunha de 15 metros
quadrados só para ele, com TV de plasma, aparelho de som, esteira ergométrica e
chuveiro elétrico. A porta de seus aposentos não ficava trancada, os visitantes
não eram submetidos a revistas íntimas e um servente se encarregava da faxina
enquanto o presidiário mais querido do Brasil tomava banho de sol (com duração
e horário a seu critério).
Houve diversas tentativas de libertar o criminoso de Garanhuns. A mais emblemática aconteceu em julho de 2018 e teve como protagonista o desembargador Rogério Favreto, responsável pelo plantão no TRF-4 durante o recesso de meio de ano do Judiciário. O furdunço começou exatos 28 minutos depois do início do plantão de Favreto, quando os deputados petistas Wadih Damous, Paulo Pimenta e Paulo Teixeira se arvoraram em advogados do petralha e ingressaram com um pedido de habeas corpus.
Favreto filiou-se ao PT em 1991,
foi procurador-geral da prefeitura de Porto Alegre na gestão do alcaide petista
Tarso Genro e, mais adiante, ganhou um gabinete na Casa Civil do
governo Lula e, mais adiante, assumiu o comando da Secretaria
da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça. Em 2010, deixou o cargo
e se desfiliou do PT para continuar prestando serviços extraoficialmente
ao partido no Judiciário. Em 2011, beneficiado por uma dessas espertezas
brasileiríssimas, foi guindado ao TRF-4 pela então presidanta Dilma.
Fantasiado de desembargador, empenhou-se em demonstrar sua gratidão aos padrinhos
e a provar sua lealdade ao partido.
No TRF-4, Favreto atirava em tudo que ameaçasse
o PT e seu chefe supremo. Ele foi o único a votar pela
abertura de um processo disciplinar contra Sérgio Moro, acusado de
agir por “índole política”, e o único a discordar sistematicamente de tudo o
que o então juiz fazia, dizia ou pensava.
Ao agasalhar o habeas corpus impetrado pelos parlamentares petistas, Favreto
deu início a uma queda-de-braço que só terminou quando o presidente do TRF-4
decidiu que a competência era do relator do processo de Lula na 8ª
Turma — que já havia avocado o caso para si e determinando
que o petista continuasse preso, mas foi novamente desautorizado por Favreto,
que determinou a soltura do detento no prazo de uma hora, dispensando,
inclusive, o exame de corpo de delito.
Continua...