AZAR NÃO É A PESSOA ENCONTRAR UM GATO PRETO NUMA SEXTA-FEIRA 13, E SIM UM GATO PRETO ENCONTRAR UMA PESSOA IGNORANTE NESSE DIA.
Como vimos no post do dia 4, os gatos domésticos têm sentidos apurados, percebem variações químicas e térmicas em seus tutores, captam emoções, pressentem tragédias ou preveem desastres naturais. Na Idade Média, acreditava-se que eles fossem os responsáveis pela peste e por outras doenças infecciosas — quando na verdade ajudavam a erradicar os ratos, que eram os verdadeiros vetores da praga.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Aos 46 anos, o PT vive uma fase marcada por transições físicas — rugas e cabelos brancos — e cognitivas — maturidade e reflexão sobre a vida. Lula trocou o antigo figurino contemporizador de “Lulinha paz e amor” pela armadura: “essa eleição vai ser uma guerra”, soando como quem se equipa para guerrear contra Flávio Bolsonaro, o adversário de sua predileção.
Noutros tempos, o xamã petista criticava os críticos da política; agora, incorpora a antipolítica a seu cardápio e torpedeia a atividade que exerce desde os tempos de sindicalista: "A política apodreceu; agora, é dinheiro rolando para tudo quanto é lado".
Ecoando o slogan "Congresso inimigo do povo", Lula chamou de "sequestro" as emendas que promovem um escoamento de verbas públicas pelo ladrão do Orçamento federal e cobrou da plateia autocrítica e reação: "Vocês têm obrigação de não deixar que partido vá para a vala comum da política."
Tomado pela retórica, Lula vai aos palanques de 2026 com uma pose de político antissistema. Um contrassenso, pois lidera umas das legendas mais sistêmicas do país. Ao término do atual mandato, somando-se o tempo de Presidência de Lula e de Dilma, o PT terá dado as cartas no Planalto por 17 anos e oito meses.
Na prática, Lula ajudou a erguer o sistema que passou a praguejar. Nos seus dois primeiros mandatos, o matrimônio do governo com o Centrão deu em mensalão, em petrolão, no impeachment da mulher sapiens e em Bolsonaro, que se elegeu como antissistema e comprou o Centrão com o orçamento secreto, uma abjeção da qual Lula ainda não conseguiu se livrar.
Num instante em que a candidatura tóxica de Flávio Bolsonaro cresce sobre as cinzas de uma direita pulverizada e a sujeira do Banco Master vaza pelas bordas dos tapetes de Brasília, atacar o bolsonarismo e abominar o sistema tornaram-se desabafos úteis para Lula, mas nem por isso o desabafo virou solução para um presidente que chega à antessala da eleição com a popularidade ainda no vermelho.
A guerra prevista pelo macróbio aparece em todas as pesquisas como uma batalha de rejeições. Prenuncia-se uma disputa apertada. Em vez de escolher o candidato da preferência, o pedaço independente do eleitorado que decidirá a eleição — coisa de 3%— votará na base do "esse não", rejeitando Lula ou refugando o herdeiro de sangue do prisioneiro da Papudinha.
Confirmando-se o embate entre nhô-ruim e nhô-íor num eventual segundo turno, o próximo presidente subirá a rampa do Planalto mais pela debilidade do adversário do que pela pujança de suas ideias. Exatamente como aconteceu em 2018 com Bolsonaro e em 2022, quando Lula conquistou seu terceiro mandato..
Confiante na vitória, Lula injetou na maturidade que veio com a meia-idade do PT uma dose de pragmatismo. Soou como se enxergasse no estilhaçamento que o primogênito do capetão produz na direita uma oportunidade para ampliar a caravana da reeleição. "Temos que tratar de fazer as alianças necessárias para a gente ganhar as eleições. Um acordo político é uma coisa tática para a gente poder governar esse país. E estamos mais sabidos, muito mais preparados."
Juntando-se a retórica antissistema com o desejo de atrair para a coligação governista o pedaço do Centrão que se sente órfão de Tarcísio de Freitas, cuja candidatura presidencial apodreceu antes de amadurecer, Lula como que reedita o terror pendular que marca a política brasileira. O roteiro é invariável: no palanque, candidatos soam valentes; eleitos, deslizam para aquilo que Lula chamou em Salvador de "vala comum da política". Nesse vaivém, a governabilidade ganha um sentido sistematicamente gangsterismo. Seja quem for o eleito, o Centrão continuará fazendo a festa.
Devido a uma superstição que remonta aos tempos de antanho e os vincula à bruxaria e ao ocultismo, os gatos pretos são frequentemente associados à má-sorte. Em algumas culturas, porém, ocorre exatamente o contrário: no Japão, as mulheres solteiras acreditam que eles aumentam o número de pretendentes; na Escócia, vê-los à porta é sinal de prosperidade; no Reino Unido, um gato preto atravessando a rua atrai sorte. Marinheiros britânicos os apreciam porque eles são caçadores naturais de roedores e “garantem uma navegação tranquila e um retorno seguro”. Já os piratas os veem como sinal de azar quando os animais caminham em sua direção, de sorte quando se afastam, e de naufrágio quando rumam para o navio e mudam de direção sem motivo aparente.
De acordo com a Cat Fanciers Association, 22 raças de gatos podem apresentar pelagem preta sólida, mas somente os da raça Bombay são exclusivamente pretos. Para que isso aconteça, basta um dos pais transmitir o gene da cor, o que os torna comuns — estimativas sugerem que de 10% a 18% dos gatos domésticos são pretos —, mas não necessariamente a maioria da população felina mundial. Por outro lado, há mais gatos pretos machos do que fêmeas, e um fenômeno conhecido como “ferrugem” — que queima o pigmento preto da pelagem — pode mudar a cor para um vermelho acobreado.
Um sistema imunológico mais eficiente faz com que os gatos pretos sejam mais resistentes a diversas doenças que afetam seus irmãos de outras cores e reduz o risco do vírus da imunodeficiência felina (FIV) — semelhante ao HIV dos humanos. Curiosamente, ao contrário do que a superstição leva a crer, eles representam cerca de 20% dos pets disponíveis para adoção no Brasil e são mais numerosos em abrigos dos EUA e do Reino Unido — tanto por serem comuns como por serem frequentemente preteridos na hora da adoção. Mas vale lembrar que “gato preto” é uma descrição de cor, e pode aparecer em muitos tipos e raças diferentes.
Os antigos egípcios tratavam os felinos como animais sagrados, mas os gatos pretos eram considerados a encarnação viva da deusa Bastet — retratada com a cabeça de gato e corpo humano —, e matá-los era um crime passível de pena capital. Hoje, eles são homenageados nos EUA em 17 de agosto — Dia Nacional de Apreciação do Gato Preto — e em 27 de outubro — Dia Nacional do Gato Preto.
Da deusa egípcia ao abrigo de adoção, os gatos pretos sobreviveram à peste, à Inquisição e à ignorância humana — infelizmente, esta última ainda persiste. Mas eles não trazem má-sorte, apenas revelam a ignorância de quem ainda acredita nessa superstição.
Bom Carnaval.
