segunda-feira, 11 de novembro de 2024

CIÊNCIA X RELIGIÃO — CADA QUAL NO SEU QUADRADO

SUTOR, NE ULTRA CREPIDAM.
 
O Velho Testamento é um conjunto de lendas, mitos e tradições culturais que foram transmitidas oralmente por várias gerações até serem compiladas (supostamente) por Moisés em 1200 a.C. O Gênesis — primeiro livro da Bíblia judaico-cristã, mas não o primeiro a ser escrito — começa com a palavra bereshit (no princípio, em hebraico), e narra a origem da vida, do mundo e do povo que Moisés liderou rumo à terra que Deus prometera a Abraão e seus descendentes. 

Diz a Bíblia que, a alturas tantas, Moisés estendeu seu cajado e o Mar Vermelho se abriu, para que os judeus o atravessassem, e se fechou em seguida, afogando o exército egípcio que os perseguia. Embora dominasse os segredos das águas, o líder dos "judeus errantes" não fez bom uso do GPS fornecido por Jeová: ele e seu povo só encontraram Canaã após caminharam 40 anos pelo deserto do Sinai — sem falar que o conceito de "terra prometida" só fez sentido quase 3 mil anos depois, com a criação do Estado de Israel. 

Por outro lado, o que começou como uma jornada pelo deserto se tornou uma diáspora cheia de reviravoltas, exílios e retornos que talvez tenha menos a ver com a busca pela terra prometida e mais com a obstinação do povo judeu em seguir adiante, independentemente de quão longa seja a estrada. Mas isso é outra conversa.
 
As narrativas que compõem o Gênesis não fornecem uma explicação científica ou histórica sobre o passado, até porque a literatura bíblica não é jornalismo nem os fatos foram registrados em tempo real. Ainda assim, os criacionistas e os seguidores das religiões abraâmicas acreditam que Deus criou o mundo e tudo que nele existe em seis dias. O arcebispo irlandês James Ussher vai ainda mais além: em "The Annals of the World", ele afirma que o Criador iniciou sua obra às 9h00 do dia 23 de outubro de 4004 a.C.).
 
Enquanto os dogmas religiosos pedem fé inquestionável, a ciência busca evidências e procura comprová-las por meio de experimentos. Premissas científicas podem ser questionadas e modificadas conforme novas descobertas surgem, mas a interpretação literal da Bíblia ignora o conhecimento científico adquirido e acumulado nos últimos séculos, ao longo dos quais áreas como física, astronomia e biologia evolutiva revelaram uma complexidade maior que as descrições encontradas em textos antigos. A evolução das espécies e a formação de estrelas e planetas são processos que ocorreram ao longo de bilhões de anos. 

Escorado na Teoria do Big Bang, o modelo cosmológico mais aceito atualmente sustenta que o Universo surgiu a partir de uma explosão de energia e matéria ocorrida há 13,8 bilhões de anos — ou há 26,7 bilhões de anos, como sugeriu recentemente o físico indiano Rajendra Gupta, após a descoberta de galáxias primitivas supostamente mais antigas que o próprio Universo. Nosso sistema solar se formou há 5 bilhões de anos e a Terra, 500 milhões de anos depois. A família dos Hominídeos divergiu das demais há 20 milhões de anos, o gênero Homo surgiu 2,5 milhões de anos atrás, e o Homo sapiens evoluiu do Homo erectus há 300 mil anos. Não se trata de conjecturas, mas de estimativas baseadas em descobertas arqueológicas e no estudo de ossos e crânios encontrados por paleontólogos.
 
Fé e a ciência não são mutuamente excludentes, mas desde que a esfera de cada uma seja respeitada. Quanto às religiões, cabe a elas oferecer conforto espiritual e respostas a questões como o propósito e o sentido da vida. Não se deve subestimar a importância da Bíblia nem negar a enorme influência cultural do Gênesis, mas tomar o livro da criação como evidência factual é ignorar séculos de progresso científico que expandiram nossa compreensão sobre o mundo e tudo que existe nele. 
 
Deve-se manter a Bíblia dentro de seu contexto histórico e mitológico, sem desdenhar das revelações científicas sobre a criação do mundo, e ter em mente que não deve o sapateiro ir além das sandáliasO literalismo religioso pode alimentar a negação de descobertas científicas amplamente aceitas, como a evolução e o aquecimento global, e movimentos que rejeitam essas descobertas em nome de crenças religiosas minam o progresso em questões vitais para o futuro da humanidade.

Continua...