QUANDO SE ENTREGA A CHAVE DO GALINHEIRO ÁS RAPOSAS, PERDE-SE O DIREITO DE RECLAMAR DO SUMIÇO DAS GALINHAS.
Vimos que fé e ciência não são mutuamente excludentes quando mantidas cada qual no seu quadrado — tanto é possível ter fé e não ser religioso quanto seguir uma religião apenas por tradição familiar ou convenção social —, mesmo porque a fé é uma experiência subjetiva e visceral, enquanto a religião funciona como mapa, rito e código social.
Enquanto os dogmas — pontos fundamentais de uma doutrina religiosa — pedem fé inquestionável, a ciência busca evidências e procura comprová-las por meio de experimentos. Em outras palavras: a interpretação literal da Bíblia dá azo ao criacionismo, que ignora o conhecimento científico acumulado nos últimos séculos. Assim, os "fiéis" acreditam piamente, entre outras falácias e delírios, que o mundo e tudo o que nele existe foi criado no ano de 4004 a.C. Aliás, o bispo irlandês James Ussher anotou em "The Annals of the World" que o Criador iniciou a obra exatamente às 9h00 da manhã do dia 23 de outubro daquele ano!
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Todo economista sério conhece a solução: reformas estruturais, cortes de despesas, privatizações, redução drástica do tamanho do Estado. O melhor programa social é o trabalho, e isso depende de um ambiente mais competitivo, com menos burocracia e insegurança jurídica, menores taxas de juros, mão de obra mais qualificada e infraestrutura decente. Investir nisso, no entanto, é intolerável para a esquerda, que vive dos votos dos mais pobres e ignorantes.
A velha imprensa precisa parar de achar que o PT erra tentando acertar. O petismo aposta na desgraça econômica justamente porque ela produz dependência estatal. É por isso que o lulismo sempre promove esse populismo explosivo. Quebrar o país para se manter no poder é a estratégia política da esquerda.
Infelizmente, a alternativa ao quarto mandato do macróbio eneadáctilo continua sendo — pelo menos até o momento — o filho do golpista presidiário. Em 2018 e 2022, a tão sonhada terceira via tentou furar a bolha da polarização, mas não conseguiu. E dificilmente conseguirá desta vez, já que, em vez de se unirem, os demais pré-candidatos guerreiam entre si. A exemplo da récua de muares que atende por eleitorado, os "candidatos alternativos" emulam Pandora a cada eleição. A diferença é que a primeira mulher criada pelos deuses da mitologia grega abriu a caixa que guardava todos os males — doenças, misérias, inveja, ódio e a morte — uma única vez, e o fez movida não pela incompetência, mas pela curiosidade.
Insistir no mesmo erro esperando obter um acerto é a melhor definição de imbecilidade que conheço.
Para a ciência, a evolução das espécies e a formação de estrelas e planetas ocorreram ao longo de 13,8 bilhões de anos. Nosso sistema solar surgiu há 5 bilhões de anos, e a Terra, há 4,54 bilhões de anos. A família dos Hominídeos despontou há 20 milhões de anos, o gênero Homo, há 2,5 milhões de anos, e o Homo sapiens, há 300 mil anos. Não se trata de conjecturas, mas de estimativas baseadas em descobertas arqueológicas e no estudo de ossos e crânios encontrados por paleontólogos.
As religiões deveriam oferecer conforto espiritual e respostas a questões como o propósito e o sentido da vida, mas o literalismo resulta na negação de descobertas científicas como a evolução e o aquecimento global, entre outras questões vitais para o futuro da humanidade.
Antes de chegarem ao papiro, os conceitos contidos nos primeiros textos védicos foram transmitidos oralmente durante séculos e preservados mediante métodos mnemônicos de recitação cruzada, onde cada sílaba tinha uma entonação matemática precisa. Quando esses textos foram finalmente compilados, o mundo viu nascer uma das maiores bibliotecas do pensamento humano.
Lamentavelmente,, a tradição oral védica sobreviveu quase intacta por milênios graças à memória rigorosa, ao passo que os registros físicos foram destruída por incêndios, enchentes e outras catástrofes naturais, ou então se tornaram reféns de governantes despóticos e líderes religiosos mais preocupado com a manutenção do poder institucional do que com a busca da verdade, para quem o conhecimento da plebe ignara era uma ameaça à nova ordem, e destruir os textos era a maneira de "desmemoriar" a população para facilitar a dominação.
Na Índia, a Grande Biblioteca de Nalanda foi queimada no século XII por invasores — reza a lenda que a quantidade de manuscritos era tão vasta que a biblioteca queimou por três meses seguidos. A Biblioteca de Alexandria é, talvez, o símbolo máximo dessa tragédia cultural — uma lenta agonia causada por uma conjunção de fatores, entre os quais os conflitos geopolíticos — que resultaram em sucessivas guerras pelo poder —, o fanatismo e a intolerância.
Com a ascensão do cristianismo como religião oficial do Império Romano, o conhecimento contido em Alexandria foi visto como "pagão" e perigoso — e destruído pela "negligência" de governantes que pararam de financiar os estudiosos e a manutenção dos rolos (sem investimento, os escribas pararam de copiar os textos antigos, e papiro, por ser um material orgânico, apodrece se não for cuidado).
Com o desaparecimento de milhares de rolos, perderam-se as obras completas de Aristarco de Samos — que já propunha o heliocentrismo 1.800 anos antes de Copérnico —, textos de Sófocles, Eurípides e Ésquilo, bem como mapas antigos e registros de navegação que poderiam ter antecipado a era das descobertas em séculos. Foi como se a humanidade tivesse sofrido uma amnésia coletiva: o que os Vedas salvaram através do som, Alexandria perdeu no silêncio das cinzas.
Mas o mais revoltante é que muitos dos que destruíram essas bibliotecas o fizeram em nome de uma "religião", embora certamente carecessem da "fé" que busca a verdade e respeita a criação intelectual. Se um texto antigo oferecia uma visão que não exigia intermediários ou que contrastava com a convenção social estabelecida, era rotulado como herético ou perigoso. Assim, em nome do poder ou de uma suposta "pureza" da fé, variações regionais dos textos foram destruídas com vistas à imposição de uma versão única que servisse ao status quo.
O dano causado pela perda de nossa "infância intelectual" em fogueiras de vaidade e ignorância é tão lamentável quanto irreparável. O pouco que restou foi recuperado por meio da arqueologia e da filologia. No caso dos Vedas, a tradição oral acabou sendo a "nuvem de backup" mais segura da antiguidade: enquanto o papiro queimava e a tinta desbotava, o som e a métrica eram passados de mestre para discípulo, sobrevivendo onde a pedra e o papel falharam.
É ingenuidade achar que o apagamento da memória decorre apenas de causas naturais — na maioria das vezes ele é perpetrado por quem detém o poder —, e o mesmo fenômeno de controle que vitimou Alexandria se repetiu de forma ainda mais insidiosa na sistematização da Bíblia. O que hoje o senso comum aceita como uma unidade indivisível é, em essência, o resultado de uma curadoria política e arbitrária realizada por "religiosos" poderosos, que se autoconcederam o poder de decidir o que era sopro divino e o que era "conhecimento nocivo". A pretexto de proteger os fiéis de heresias, esses editores da fé filtraram a pluralidade das experiências espirituais primitivas e descartaram textos que ofereciam uma visão de transcendência direta, sem a necessidade de pedágios institucionais.
O que foi sacrificado não foram meros pergaminhos, mas a própria liberdade do pensamento em busca do sagrado. Ao canonizar uma versão e demonizar as outras, as lideranças inescrupulosas não só moldaram uma religião; como também criaram um cerco intelectual: aquilo que ia contra o establishment ou empoderava o indivíduo fora das amarras da convenção social foi rotulado como apócrifo e condenado ao esquecimento.
Assim, a "pureza" da fé tornou-se o álibi perfeito para uma das maiores operações de silenciamento da história, garantindo que o mapa nunca fosse maior do que o território permitido pelo palácio. No entanto, quando se entrega às raposas a chave do redil perde-se o direito de reclamar do sumiço das ovelhas.
Continua…