quarta-feira, 22 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — NOÉTICA

O UNIVERSO NÃO PARECE SER NEM BENEVOLENTE NEM HOSTIL, APENAS INDIFERENTE. 

Se pensarmos no cérebro como um aparelho de rádio com um dial físico giratório, esbarrar acidentalmente nesse botão pode dessintonizar nossa emissora preferida e nos fazer ouvir chiados, interferências ou a voz de um locutor de outra estação misturada à música — como ocorria nas antigas linhas cruzadas das ligações telefônicas analógicas.


Da mesma forma que transforma um ginasta em atleta, o treinamento pode configurar o cérebro para receber informações da consciência universal de maneira mais clara e consistente, dando acesso a habilidades e entendimentos notáveis e, ao mesmo tempo, dificultando tarefas rotineiras.


Assim, como um rádio que capta diversas estações em AM ou FM, nosso cérebro talvez acesse porções da matriz informacional inacessíveis a outros animais — não porque somos superiores, mas porque nossa “antena” está sintonizada em frequências diferentes.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Edson Fachin afirmou na última sexta-feira que o Brasil vive uma crise relacionada à atuação do Judiciário e que ela precisa ser enfrentada com reflexão, autocrítica e autocontenção. Cármen Lúcia, redatora de um Código de Ética que tarda a aparecer, disse que a crise de confiança no Judiciário, especialmente no Supremo, é grave e precisa ser reconhecida. O pano de fundo da conturbação que assedia o Supremo está marcado pelos vínculos de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro. Os laços individuais doem na instituição.

No Congresso, o subsolo voltou a estremecer com a prisão do advogado Daniel Monteiro. Segundo a PF, o doutor ajudou a estruturar a rede de fundos usada pelo dono do falecido Banco Master para comprar políticos e autoridades.

Em Barcelona, onde participa do encontro de um fórum de chefes de Estado progressistas, Lula, acusando o golpe do empate técnico com Flávio Bolsonaro no Datafolha e na Quaest, pensou alto sobre a onda de direita no mundo. Sem respostas, empilhou indagações: "Quero saber onde nós falhamos como democratas. Onde as instituições democráticas deixaram de funcionar? [?] Onde é que o nosso discurso está errado? Onde é que as nossas políticas públicas não estão atendendo às expectativas de uma juventude que quer um novo mundo do trabalho?".

Um observador otimista da conjuntura diria que crises são ruins, mas sempre passam. Um pessimista realçaria que terremotos também passam. E todos sabem que eles sacodem as roseiras e danificam as estruturas.


Um rádio não cria o sinal que recebe; ele o capta, decodifica e torna audível. Mas nosso cérebro parece ir além, pois não só recebe as informações como as processa, filtra, interpreta e — eis o enigma central — cria a experiência subjetiva única que chamamos de “eu”. E não há equação que explique por que processamento vira presença.


Se o modelo receptor estiver correto, cérebros considerados “danificados” — como no caso de alguns autistas ou de savants adquiridos — poderiam, paradoxalmente, ganhar habilidades extraordinárias, como um rádio que sofre uma queda e passa a captar transmissões antes inaudíveis.


As emissoras não deixam de transmitir quando não há ninguém para ouvi-las. Assim, se nosso cérebro for realmente um receptor sofisticado de uma consciência não-local, a morte apenas nos impediria de sintonizar aquela frequência específica — embora o sinal continuasse existindo. Mas se formos realmente parte de um organismo maior, conectados à mesma matriz de consciência, o que resta do conceito de livre-arbítrio?


Nosso sistema ético, jurídico e moral está fundamentado na premissa de escolhas autônomas. Em tese, quem mata vai para a prisão, quem age com bravura recebe medalhas, e por aí vai. Mas e se essas “escolhas” forem apenas manifestações locais de padrões informacionais fluindo através de uma consciência maior, e nossas decisões, atualizações locais de um sistema mais amplo? 


Talvez a individualidade seja uma ilusão de perspectiva — como ondas que parecem separadas, mas são apenas perturbações temporárias na superfície do oceano. Ainda assim, mesmo que exista uma consciência universal, cada cérebro funcionaria como um filtro singular, moldado por genes, experiências, traumas e condicionamentos.


Supondo que o autor do romance "profético" Futility — sobre o naufrágio do Titanic — teve acesso a informações sobre um evento ainda não ocorrido, entramos numa das questões mais perturbadoras da física: a natureza do tempo.


A mesma física que dissolveu o tempo absoluto na relatividade de Einstein e o substituiu por um bloco quadridimensional onde passado e futuro coexistem também admite, na mecânica quântica, estados de superposição em que múltiplas possibilidades permanecem abertas até que algo as selecione.


Talvez nossa percepção linear do tempo e nossa sensação de identidade contínua sejam artefatos cognitivos produzidos por um cérebro tentando sobreviver sob a pressão da entropia crescente, ou talvez estejamos confundindo mapa com território desde o início.


Voltando ao experimento mental proposto por Erwin Schrödinger, a questão não é apenas se o gato colapsa sua própria função de onda — mas quem, ou o quê, colapsa a nossa.


A experiência humana atual é limitada quando comparada ao que poderia ser. Às vezes, basta uma mudança de perspectiva para revelar algo que sempre esteve ali. O fato de não conseguirmos imaginar como algo pode ser verdade não significa que não possamos estar observando seus efeitos.


A Noética ainda engatinha na tentativa de compreender a consciência não-local, e seus defensores são frequentemente acusados de flertar com a pseudociência — sobretudo porque o cérebro opera em temperaturas e condições que parecem incompatíveis com coerência quântica sustentada.


Nosso cérebro representa cerca de 2% do peso corporal, abriga aproximadamente 86 bilhões de neurônios e é capaz de realizar trilhões de sinapses, mas ainda assim sua capacidade de armazenamento é tão limitada quanto a de um celular, que é incapaz de conter todas as músicas do mundo.


Diante dessa impossibilidade física, talvez o cérebro funcione menos como um cofre e mais como uma antena extraordinariamente sofisticada, que seleciona quais sinais específicos acessar em uma nuvem informacional já existente.


Quando milhares de estorninhos voam em perfeita coreografia, pode parecer que todos consultam o mesmo banco de dados simultaneamente, mas talvez estejamos apenas subestimando o poder de sistemas simples operando sob regras locais. Por outro lado, o tempo descrito pela mecânica quântica não se encaixa confortavelmente no tempo geométrico descrito na relatividade geral.


A experiência humana é bastante limitada se comparada com o que poderia ser. Às vezes basta uma mudança de perspectiva para revelar a verdade, e o simples fato de não conseguirmos imaginar como uma coisa pode ser verdade não significa que não observamos essa coisa sendo verdade. 


Enquanto a física tenta reconciliar essas descrições incompatíveis, continuamos chamando ondas de indivíduos, decisões de escolhas, e sejamos apenas perturbações temporárias em algo muito maior.


Continua...