sábado, 11 de abril de 2026

LULA E O PÊNDULO DE FOUCAULT

REELEGER LULA OU ELEGER FLÁVIO BOLSONARO É COMO ESCOLHER ENTRE X-BOSTA E BAURU DE MERDA EM VEZ DE IR COMER EM OUTRO BOTEQUIM.

Com a aproximação das eleições, surge uma pergunta que, para ser respondida sem medo de errar, só mesmo aguardando o apito final e a decisão do VAR. Mas pode-se emular um exercício de futurologia dando uma resposta disfarçada de palpite triplo: ganha fulano por causa disso, mas sicrano pode ganhar por causa daquilo, sem falar que a terceira (!?) pode romper a polarização. Previsão mais precisa que essa, só mesmo consultando a cigana do parquinho ou o horóscopo da revista de fofocas.


Fazer prognósticos calcados em pesquisas de intenção de voto é arriscado, sobretudo quando as abordagens são feitas com seis meses de antecedência. Aliás, Magalhães Pinto dizia que "política é como nuvem" (você olha e elas estão de um jeito; olha de novo e elas já mudaram), e Ciro Gomes, que "eleição é filme e pesquisa é frame". Na melhor das hipóteses, os institutos de pesquisa oferecem um "instantâneo" do humor do eleitorado num determinado momento — isso se admitirmos que 2 mil gatos pingados refletem o pensamento de 150 milhões de eleitores. Na pior, considerando que cada pesquisa chega a custar milhão de reais, é comum os resultados ornarem com a preferência dos contratantes. 


Em 2018, todas as pesquisas davam de barato que Dilma seria a senadora mais votada — e ela ficou em 4º lugar —; que Bolsonaro perderia de qualquer adversário no segundo turno — e ele venceu o bonifrate de Lula por uma diferença de quase 12 milhões de votos —; e que Eduardo Suplicy seria reeleito — e ele foi defenestrado após 27 anos de Senado. Na disputa pelo Planalto, Geraldo Alckmin obteve menos de 5% dos votos, e Marina Silva, 1%. No Nordeste — tido como o solo sagrado onde o demiurgo de Garanhuns realizaria o milagre da ressurreição —, o PT teve 10 milhões de votos a menos que em 2014, e perdeu em cinco das sete capitais da região.


De certeza, mesmo, só a vocação inata que o eleitor brasileiro tem de repetir a cada pleito, por ignorância, o que Pandora fez um única vez, por curiosidade. Mas é consenso entre analistas políticos que a esquerda dividem ⅔ do eleitorado, e que os cerca de 50 milhões de "isentões" funcionam como fiel da balança em pleitos polarizados, quando é preciso escolher o candidato "menos pior" 


Em Il Pêndulo di Foucault, do italiano Umberto Eco, três intelectuais inventam uma teoria da conspiração que, de tão perfeita, começa como brincadeira e termina como crença — primeiro para eles, depois para os outros. A versão brasileira entrou em cartaz quando a aberração que postula a reeleição emitiu um garrancho verbal traduzido pelos filólogos de plantão como "ainda não decidi se serei candidato".


A dúvida virou tese ao cabo de poucas horas, e dias depois a tese já se tornara narrativa. Agora, já temos enredo, elenco de apoio e um roteiro que segue um padrão quase didático: alguém lembra a idade, outro puxa os arroubos da primeira-dama, um terceiro esgrime os dados de um instituto de pesquisa chinfrim, e um quarto invoca o humor do mercado.


Com os pontos criados, basta ligá-los para dar à luz um "Plano B" — uma criatura fascinante que ninguém confirma, que tem nome, cronograma e lógica interna que todo mundo descreve em detalhes, mas que não tem comprovação fora das conversas de botequim que a sustentam. Não obstante, como bem observou Eco, nem toda especulação é delírio. Política é risco, cálculo e contingência. A hipótese hoje improvável de Lula não disputar existe como possibilidade porque existe como variável real. No fim das contas, o problema não é a hipótese, mas a velocidade com que ela vira certeza.


Ainda segundo Eco, quando o padrão parece convincente, a prova vira detalhe e a ausência de confirmação passa a ser interpretada como parte do segredo. Se ninguém admite, é porque é sigiloso. Se ninguém confirma, é porque está sendo preparado. A teoria se fecha e, uma vez fechada, conforta.


A questão é que Lula, mais que candidato, é um eixo organizador do sistema político. Sua saída bagunçaria alianças, embaralharia estratégias e reduziria a previsibilidade da eleição, mas não produziria a vitória automática do filho rachadista do pai golpista — pelo contrário: sem o molusco no páreo, o sobrenome Bolsonaro pode perder tração, e como a política brasileira adora um vácuo, não é difícil imaginar o surgimento de um novo "salvador".


Na tão desejável quanto quimérica hipótese de a terceira via prosperar e o segundo turno ser disputado pelo ex-presidiário mais famoso do Brasil ou pelo primogênito do atual presidiário mais famoso desta banânia contra um "outsider", talvez um novo Cacareco — falo do rinoceronte que foi eleito vereador em Sampa no pleito de 1959 — ou um novo Macaco Tião — como o que obteve 400 mil votos na eleição para prefeito do Rio de Janeiro em 1988 —, ou mesmo minha finada cachorrinha teriam chances reais de vitória. 


Voltando à vomitativa realidade, se Lula pendurasse as chuteiras, as alternativas naturais do PT e seus satélites seriam Haddad ou Camilo Santana — este sempre lembrado como alternativa discreta. Ao fim e ao cabo, pode não haver plano algum — apenas um político macróbio, populista, com a data de validade vencida que governa olhando pelo retrovisor, mas, mesmo farto dos rituais palacianos, não abre mão dos salamaleques do poder. 


Por outro lado, como ensinou Eco, a realidade costuma ser simples demais para competir com uma boa teoria. Então, e se Lula desistir?


Triste Brasil