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sábado, 1 de agosto de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — NOSSO SISTEMA SOLAR

A CIÊNCIA NÃO É APENAS COMPATÍVEL COM A ESPIRITUALIDADE; É UMA FONTE PROFUNDA DE ESPIRITUALIDADE.

Se você integra a legião de cegos mentais que tomam o Velho Testamento por jornalismo confiável e o criacionismo por hipótese plausível para a origem da vida na Terra, você não está sozinho: por algum defeito de fabricação, inúmeras pessoas preferem acreditar em mentiras a enxergar a verdade que desfila diante de seus olhos.

Talvez isso ocorra porque o cérebro humano é extraordinariamente ruim em escala geológica, e 13,8 bilhões de anos é um número cognitivamente inapreensível, ou porque as religiões, mesmo tendo se tornado um pool de máquinas caça-níqueis, oferecem um pseudoconforto espiritual que a cosmologia científica não promete por não ser esse seu papel.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Lula, o autoproclamado Sun-Tzu de Garanhuns, agiu corretamente quando mandou o embaixador Júlio Bitelli de volta à Argentina, sinalizando que o governo brasileiro deseja o retorno da normalidade. Por outro lado, sempre que pede a palavra, sua insolência quase nunca a devolve em boas condições. 

Na semana passada, ao falar sobre o maior conflito armado da história da América do Sul, o vocalista do grupo de pagode Fala Merda reescreveu a história numa comentário infeliz, errôneo e desnecessária, no qual afirmou que o Paraguai "invadiu" o Brasil, o Uruguai e a Argentina. 

A fala foi Infeliz porque remexeu numa ferida aberta — para os paraguaios, o Brasil cometeu genocídio na guerra; numa conta conservadora, a historiografia estima as perdas paraguaias entre 150 mil e 300 mil mortos. Foi errônea porque o Paraguai jamais invadiu o Uruguai: no episódio que antecedeu a guerra, foi o Império do Brasil que invadiu o Uruguai para evitar que o beligerante ditador paraguaio, Solano López, tutelasse aquele país. E foi desnecessária porque produziu uma tensão que serviu apenas para criar uma encrenca diplomática com o Paraguai num instante em que o Itamaraty já administra a intromissão do presidente argentino na eleição brasileira. 

A despeito dos três mandatos nas costas, o macróbio eneadáctilo ainda não aprendeu que pior do que uma crise são duas crises.


Pode-se argumentar que abraçar o criacionismo (ou outra religião qualquer) não é uma posição epistemológica, e sim uma identidade cultural e tribal. E muito embora o valor da Bíblia como literatura, mitologia e registro cultural seja indiscutível, tratar textos do século 10 a.C. como cosmologia literal, ignorando evidências convergentes de física, biologia, geologia e astronomia, é sinônimo de analfabetismo científico com consequências práticas — mas, de novo, argumentar com que renunciou à lógica é o mesmo que medicar defunto.

Prova disso é que, a despeito de o modelo cosmológico mais aceito estimar a idade do Universo em 13,8 bilhões de anos, não faltam apedeutas negacionistas que compram a versão do arcebispo irlandês James Ussher, segundo a qual Deus iniciou à criação do mundo e tudo que nele existe às 9h00 de 23 de outubro de 4004 a.C., viu que "tudo era bom" e deu os trabalhos por encerrados no sétimo dia, quando então descansou (!?)

Em tese, vivemos num país livre, onde cada um pode acreditar no que bem entender, da absolvição de Lula — que não passou da anulação dos processos devida a uma tecnicidade territorial — à inocência de Bolsonaro — tanto do pai golpista quanto dos filhos "cineastas" — e mais um sem-número de falácias sem pé nem cabeça. Por outro lado, negar evidências não muda os fatos. As coisas são como são — e não como gostaríamos que fossem — e mentiras não deixam de ser mentiras porque as pessoas acreditam nelas.

Passando ao que interessa, nosso sistema solar é um fascinante conjunto de objetos celestes (planetas, satélites, asteróides, meteoros etc.) interligados pela força da gravidade, tendo o Sol como seu centro. (0:10). Ele se formou há 5 bilhões de anos, e a Terra, cerca de 500 milhões de anos depois. Dito isso, quando o deus do arcebispo Ussher supostamente criou o mundo… enfim, fé e ciência não são mutuamente excludentes quando a esfera de cada uma é respeitada.

Embora não devamos subestimar a importância da Bíblia nem negar a enorme influência cultural do Gênesis, devemos mantê-los dentro de seu contexto histórico e mitológico, e não interpretá-los como revelações científicas sobre a criação do mundo. Assim, tomar os textos bíblicos por evidências factuais é ignorar séculos de progresso científico — como bem disse o pintor grego Apeles, não vá o sapateiro além das sandálias.

O literalismo religioso alimenta a negação de descobertas amplamente aceitas e mina o avanço em questões vitais ao futuro da humanidade. No tempo das cavernas, tempestades, terremotos, eclipses e outros fenômenos naturais eram atribuídos a forças sobrenaturais, e esse misticismo deu origem às religiões. Todavia, embora a fé e religião andem de mãos dadas, tanto é possível ter fé e não ser religioso como seguir uma religião simplesmente por tradição familiar ou convenção social.

Compete às religiões oferecer conforto espiritual, respostas a questões como o propósito e o sentido da vida e "religar" o homem a Deus. No entanto, em vez de levarem à unidade, ao amor e ao bem de todos, elas foram deturpadas para servir a interesses escusos daqueles que detêm o poder e o utilizam na manipulação de seus semelhantes. A possibilidade de existir um ente superior é plausível, mas como acreditar em um deus criador que concede livre-arbítrio às criaturas se ele promete recompensar os bons com a vida eterna num paraíso celestial e punir os maus com o fogo eterno num inferno comandado por um anjo caído?

As religiões perderam muito da empatia que tinham nos tempos de antanho e deitaram suas raízes nos comportamentos evolutivos fundamentais. Assim como os vaga-lumes, elas precisam da escuridão para brilhar, e são úteis para os poderosos, que lhes dão ares de verdade para ludibriar os menos esclarecidos. Enquanto sua rigidez tende a perpetuar tradições e práticas que raramente resistem ao questionamento crítico, a fé que resulta de experiências empíricas leva as pessoas a crer em algo sem que isso lhes seja enfiado goela abaixo por dogmas. Essa flexibilidade faz com que a fé se adapte aos valores e interpretações de cada um, tornando sua relação com a religião ainda mais intrigante quando a natureza da divindade é questionada — aliás, dizem que Deus criou a fé e o amor, e o diabo, invejoso, as religiões e o casamento.

Aristóteles ensinou que o sábio duvida e o sensato reflete. Toda religião é a verdade absoluta para quem a professa, mas não passa de mera fantasia para os devotos das outras seitas. No entanto, qualquer pessoa minimamente esclarecida deveria refutar a ideia de passar a eternidade tocando harpa numa nuvem ou assando lentamente num espeto. Mesmo assim, em pleno século XXI, algumas doutrinas claramente inverossímeis têm hostes de seguidores que pegam em lanças para defender seus rituais e liturgias.

No Mito da Caverna, Platão ensina que a sabedoria e o conhecimento estão além das aparências superficiais, e que só a reflexão crítica leva à compreensão das nossas convicções e das narrativas que escolhemos abraçar. Infelizmente, pode-se levar um burro até o regato, mas não se pode obrigá-lo a beber.

Continua…

sábado, 25 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — DAS CAVERNAS ÀS ESTRELAS

PER ASPERA AD ASTRA.


Segundo os criacionistas, religiosos e outros que abdicaram do bom-senso, Deus criou o mundo e tudo que nele existe em seis dias e descansou no sétimo. De acordo com o arcebispo irlandês James Ussher e seu contemporâneo John Lightfoot, o Criador iniciou os trabalhos às 9h00 de 23 de outubro de 4004 a.C.


À luz da ciência, o Universo surgiu a partir de uma hipotética singularidade há 13,8 bilhões de anos; nosso sistema solar e o planeta Terra se formaram há 4,6 bilhões de anos; a família dos Hominídeos (que inclui os humanos e os grandes símios) divergiu das demais há 20 milhões de anos; o gênero Homo surgiu há 2,5 milhões de anos; e o Homo Sapiens evoluiu do Homo Erectus há 300 mil anos. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A privatização de serviços públicos tornou-se um tema incontornável da agenda eleitoral de São Paulo. Quando o problema era a falta de luz, o governador culpou as árvores, a concessionária Enel e o governo federal; na hora em que reparos da Sabesp resultam em explosões de tubulações de gás e vagões de trens são convertidos em sucursais do inferno, começa a enxergar um culpado no reflexo do espelho.

Há três dias, a empresa Trivia Trens assumiu a operação de três linhas antes operadas pela CPTM, e desde então inferniza a rotina de cerca de 1 milhão de passageiros que transitam diariamente pelos vagões que seriam administrados com maior eficiência. Nesta quinta-feira, a encrenca evoluiu para o caos, com incêndio, falta de luz e interrupção do serviço.

Há três semanas, a autocrítica disse "bom dia" a Tarcísio de Freitas, apresentando o governador de São Paulo a si mesmo. Aconteceu numa conversa com jornalistas, após a inauguração de uma estação de metrô. Privatista ardoroso, Tarcísio descartou promover novas concessões de transportes sobre trilhos à iniciativa privada.

"Já parou para pensar quantas vezes eu já mudei de opinião?", perguntou o governador. "A gente não concede algo por conceder". 

Tarcísio parece viver a síndrome do que está por vir na campanha. É como se intuísse que as privatizações mal planejadas viraram um vistoso passivo de sua campanha à reeleição. O problema da autocrítica é que ela costuma chegar tarde.


Argumentar com que abriu mão da lógica, como os cegos mentais do escritor português José Saramago, é tão inútil quando medicar um defunto, mas vamos lá:


— O Göbekli Tepe — monumento na Turquia é considerado o templo mais antigo do mundo — foi erguido há mais de 11 mil anos


— As Muralhas de Jericó, que remontam mais ou menos à mesma época, figuram como uma das primeiras proezas de engenharia militar e proteção civil do mundo. 


— Troncos deliberadamente entalhados e encaixados para formar plataformas e passarelas antecedem ao surgimento do próprio Homo sapiens. 


— Marcas artísticas encontradas na Espanha datam de 60 mil anos, e pinturas rupestres representando o cotidiano das cavernas há 50 mil anos. reafirmam as habilidades avançadas de marcenaria na Idade da Pedra. 


— Desenhos de animais na Caverna de Chauvet (França), feitos há 36 mil anos, denotam a. pareceria do Homo Sapiens com os ancestrais dos cães. 


— Adornos e colares descobertos no sítio arqueológico de Santa Elina, em Mato Grosso, têm aproximadamente 25 mil anos, e instrumentos musicais feitos com ossos de abutre e marfim de mamutes, encontrados na caverna de Hohle Fels, na Alemanha, indicam o desenvolvimento da teoria musical e do pensamento complexo abstrato no período Paleolítico.


— Os fragmentos de cerâmica mais antigos conhecidos, com cerca de 20 mil anos, pertencem à caverna Xianrendong, na China, comprovam que os vasos eram modelados e cozidos para armazenar alimentos e ferver água muito antes do início da agricultura estável. 


— Embarcações como as que propiciaram a chegada dos seres humanos à Austrália cruzaram milhares de quilômetros de oceano aberto a partir do Sudeste Asiático, demonstrando que nossos ancestrais tinham conhecimentos rudimentares, de logística e astronomia.


E por aí segue a procissão.


Enquanto o dogma se alimenta da rigidez, a ciência avança justamente por duvidar, por questionar o que hoje parece sólido. Como nos lembram Platão, no Mito da Caverna, Aristóteles, com o axioma "o sábio duvida e o sensato reflete", e a própria ciência, só a dúvida e a revisão constante nos libertam das sombras. 


O que enfraquece a ciência não é a dúvida, mas a arrogância das certezas definitivas. E é justamente essa maleabilidade que a torna tão poderosa — e tão diferente dos discursos religiosos que prometem respostas eternas.


Voltando ao Big Bang, ao surgimento do cosmos e a formação do nosso sistema solar, o universo observável se estende em todas as direções por 42 bilhões de anos-luz (cerca de 397 quatrilhões de quilômetros), e a combinação de seus prótons, elétrons, nêutrons, fótons etc. deu origem a tudo o que existe, de um singelo grão de areia até estrelas e seres vivos. Aliás, o total de grãos de areia de todas as praias da Terra é estimada em 10ˆ22 (ou 10 sextilhões, no sistema de numeração curta usado no Brasil). O cosmos é comparável a uma "colcha" formada por 2ˆ10ˆ118 de "retalhos" (em números ordinários, seriam mais de 30 bilhões de algarismos), cada qual com suas próprias leis físicas, constantes específicas, e cerca de 1 quatrigintilhão (10ˆ105) de partículas subatômicas. 


Físicos renomados sustentam que uma espaçonave singrando o cosmos em linha reta por zilhões de anos acabaria numa galáxia semelhante à nossa, com um sistema solar igual ao nosso e um planeta idêntico à Terra. Não se trata de uma simples possibilidade, como a do teorema do macaco infinito, mas de uma imposição matemática num Universo infinito com combinações finitas de partículas. 


Se nosso hipotético cosmonauta deparasse com um planeta igual ao nosso num universo paralelo, encontraria um clone dele próprio morando numa casa igual à sua, cercado por clones de seus familiares, trabalhando com clones de seus colegas e bebendo com eles em happy hours — tudo isso a 10ˆ10ˆ115 de anos-luz daqui. Para dar uma ideia dessa distância, a Terra fica a 26.000 anos-luz (cerca de 244 quatrilhões de quilômetros) do centro da Via Láctea.

 

Matematicamente falando, é provável que a espaçonave deparasse com uma série de universos paralelos onde as partículas não geraram vida — ou geraram, mas nem remotamente parecido com a vida que existe na Terra. E talvez os "terráqueos" de um desses universos tenham encontrado a cura do câncer, ou Hitler tenha vencido a 2ª Guerra Mundial, dependendo das configurações possíveis das partículas que formam esse universo, mesmo porque, num cosmos grande o suficiente, a existência infinitos clones de nós ou de versões distorcidas de tudo que conhecemos se torna uma certeza.


À luz da física clássica, nada com massa pode se mover à velocidade da luz (sem trocadilho), de modo que talvez jamais encontraremos nossos clones ou versões alternativas da história. Isso sem mencionar que a distância entre o "retalho" que habitamos e o próximo "retalho da colcha cósmica" aumenta conforme o universo se expande, e que as galáxias mais distantes que nossos telescópios conseguem observar ficam nos confins do "nosso retalho".


Se o cosmos não se expandisse, as estrelas mais vetustas distariam pouco menos de 13,8 bilhões de anos-luz da Terra, mas na verdade elas estão a mais de 40 bilhões de anos-luz e continuam se afastando numa velocidade superluminal. Mas como não enxergamos nada além do limite do "nosso retalho", a luz que elas emitem jamais será captada pelos nossos telescópios.

 

Ironicamente, as leis que governam o cosmos são permissivas a ponto de suportar a tese de "mundos paralelos" habitados por clones nossos, mas implacáveis a ponto de mantê-los fora de nosso alcance. E a suprema ironia é que, do ponto de vista do meu clone, que está escrevendo este texto, ou do seu, que o está lendo em outro "retalho", quem está fora de alcance somos nós.


Continua… 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE OVNIs UAPs E AFINS

AUSÊNCIA DE EVIDÊNCIA NÃO É EVIDÊNCIA DE AUSÊNCIA. 

No entendimento de Newton, "o tempo absoluto, verdadeiro e matemático, sem relação a nada de exterior, escoa uniformemente e se chama duração". Kant, por seu turno, via o tempo como a estrutura pela qual percebemos nossos próprios estados mentais. Já segundo as equações relativísticas de Einstein, tempo e espaço formam uma única estrutura, e a dilatação do tempo decorre tanto da velocidade quanto da gravidade.

Sectários das religiões abraâmicas e criacionistas acreditam no Gênesis e no bispo irlandês James Ussher, segundo os quais Deus criou o mundo e tudo que nele existe em sete dias contados a partir das 9h da manhã de 23 de outubro de 4004 a.C. 

Dar por verdadeiras essas bobagens em pleno século XXI é tão ridículo quanto acreditar que a Terra é plana — mas Saramago não disse que a pior cegueira é a mental, e Einstein, que o Universo e a estupidez humana são infinitos? 

De acordo com o modelo cosmológico padrão, que é a melhor explicação científica disponível para o surgimento do cosmos, tudo começou com o Big Bang há 13,8 bilhões de anos. A partir de então, o Universo vem se expandindo em todas as direções — pelas estimativas mais recentes, essa "bolha" tem 46.5 bilhões de anos-luz de raio (cerca de 440 sextilhões de quilômetros).

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Quando disse que os idiotas dominariam o mundo (não pela capacidade, mas pela quantidade), Nelson Rodrigues esqueceu que boa parte dele pertence ao imprestáveis. Falando nessa escumalha, Dudu "Bananinha" Bolsonaro virou réu por articular sanções dos Estados Unidos para intimidar ministros do Supremo e está na bica de ser condenado. 

O julgamento vai revirar um baú que inclui a revogação dos vistos de oito togas, as sanções da Lei Magnitsky e o tarifaço de 50% de Trump contra exportações do Brasil, revogado posteriormente, e a condenação vai doer na campanha do irmão mais velho, cuja visita à Casa Branca levou a calopsita alaranjada a ameaçar o Brasil com novo tarifaço. 

Nada é certo neste mundo, a não ser a mania do clã Bolsonaro de morder qualquer desejo sem antes se certificar de que não tem um anzol oculto. A família do mito digere tudo o que vem de Trump, das iscas aos anzóis, mesmo sabendo que não vão lhes fazer bem. 

Ainda sobre imprestáveis, a calopsita alaranjada enfrenta a crise dos 'Três Ps'. Faltam-lhe paz, prudência e popularidade. EUA e Irã anunciaram ter chegado a um acordo preliminar a ser assinado nesta sexta-feira, mas nem por isso o conflito desaparecerá no Oriente Médio, a sensatez brilhará em Washington e o alarme da impopularidade será desligado na Casa Branca.

A obscuridade é denunciada pela ausência de detalhes. Seria arriscado descartar imprevistos até o momento da assinatura, e ainda mais temerário desconsiderar o risco de novo curto-circuito nos 60 dias previstos para o arremate do acordo.

A precariedade do arranjo foi realçada por Israel ao realizar na segunda-feira novo ataque contra o Líbano. Netanyahu está preso aos compromissos de Trump por grilhões de barbante, e o acerto é incerto, de resto, porque o Irã não parece disposto a erradicar seu programa nuclear — principal pretexto para o início da guerra.

Seduzido por Netanyahu, o chefe da Casa Branca arrastou os Estados Unidos para a guerra imaginando que conquistaria o troféu de uma mudança de regime no Irã. Descobriu que há males que vêm para pior. O assassinato do aiatolá Ali Khamenei deflagrou uma transição da teocracia sanguinolenta para o poder militarizado, submetido às conveniências da temível Guarda Revolucionária.


Se comprimíssemos toda a história do Universo em um único ano — o famoso "calendário cósmico" de Carl Sagan —, toda a história humana registrada caberia nos últimos 10 segundos do dia 31 de dezembro. Considerando que a vida humana média é de 80 anos, isso representa uma proporção de aproximadamente 1 para 170 milhões em relação à idade do Universo — daí o tempo astronômico ser incomensuravelmente maior do que aquele que experimentamos no cotidiano.

Nosso sistema solar se formou há cerca de 5 bilhões de anos, e a Terra, aproximadamente 500 milhões de anos depois. Os dinossauros foram extintos há cerca de 66 milhões de anos, no limite entre os períodos Cretáceo e Paleogeno, provavelmente em consequência do impacto de um asteroide na região do atual México (cratera de Chicxulub).

Falamos em milhões, bilhões e trilhões com a naturalidade de quem não tem a menor ideia do que essas grandezas significam. A título de contextualização, 66 milhões de anos correspondem a aproximadamente 2 quatrilhões de segundos. Como contar em voz alta de zero a um milhão demoraria cerca de 23 dias, chegar a um bilhão levaria entre 153 e 230 anos — a estimativa varia porque, embora um bilhão de segundos corresponda a pouco mais de 31 anos, os números se tornam progressivamente mais longos de pronunciar, além do que as pessoas precisam dormir, comer e satisfazer outras necessidades fisiológicas, e isso limitaria a contagem a cerca de 16 horas por dia.

A Solar Parker Probe — sonda espacial mais veloz já lançada pela NASA — alcançou 692 mil km/h (cerca de 0,064% da velocidade da luz) no final de 2024, impulsionada pela gravidade solar. Vale destacar que a luz se propaga no vácuo a aproximadamente 300 mil km/s, e que essa é a velocidade limite no Universo — segundo Einstein, nada contendo massa pode atingir essa velocidade, pois, à medida que um objeto acelera, sua massa aumenta, tendendo ao infinito conforme se aproxima da velocidade da luz. 

Ainda assim, a velocidade da sonda retrocitada permitiria ir da Terra a Netuno em menos de 9 meses — uma façanha notável, considerando que a Voyager II demorou 12 anos e a New Horizons, 8,5 anos para percorrer distâncias comparáveis.

Concluída esta introdução, a pergunta que se impõe é: se os demais planetas do nosso sistema solar e suas respectivas luas são inabitados, como explicar os avistamentos de UAPs (Unidentified Aerial Phenomena) que não podem ser catalogados como balões meteorológicos, drones, ilusões de óptica ou projetos secretos desenvolvidos pelos EUA, Rússia ou China?

Continua…

segunda-feira, 15 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — DOGMAS VERSUS CIÊNCIA

QUANDO SE ENTREGA A CHAVE DO GALINHEIRO ÁS RAPOSAS, PERDE-SE O DIREITO DE RECLAMAR DO SUMIÇO DAS GALINHAS.

Vimos que fé e ciência não são mutuamente excludentes quando mantidas cada qual no seu quadrado. 
Enquanto os dogmas pedem fé inquestionável, a ciência busca evidências e procura comprová-las por meio de experimentos. A interpretação literal da Bíblia alimenta o criacionismo, que ignora o conhecimento acumulado nos últimos séculos. Assim, os "fiéis" acreditam — entre outras falácias e delírios — que Deus iniciou a criação do mundo e de tudo o que nele existe às 9h00 da manhã do dia 23 de outubro de 4004 a.C. conforme o bispo irlandês James Ussher anotou em "The Annals of the World".

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Todo economista sério conhece a solução: reformas estruturais, cortes de despesas, privatizações, redução drástica do tamanho do Estado. O melhor programa social é o trabalho, e isso depende de um ambiente mais competitivo, com menos burocracia e insegurança jurídica, menores taxas de juros, mão de obra mais qualificada e infraestrutura decente. Investir nisso, no entanto, é intolerável para a esquerda, que vive dos votos dos mais pobres e ignorantes.

A velha imprensa precisa parar de achar que o PT erra tentando acertar. O petismo aposta na desgraça econômica justamente porque ela produz dependência estatal. É por isso que o lulismo sempre promove esse populismo explosivo. Quebrar o país para se manter no poder é a estratégia política da esquerda.

Infelizmente, a alternativa ao quarto mandato do macróbio eneadáctilo continua sendo — pelo menos até o momento — o filho do golpista presidiário. Em 2018 e 2022, a tão sonhada terceira via tentou furar a bolha da polarização, mas não conseguiu. E dificilmente conseguirá desta vez, já que, em vez de se unirem, os demais pré-candidatos guerreiam entre si. A exemplo da récua de muares que atende por eleitorado, os "candidatos alternativos" emulam Pandora a cada eleição. A diferença é que a primeira mulher criada pelos deuses da mitologia grega abriu a caixa que guardava todos os males — doenças, misérias, inveja, ódio e a morte — uma única vez, e o fez movida não pela incompetência, mas pela curiosidade.

Insistir no mesmo erro esperando obter um acerto é a melhor definição de imbecilidade que conheço.


Para a ciência, a evolução das espécies e a formação de estrelas e planetas ocorreram ao longo de 13,8 bilhões de anos. Nosso sistema solar surgiu há 5 bilhões de anos, e a Terra, há 4,54 bilhões de anos. A família dos Hominídeos despontou há 20 milhões de anos, o gênero Homo, há 2,5 milhões de anos, e o Homo sapiens, há 300 mil anos. Não se trata de conjecturas, mas de estimativas baseadas em descobertas arqueológicas e no estudo de ossos e crânios encontrados por paleontólogos.

As religiões deveriam oferecer conforto espiritual e respostas a questões como o propósito e o sentido da vida, mas o literalismo resulta na negação de descobertas científicas como a evolução e o aquecimento global, entre outras questões vitais para o futuro da humanidade.

Antes de chegarem ao papiro, os conceitos contidos nos primeiros textos védicos foram transmitidos oralmente durante séculos e preservados mediante métodos mnemônicos de recitação cruzada, onde cada sílaba tinha uma entonação matemática precisa. Quando esses textos foram finalmente compilados, o mundo viu nascer uma das maiores bibliotecas do pensamento humano.

Lamentavelmente,, a tradição oral védica sobreviveu quase intacta por milênios graças à memória rigorosa, ao passo que os registros físicos foram destruída por incêndios, enchentes e outras catástrofes naturais, ou então se tornaram reféns de governantes despóticos e líderes religiosos mais preocupado com a manutenção do poder institucional do que com a busca da verdade, para quem o conhecimento da plebe ignara era uma ameaça à nova ordem, e destruir os textos era a maneira de "desmemoriar" a população para facilitar a dominação.

Na Índia, a Grande Biblioteca de Nalanda foi queimada no século XII por invasores — reza a lenda que a quantidade de manuscritos era tão vasta que a biblioteca queimou por três meses seguidos. A Biblioteca de Alexandria é, talvez, o símbolo máximo dessa tragédia cultural — uma lenta agonia causada por uma conjunção de fatores, entre os quais os conflitos geopolíticos — que resultaram em sucessivas guerras pelo poder —, o fanatismo e a intolerância.

Com a ascensão do cristianismo como religião oficial do Império Romano, o conhecimento contido em Alexandria foi visto como "pagão" e perigoso — e destruído pela "negligência" de governantes que pararam de financiar os estudiosos e a manutenção dos rolos (sem investimento, os escribas pararam de copiar os textos antigos, e papiro, por ser um material orgânico, apodrece se não for cuidado).

Com o desaparecimento de milhares de rolos, perderam-se as obras completas de Aristarco de Samos — que já propunha o heliocentrismo 1.800 anos antes de Copérnico —, textos de Sófocles, Eurípides e Ésquilo, bem como mapas antigos e registros de navegação que poderiam ter antecipado a era das descobertas em séculos. Foi como se a humanidade tivesse sofrido uma amnésia coletiva: o que os Vedas salvaram através do som, Alexandria perdeu no silêncio das cinzas.

Mas o mais revoltante é que muitos dos que destruíram essas bibliotecas o fizeram em nome de uma "religião", embora certamente carecessem da "fé" que busca a verdade e respeita a criação intelectual. Se um texto antigo oferecia uma visão que não exigia intermediários ou que contrastava com a convenção social estabelecida, era rotulado como herético ou perigoso. Assim, em nome do poder ou de uma suposta "pureza" da fé, variações regionais dos textos foram destruídas com vistas à imposição de uma versão única que servisse ao status quo.

O dano causado pela perda de nossa "infância intelectual" em fogueiras de vaidade e ignorância é tão lamentável quanto irreparável. O pouco que restou foi recuperado por meio da arqueologia e da filologia. No caso dos Vedas, a tradição oral acabou sendo a "nuvem de backup" mais segura da antiguidade: enquanto o papiro queimava e a tinta desbotava, o som e a métrica eram passados de mestre para discípulo, sobrevivendo onde a pedra e o papel falharam.

É ingenuidade achar que o apagamento da memória decorre apenas de causas naturais — na maioria das vezes ele é perpetrado por quem detém o poder —, e o mesmo fenômeno de controle que vitimou Alexandria se repetiu de forma ainda mais insidiosa na sistematização da Bíblia. O que hoje o senso comum aceita como uma unidade indivisível é, em essência, o resultado de uma curadoria política e arbitrária realizada por "religiosos" poderosos, que se autoconcederam o poder de decidir o que era sopro divino e o que era "conhecimento nocivo". A pretexto de proteger os fiéis de heresias, esses editores da fé filtraram a pluralidade das experiências espirituais primitivas e descartaram textos que ofereciam uma visão de transcendência direta, sem a necessidade de pedágios institucionais.

O que foi sacrificado não foram meros pergaminhos, mas a própria liberdade do pensamento em busca do sagrado. Ao canonizar uma versão e demonizar as outras, as lideranças inescrupulosas não só moldaram uma religião; como também criaram um cerco intelectual: aquilo que ia contra o establishment ou empoderava o indivíduo fora das amarras da convenção social foi rotulado como apócrifo e condenado ao esquecimento. 

Assim, a "pureza" da fé tornou-se o álibi perfeito para uma das maiores operações de silenciamento da história, garantindo que o mapa nunca fosse maior do que o território permitido pelo palácio. No entanto, quando se entrega às raposas a chave do redil perde-se o direito de reclamar do sumiço das ovelhas.


Continua…

sexta-feira, 12 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — O ANTIGO TESTAMENTO E OS CONTOS DA CAROCHINHA

NEM TODO ARGUMENTO INTERESSANTE É CONVINCENTE.

A despeito de a literatura bíblica não ser jornalismo nem registrar os fatos em tempo real, criacionistas e seguidores das religiões abraâmicas sustentam que Deus criou o mundo e tudo o que nele existe em seis dias e descansou no sétimo. O arcebispo irlandês James Ussher, autor de The Annals of the World, o Criador teria iniciado os trabalhos às 9h da manhã de 23 de outubro de 4004 a.C.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

O ministro Edson Fachin informou na última segunda-feira que funcionará até novembro o grupo de trabalho constituído por ele no Conselho Nacional de Justiça para discutir a encrenca dos super salários no Judiciário.

Em decisão controversa, o Supremo havia determinado que nenhum juiz poderia receber mais do que R$ 78,8 mil, mas manteve os super salários inconstitucionais transitoriamente permitidos, até que o Congresso legislasse acerca do tema. Como os parlamentares deram de ombros, surge agora o grupo de trabalho de Fachin — lembrando que, na administração pública, grupo de trabalho é um conjunto de pessoas nomeadas por uma autoridade para protelar a resolução de um problema grave. 

Flávio Dino chamou as perversões salariais do Judiciário de "Império dos penduricalhos", e Gilmar Mendes disse que o teto de R$ 46,3 mil mensais "virou piso, e um piso muito ordinário." Embalado pela inação do Congresso, o grupo de trabalho do CNJ dá ao que é ordinário uma aparência de extraordinária normalidade.


O Velho Testamento é um conjunto de lendas, mitos e tradições culturais transmitidos oralmente por várias gerações até por volta de 1200 a.C., quando foram compilados supostamente por Moisés, a quem se atribui a autoria do Pentateuco. O primeiro livro da Bíblia judaico-cristã começa com a palavra bereshit (“no princípio”, em hebraico) e narra a origem da vida, do mundo e do povo que o líder dos judeus errantes teria guiado pessoalmente pelo deserto do Sinai até a terra que Jeová supostamente prometera a Abraão e seus descendentes.

A certa altura, o líder dos judeus errantes estendeu seu cajado e o Mar Vermelho se abriu, permitindo que ele e seu povo o atravessassem — para, em seguida, fechar-se sobre os soldados egípcios que os perseguiam. Em outro momento, instruído a falar com uma rocha para que dela brotasse água, Moisés bateu nela com o cajado e atribuiu a si próprio a autoria do milagre. Como castigo pela desobediência, o deus rancoroso e vingativo do Velho Testamento permitiu que ele avistasse Canaã do alto do Monte Nebo (na atual Jordânia), mas o proibiu de nela entrar.


Embora dominasse os segredos das águas, o velho Moishe não fez bom uso do GPS que Jeová supostamente lhe forneceu: vagou pelo deserto do Sinai durante 40 anos para percorrer cerca de 600 km até Canaã. Ainda segundo a narrativa bíblica, ele morreu aos 120 anos, e Josué assumiu a liderança dos hebreus pelo restante da jornada.


Delírios e fantasias à parte, nosso Universo tem 13,78 bilhões de anos, e a Terra, 4,5 bilhões de anosOs primeiros microrganismos surgiram há cerca de 3,5 bilhões de anos, os primatas, há 65 milhões de anos, e os primeiros hominídeos, há 20 milhões de anos. A separação entre os ramos que levaram aos humanos e aos chimpanzés ocorreu entre 6 e 8 milhões de anos atrás. O gênero Homo surgiu há cerca de 2,5 milhões de anos. O Homo Sapiens evoluiu do Homo Erectus há 300 mil anos, e o Sahelanthropus Tchadensis foi o precursor de uma linhagem de primatas iniciada pelo Orrorin tugenensis, que foi o primeiro hominídeo bípede.

O cosmo inteiro foi construído com os mesmos “tijolos”: átomos de hidrogênio que se agregaram para formar estrelas — e estas, ao explodirem, deram origem a elementos mais pesados. Apesar da diversidade de planetas em nosso sistema solar, seus vulcões, oceanos e planícies são compostos pelos mesmos materiais básicos que formam a Terra. Por razões que a ciência ainda não conseguiu explicar plenamente, a combinação desses elementos inertes deu origem a bactérias, protozoários e organismos mais complexos, que, mais adiante, evoluíram para plantas e animais.

Uma hipótese chamada panspermia (do grego: “sementes em todo lugar”) propõe que micro-organismos — ou seus precursores químicos — poderiam viajar pelo espaço em asteroides, cometas ou meteoros, “semeando” a vida em planetas com condições favoráveis. A ideia possui variantes e um respaldo científico moderado: não é consenso, mas também não é fringe science. No caso da Terra, isso poderia ter ocorrido há cerca de 3,5 bilhões de anos.

A pergunta que se impõe é: se a vida veio de outro lugar, como surgiu lá, e como eventuais micro-organismos sobreviveriam a milhões de anos no espaço, à radiação, ao calor da entrada na atmosfera e ao impacto contra o solo?

O cenário mais aceito é o de que o espaço tenha fornecido ingredientes químicos essenciais para a vida (uma versão mais moderada da hipótese), porém uma versão mais ousada — que ainda carece de evidência definitiva — sustenta a chegada de organismos vivos em meteoritos.

Em favor dessa hipótese, a NASA identificou, em 1996, estruturas no meteorito marciano ALH84001 que alguns cientistas interpretaram como possíveis microfósseis. O debate permanece aberto, mas a descoberta demonstrou que rochas marcianas chegaram à Terra. O meteorito de Murchison (Austrália, 1969) continha mais de 90 aminoácidos, incluindo alguns presentes na biologia terrestre. Açúcares, bases nitrogenadas do DNA e até estruturas semelhantes a membranas lipídicas também já foram encontrados em meteoritos.

Resumo da ópera: a abiogênese terrestre é uma hipótese plausível — experimentos como o de Miller-Urey (1953) demonstram que moléculas orgânicas complexas podem surgir espontaneamente em condições primitivas —, e a panspermia permanece como possibilidade científica legítima. A conferir...

Continua…

quinta-feira, 4 de junho de 2026

DESCOBERTOS 27 NOVOS EXOPLANETAS POTENCIALMENTE CIRCUMBINÁRIOS

QUEM PROCURA ACHA E QUEM INSISTE ACHA MAIS DEPRESSA.

De acordo com o Gênesis, Deus criou o mundo e o que mais nele existe em seis dias, viu que tudo era bom (!?) e descansou no sétimo — melhor faria o Senhor das Esferas se aproveitasse a folga para consultar um oftalmologista, mas isso é outra conversa.

Consta que o primeiro livro do Pentateuco foi escrito por Moisés, o líder dos judeus errantes, durante sua interminável (40 anos) peregrinação pelo deserto do Sinai em busca de Canaã, e que o arcebispo irlandês James Ussher, preciso como um cuco suíço, anotou em The Annals of the World que o Senhor das Esferas iniciou sua obra às 9h de 23 de outubro de 4004 a.C. 

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

O lançamento da candidatura de Sérgio Moro ao governo do Paraná converteu-se numa antiapoteose. Ao dividir o palanque com o filho do golpista, o ex-juiz da Lava-Jato e Deltan Dallagnol, antigo garoto prodígio da força tarefa de Curitiba, consolidaram a percepção de que na política nada se cria, nada se transforma, tudo se corrompe.

Bolsonarinho e o Marreco de Maringá trocaram afagos. O filho do pai vestia uma camiseta na qual se lia: "Curitiba prendeu. Brasília soltou", numa alusão à sentença de Moro que levou Lula à cadeia, posteriormente anulada pelo Supremo. Derramou-se em elogios ao ex-juiz: "É um símbolo de combate à corrupção, símbolo de seriedade, que vai ter a independência de montar um time forte, com uma Assembleia forte, para fazer o melhor pelo Paraná".

Em retribuição, Moro enalteceu a decisão do governo Trump de classificar PCC e CV como terroristas: "Foi extraordinário. Ele [Flávio] conseguiu convencer o governo norte-americano a dar esse passo importante." E aproveitou para elogiar a suposta atuação do "mito" preso no combate às facções criminosas à época em que desgovernou o país.

Moro esqueceu de lembrar — ou lembrou de esquecer — que deixou o governo Bolsonaro acusando o então chefe de aparelhar a Polícia Federal para blindar a família contra investigações. Em janeiro de 2022, numa entrevista ao Flow Podcast, o desafeto disse que Bolsonaro "tem lá investigação da família dele, rachadinha, ele tem medo também que a investigação chegue nele. e aí ele chegou a partir de determinado momento do mandato dele e começou: 'Olha, tem que enfraquecer o combate à corrupção'."

Na mesma entrevista, o ex-herói que se converteu em vergonha nacional se referiu diretamente ao primogênito do refugo da escória da humanidade: "Teve uma decisão do Supremo que beneficiou o filho do presidente. (...) O problema é que essa liminar parava todas as investigações de lavagem de dinheiro no país. Parava tudo. E o presidente não queria que a gente mexesse nisso. Ele me falou assim: 'Moro, se você não vai ajudar, não atrapalhe'."

Meses depois, o Marreco de Maringá daria um cavalo de pau, incorporando-se à malsucedida caravana de Bolsonaro na sucessão presidencial de 2022. Agora, associa-se ao rebento do rebotalho num instante em que a imagem do neoaliado já não está apenas rachadinha. Os vínculos financeiros obscuros do presidenciável do clã Bolsonaro transformaram a antiga fenda num rombo de dimensões insondáveis.

Deltan Dallagnol frequentou o palanque do ex-parceiro na Lava-Jato como coadjuvante do escárnio. Sua candidatura ao Senado é uma dúvida jurídica. Teve o mandato de deputado federal cassado pelo TSE em 2023. Os adversários sustentam que está inelegível.

Alheio à controvérsia, Dallagnol fustigou sua adversária petista: "Precisamos trabalhar intensamente para que Gleisi Hoffmann não vire senadora no Paraná. Precisamos derrotar o PT porque [é o partido] líder máximo dos maiores esquemas de corrupção que o país já viu." Disse isso ao lado de Flávio Bolsonaro. Sem corar.

Moro e Dallagnol atribuem ao Supremo o sepultamento da Lava-Jato, mas a morte é anterior a si mesma, começa bem antes do funeral. A República de Curitiba começou a morrer no final de 2018, quando Moro trocou o altar da 13ª Vara pelo serpentário de Brasília. Em março de 2021, numa entrevista ao UOL, o ex-procurador disse que, como ministro da Justiça, Moro "poderia ter maiores chances de influenciar a história". De fato, foi grande a influência do então subordinado de Bolsonaro. Moro virou a página da história. Para trás.

Com a Vaza-Jato e seus diálogos tóxicos, os ex-paladinos de Curitiba jogaram terra em cima de si mesmos. Forneceram material para a abertura da cela de Lula e a condenação de Moro como juiz suspeito. Hoje, irmanados à imoralidade que permeia a política, Moro e Dallagnol enfeitam com sua incoerência a lápide que ajudaram a acomodar sobre o esforço anticorrupção que diziam encarnar.  Essa dupla patética não só fica de quatro como também se vira do avesso por Flávio Bolsonaro.

Embora seja redundante discorrer sobre o sem-número de eventos ocorridos há dezenas de milhares de anos, quando, segundo Ussher, os criacionistas e as religiões abraâmicas, o mundo ainda não havia sido criado, não custa lembrar que o esqueleto parcial de uma fêmea de Australopithecus Afarensis de 3,2 milhões de anos — batizada de Lucy em homenagem à música dos Beatles — foi encontrado em 1974 pelo paleontólogo Donald Johanson no deserto de Afar, na Etiópia. Ou seja: os bípedes já rondavam a Terra 530 vezes o tempo que o mundo existe nas contas de Ussher.

Outros exemplos dignos de nota são o desenho abstrato da Caverna Blombos, na África do Sul, cuja idade é estimada em 73 mil anos; as pinturas rupestres de Sulawesi (67,8 mil anos), na Indonésia; o templo Göbekli Tepe, na Turquia (11,5 mil anos); e o crânio de uma mulher, apelidada de Luzia (mais de 11 mil anos), encontrado no sítio arqueológico de Lapa Vermelha, na região de Lagoa Santa (MG), em 1975 — ou seja, havia gente acampada em Minas Gerais mais de 9 mil anos antes de Deus, na agenda de Ussher, ter criado qualquer coisa. 

Com base no modelo cosmológico baseado na Teoria do Big Bang, o Universo surgiu há quase 14 bilhões de anos, nosso sistema solar, há 4,6 bilhões anos. Embora consigamos avistar a olho (em condições ideais) algo entre 2,5 mil e 3 mil estrelas em cada metade visível da esfera celeste, estima-se que o Universo observável contenha mais de 100 bilhões de galáxias, as menores com alguns milhões de estrelas e as maiores com centenas de bilhões. Nem todos esses dez sextilhões de "sóis" são orbitados, mas presume-se que haja tantos planetas quanto estrelas na Via Láctea.

Depois que o primeiro exoplaneta foi descoberto, há cerca de 30 anos, milhares deles foram sendo observados orbitando não apenas “sóis” semelhantes ao nosso, mas também anãs vermelhas e estrelas de nêutrons ultradensas. Graças aos telescópios espaciais Kepler e Tess, a NASA Exoplanet Archive já confirmou a existência de 6.291 exoplanetas, e outros 7.900 candidatos aguardam confirmação (para explorar dados detalhados de cada um desses mundos, acesse o Painel de Descobertas da NASA).

Observação: Com lançamento previsto para 2027, o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman fará novas descobertas de exoplanetas usando uma variedade de métodos. A Missão ARIEL, da Agência Espacial Europeia, cujo lançamento está previsto para 2029, observará atmosferas de exoplanetas se concentrando em suas nuvens e neblinas.

Astrônomos descobriram recentemente 27 novos potenciais planetas circumbinários — que orbitam duas estrelas, como o fictício planeta deserto Tatooine, do universo Star Wars. O anúncio foi feito em maio, no dia conhecido como o "Dia Star Wars" pelos fãs da saga.

Até então, apenas 18 planetas circumbinários haviam sido oficialmente identificados no Universo, e os recém-descobertos estão a distâncias que variam de 650 a 18 mil anos-luz da Terra, embora mais da metade das estrelas do Universo existem em um sistemas binários ou mesmo com um número ainda maior de estrelas. Potencialmente, estamos perdendo muitos sistemas, pois achar novos planetas é como tentar encontrar uma vela ao lado de um poste de luz.

No entanto, em vez de identificar planetas orbitando sistemas binários por meio da observação de seu trânsito, os pesquisadores se concentram na oscilação no brilho de estrelas que eclipsam umas às outras. Usando esse método, foram identificados 36 sistemas binários - num total de 1.590 cujo comportamento só poderia ser explicado pela presença de um terceiro corpo, entre os quais têm grandes chances de ser massas planetárias. 

Em tese, um planeta como Tatooine poderia existir no exato ponto entre as órbitas das duas estrelas — que não é nem muito quente, nem muito frio. Vale lembrar que, quando o primeiro filme da saga Star Wars foi lançado, não se tinha conhecimento da existência de exoplanetas.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — A IGREJA DA IDADE MÉDIA EM PLENO SÉCULO XXI

NA VISÃO DOS IGNORANTES, OS EVENTOS EXTRAORDINÁRIOS DA NATUREZA SÃO MILAGRES DIVINOS.

No tempo das cavernas, tempestades, eclipses e outros fenômenos naturais eram atribuídos a forças sobrenaturais. Esse misticismo deu origem às religiões, que não devem ser confundidas com fé ou espiritualidade: enquanto as religiões impõem normas e rituais rígidos, a espiritualidade pessoal se ajusta aos valores e necessidades de cada um sem se prender ao formalismo religioso e descartando explicações dogmáticas para tentar explicar o insondável.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Instigado pelo filho do presidiário e seus acólitos, o governo americano — leia-se Donald Trump — decidiu classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Isso cria um enorme constrangimento para o governo brasileiro, sobretudo às vésperas de uma eleição na qual a principal vulnerabilidade do candidato à reeleição é sua incapacidade chapada de combater o crime organizado.
Do ponto de vista dos efeitos práticos, não há consenso entre os especialistas sobre a classificação desses grupos como terroristas. Há dúvidas mesmo dentro das Forças Armadas Brasileiras, para as quais a cooperação com Forças Militares Americanas — de preferência sem politização — é de importância fundamental.
Em princípio o governo americano dispõe agora, em relação ao governo brasileiro, de um formidável arsenal legal para excluir do sistema do dólar instituições financeiras brasileiras que tenham vínculos com organizações declaradas como terroristas; sancionar empresas brasileiras ou multinacionais que operam no Brasil que paguem a intermediários ligados às facções; e barrar a entrada nos Estados Unidos de pessoas com qualquer tipo de ligação a esses grupos. Mas a questão central é política, e em duas esferas. 
A nova doutrina de segurança nacional americana exige dos países desta área alinhamento total  com o que os EUA considerem questões de seu interesse, especialmente na área do crime transnacional. O governo americano está empenhado em favorecer grupos políticos com os quais têm proximidade, como a corrente dirigida pela quadrilha Bolsonaro. Nesse sentido, é um instrumento do governo americano de coerção diplomática e, eventualmente, até militar, e de ajuda política a bolsonarinho antes das eleições.

Os dogmas permanecem estáticos por se alimentarem da rigidez, ao passo que a ciência avança por questionar o que hoje parece sólido. Mesmo as teorias científicas mais robustas e testadas são passíveis de refutação. O que enfraquece a ciência não é a dúvida, mas a arrogância das certezas definitivas.


É justamente essa maleabilidade que a torna tão poderosa e diferente dos ramerrões religiosos. Como nos lembram Platão no Mito da Caverna e máxima "o sábio duvida e o sensato reflete", atribuída a Aristóteles, somente a dúvida e a revisão constante nos libertam das sombras.


O número de vertentes religiosas é espantoso, e todas alegam ter linha direta com o Todo-Poderoso. Na verdade, a maioria foi erguida sobre sangue e ossos dos que se recusaram a aceitar a ideia de Deus que elas pregam.


Se considerarmos "religião" como um sistema de crenças com rituais, locais de culto específicos e uma mitologia compartilhada, o Sítio de Göbekli Tepe, construído há cerca de 12 mil anos, é provavelmente o local de culto mais antigo do mundo — sua descoberta revolucionou a teoria de que a religião organizada surgiu depois da agricultura e da vida em vilas. 


Se nos ativermos apenas às religiões que ainda são praticadas e possuem uma linhagem histórica clara, o Hinduísmo encabeça a lista — suas raízes remontam à religião védica (aprox. 1500 a.C.) e incorpora tradições ainda mais ancestrais. O Judaísmo vem em seguida entre as tradições religiosas contínuas, com origens que remontam à época do patriarca Abraão (por volta de 1800 a.C.). Já o Zoroastrismo, originário da antiga Pérsia, é tido como uma das religiões mais antigas de cunho profético, embora haja debate sobre a data exata de seu fundador (entre os séculos XVIII e VI a.C.).


Talvez seja impossível dizer como seria o mundo sem as religiões, mas o termo "impossível" foi cunhado por alguém que desistiu de tentar. Atribui-se a Einstein a máxima segundo a qual "o impossível só existe até que alguém duvide e prove o contrário". Por outro lado, crer ou não crer são opções personalíssimas, e tomar por verdade absoluta a criação do mundo segundo o Velho Testamento é como negar a esfericidade da Terra — lembrando que as narrativas que compõem o Gênesis não fornecem uma explicação científica ou histórica sobre o passado, e que literatura religiosa não é jornalismo nem registra os fatos em tempo real. 


Outra pérola de sabedoria atribuída a Einstein alude à infinitude do Universo e da estupidez humana. Isso explicaria o porquê de criacionistas e devotos das religiões abraâmicas acreditarem, em pleno século XXI, que o mundo e tudo que nele existe foi criado em seis dias contados a partir das 9h00 de 23 de outubro de 4004 a.C., como ensinou o bispo irlandês James Ussher em "The Annals of the World". É possível que isso fizesse sentido na Idade Média — por motivos que agora não vêm ao caso —, mas vale reforçar que, enquanto os dogmas religiosos pedem fé inquestionável, a ciência busca evidências e procura comprová-las experimentalmente.


A interpretação literal da Bíblia desconsidera o conhecimento científico acumulado nos últimos séculos em áreas como física, astronomia e biologia. Há atualmente evidências incontestáveis de que a evolução das espécies e a formação de estrelas e planetas ocorreram ao longo de bilhões de anos. Embora as religiões e a ciência não sejam mutuamente excludentes quando suas respectivas esferas são respeitadas, compete aos padres, pastores, rabinos, imãs e assemelhados oferecer conforto espiritual e respostas a questões como o propósito e o sentido da vida. Mas não é isso que a gente vê na prática.


Não devemos subestimar a enorme influência cultural da Bíblia e do Gênesis, mas precisamos mantê-los dentro de seu contexto histórico e mitológico e evitar interpretá-los como revelações científicas sobre a criação do mundo. Parafraseando o pintor grego Apeles, não vá o sapateiro além da sandália.


Antes de concluir este capítulo — que rascunhei no domingo de Páscoa —, achei por bem mencionar que o Natal é muito popular e amplamente festejado, mas é a Páscoa que simboliza a vitória sobre o pecado e a morte. No Brasil, a comemoração começa na Sexta-Feira da Paixão, segue pelo Sábado de Aleluia e termina no Domingo de Páscoa. Até algum tempo atrás, a "oitava da Páscoa" era uma semana inteira celebrada como se fosse um único dia de festa, e se encerrava na Pasquela, mas isso é outra conversa. 


O Código de Direito Canônico e as tradições da Igreja Católica impõem aos fiéis penitência, jejum e abstinência durante a Semana Santa. Segundo o Cânon 1251, abster-se de comer carne bovina, suína, de aves e outros derivados de sangue quente na Sexta-feira da Paixão se aplica a todos os fiéis a partir dos 14 anos de idade. O jejum canônico (que consiste em fazer apenas uma refeição por dia) é obrigatório para fiéis entre 18 e 59 anos (até completarem 60). 


Celebrações mundanas como baladas, churrascos e festas devem dar lugar ao recolhimento, silêncio e oração — e o mesmo se aplica a atividades e trabalhos que dificultem o descanso e o culto devido a Deus. Ademais, faltar deliberadamente à Missa no Domingo da Ressurreição ou à Vigília Pascal (sábado à noite) é considerado pecado grave.


Continua…