ÀS VEZES, BASTA UMA MUDANÇA DE PERSPECTIVA PARA REVELAR A VERDADE.
Ninguém sabe ao certo quem ele foi ou de onde veio. Há quem jure que se chamava Rudolph Fentz e que apareceu do nada em plena Times Square, trajando roupas do século XIX e segurando moedas antigas no bolso. Outros sustentam que se tratava de Andrew Carlssin, um investidor anônimo que multiplicou o capital em 126 operações seguidas na Bolsa por ter vindo do futuro (2256), e os mais céticos afirmam que ele nunca existiu, que sua "aparição" não passou de uma sucessão de coincidências, boatos e más interpretações.
O que poucos percebem é que as três versões contam a mesma história: Fentz, Carlssin, ou seja lá quem for, teria descoberto o segredo que há séculos atormenta físicos e filósofos: não é o tempo que nos atravessa, somos nós que o dobramos sem perceber — nas decisões que adiamos, nos caminhos que não tomamos, nas lembranças que nos visitam fora de hora.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
É enorme o empenho suprapartidário para acobertar o escândalo do Master, mas, a despeito das articulações anti-CPI, o avanço das investigações é proporcional à quantidade de dados estocados nos dispositivos eletrônicos de Daniel Vorcaro, e os abafadores vêm enfrentando dificuldades para conter a sujeira nos limites das bordas do tapetão.
A conjuntura está assentada sobre um paiol em que se misturam os favores de Vorcaro e as facilidades que os favorecidos — entre eles autoridades dos Três Poderes e políticos de todas as ideologias — ofereceram ao dono do Master para praticar crimes — as gentilezas incluíram desde contribuições de campanha a contratos milionários, além de convites para festas de arromba.
Se a apuração é incontornável, procrastinar a limpeza é conspirar pela conturbação do processo eleitoral, que pode transformar a sucessão presidencial num grande ventilador.
A ventania aumentou desde André Mendonça acumulou a relatoria do roubo das aposentadorias do INSS e o caso Master. Os dados obtidos por meio da quebra do sigilo telemático de Vorcaro já estão sendo processados pelos computadores da CPI, e o vazamento é tão certo quanto o nascer no leste.
Há em Brasília dois tipos de políticos: os que temem o enrosco e os que desejam desgastar os enroscados. Numa escala de zero a dez, a hipótese de uma combinação como essa terminar bem é de menos onze.
A história teria começado com um projeto confidencial de pesquisa em física experimental, conduzido fora dos grandes centros, sem patrocínio estatal e longe de olhares curiosos. O objetivo oficial era estudar os efeitos da ressonância quântica do vácuo — uma expressão bonita para designar o comportamento errático das partículas virtuais que simplesmente aparecem e desaparecem. Extraoficialmente, porém, havia quem falasse em curvatura artificial do espaço-tempo.
Segundo alguns conspirólogos, o homem misterioso — cujo verdadeiro nome ninguém soube ao certo — trabalhava num laboratório subterrâneo e, engolido acidentalmente pela própria criação, acabou saltando para um ponto qualquer entre o ontem e o amanhã. Mas talvez ele tenha conseguido o que todos sonham e ninguém admite: voltar ao instante em que tudo ainda podia ser diferente. Fala-se que ele acreditava que o tempo era um campo vibratório que, sob determinadas condições de frequência e energia, poderia provocar uma espécie de desalinhamento temporal — talvez não uma viagem física no sentido clássico, mas uma transposição de perspectiva em que a mente se projetaria para um outro ponto da linha temporal… e foi aí que o impossível aconteceu.
Os registros fragmentários e contraditórios falam de um experimento realizado às três da madrugada numa câmara blindada revestida de chumbo e grafeno. Há menção a uma sequência de pulsos eletromagnéticos sincronizados com a rotação da Terra, a um breve colapso de energia e a uma luminosidade azulada que “parecia vibrar como se tivesse vontade própria”. Depois disso, silêncio. Nenhum alarme, nenhuma explosão, nenhuma evidência de falha. Passados 30 segundos, o sistema religou sozinho. O ar estava ionizado, o relógio da câmara marcava um horário diferente dos demais relógios do laboratório — e o homem havia simplesmente desaparecido.
Há quem diga que o homem nunca saiu do lugar, que sua consciência apenas “saltou de trilho”, enxergando simultaneamente o passado, o presente e o futuro — e que isso o enlouqueceu. No entanto, um guarda noturno de Nova York em 1951 disse ter deparado com um sujeito desorientado, vestindo roupas antiquadas e incapaz de explicar onde estava. Uma semana depois, jornais sensacionalistas publicaram a história de um "viajante do tempo acidental". Coincidência? Talvez. Mas algumas coincidências soam mais como recados.
Talvez compreender o tempo como ele realmente é seja tão letal quanto dobrá-lo, e por isso não há provas, nem vestígios, nem testemunhas confiáveis, apenas histórias mal contadas, registros truncados e um estranho fenômeno: toda vez que alguém tenta provar que o experimento nunca existiu, novos indícios surgem, como se o próprio tempo conspirasse para manter viva a lembrança de quem ousou desafiá-lo.
Igualmente emblemático é o caso do OOPArt — acrônimo de Out Of Place Artefact — encontrado em 2008 no interior de uma tumba da Dinastia Ming que permaneceu selada por mais de 400 anos. A caixa do artefato que não poderia estar ali exibia a inscrição Swiss, e os ponteiros marcavam 10h06. Para os entusiastas do insólito, trata-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo; para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos, publicações acadêmicas e imagens confiáveis sugeriam fraude.
Numa foto tirada em 1941, durante a reabertura da ponte South Fork, em British Columbia (Canadá), um indivíduo se destaca na multidão pelos cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada. Para os conspirólogos, o Hipster de 1941 — como ele ficou conhecido — e outra pessoa segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna são viajantes do tempo; para os céticos, óculos escuros eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930.
No início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100, necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o efeito 2038. O modelo em questão havia sido lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação fazia sentido. Além disso, a IBM reconheceu o “desaparecimento misterioso” de uma unidade dotada de uma interface que dava acesso a todos os códigos da empresa.
Titor detalhou seus deslocamentos temporais, disse que o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001 e que as máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Postou desenhos esquemáticos e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo". Mas a guerra civil que ele revelou que aconteceria em 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial, que teria início em 2015 e dividiria os EUA em cinco países. Por outro lado, a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003.
Em março de 2001, após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, Titor desapareceu dos fóruns, deixando uma frase misteriosa — traga uma lata de gasolina com você para quando seu carro morrer na estrada — e diversas perguntas sem resposta. Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o suposto viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de John Titor Foundation, onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida.
Para os teóricos da conspiração, as previsões de Titor não falharam, apenas deram a abertura temporal para que ele as corrigisse a tempo de não ocorrerem. O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o modelo Everett-Wheeler da física quântica estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo; a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado.
Ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Se sua narrativa for mesmo uma fraude, quem a criou sabia muito bem do que estava falando.
Observação: A Interpretação de Muitos Mundos (IMM) postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um universo paralelo e resolve o paradoxo do avô, segundo o qual alguém que voltasse ao passado e matasse o próprio avô se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal, já que não poderia existir na dele.
A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Os Contos das 1.001 Noites estão repletos de tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz e outros prodígios tecnológicos que passariam a existir dali a milhares de anos. Sherlock Holmes nos ensinou que “uma vez descartado o impossível, qualquer coisa que sobre, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade”, e o princípio da parcimônia —, que “quando houver múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si”.
Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias. Foi o que faz Júlio Verne ao imaginar submarinos atômicos e viagens à Lua quase um século antes de se tornarem realidade. Mas quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como memória do futuro fica ainda maior.
Resumo da ópera: A maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. A maioria das “provas” não resiste a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios terem trabalhado duro durante três décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar os blocos de pedra”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.
Continua…
