terça-feira, 2 de junho de 2026

AINDA SOBRE O TEMPO CRONOLÓGICO

 O HOJE TECE O AMANHÃ COM A TEIA DO ONTEM.

Temendo ser destronado, Urano devolvia os filhos ao útero de Gaia. Um belo dia, cansada de gerar para perder, a deusa escondeu Cronos e lhe pediu que castrasse o pai. 

Cronos atendeu ao pedido da mãe, mas passou a devorar a própria cria. O ciclo só foi interrompido quando Réia escondeu Zeus e lhe pediu que obrigasse o Cronos a regurgitar seus irmãos. Zeus não só cumpriu a missão como derrotou o genitor numa guerra que durou dez anos e, ao final, tornou-se o deus dos deuses.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Bolsonarinho enxergou na Casa Branca o local ideal para fugir da realidade. Trump tirou momentaneamente o efeito Master do noticiário, mas enfiou seu pé-frio na campanha eleitoral do Brasil ao classificar o PCC e o CV como facções terroristas.

Trata-se apenas um fetiche para disfarçar a ausência de um projeto para a área da segurança pública, mas os criminosos respiram aliviados.

Do ponto de vista prático, além de ofender a soberania, a novidade afeta a reputação do Brasil, afugentando investidores. Já o efeito eleitoral é duvidoso: fugindo do contágio de Daniel Vorcaro, o filho do presidiário caiu na órbita radioativa da calopsita alaranjada, que molhou o paletó para interferir em eleições alheias e perdeu no Canadá, Austrália, Romênia e Hungria.

Se a vida ensina algo, é que a vida nada ensina ao bolsonarismo.


Não sabemos se Urano e Cronos realmente existiram, nem se Saturno — a versão romana de Cronos, posteriormente associada ao tempo — ceifava os dias com sua foice. Tampouco sabemos se o tempo existe de fato ou se não passa de uma convenção criada por nossos ancestrais para dar sentido a eventos recorrentes, como o amanhecer e o entardecer, as fases da lua e as estações do ano.

O que sabemos é que, na mitologia grega, há uma distinção fundamental entre Cronos e Kairós: o primeiro representa o tempo cronológico, linear e mensurável; o segundo, o tempo da experiência, do acontecimento, do instante significativo.

Alguns pensadores da Antiguidade ainda falavam de Aión, um terceiro modo de tempo: não aquele que se mede nem aquele que se aproveita, mas o que se habita — o tempo da duração, da permanência, do que escapa ao relógio e às urgências do agora.

Por convenção, o tempo que rege nossas vidas é o de Cronos, que o relógio mede, que os calendários registram, que transforma segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias, meses e anos. Essa lógica nos leva a tratá-lo como algo mensurável e manejável, um recurso a ser administrado, otimizado e explorado, quase sempre a serviço do trabalho, do consumo e da vida acelerada que naturalizamos no cotidiano.

É esse mesmo tempo que sustenta a ideia de crononormatividade, trabalhada pela pesquisadora estadunidense Elizabeth Freeman. Trata-se do conjunto de convenções temporais que normalizam trajetórias consideradas “corretas”, como ser alfabetizado até certa idade, casar até os 30, ter filhos até os 35, alcançar o sucesso profissional — seja lá o que isso signifique — antes dos 40. Nesse contexto, o tempo deixa de ser apenas uma medida e passa a funcionar como critério moral.

Outras formas de compreender e viver o tempo persistem entre povos tradicionais, povos originários, povos indígenas, africanos e do sul global. Nessas cosmovisões, o tempo não se comporta como uma flecha que avança inexoravelmente para a frente. Ele pode ser cíclico, circular ou espiralar. O passado não está morto, o futuro não é um alvo fixo, e o presente não é apenas um ponto de passagem.

Convencionou-se adotar o tempo cronológico como padrão universal por ser um tempo que coloniza o presente — sequestrando nossa atenção —, captura o passado — reduzindo a memória a registro — e compromete o futuro — empobrecendo nossa capacidade de imaginá-lo. Na era das métricas, notificações e algoritmos, Cronos deixou de ser apenas uma abstração: tornou-se um sistema de controle íntimo, automático e permanente. 

Essa não é a única ideia de tempo que existe, mas as formas não cronológicas são desconsideradas justamente por não servirem à produtividade, ao consumo e às tecnologias que exigem pressa, desempenho e obediência ao relógio.

No fim das contas, Cronos venceu, não como mito, mas como método. Ele já não empunha uma foice, mas um relógio digital. Não reina do Olimpo, e sim dos calendários, das metas, dos prazos e das notificações. Não precisa mais devorar os filhos; basta convencê-los de que estão sempre atrasados. E nós, acreditando dominá-lo, seguimos oferecendo aquilo que sempre exigiu: nossa própria vida, em parcelas mensais.