CRER OU NÃO CRER, EIS A QUESTÃO.
Crer ou não crer são opções personalíssimas, mas crer piamente na criação do mundo segundo o Velho Testamento é o mesmo que negar a esfericidade da Terra.A Bíblia é um conjunto de mitos, lendas, mitos e tradições culturais transmitido oralmente por várias gerações, até ser compilado (por volta de 1200 a.C.).
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Bolsonaro foi internado na UTI do Hospital DF Star no último dia 13 e, a despeito da boa evolução clínica, ainda não há previsão de alta. Como o diabo detesta concorrência, parece que não será desta vez que nos livraremos do golpista fracassado. O mais provável é que ele consiga a tão sonhada “prisão domiciliar por razões humanitárias”, em que pese seu comportamento nada humanitário no auge da pandemia, quando o então mandatário ridicularizou infectados com uma piada homofóbica e imitou, em pelo menos duas lives, um paciente com dificuldades respiratórias (sintoma comum da Covid-19).
Os sucessivos pedidos apresentados pela defesa do “mito” já se tornam cansativos. Na semana passada, Flávio Bolsonaro conversou com Alexandre de Moraes, e Michelle Bolsonaro solicitou uma nova reunião com o ministro.
Da mesma forma que os direitos humanos não deveriam beneficiar criminosos da pior espécie, a prisão domiciliar humanitária também não deveria contemplar sacripantas como o ex-presidente. Mas vale tudo nesta banânia, e alguns togados avaliam que essa medida evitaria que eventual agravamento do quadro de saúde do preso ampliasse ainda mais o desgaste da Corte perante a opinião pública.
Falando em sacripantas, a delação premiada de Daniel Vorcaro avança a passos largos. O ministro André Mendonça, relator do imbróglio, já autorizou a transferência do dito-cujo para a Superintendência da Polícia Federal, em Brasília — que é considerada como o primeiro passo para o acordo de delação.
O ex-banqueiro que antes jantava com a República agora ameaça “jantar” a própria República e já mandou dizer que não pretende livrar ninguém. Afinal, não basta jogar tudo no ventilador: revelação sem comprovação é mero mexerico.
Tudo indica que as revelações atingirão parlamentares de praticamente todos os partidos e pelo menos dois ministros do STF — Toffoli terá de explicar a compra do resort Tayayá; e Moraes, o contrato milionário celebrado entre o banco Master e o escritório de advocacia da família, comandado pela advogada Viviane Barsi de Moraes, esposa do ministro.
A esta altura, interessa saber quem Vorcaro pagou e o que recebeu em troca no caminho do que pode vir a ser a maior fraude financeira da história. De resto, é preciso assegurar que ele restitua o patrimônio bilionário que teria amealhado à margem da lei e que não saia da ação penal que está por vir sem punição adequada, já que delação não implica impunidade.
Paulo Gonet já deixou claro que a PGR não pretende avançar nessa questão. No entanto, como há uma disputa com a PF, caberá ao ministro André Mendonça, relator do imbróglio, definir os próximos passos.
As lambanças da Lava-Jato tisnaram o instituto da delação, mas a ferramenta foi reabilitada nas ações penais contra os mentores do complô do golpe e do assassinato de Marielle Franco. A diferença é que, no caso de Vorcaro, o potencial destrutivo é inédito.
O Gênesis começa com a palavra bereshit (no princípio, numa tradução livre do hebraico) e narra a origem da vida, do mundo e do povo que Moisés supostamente guiou até a terra que Jeová supostamente prometeu a Abraão e seus descendentes. A certa altura, o guia dos judeus errantes teria estendido seu cajado e o Mar Vermelho se abriu, permitindo que ele e seu povo o atravessassem, e fechou-se em seguida, afogando o exército egípcio que os perseguia.
Embora dominasse os segredos das águas, Moisés não fez bom uso do GPS fornecido por Jeová, pois só encontrou Canaã depois de errar pelo deserto do Sinai durante 40 anos. Sem falar que o conceito de terra prometida só fez sentido dali a quase 3 mil anos, com a criação do Estado de Israel.
As narrativas que compõem o Gênesis não fornecem uma explicação científica ou histórica sobre o passado, mesmo porque literatura religiosa não é jornalismo nem registra os fatos em tempo real. Ainda assim, criacionistas e seguidores das religiões abraâmicas acreditam que o mundo e tudo que nele existe foi criado em seis dias. Aliás, o bispo irlandês James Ussher foi mais além: em "The Annals of the World", ele anotou que o Criador iniciou sua obra exatamente às 9h00 da manhã de 23 de outubro de 4004 a.C.
Enquanto os dogmas religiosos pedem fé inquestionável, a ciência busca evidências e procura comprová-las por meio de experimentos. Premissas científicas podem — e devem — ser questionadas e modificadas à luz de novas descobertas. Já a interpretação literal da Bíblia desconsidera o conhecimento científico acumulado nos últimos séculos em áreas como física, astronomia e biologia, segundo os quais a evolução das espécies e a formação de estrelas e planetas, por exemplo, ocorreram ao longo de bilhões de anos.
Escorado na Teoria do Big Bang, o modelo cosmológico mais aceito atualmente sustenta que o Universo surgiu a partir de uma explosão de energia e matéria ocorrida há 13,8 bilhões de anos, que nosso sistema solar se formou há 4,6 bilhões de anos, e a Terra, cerca de 100 milhões de anos depois. A família dos Hominídeos divergiu das demais há 20 milhões de anos, o Gênero Homo surgiu há 2,5 milhões de anos e o Homo sapiens evoluiu do Homo Erectus há 300 mil anos. Não se trata de conjecturas, mas de estimativas baseadas em descobertas arqueológicas e no estudo de ossos e crânios encontrados por paleontólogos.
Fé e ciência não são mutuamente excludentes quando a esfera de cada é respeitada. Às religiões compete oferecer conforto espiritual e respostas a questões como o propósito e o sentido da vida. Embora não devamos subestimar a importância da Bíblia nem negar a enorme influência cultural do Gênesis, devemos mantê-los dentro de seu contexto histórico e mitológico, e não interpretá-los como revelações científicas sobre a criação do mundo.
Tomar os textos bíblicos como evidências factuais é ignorar séculos de progresso científico que expandiram nossa compreensão sobre o mundo e tudo que existe nele. Como bem disse o pintor grego Apeles, não vá o sapateiro além das sandálias. O literalismo religioso alimenta a negação de descobertas científicas amplamente aceitas e mina o progresso em questões vitais ao futuro da humanidade.
No tempo das cavernas, tempestades, terremotos, eclipses e outros fenômenos naturais eram atribuídos a forças sobrenaturais. Esse misticismo deu origem às religiões, que não devem ser confundidas com a fé. Ainda que ambas andem de mãos dadas, tanto é possível ter fé e não ser religioso como seguir uma religião simplesmente por tradição familiar ou convenção social.
As religiões deveriam "religar" o homem a Deus, mas cada vertente — cristã, budista, hinduísta, xamânica, espiritualista, agnóstica, etc. — define deus à sua maneira. Ao longo da História, Cristo, Buda, Maomé, Krishna e outros ícones religiosos deixaram mensagens para determinados povos em determinadas épocas. Todavia, em vez de levarem à unidade, ao amor e ao bem de todos, essas mensagens foram deturpadas para servir a interesses escusos daqueles que detêm o poder e o utilizam na manipulação de seus semelhantes.
Os primeiros textos védicos remontam a 1.500 a.C., mas os conceitos que eles encerram foram transmitidos oralmente durante séculos. A frase “este é o meu corpo”, que Cristo teria dito na Última Ceia, continua sendo repetida até hoje durante a Eucaristia. Ao “lavar as mãos” Pilatos deixou clara a ligação entre a religião e a política.
Como velhos hábitos são difíceis de erradicar, toda sociedade tem uma religião, toda religião tem um propósito social e toda cerimônia religiosa tem um ritual. O Seder de Pessach e a comunhão são adaptações litúrgicas de uma prática observada nos chimpanzés. As religiões perderam muito da empatia que tinham nos tempos de antanho, mas fenômenos complexos se desenvolvem a partir de começos simples. E como tudo que fazemos é influenciado por nossa história biológica e cosmológica, as próprias religiões têm raízes em comportamentos evolutivos fundamentais, e a Igreja e o Estado foram as duas faces da mesma moeda até a Revolução Francesa.
Assim como os vaga-lumes, as religiões precisam da escuridão para brilhar, e são úteis para os poderosos, que lhes dão ares de verdade para ludibriar os menos esclarecidos. É imperativo questionar e erradicar crenças enraizadas, pois é a partir da reflexão que se alcança uma espiritualidade mais ampla e profunda.
A possibilidade de existir um ente superior é plausível, mas como acreditar em um deus criador que concede livre-arbítrio às criaturas se ele promete recompensar os bons com a vida eterna num paraíso celestial e punir os maus com o fogo eterno num inferno comandado por um anjo caído?
A rigidez das religiões tende a perpetuar tradições e práticas que raramente resistem ao questionamento crítico, mas a fé que resulta de experiências empíricas leva as pessoas a crer em algo sem que isso lhes seja enfiado goela abaixo por dogmas religiosos.
Essa flexibilidade faz com que a fé se adapte aos valores e interpretações de cada um, tornando sua relação com a religião ainda mais intrigante quando questionamos a natureza da divindade — aliás, dizem que Deus criou a fé e o amor, e o diabo, invejoso, as religiões e o casamento.
Aristóteles ensinou que o sábio duvida e o sensato reflete. Toda religião é a verdade absoluta para quem a professa, mas não passa de mera fantasia para os devotos das outras seitas. No entanto, qualquer pessoa minimamente esclarecida deveria refutar a ideia de passar a eternidade tocando harpa numa nuvem ou assando lentamente num espeto. Mesmo assim, em pleno século XXI, algumas doutrinas claramente inverossímeis têm hostes de seguidores que pegam em lanças para defender seus rituais e liturgias.
No Mito da Caverna, Platão ensina que a sabedoria e o conhecimento estão além das aparências superficiais, e que só a reflexão crítica leva à compreensão das nossas convicções e das narrativas que escolhemos abraçar. Infelizmente, argumentar com quem renunciou à lógica é o mesmo que dar remédio a um defunto.
Continua…