sexta-feira, 17 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A NATUREZA DO TEMPO E A TEORIA DE TUDO

OCULTAR SEU PASSADO É O MESMO QUE FECHAR A JANELA DA SUA VIDA.

Vimos que talvez não seja o tempo que passa por nós, mas nós que passamos por ele como grãos de areia entre as câmaras de uma ampulheta, e que a forma como o sentimos pode ser uma construção da nossa mente. 

Isso fica ainda mais complicado quando deixamos a psicologia e voltamos para o campo da física, já que, em algumas teorias modernas, como a da Gravitação Quântica em Loop, o tempo simplesmente não aparece nas equações fundamentais.

Para compreender isso melhor, tenha em mente a Relatividade Geral, proposta por Einstein no início do século passado, diz respeito aos corpos gigantescos do Universo, como estrelas e planetas, enquanto a mecânica quântica é a base da física nuclear e trata do universo das partículas menores do que os prótons e os elétrons. 

Curiosamente, as equações de Einstein não afrontam a mecânica quântica e vice-versa: ambas coexistem sem se contradizer formalmente, ainda que não se juntem numa teoria unificada, como se a natureza tivesse duas explicações diferentes para seu funcionamento e nenhuma deles estivesse errada. Por outro lado, elas se expressam em idiomas diferentes, ainda que ambas pareçam dizer a verdade. Uma metáfora usada pelo físico italiano Carlo Rovelli compara a natureza a um velho rabino que, consultado por dois homens para resolver uma disputa, deu razão a ambos — e quando sua mulher ponderou que os dois não poderiam ter razão ao mesmo tempo, ele disse que ela também estava certa.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Políticos, quando hesitam em embarcar numa canoa ou ameaçam desembarcar dela, fazem-no porque vislumbram no horizonte a possibilidade de naufrágio. 

Projetos com presumida taxa alta de sucesso atraem adesões por gravidade. Foi assim que a direita aderiu pragmaticamente aos governos do PT, até abandonar o partido no governo Dilma Rousseff 2, e foi assim também que Jair Bolsonaro conseguiu transformar sua inicialmente desacreditada candidatura à Presidência num êxito eleitoral que deu nome a um movimento.

O chamado bolsonarismo, contudo, dá sinais de fragilidade na ausência do chefe. Ao contrário do petismo, que se manteve vivo mesmo com a prisão de Luiz Inácio da Silva, em 2018, e na ausência de postulantes a substitutos a ponto de ir pela quinta vez ao Palácio do Planalto em 2022, a corrente se dispersa sob a administração dos herdeiros.

O atrito com Michelle é só o gesto mais atrativo, do ponto de vista da intriga midiática. Outros menos chamativos têm significado político que indica franca indisposição da direita — seja ela extrema ou moderada — com a candidatura de Flávio Bolsonaro.


Os cientistas apreciam teorias elegantes, simples e funcionais, e talvez por isso essa aparente incompatibilidade entre os dois maiores pilares da física os estimule a buscar um terceiro, que escore ambos os campos de estudo. E é aí que surge a Teoria das Cordas, segundo a qual o mundo quântico é formado por minúsculos filamentos de energia — cordas unidimensionais que, vibrando em diferentes frequências, correspondem a diferentes partículas, assim como as cordas de um violão produzem diferentes notas musicais.


Essa teoria se apresenta como a candidata mais promissora para o papel de conciliadora, pois visa conectar todos os fenômenos naturais sob uma mesma descrição com uma elegância matemática extraordinária. É fato que os detratores dessa teoria torcem o nariz para a ideia de um mundo infinitamente pequeno que comporte as tais cordas. Aliás, esse antagonismo rendeu até briga no seriado The Big Bang Theory —, e que a gravidade quântica em loop dissolve essa tensão, já que não pretende ser uma Teoria de Tudo, e sim entender o Big Bang e o interior dos buracos negros — o que, convenhamos, não é pouco.


Tanto a Teoria das Cordas quanto a Teoria da Gravidade Quântica em Loop são apenas sugestões de visão de mundo. Além de não existir uma tecnologia que permita um tira-teima, a tensão entre os dois tipos de física não existe na Gravidade Quântica em Loop, que combina Relatividade Geral e Mecânica Quântica sem utilizar qualquer outra hipótese além dessas duas teorias devidamente reescritas para se tornarem compatíveis.


A Relatividade Geral sustenta que o espaço não é uma caixa rígida e inerte, como um recipiente em que jogamos as coisas, e sim um campo dinâmico e maleável — um imenso molusco em que estamos imersos, capaz de se comprimir e se retorcer na presença de massa e energia, e através do qual se propagam a luz e as ondas de rádio que chegam aos nossos olhos e ouvidos. Já a mecânica quântica define o universo como uma estrutura granular formada por pequenos pacotinhos (quanta), como os fótons que compõem a luz. A diferença é que os fótons vivem no espaço, enquanto os tais pacotinhos são eles próprios o espaço.


De acordo com o físico italiano o Carlo Rovelli, o espaço como recipiente amorfo das coisas desaparece da física com a gravidade quântica; as coisas (quanta) não habitam o espaço, e sim uma os arredores da outra — o espaço é o tecido de suas relações de vizinhança. Daí se depreende que, numa escala muito pequena, o espaço não é algo contínuo, mas tem como limite o limite dos pacotinhos que o formam.


A física teórica ditou o rumo dos experimentos durante décadas, mas, de um tempo a esta parte, ficou mais difícil apresentar uma nova hipótese que explique de maneira convincente questões que seguem em aberto. A própria história da física mostra que muitas teorias perderam força, enquanto outras foram colocadas de lado e retomadas tempos depois. Um bom exemplo é o Modelo de Huygens, segundo o qual a luz era onda, que foi o mais aceito Einstein explicar o efeito fotoelétrico, segundo o qual a luz se comporta tanto como onda quanto como partícula.


Mesmo tendo perdido um pouco de seu encanto, a Teoria das Cordas continua sendo a base da Teoria M, que busca unificar a Relatividade, que descreve o macrocosmo, e a Física Quântica, que remete ao universo microscópico das partículas subatômicas, bem como acomodar todos os fenômenos conhecidos sob o guarda-chuva de uma estrutura matemática elegante e universal. Mais que uma mudança de paradigma, ela é uma expansão ambiciosa do que entendemos por tempo e espaço, e parte de seu fascínio vem da capacidade de explicar a gravidade dentro de um arcabouço quântico (através de uma hipotética partícula chamada "gráviton").


Observação: Para essa teoria funcionar, é preciso que o universo tenha sete ou oito dimensões além das três espaciais e uma temporal, tão minúsculas que sejam impossíveis de detectar. Não obstante, se essa teoria estiver correta, então o Universo não é apenas mais estranho do que imaginamos, mas mais estranho do que podemos imaginar.


A Teoria das Cordas inclui ingredientes que combinam com descobertas experimentais recentes, como a ideia de que cada partícula tem um “parceiro” supersimétrico. No entanto, a despeito de sua beleza matemática, ela peca pela falta de evidências experimentais à luz da tecnologia atual: além de não termos como medir as dimensões extras, as energias necessárias para testar o modelo em questão estão muito além do alcance de qualquer acelerador de partículas existente ou previsto para os próximos anos.


A evolução dessa teoria abriu espaço para a Teoria M, e conceitos dela derivados vêm influenciando outras áreas da física teórica, como os estudos sobre buracos negros, a holografia e até as redes quânticas. Mesmo sem provas experimentais diretas, as cordas continuam sendo uma das possibilidades mais atraentes da física teórica. Se será testável um dia é uma questão que segue em aberto. Mas experimentos em gravidade quântica, avanços na detecção de partículas e até mesmo observações astronômicas de alta precisão podem fornecer pistas indiretas para confirmar ou refutar aspectos da teoria.


Ao fim e ao cabo, a física é como um farol no mar escuro da ignorância; a Teoria das Cordas pode não ser a luz final, mas ilumina muitos caminhos possíveis.

Continua…