sexta-feira, 8 de maio de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 103ª PARTE — A LÓGICA E A INEXISTÊNCIA DO TEMPO

A VIDA NÃO É ENTENDÍVEL, DE MODO QUE VIVER É MUITO PERIGOSO.

Três anos depois de Einstein publicar a Teoria da Relatividade Especial e sete anos antes de a Teoria da Relatividade Geral vir à luz, o matemático, filósofo e lógico J.M.E. McTaggart divulgou um raciocínio lógico com vistas a negar a existência do tempo.


Segundo ele, a proposição "nascerá amanhã" é verdadeira hoje. Após o nascimento, "nasceu ontem" é verdadeira. Consequentemente, classificar os acontecimentos como "antes", "depois" ou "agora" não altera suas posições temporais objetivas nem o valor de verdade das proposições que descrevem suas ocorrências efetivas. Dito com outras palavras, o tempo é apenas uma ilusãoMas há quem diga que isso não significa que nada mudou ontologicamente — mudou o status temporal do evento em relação ao presente, e o fato de o presente avançar é real, não ilusório.


A questão é que, se o Universo é um bloco quadridimensional estático que contém o espaço e o tempo simultaneamente, sem um “agora” especial, o que é futuro para um observador é passado para outro. Assim afirmar que o tempo flui do passado para o futuro conflita com a forma como o tempo é tratado em teorias físicas como a relatividade, nas quais não existe um “agora” universal.


Observação: A teoria do Universo em blocos tem implicações diretas na interpretação da relatividade restrita: se todos os momentos coexistem igualmente, o "presente" seria apenas uma fatia do bloco quadridimensional — o que reforça a tese de McTaggart por uma via completamente diferente: a física.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O anúncio de que Lula conversaria com Trump na quinta-feira (7) desparafusou os dois neurônios de Eduardo Bolsonaro. De repente, o mundo se tornou mais complexo do que o manual de instruções do bolsonarismo, e Dudu Bananinha não enxergasse no próprio umbigo o centro do universo. Lula, malandro que é, fez um discurso para a militância e outro para as elites. Embatucado, Eduardo refugiou-se no raciocínio binário: se a coisa não se encaixa, há uma conspiração em curso. 

Surge, então, a teoria de que há dois Lulas na praça: para o consumo dos militantes, enrolado na bandeira nacional, e outro subserviente, para as elites, subserviente e entreguista. Na melhor das hipóteses, o filho do refugo da escória da humanidade está sendo cínico para evitar que bolsonaristas ingênuos sejam intoxicados pela descoberta, quase subversiva, de que um presidente brasileiro deve escorar sua política externa na defesa do interesse nacional. Na pior, ele acredita mesmo que Trump tem uma missão especial na Terra, de inspiração divina, que inclui apoiar a candidatura do irmão para converter o Planalto em puxadinho da Casa Branca.

Lula, por sua vez, presta um serviço ao interesse nacional cada vez que consegue neutralizar o estrago feito pelo bolsonarismo ao envenenar Trump contra o Brasil. Depois que a polarização doméstica foi exportada como conflito internacional, qualquer gesto de normalização é um ganho. O problema começa quando o serviço necessário e até esperado de um chefe de Estado passa a ser tratado como façanha extraordinária  — ou, pior, como um ativo de campanha.

Embora muitos não percebam, há uma diferença enorme entre governar e fazer marketing político. Transformar uma visita à Casa Branca em troféu eleitoral revela mais ansiedade do que estratégia — como se o simples fato de sentar à mesa com Trump resolvesse, por si só, as contradições internas. É aí que a metáfora do náufrago se encaixa: confundir diplomacia com salvação política é tão arriscado quanto agarrar um jacaré achando que é um tronco.

A política externa não substitui gestão econômica e articulação no Congresso, nem tampouco arranca a popularidade de Lula do vermelho. Como instrumento de Estado, a diplomacia cumpre o seu papel. Quando vira palanque, perde a eficácia. Melhor fazer o básico, sem teatralização e torcer para que o eleitor minoritário de centro, que decidirá a sucessão em 2026, perceba que o Brasil precisa de relações internacionais estáveis, não de enredos politicamente inflados.


Com o intuito de provar que o tempo não passa de uma ilusão, McTaggart usou um baralho no qual cada carta representava um evento. Primeiramente, ele organizou as cartas em uma sequência: os acontecimentos pretéritos à esquerda, os presentes no meio e os futuros à direita, formando uma ordem baseada na relação anterior/posterior.


Vale lembrar que, num sistema fechado, a flecha do tempo se baseia no aumento da entropia, e que qualquer dispositivo destinado a medir o tempo — como um relógio, por exemplo — depende de alterações (ticks). Uma vez que não existe tempo sem mudança, o experimento não serviu para "capturar" a essência do tempo, levando McTaggart a reorganizar as cartas em três pilhas não estáticas e movê-las da pilha da direita (futuro) para a do meio (presente) e desta para a da esquerda (passado). 


De acordo com o polímata, nessa série circular os eventos futuros se tornam presentes assim que acontecem e pretéritos logo em seguida. Em vista disso, há claramente uma mudança, pois é preciso estar no tempo para realizar esse arranjo, e como o tempo é exatamente o que se pretende capturar, precisar de tempo para descrever o tempo cria uma circularidade que viola a lógica.


Uma vez que o primeiro arranjo não conseguiu descrever o tempo porque era imutável, e o segundo arranjo previa mudanças que ocorriam de maneira circular, nenhum dos dois experimentos funcionou, e assim McTaggart concluiu que o tempo não poderia ser real. 


Mais de cem anos depois, os filósofos continuam buscando uma solução. Alguns, chamados A-theorists, tentam definir o segundo experimento de uma forma que não seja circular, enquanto outros, chamados B-theorists, defendem que o primeiro experimento descreve a realidade e dizem que McTaggart estava errado ao exigir que a série mudasse. Há também C-theorists, para quem a linha de cartas sequer tem uma direção do antes para o depois.


Independentemente de quem tem razão, há maneiras diferentes de pensar sobre o tempo, e raciocinar em termos de passado, presente e futuro pode ser apenas uma convenção. Mal comparando, seria como numerar as tábuas de uma cerca: como ela não tem direção, a pessoa pode começar do lado que quiser. Mas o detalhe é que McTaggart defendeu sua tese valendo-se apenas da lógica e de um baralho de cartas. Um dos experimentos ilustra a incoerência interna do conceito de "presente" na estrutura lógica do tempo, enquanto o outro exige que momentos sejam simultaneamente passados, presentes e futuros, gerando uma contradição conceitual.


A teoria do Universo em bloco (via relatividade) sugere que o "presente" é fisicamente irrelevante, e a relatividade restrita dissolve a simultaneidade absoluta. Se o espaço-tempo não é quadridimensional, não há "fatiamento privilegiado" do presente, e o "agora" é apenas um acidente perspectivo do observador. No entanto, mesmo que relatividade nos ofereça um bloco eterno, a termodinâmica aponta para uma assimetria — a entropia crescente — que levanta uma questão incômoda: se o tempo não existe, por que ele parece fluir em uma direção?


McTaggart não precisava responder a isso — seu argumento é puramente lógico —, mas a física sugere que talvez haja mais estrutura no problema do que ambas as abordagens capturam.

Enfim, chegar a uma resposta pode ser apenas uma questão de… tempo.

Continua…