MELHOR 50% DE ALGO QUE 100% DE NADA.
Detectar rapidamente a presença de um leopardo faminto ou de frutos suculentos era uma questão de vida ou morte para nossos ancestrais na savana africana, e uma vez que nosso cérebro evoluiu para nos manter vivos pelo maior tempo possível, tornamo-nos especialistas em perceber a presença das coisas. Mas o cérebro também é capaz de perceber o vazio, a ausência.
A entrada de um objeto no campo visual ativa neurônios no córtex visual, mas sua ausência demanda outro tipo de operação mental, que pode ser compreendida pela maneira como o cérebro representa o número zero. Assim como temos mais dificuldade em compreender o zero do que os números positivos, a ausência é mais difícil de perceber do que a presença.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
As crises no Brasil são reprises de um mesmo parto. Quando ousamos imaginar que vem algo novo, a conjuntura sempre dá um jeito de parir outra aberração. No Supremo, Fachin fazia pose de pai do código de ética, mas deu à luz o acobertamento das perversões associadas a Toffoli e fez papel de coveiro de prova viva no teatro armado na Corte para converter o funeral da reputação do colega num exemplo de desprendimento.
É fato que a investigação perdeu o objeto quando Toffoli abriu mão da relatoria do processo do Banco Master, mas Fachin enterrou a última réstia de esperanças de abertura de um inquérito criminal para investigar o magistrado quando mandou para o arquivo as 200 páginas escritas pela PF sobre a suspeição do dito-cujo.
A manobra não ressuscitou a biografia de Toffoli, mas, mesmo assim, o STF anotou no atestado de óbito que ele continua sendo um juiz insuspeito e que deixou de ser relator "a pedido". Como se não bastasse, num funeral secreto, as togas preferiram atacar a PF a avaliar as provas do conflito de interesses entre o cargo de ministro e os negócios do Maquiavel de Marília e seus irmãos com a organização criminosa de Daniel Vorcaro.
Há oito meses, o Datafolha revelou que 58% dos brasileiros têm vergonha dos ministros do Supremo. Há dez dias, a Quaest revelou que 82% concordam que o tribunal precisa de um código de ética para os seus membros.
Crianças familiarizadas com a letra F, por exemplo, demonstram surpresa quando ela é substituída pela letra E, mas essa reação desaparece se a troca ocorre no sentido inverso — ou seja, a ausência do traço horizontal inferior passa despercebida. Os adultos também têm mais dificuldade de notar a omissão de uma palavra do que de perceber uma inserção de uma palavra indevida. Além disso, fenômenos similares já foram observados no comportamento de animais.
Sabemos que nosso cérebro contém neurônios “especializados em zero”, que reagem exclusivamente — ou de modo preferencial — quando observamos conjuntos vazios ou a própria representação simbólica do número zero. De modo análogo, cérebros de macacos e até de algumas aves possuem neurônios ativados especificamente em situações de ausência. O papel exato desses neurônios ainda não foi totalmente esclarecido, mas sua existência sugere que a percepção da ausência não é simplesmente a falta da atividade neuronal associada à presença. Até porque ideias de “presença” e “ausência” parecem envolver mecanismos mentais distintos.
Perceber a ausência exige um tipo de raciocínio por contradição: “se o objeto estivesse lá, eu o veria; o fato de não vê-lo indica que ele está ausente”. Essa explicação pressupõe que o cérebro tem consciência de seus próprios processos sensoriais e é capaz de avaliar se eles estão funcionando normalmente. Então, se a ausência não decorre simplesmente de desatenção ou falha perceptiva — e há evidências nesse sentido — e se as representações neurais de “ausência” e de “zero” são essencialmente análogas, então o estudo de como compreendemos o zero pode ajudar a responder esclarecere o que é a consciência.
O zero foi “descoberto” ao menos duas vezes na história da humanidade: na Mesopotâmia, ao final do século IV a.C., e de forma independente na Mesoamérica, perto do início da nossa era. Em ambos os casos, ele servia apenas como marcador de posições vazias na notação numérica (como em 103, onde a posição das dezenas está vazia), mas passou a ser tratado como um número de pleno direito, na Índia, por volta do século VII. No Ocidente, porém, a ideia encontrou forte resistência: para o pensamento grego clássico — e em especial para Aristóteles (384–322 a.C.) — o nada simplesmente não existia, e um número que representasse o nada seria um contrassenso.
Quando olhamos para uma árvore e percebemos que não há pássaros em seus galhos, nosso cérebro conclui: “se houvesse pássaros, eu os veria; logo, eles estão ausentes”. Essa inferência parece simples, mas envolve algo sofisticado: a consciência dos próprios processos mentais. Mas será que apenas seres conscientes são capazes de compreender a ausência e, por extensão, o zero?
Pesquisadores monitoraram a atividade cerebral de macacos enquanto eles observavam conjuntos com diferentes números de pontos e descobriram neurônios especializados em zero. Foi a primeira evidência experimental de que o cérebro de primatas trata o zero de maneira distinta das demais quantidades. Alguns desses neurônios reagem exclusivamente a conjuntos vazios, permanecendo indiferentes a qualquer outro número, ao passo que outros respondem mais fortemente ao vazio, menos a conjuntos com um ponto e menos ainda a conjuntos com dois pontos, sugerindo que o cérebro entende o zero de forma relacional, como o menor dos números.
Estudos recentes envolvendo tanto conjuntos de pontos quanto a representação simbólica dos números (0, 1, 2…) reforçam essas conclusões. Um deles analisou a atividade de neurônios individuais e confirmou a existência de células especializadas em zero, ou seja, distintas daquelas que respondem a números positivos. Outro examinou a atividade coletiva de milhares de neurônios e encontrou indícios de que, em certos contextos, o cérebro trata o zero como o menor dos números. Esse mesmo estudo revelou que as respostas neurais a conjuntos vazios e ao símbolo “0” são notavelmente semelhantes, indicando que os neurônios especializados em zero podem estar ligados à nossa compreensão mental do nada, da ausência — e talvez tenham evoluído a partir dela.
No fim das contas, o zero pode não ser apenas um número; mas sim o nada fazendo força para existir dentro da nossa cabeça.
