A VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS.
Ditados populares — ou provérbios — são tesouros da sabedoria coletiva que resumem em poucas palavras lições, advertências e observações sobre a vida, o comportamento humano e o mundo ao redor. Muitos deles sofrem alterações ao longo do tempo, seja por mudanças na língua, seja por interpretações equivocadas, o que às vezes nos leva a repeti-los sem conhecer sua origem ou sentido real.
Qualquer pessoa minimamente esclarecida entende o que significa “quem espera sempre alcança”, “para bom entendedor, meia palavra basta” e “Deus ajuda quem cedo madruga”, por exemplo, mas nem todo mundo compreende o subtexto de “filho de peixe, peixinho é” ou de “o fruto não cai muito longe da árvore”, também por exemplo.
“Quem não tem cão caça com gato” significa que, na falta dos recursos adequados, usa-se aquilo que se tem para alcançar o objetivo. No entanto, forma correta é “quem não tem cão caça como gato”, ou seja, na falta do recurso principal (o cão, que caça em grupo), recorre-se à esperteza (como o gato, que caça sozinho).
Outro ditado que mudou ao longo do tempo é “quem tem boca vai a Roma”. A versão atual sugere que quem pergunta chega aonde deseja (os romanos diziam que "todos os caminhos levam a Roma, que era o centro do mundo antigo). Mas a forma original — “quem tem boca vaia Roma” — refletia o espírito crítico dos romanos, que vaiavam (manifestavam-se) contra o poder instituído. A mudança de "vaia" para "vai a" parece ter surgido por associação ao ato de viajar ou chegar a um objetivo.
Um ditado particularmente curioso é “cuspido e escarrado”, que remete a algo ou alguém muito parecido com outra coisa ou pessoa. Embora soe estranho atualmente, escarrado tinha o sentido de marcado, estampado, reforçando a ideia de semelhança extrema. A ligação com “esculpido em Carrara” é fruto de uma tentativa culta (e equivocada) de "corrigir" o que se supunha um erro.
“Cor de burro quando foge” parece aludir à cor de um animal em fuga, como se fosse uma tonalidade impossível de definir. Todavia, a expressão original — "corro de burro quando foge" — reforça o conselho de se afastar rapidamente de encrenca, como alguém que corre para escapar de um burro desgovernado, que se torna perigoso quando assustado.
O verso “batatinha quando nasce, esparrama pelo chão”, de um conhecido poema infantil, é na verdade “espalha a rama pelo chão”, descrevendo o crescimento da batata, que espalha suas folhas e raízes pelo solo. Outro versinho de roda que foi distorcido ao longo dos anos é “hoje é domingo, pé de cachimbo”. O correto é “pede cachimbo”, sugerindo que, em dia de descanso, fuma-se cachimbo como forma de lazer. Ainda que os cachimbos sejam feitos de madeira, não há registros de que eles “nasçam em árvores”, como a expressão “pé de cachimbo” leva a crer.
“Ossos do ofício” remete às dificuldades com que as pessoas têm de lidar no exercício de suas profissões. A forma “ócios do ofício”, defendida por palpiteiros de plantão, não tem registro em dicionários nem em textos clássicos. “Quem pariu Mateus que o embale” é uma corruptela de “quem pariu que mantenha e embale”. Em ambos os casos o significado é o mesmo: quem cria uma situação deve arcar com as consequências.
“Parece que tem bicho-carpinteiro” se diz de pessoas irrequietas. Embora os dicionários registrem “bicho-carpinteiro” como o nome popular de algumas espécies de besouros, tudo indica que a forma correta seja “parece que tem bicho no corpo inteiro”. Mas o resultado é o mesmo em uma forma ou na outra.
“Enfiar o pé na jaca” também tem duas versões, e ambas são consideradas corretas, pois evocam o descontrole. A jaca, fruta grande e pegajosa, pode remeter à ideia de sujeira ou de embaraço em sentido figurado (como quem se afunda no exagero). Já o jacá, — nome de um cesto de palha — sugere a cena de quem, ao exagerar na bebida, esbarra no dito-cujo ao sair do bar.
“Cair no gosto do povo” indica que algo se tornou popular. A forma tradicional era “cair no goto” (sinônimo informal de glote ou garganta). A expressão original fazia alusão a algo que “descia bem”, caía no gosto literal, mas com o tempo o “goto” virou “gosto”, alinhando o sentido ao paladar e ao apreço.
A expressão “faca de dois gumes” indica que algo pode produzir tanto resultados positivos quanto negativos. A troca por “dois legumes” — que criou uma versão irônica ou jocosa do ditado — pode ter surgido porque pouca gente sabe que “gume” designa a parte cortante da lâmina.
Mas não dizem que “a voz do povo é a voz de Deus”?
