quarta-feira, 22 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE A NATUREZA DO TEMPO

o tempo é lento demais para os que esperam, rápido demais para os que temem, longo demais para os que lamentam, curto demais para os que celebram e eterno para os que amam. 

Para tentar entender a essência do tempo, devemos abandonar a ideia de que o espaço é um “recipiente que contém as coisas” e o tempo é uma linha pela qual os acontecimentos fluem do passado para o presente e deste para o futuro (mais detalhes nesta postagem).

Einstein já havia sugerido que o tempo e o espaço formam um todo único — o “espaço-tempo” — e que o tempo varia conforme a velocidade com que o observador se move e a atração gravitacional que atua sobre ele.

Se não percebemos isso, é porque os relógios que usamos no dia a dia não são precisos o bastante. Mos relógios atômicos dos satélites GPS que orbitam a Terra adiantam 38,4 µs/dia (+45,6 µs/dia por conta da gravidade menor e −7,2 µs/dia graças à velocidade maior), tornando esse efeito mensurável.

Observação: Em velocidades próximas à da luz, a dilatação do tempo se torna extrema — a pouquíssimo menos de "c", um segundo para o viajante equivale a anos para quem ficou na Terra (como bem demonstrado pelo paradoxo dos gêmeos).

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Para entender melhor a teoria da gravidade quântica, é preciso abandonar a ideia segundo a qual existe um gigantesco relógio cósmico que marca o tempo do Universo, mesmo porque um dia é o tempo que a Terra leva para dar uma volta em torno do próprio eixo, e um ano, o tempo que ela leva para dar uma volta completa em torno do Sol. Esse "dia" de 24 horas e esse “ano” de 365 dias e 6 horas só fazem sentido para os terráqueos — em Plutão, por exemplo, a translação leva 248 anos terrestres.

Nosso conceito de tempo é uma convenção que pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Cada objeto do Universo possui um tempo próprio. Se na Terra, em altitudes diferentes, o tempo varia, imagina em Marte ou em Proxima Centauri. Séculos antes de Einstein publicar suas famosas equações relativísticas, Newton já havia dito que não é possível medir o “verdadeiro” tempo, mas, assumir sua existência permitiria descrever vários fenômenos da natureza. Mas na escala quântica o tempo como o conhecemos não funciona.

O espaço é um campo e o Universo é um sem-número de campos quânticos que não habitam o espaço-tempo, já que são o próprio espaço-tempo. Da mesma forma que os fótons se comportam tanto como partículas quanto como ondas, o espaço-tempo é formado por quanta de gravidade, e assim como os fótons medeiam a interação entre as ondas de luz, esse quanta possibilita a interação entre espaço e tempo.

Segundo o físico Carlo Rovelli, o preço conceitual pago para entender a teoria da gravidade quântica em loop é a renúncia à ideia de espaço e tempo como estruturas gerais para enquadrar o mundo. Talvez a dificuldade em entender o conceito se deva ao fato de que é praticamente impossível pensar em um mundo sem tempo e sem espaço, pois essa ideia coloca em xeque a própria realidade — e daí para o niilismo é um pulo. Mas para compreender o mundo pode ser preciso contrariar nossa própria intuição.

Uma das maiores contribuições da gravidade quântica em loop é a visão de mundo que ela oferece: por definir que existe um limite para o espaço e o tempo, a tensão entre a relatividade geral e a mecânica quântica não existe mais. Não é preciso entender o que se passa em um universo infinitamente pequeno, onde as leis de Einstein não se aplicam, mesmo porque os quanta de gravidade eliminam a ideia de espaço contínuo.

Por outro lado, é preciso ter em mente que tanto a teoria da gravidade quântica em loop quanto a teoria das cordas são tentativas de explicar o mundo. Como vários conceitos clássicos da ciência, elas carecem de comprovação experimental, mas nem por isso devem ser subvalorizadas. Vale lembrar que até serem confirmadas (em 2016), as ondas gravitacionais não passavam de especulações, e o mesmo vale para o bóson de Higgs e para as ondas eletromagnéticas.

Na física, quando uma teoria não pode ser comprovada, alternativas continuam sendo avaliadas; teorias são aceitas, ajustadas ou descartadas conforme evidências experimentais. Não se pode afirmar taxativamente que uma teoria seja absolutamente correta ou incorreta, já que não temos acesso a todos os níveis de informação. Mas quanto mais aprendemos de forma interdisciplinar, melhor compreendemos as coisas, e quanto mais desvendamos o mundo, mais descobrimos coisas a desvendar.

Parafraseando Rovelli: a única coisa realmente infinita no Universo é a nossa ignorância.

Continua…