OS HOMENS TEMEM A MORTE COMO AS CRIANÇAS TEMEM A ESCURIDÃO.
Evidências são indícios que apontam para a ocorrência de fatos; fatos são os acontecimentos propriamente ditos; e provas são os meios usados para demonstrar que os fatos efetivamente ocorreram.
Na percepção distorcida e limitada dos que padecem de cegueira mental, as EQMs (detalhes no capítulo anterior) não são evidências de coisa alguma. Os céticos as veem como um fato, mas não como prova da existência da "alma imortal" ou de que a consciência sobrevive à morte clínica. Para quem tem a mente aberta e cultiva o saudável hábito de raciocinar, esse fenômeno dá o que pensar.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Até um burro cego morde a cenoura de vez em quando. Lula falou muita bobagem durante suas três gestões (bem menos do que Dilma em uma gestão e meia, mas enfim), e, como ensina o teorema do macaco infinito, toda araruta tem seu dia de mingau. Interessa dizer que o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, seu provável adversário na disputa pela Presidência deste ano (que Deus nos livre da vitória de qualquer um desses dois dejetos) foi o sujeito oculto do macróbio eneadáctilo no Fórum em Defesa da Democracia, no sábado 19, em Barcelona. Sem citá-lo, o xamã petista o tratou como um risco à democracia no Brasil. Em timbre de palanque, Lula disse: "Temos um ex-presidente preso condenado a 27 anos de cadeia, temos quatro generais quatro-estrelas presos porque tentaram dar o golpe." Numa referência ao filho de Bolsonaro, disse que "o extremismo não acabou, ele continua vivo e vai disputar eleição outra vez." Quem sabe ouvir nas entrelinhas percebe na fala a intenção de Lula de reativar em 2026 o fator democrático que lhe rendeu a vitória, por pequena margem, na sucessão de 2022. Na campanha de 2022, Lula prometeu governar para todos. Assegurou que faria um governo "para além do PT". Eleito com uma diferença de 1,8 ponto percentual, preferiu intensificar a polarização. Perdeu ao longo de três anos e meio de mandato o apoio dos eleitores que votaram nele para mandar Bolsonaro mais cedo para casa. Na pesquisa Quaest do mês passado, 48% dos independentes diziam que o filho do pai não era mais moderado que sua família. Na sondagem divulgada nesta semana, esse percentual caiu para 45%. Em janeiro, o molusco estava 16 pontos à frente do rival nesse nicho do eleitorado. Agora, a diferença se inverteu por uma vantagem de sete pontos.
EQMs que acontecem quando não há atividade no córtex frontal (morte clínica) são documentadas a partir de relatos feitos pelos próprios pacientes após a reanimação. Se não há registros delas em casos de morte encefálica, é porque a irreversibilidade dessa condição exclui a possibilidade de reanimação — ou seja, se o paciente já atravessou a via de mão única que leva ao "lado de lá", não há como colher seu depoimento, a menos que ele compareça a uma sessão de mesa branca ou reencarne e preserve lembranças da vida anterior.
O "roteiro" da maioria das EQMs documentadas é quase sempre o mesmo: a pessoa "trazida de volta" relata que viu próprio corpo morto, foi "sugada" para um túnel de luz, viu a própria vida como num filme, reencontrou parentes já falecidos, mas sentiu que precisava retornar ao corpo. Alguns pacientes descrevem um profundo sentimento de paz e um estado ampliado de consciência, mas os relatos mais impressionantes são os que incluem detalhes do que aconteceu enquanto eles estavam clinicamente mortos, sobretudo porque esses detalhes são confirmados por médicos, parentes e outras pessoas que assistiram aos procedimentos de reanimação.
Se a consciência é produzida pelo cérebro, como ela pode continuar existindo depois que o cérebro parou de funcionar? Não há uma resposta fácil, a não ser para quem se escora em dogmas meramente impositivos — se Deus quis assim, então é assim e ponto final. Mas à luz da ciência, o buraco é mais embaixo (a propósito, sugiro a leitura do livro Experiências de Quase Morte – Ciência, mente e cérebro, do neurocirurgião Edson Amâncio).
EQMs e vida após a morte são coisas diferentes, ainda que correlacionadas. Tudo se resume — se é que se pode "resumir" conceitos tão complexos — à incerteza sobre o que acontece "depois", ou mesmo se existe um "depois". Os religiosos acreditam na imortalidade da alma, mas o que é a religião senão a evolução do misticismo que levou nossos ancestrais a endeusar o Sol, a Lua, os raios, os trovões e tantos outros fenômenos que hoje sabemos que são naturais?
Para os católicos, a alma é única e eterna e a morte carimba o passaporte que autoriza os "bons" a ingressarem no Reino dos Céus — depois de uma escala no Purgatório — e despacha os "maus" para as profundezas da Inferno, onde serão cozidos em óleo fervente ou assados em espetos por toda a eternidade.
Observação: Aqui caberia abrir um parêntese para discutir o conceito de eternidade, mas vou deixar essa discussão para outra ocasião. Quanto ao inferno, sugiro a leitura desta anedota sobre o "inferno brasileiro".
Os espíritas acreditam que a alma sobrevive à morte física e passa para um novo plano astral; que Deus nos criou simples e ignorantes — sem discernimento do mal e do bem —; que quem pratica o mal reencarna várias vezes até evoluir espiritualmente; e que quem pratica a caridade, o bem e o amor só reencarna se quiser. Para eles, os espíritos desencarnados possuem a capacidade de se ligar a outros espíritos — encarnados ou não, de acordo com a sintonia e a afinidade dessas almas —, o que explicaria a existência de lugares com diferentes níveis vibratórios..
O Judaísmo admite múltiplas interpretações. Algumas vertentes acreditam na sobrevivência da alma, mas não têm um roteiro definido sobre o que acontece depois da morte — ou mesmo se existe vida após a morte. Segundo a Cabala, a alma é imortal, e as provações que cada um enfrenta em vida levam a seu aperfeiçoamento. Existem, segundo eles, três tipos de almas, e o desligamento do corpo não é imediato (podendo levar de 30 dias a 1 ano). Enquanto a alma está ligada ao corpo, não há possibilidade de reencarnação, daí os familiares do finado cobrirem os espelhos da casa e rezarem o Kadish.
Os budistas acreditam que o espírito reencarna, podendo voltar como gente ou como animal, dependendo de sua conduta durante a vida, e que esse ciclo se repete até que o espírito se liberte de seu carma. No Japão, além de flores no caixão, uma tigela com arroz cozido, água, um vaso com flores, velas e incenso são colocados sobre uma mesa, para que nada falte ao morto.
Para os islâmicos, a vida é uma preparação para outra existência. A morte dá início ao primeiro dia na eternidade, onde as almas dos muçulmanos ficam aguardando o juízo final. Quem seguiu as leis de Alá e as tradições dos profetas é enviado para o Paraíso; e quem foi desviado por Xeitã é despachado para o Inferno.
Segundo o Candomblé, as pessoas são formadas por elementos constitutivos perecíveis (corpo) e imperecíveis (ori), e a vida continua por meio da força vital (o ori retorna em outro corpo, mas dentro da mesma família. Não há punição eterna nem a ideia preconcebida de Céu e Inferno; a morte é considerada uma passagem para outra dimensão, onde os espíritos se reúnem aos guias e orixás. Já na visão dos umbandistas, o universo é formado por sete linhas, cada qual regida por um orixá, e a morte é uma etapa evolutiva (clique aqui para mais detalhes sobre as religiões afro-brasileiras).
No Hinduísmo, a pessoa é a alma, não o corpo físico. Após a morte, a alma se separa do corpo e parte rumo a outra dimensão. Almas evoluídas voltam em altas castas — como a dos brâmanes, composta por filósofos e sacerdotes. Guerreiros e políticos pertencem à casta dos xátrias, e os menos evoluídos reencarnam como comerciantes (casta dos vaishyas) ou trabalhadores (casta dos sudras). Quem consegue se desapegar do mundo material e atinge um patamar elevado não está obrigado a reencarnar.
Para os batistas, quem aceitar Jesus terá uma vida de paz e felicidade no Paraíso, e quem não aceitar, uma vida de dor, angústias e sofrimento no inferno. Já os adventistas acreditam que os mortos dormem até o momento da ressurreição, quando então os que cumpriram seu papel na Terra ganham a vida eterna, e os demais desaparecem. Para os sectários da Cientologia — como John Travolta e Tom Cruise — o thetan (espírito) sai em busca de um novo corpo no qual retornará à vida. Segundo seus sectários, 75 milhões de anos atrás havia dezenas de planetas governados como uma confederação por Xenu — um líder maligno que enviou bilhões de espíritos para a Terra. Assim, os terráqueos são reencarnações desses extraterrestres, que são imortais e, portanto, continuam reencarnando ad aeternum.
A exemplo dos católicos, os evangélicos acreditam no juízo final e na existência de Paraíso, Inferno e Purgatório. A diferença é que, segundo eles, as almas ficam adormecidas até Jesus voltar à Terra e decidir quem irá com ele para o Reino dos Céus e quem passará a eternidade num lago de enxofre e fogo. Já os protestantes descartam a reencarnação, mas não a existência de Céu e Inferno. Segundo eles, o julgamento ocorre não pelas ações da pessoa em vida, mas pela fé que ela teve na palavra de Deus e pelo amor ao Senhor.
De acordo com o fisicalismo — que é o cientificismo reducionista e materialista aplicado à neurociência — o cérebro produz a mente. Seus sectários desdenham das experiências de quase-morte, escarnecem de quem afirma lembrar de vidas passadas e negam a mediunidade — mas não oferecem uma explicação convincente para casos notórios, como os da norte-americana Leonora Piper e do brasileiro Chico Xavier.
Não há provas irrefutáveis de que a consciência (ou alma, ou espírito) sobreviva à morte física, mas sobram indícios que levam água a esse moinho. Parafraseando Shakespeare, há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, e cosmólogo e romancista Carl Sagan, ausência de evidências não é evidência de ausência (na verdade, essa ideia foi desenvolvida por William Wright em 1887; Sagan apenas popularizou o aforismo num livro que escreveu sobre a existência de seres extraterrestres).
Escorar-se na falta de evidências para negar a existência de seja lá o que for é afrontar a ciência, já que ela amplia os limites do conhecimento transitando entre o conhecido e o desconhecido. Os fenômenos que mencionei ao longo deste capítulo existem, mas explicá-los é outra história. Por outro lado, refutá-los de plano é o mesmo que retroceder pelo caminho que levou a humanidade do obscurantismo ao iluminismo. Em outras palavras, em não havendo fraude envolvida, negá-los é comprovar o que teria dito Einstein sobre a infinitude da estupidez humana.
Continua…
