O QUE É MAIS ASSUSTADOR? A IDEIA DE EXTRATERRESTRES EM MUNDOS ESTRANHOS OU A IDEIA DE QUE, EM TODO ESTE IMENSO UNIVERSO, NÓS ESTAMOS SOZINHOS?
Não existem provas cabais da existência de civilizações extraterrestres avançadas, conquanto não faltem relatos, objetos, fotografias, documentos e fenômenos que, ao longo da História, alimentaram a suspeita de que talvez não sejamos os únicos seres inteligentes a olhar para o céu. Mas aqui é preciso manter os pés no chão para não ser colocado dentro de um disco voador.
As Pirâmides de Gizé, Stonehenge, os Moais da Ilha de Páscoa, as Linhas de Nazca e outros monumentos da Antiguidade já foram apresentados como vestígios de uma suposta intervenção extraterrestre. A ideia é sedutora: nossos antepassados teriam recebido ajuda de visitantes vindos das estrelas para construir obras que, à primeira vista, parecem grandes demais, precisas demais ou misteriosas demais para sua época. O problema é que “misterioso” não significa necessariamente “extraterrestre”, sem falar que inexistem evidências arqueológicas aceitas pela comunidade científica de que qualquer dessas construções tenha sido erguida com auxílio de seres de outros mundos. Afirma-se, inclusive, que as sociedades humanas eram perfeitamente capazes de realizar obras monumentais por meio de engenharia, organização social, conhecimento astronômico e, principalmente, uma quantidade impressionante de trabalho humano, mas isso não torna as pirâmides menos extraordinárias — pelo contrário: talvez as torne ainda mais intrigantes.
Igualmente difícil é explicar tapetes voadores e cavernas repletas de tesouros que se abriam por comando de voz — como o célebre Abre-te Sésamo —, até porque aviões e edifícios com portas automáticas só surgiram dali a 4 mil anos. Ou a imaginação dos autores dos Contos das Mil e Uma Noites era mais prodigiosa do que a dos autores de ficção científica contemporâneos, ou suas "fantasias" retratavam coisas que eles já conheciam.
Os deuses das mitologias grega e nórdica habitavam lugares acima das nuvens — o Monte Olimpo e Asgard, respectivamente. Textos cuneiformes dos antigos assírios descrevem divindades vindas das estrelas que viajavam em barcos celestiais. Os deuses dos sumérios eram associados a estrelas e planetas numa época em que sequer se cogitava a existência de sistemas solares, além de serem retratados como seres com estrelas na cabeça ou cavalgando esferas aladas.
Carruagens com rodas cuspindo fogo foram descritas tanto nos apócrifos de Abraão quanto nos de Moisés. Perto de Bagdá, foi descoberto em 1936 um artefato de dois mil anos que experimentos modernos demonstraram ser capaz de gerar mais de 1,4 volts de eletricidade — potência suficiente para eletrodeposição de metais. A arqueologia oficial hesita em confirmar seu uso como bateria, mas a hesitação, ela mesma, é sugestiva.
Textos do Mahabharata descrevem uma arma chamada Brahmastra, cujos efeitos — luz cegante equivalente a dez mil sóis, explosão devastadora, terra que se torna estéril por gerações, cabelos e unhas que caem nos sobreviventes — são suficientemente precisos para que Oppenheimer, ao assistir ao primeiro teste nuclear em 1945, tenha citado espontaneamente o Bhagavadgita. Coincidência literária ou memória de algo que de fato aconteceu?
Não se nega que muitas teorias da conspiração permeiam o assunto, mas algumas proposições contam com defensores ilustres, como o russo Zecharia Sitchin e o britânico Graham Hancock. Mas não é só: com base na obra de Homero, Heinrich Schliemann pavimentou a descoberta de Tróia. No apogeu da civilização maia (entre 250 e 900 d.C.), grandes cidades, pirâmides e praças majestosas foram erguidas em plena floresta tropical do México, da Guatemala e de Belize. Teóricos da conspiração atribuem esse prodígio ora a alienígenas, ora a habitantes do Continente perdido de Atlântida. Em Stonehenge Decoded, o astrônomo Gerald Hawkins estima que a estrutura foi erguida no período neolítico, quando as Ilhas Britânicas eram habitadas por povos considerados atrasados em relação a seus contemporâneos mediterrâneos.
A hipótese extraterrestre parece tão irresistível porque suscita uma questão perfeitamente legítima: talvez o Universo — com suas centenas de bilhões, senão trilhões, de galáxias, cada uma contendo bilhões de estrelas — seja grande demais para a nossa imaginação.
Não se sabe o destino das bibliotecas de Jerusalém e de Pérgamo, nem quantos segredos se perderam com as destruições em massa dos livros históricos, astronômicos e filosóficos ordenadas pelo imperador chinês Shih-Huang, por Hitler e por Mao Tsé-Tung. Um alfarrábio contendo "toda a ciência da antiguidade" foi destruído pelo imperador inca Pachacuti, e milhões de volumes pertencentes a Ptolomeu I Sóter foram incinerados por ordem do Califa Omar. O que se perdeu nessas fogueiras não se sabe, mas sabe-se que a história do conhecimento humano não é uma linha reta ascendente, e sim um arquipélago de ilhas separadas por mares de silêncio.
Estimativas sobre a quantidade total de estrelas e planetas variam enormemente porque dependem de modelos e observações indiretas, mas foi justamente essa imensidão que inspirou uma das frases mais conhecidas associadas a Carl Sagan: “Se somos apenas nós, parece um terrível desperdício de espaço.” A ideia aparece em Contato, embora a formulação tenha raízes mais antigas e Sagan também tenha citado uma reflexão de Thomas Carlyle sobre a possibilidade de outros mundos habitados.
Em suma, a existência de vida fora da Terra não é uma fantasia absurda, mas uma hipótese científica perfeitamente legítima. O problema começa quando saltamos de “é provável que exista vida em algum lugar” para “eles estão aqui” — duas afirmações completamente diferentes.
Observação: O acrônimo UFO, de unidentified flying object, deu lugar, em boa parte do vocabulário oficial americano, a UAP, de unidentified anomalous phenomena. A mudança não é apenas cosmética: UAP é uma categoria mais abrangente e não pressupõe sequer que aquilo observado seja uma aeronave. Mas a explicação oficial continua sendo muito menos emocionante que a imaginada pelos ufólogos: um fenômeno não identificado não é, por definição, um fenômeno extraterrestre.
Durante décadas, muitos relatos foram explicados como aeronaves, balões, fenômenos meteorológicos, efeitos ópticos, erros de percepção, artefatos fotográficos ou outros acontecimentos perfeitamente terrestres. Outros permaneceram sem explicação satisfatória, de modo que a discussão continua viva. E poucos episódios contribuíram tanto para transformar a ufologia moderna em fenômeno cultural quanto o Caso Roswell.
Em julho de 1947, jornais do Novo México noticiaram que militares haviam recuperado, nas proximidades de Roswell, um objeto descrito inicialmente como um “disco voador”. Pouco depois, a versão oficial mudou: os destroços seriam de um balão. Décadas mais tarde, a cidade se transformou no grande símbolo da suposta ocultação de naves e corpos extraterrestres pelo governo americano, ainda que as investigações oficiais posteriores "não tenham encontrado evidências" de uma nave alienígena.
Segundo a Força Aérea americana, os destroços eram compatíveis com um projeto de balão de alta altitude conhecido como Mogul, utilizado para pesquisas e monitoramento. A mesma investigação apontou que os supostos “corpos alienígenas” associados ao caso provavelmente resultaram da mistura de diferentes acontecimentos ocorridos em anos posteriores, inclusive testes com bonecos antropomórficos lançados de balões.
Seja como for, o caso sobreviveu por quase oito décadas, suscitando teorias conspiratórias que misturam segredo militar, documentos desaparecidos, testemunhas tardias, versões conflitantes e supostos encobrimentos, sendo difícil separar o acontecimento original da mitologia construída em torno dele. No entanto, por mais que Roswell seja fascinante, fascínio não constitui prova.
Mais adiante, apareceu a Área 51, que acabou se transformando em uma espécie de parque temático mundial da conspiração. Não há provas de que existam ETs escondidos por lá, mas, se existirem, eles escolheram um lugar bastante apropriado para não receber visitas.
Entre 1947 e 1969, a Força Aérea Americana (USAF) investigou milhares de relatos por meio dos projetos Sign, Grudge e, por fim, do famoso Blue Book. Foram registrados 12.618 avistamentos, dos quais 701 permaneceram classificados como “não identificados” quando o projeto foi encerrado. Parece muita coisa, mas há uma diferença fundamental entre dizer que os relatos permaneceram sem identificação e afirmar que se trata de naves extraterrestres.
O governo não chegou a essa conclusão; ao contrário: sua posição oficial foi que não havia evidência de que os casos classificados como não identificados representassem veículos extraterrestres. E o famoso Relatório Condon, resultado de um estudo conduzido pela Universidade do Colorado — a pedido da própria Força Aérea — também não encontrou base científica suficiente para sustentar a hipótese extraterrestre como explicação para os fenômenos investigados.
Em dezembro de 1969, as investigações foram encerradas, mas o céu continua lá e as pessoas continuam olhando para ele.
Continua...