Mostrando postagens classificadas por data para a consulta modo de segurança. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta modo de segurança. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de setembro de 2026

MITOS E VERDADES SOBRE A BATERIA DO CELULAR

QUEM SABE FAZ, QUEM COMPREENDE ENSINA. 

Depois que os dumbphones se tornaram smart, a autonomia da bateria se tornou tão importante quanto a memória e o armazenamento interno. Embora esses componentes tenham evoluído significativamente desde os jurássicos modelos à base de níquel-cádmio, o tempo durante o qual o aparelho opera longe da tomada depende da capacidade de sua bateria, do seu consumo energético e do perfil do usuário.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Fachin desligou Mendonça da tomada. Assumiu no sábado a relatoria do caso sobre as relações potencialmente criminosas entre Moraes e Vorcaro. Com isso, será o presidente da corte, e não Mendonça, quem fará o relato dos fatos na sessão plenária da próxima terça-feira. Caberá a ele também proferir o primeiro voto e dizer se há indícios fortes o bastante para investigar Moraes.

A conjuntura exala um aroma de história. É a primeira vez que o plenário do Supremo se reúne para decidir se abre investigação criminal contra uma de suas togas. O ineditismo está crivado de suprema ironia. Moraes é vice-presidente do tribunal. Se nada acontecer, assumirá o comando em setembro de 2027.

Há o risco de um pedido de vista na sessão desta terça. Isso adiaria a decisão. Mas antes de executar a manobra, a falange pró-Moraes terá que ouvir o voto de Fachin. Ele tem declarado que seu dever é "assegurar a integridade" do Supremo. Não é desprezível a hipótese de Fachin votar pela investigação. Ainda que surja no plenário um pedido de vista, ministros contrários ao adiamento podem antecipar seus votos. Isso não impediria a postergação, mas pioraria a imagem de Moraes. 

Nunca um vice do Supremo pareceu tão controversa — a ponto de a eventual vitória de um magistrado ser tratada como perdição da instituição.


Uma bateria de 12 V fornecendo uma corrente de 2 A estará entrega 24 W de potência (tensão × corrente). Um mAh (miliampere/hora) corresponde à carga elétrica transferida por uma corrente constante de um miliampere durante uma hora. Já a potência da bateria é expressa em watts (W) ou joules por segundo (J/s). Assim, se uma bateria opera entre 3,7 V a 4,4 V e fornece 2A, sua potência instantânea fica entre 7,4 W e 8,8 W. No entanto, quanto mais recursos forem ativados, mais rápido a reserva de energia irá se esgotar. 

Em tese, quanto maior a capacidade, maior tende a ser a autonomia da bateria. Na prática, porém, dois aparelhos idênticos usados por pessoas de perfis diferentes podem exigir recargas em intervalos distintos. E como nem mesmo as baterias de 5.000 ou 6.000 mAh desobrigam os heavy users de fazer um “pit stop” entre recargas, os carregadores rápidos se tornaram um item de primeira necessidade.


É possível aumentar a capacidade das baterias (haja vista os modelos que equipam os cada vez mais comuns veículos elétricos). O problema é obter esse resultado sem comprometer o tamanho do componente ou elevar excessivamente seu custo de fabricação. 


A chinesa Xiaomi surpreendeu o mercado no ano passado com o lançamento do Redmi K80 Ultra — modelo de preço intermediário que integra uma bateria de silício-carbono de 7.410 mAh, capaz de resistir até dois dias de uso intenso — e carregamento rápido de 100W — que recupera até 80% da carga em menos de 30 minutos. A também chinesa Oukitel oferece modelos com bateria de 18.000 mAh, que proporcionam 10 dias de uso moderado ou até 4 dias de uso intenso sem necessidade de recarga (o WP19 chega a 21.000 mAh e promete uma semana completa mesmo em uso intenso, mas nem todo mundo está disposto a carregar no bolso um "tijolão" que lembra um rádio comunicador militar.


A pergunta é: se é possível equipar smartphones com baterias de mais de 10.000 mAh, o que a Apple, a Samsung e a Motorola estão esperando para lançar modelos com esse "poder de fogo"? A resposta está no equilíbrio entre design e usabilidade: a maioria dos usuários prioriza aparelhos finos e leves, confortáveis no bolso e na mão, e uma bateria convencional dessa capacidade exigiria um aparelho muito mais espesso e pesado que um iPhone. E isso sem falar no custo de fabricação e no tempo de recarga, que pode variar entre 3 e 5 horas, mesmo com carregadores rápidos.


A Honor já oferece smartphones com baterias de silício-carbono que prometem até três dias de autonomia e mantêm a capacidade máxima de carga mesmo após três anos de uso. A Realme já apresentou protótipos com baterias de 10.000 mAh — um avanço significativo em relação às baterias convencionais de 5.000 mAh da concorrência. O iPhone 17 Air integra uma bateria com maior densidade energética do que a dos dispositivos baseados em polímeros de lítio.


Pesquisas em outros segmentos apresentam avanços notáveis: os chineses criaram uma mini bateria nuclear que promete durar mais de 7.000 anos (destinada principalmente a sensores, dispositivos médicos e aplicações de baixíssimo consumo), enquanto os dinamarqueses desenvolveram uma superbateria com eficiência de 90%, capaz de abastecer 100 mil casas por até 10 horas. Mas ainda não se sabe quando — nem se — essas soluções chegarão ao usuário final.


Existem diversas recomendações relacionadas ao uso da bateria que deixaram de fazer sentido quando os fabricantes substituíram o níquel-cádmio pelos íons de lítio (ou polímeros, em alguns casos). Entre outras coisas, essa mudança pôs fim ao famigerado "efeito memória" — perda progressiva da capacidade de carga quando a reserva de energia não era esgotada integralmente antes de a bateria ser recarregada. 


Observação: Os dumbphones passavam dias longe da tomada porque eram usados basicamente em chamadas de voz e mensagens de texto. Já os smartphones rodam sistemas complexos e executam os mais diversos aplicativos, daí seu consumo energético ser maior, e sua autonomia, menor.


Concluído esta (não tão) breve contextualização, resta lembrar a quem interessar possa que tanto a autonomia quanto a vida útil das baterias podem ser prolongadas com a adoção de alguns cuidados simples, mas, de novo, é preciso separar o joio do trigo, ou melhor, os mitos da realidade. 


Usar o aparelho durante a recarga da bateria não causa danos, mas retarda o processo. Para ganhar tempo, ative o "modo avião" ou simplesmente desligue o telefone durante a recarga — isso mata dois coelhos com uma única cajadada, já que reiniciar (ou desligar e religar) o dispositivo diariamente ou a cada dois ou três dias ajuda a manter o desempenho nos trinques. 


Embora não seja o ideal, você pode utilizar carregadores de outras marcas, mas convém fugir de produtos xing-ling, vendidos por uma fração do preço dos originais, pois eles não passam de imitações baratas que podem causar estragos e pôr em risco sua segurança. Use somente dispositivos certificados e compatíveis com os padrões exigidos pelo fabricante (USB Power Delivery, Quick Charge etc.)."


Convém também evitar manter o telefone na carga por mais tempo que o necessário (os fabricantes recomendam manter o nível de carga entre 20% e 80%). É fato que os riscos de superaquecimento e explosão são desprezíveis quando a bateria e o carregador são originais ou homologados pelo fabricante do celular, já que um sistema inteligente interrompe a passagem de corrente quando a bateria está cheia —, mas seguro morreu de velho. 


Retire o carregador da tomada quando terminar de carregar a bateria, — mantê-lo conectado à tomada desnecessariamente gera o chamado "consumo fantasma", diminui a vida útil do dispositivo e aumenta o risco de acidentes. 


Observação: O consumo é extremamente baixo para um carregador original e certificado, mas o desgaste contínuo dos circuitos internos é real, pois o carregador é essencialmente uma fonte de alimentação eletrônica chaveada — quando você o mantém na tomada, seus circuitos ficam permanentemente energizados e aquecidos, sem falar nos danos causados por eventuais picos ou quedas de tensão da rede elétrica (comuns durante tempestades com raios). Quando a bateria está carregada, os aparelhos simplesmente interrompem o processo, mesmo que você o mantenha conectado ao carregador, mas, pelo menos até onde se sabe, cautela e canja de galinha (se me concedem a redundância) nunca fizeram mal a ninguém. 


Se o manual de instruções do seu aparelho recomendar uma carga completa antes de ser colocado em uso (alguns, inclusive, falam em deixar o aparelho carregando por 12 ou mesmo 24 horas), ignore, pois as baterias modernas costumam vir com pelo menos 40% de carga. Por outro lado, considerando que a configuração do aparelho novo — e a importação dos dados armazenados no aparelho antigo — consomem muita energia, de maneira que o ideal é executar esse processo quando a bateria estiver 100% carregada ou com o carregador conectado ao aparelho e à tomada. 


Embora seja normal o smartphone e o carregador aquecerem durante a recarga, executar esse procedimento em local ventilado e abrigado da luz solar ajuda a manter a temperatura em patamares aceitáveis. Além disso, evite deixar a bateria carregando durante toda a noite — mesmo que o processo seja interrompido quando o nível de carga atinge 100%, o ideal é desconectar o telefone do carregador e este da tomada quando a bateria estiver de 80% a 100% carregada, e então remova o carregador da tomada (na hora de colocar o aparelho para carregar, conecte primeiro o carregador na tomada e depois o cabinho no telefone).  


As baterias são projetadas para suportar de 800 a 1.600 ciclos completos de carga (usar 50% da bateria em um dia, carregá-la até 100%, usar outros 50% no dia seguinte e tornar a carregá-la também conta como um ciclo completo), o que representa uma vida útil de 3 a 5 anos. Considerando que a maioria de nós troca o aparelho por um modelo novo a cada 2 anos, em média, essa vida útil costuma ser mais que suficiente. 


A despeito da evolução ocorrida nos últimos anos ter anulado o efeito memória e sanado outros problemas dos tempos de antanho, as baterias continuam sujeitas às leis da Física. Enquanto não inventarem um smartphone que funcione uma semana inteira longe da tomada sem ganhar o tamanho de um tijolo baiano, resta ao usuário administrar bem a energia disponível e desconfiar de receitas milagrosas espalhadas pela internet.


Afinal, quando o assunto é bateria, há muito mais mitos do que miliampères.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

BRINCANDO DE DEUS

CUIDADO COM OS ENGENHEIROS: ELES COMEÇARAM INVENTANDO A MÁQUINA DE COSTURA E ACABARAM CONSTRUINDO A BOMBA ATÔMICA.

Combinando física, química e engenharia, e fazendo pequenas alterações na composição ou estrutura de um material, é possível alterar completamente suas propriedades e criar metamateriais usadas em armaduras leves, mas mais resistentes que uma chapa de aço com vários centímetros de espessura, ou mesmo dar origem a outros materiais que ganham vida e mudam de forma à vontade. 


"Brincando de Deus", pesquisadores da Universidade de Amsterdã não só desenvolveram um metamaterial que se move sozinho como construíram uma espécie de robô flexível, que aprende, se adapta e age de forma autônoma. Embora cada parte desse robô possua um minicomputador que memoriza movimentos e comandos, não existe a figura de um computador externo controlando tudo.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O senador Ciro Nogueira é o mais graúdo, mas não o único peixe do Congresso a cair na rede da PF na investigação do caso Master — O próprio Daniel Vorcaro confirmou em depoimentos e mensagens no celular como era ampla sua influência no mundo político.

Questão de tempo, portanto, que apareçam outros a criar embaraços partidários. E, talvez, suprapartidários. Quanto mais gente estiver envolvida, quanto mais ideologicamente ecumênico for o alcance dos atingidos, menor a chance de que esse ou aquele campo político em disputa arque com o prejuízo na eleição. Essa pode ser a conta que governo e oposição fazem quando saem de modo célere e estridente em defesa da instalação de uma comissão de inquérito para levar o escândalo do Master para a arena do Parlamento.

Independentemente de quem assinou ou deixou de assinar os vários pedidos de CPI antes de a polícia chegar em um dos capas-pretas do centrão, ninguém de verdade queria saber de entrar a fundo no assunto. Tanto que houve acordo para o presidente do Senado pautar sessão de vetos presidenciais sem a exigência regimental da leitura de requerimento para a criação de uma comissão. Subitamente, despertou-se não só o interesse mas uma disputa para cada força se mostrar mais empenhada na defesa do inquérito parlamentar.

Há duas hipóteses para tanto empenho. Uma, a de que seja apenas uma forma de fazer pose ética para o eleitorado, confiando no espírito de corpo de Davi Alcolumbre para refrear os ímpetos investigativos. Outra, a intenção exposta acima, de que quanto mais se espalhe a lama maior a chance de a conta acabar em soma zero.

No terreno das intenções mais ou menos ocultas se inscreve também a confiança dos congressistas em restrições impostas pelo STF a comissões de inquérito recentes. Na perda de poderes, as CPIs esvaziam-se na prática para deleite e segurança dos pragmáticos que fazem da defesa da ética uma proveitosa figuração eleitoral.


Um artigo publicado na revista Nature, intitulado "Metamateriais que aprendem a mudar de forma", detalha como materiais vermiformes confundem a fronteira entre objetos e sistemas vivos. Cada unidade é conectada à seguinte por uma dobradiça motorizada com um microcontrolador, que mede parâmetros como rotação e movimentos anteriores, armazena-os numa espécie de memória e envia informações para as dobradiças vizinhas.


Dependendo das informações enviadas, as demais dobradiças ajustam sua rigidez e posição, permitindo que cada segmento "aprenda" novas formas sem a necessidade de um computador para controlar tudo. A chave aqui é "aprendizado". As formas e posturas que as dobradiças assumem não são resultado do acaso, mas do trabalho de pesquisadores que enviam impulsos para organizar os segmentos na configuração desejada. Através de diferentes estágios desse treinamento, os microcontroladores atualizam e otimizam seus comandos até que a cadeia "entenda" que deve adotar uma postura específica quando um determinado estímulo é enviado.


Os metamateriais podem esquecer formas antigas, reter as recentes e, como dissemos, aprender novas, além de alternar entre essas formas. Mas o mais interessante de tudo isso é que eles podem desenvolver a capacidade de agarrar objetos ou se mover. Os próprios pesquisadores se referem a isso como "evolução", observando que "uma vez que o sistema começa a aprender, as possibilidades de quando ele vai parar parecem quase ilimitadas".


Os físicos destacam que a pesquisa atual se baseia em descobertas anteriores, nas quais objetos já eram capazes de rolar, rastejar e se mover autonomamente em diferentes terrenos. A diferença é que, naquela época, esses movimentos eram aleatórios, enquanto os novos metamateriais podem aprender e memorizar comportamentos. O objetivo futuro é tornar esse comportamento dependente do tempo de aprendizado, em vez de mudanças em uma forma estática — ou seja, permitir que os metamateriais aprendam diferentes formas de locomoção, como rastejar ou rolar, dependendo dos estímulos ambientais.


Talvez o aspecto mais desafiador seja imaginar os cenários em que isso poderá ser utilizado. Uma das aplicações mencionadas é a dos robôs flexíveis, que substituem a rigidez e a forma dos robôs convencionais por uma estrutura adaptativa que pode ter aplicações nas indústrias médica e aeroespacial. Fala-se também em dispositivos programáveis, ​​que modulam em tempo real e se "reprogramam" de acordo com a situação. Também se pretende investigar os chamados cenários estocásticos, nos quais o aprendizado ocorre em meio a ruído e incerteza — nesses casos, o sistema se adaptaria probabilisticamente ao invés de deterministicamente, melhorando a robustez e a flexibilidade em ambientes complexos.


As possibilidades dos metamateriais parecem infinitas. Ao explorar essas características estruturais dos materiais, eles podem ser usados ​​como blindagem, isolamento, em estruturas de edifícios localizadas em áreas de alta atividade sísmica para redirecionar a energia recebida, na criação de lentes para fotônica avançada, em sensores ou como camuflagem ativa em veículos.


Com informações de Xataka.com.br 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE LITERALISMO RELIGIOSO

A PERDA DE UM CRAVO CAUSA A PERDA DA FERRADURA; A PERDA DA FERRADURA CAUSA A PERDA DO CAVALO; A PERDA DO CAVALO CAUSA A PERDA DA MENSAGEM; A PERDA DA MENSAGEM CAUSA A PERDA DA GUERRA.

Vimos que o literalismo religioso leva à aceitação de dogmas e crenças arcaicas em detrimento de descobertas científicas exaustivamente comprovadas; que os livros mais estudados do mundo são justamente os menos compreendidos; e que quase ninguém mais lê Ptolomeu, Pitágoras ou Arquimedes, apesar de seu conhecimento ser impressionante, mesmo nos dias de hoje.


Observação: Há algo de profundamente revelador nessa inversão: os textos que moldam civilizações inteiras são lidos de forma apressada, fragmentária — ou devota demais para permitir qualquer questionamento sério.


Como também vimos, o Novo Testamento consolidou quatro evangelhos canônicos — Mateus, Marcos, Lucas e João — e ignorou dezenas de textos apócrifos na versão “oficial” que chegou aos dias atuais. Embora não tenha definido diretamente o cânon bíblico, o Concílio de Niceia (325 d.C.) representa com precisão o momento em que o cristianismo começa a se estruturar como poder organizado, sob a influência direta do imperador Constantino. A questão central é que “coerência doutrinária” quase sempre significa alinhamento com a visão dominante — e não, necessariamente, compromisso com a verdade histórica.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A Polícia Federal submete o senador Ciro Nogueira ao pior tipo de obscenidade: a nudez que ninguém pediu, que ninguém quer ver, que não espanta ninguém. O oligarca do centrão foi despido lenta e constrangedoramente.

Ciro perdeu o paletó quando veio a público que ele viajava por destinos luxuosos do mundo às custas de Daniel Vorcaro e ficou sem a camisa após a revelação de que recebia do mensalão do Master — que começou com R$ 300 mil. Chegou a R$ 500 mil.

A notícia de que as mesadas somaram pelo menos R$ 6 milhões deixou o ex-quase-futuro-vice-ideal de Flávio Bolsonaro sem as calças. Relatórios do Coaf tiraram do senador as roupas de baixo. Seguindo o rastro do dinheiro, a PF concluiu que Ciro lavou recursos de má origem usando empresas, familiares, servidores públicos e até beneficiários de programas sociais.

As delinquências de Vorcaro proporcionam ao Brasil uma de suas épocas mais despidas. Mais despudorado do que o mandato obsceno de Ciro Nogueira é a naturalidade com que o Senado reage à cena. Um senador perambula pelos salões do Legislativo pelado e ninguém faz nada. Não se vê diante dos glúteos expostos nem uma cara de nojo, que dirá uma representação ao Conselho de Ética por falta de decoro.


O processo de formação do cânon bíblico não foi um evento único nem tampouco uma deliberação iluminada de sábios imparciais reunidos em torno de uma fogueira de pergaminhos, e sim um processo longo, disputado, muitas vezes violento — e invariavelmente político. No século II, o bispo Ireneu de Lyon — homem de fé inabalável e tolerância zero para dissidências — foi um dos primeiros a defender sistematicamente a manutenção de apenas quatro evangelhos — sob o pretexto de que, assim como existiam quatro ventos e quatro pontos cardeais, só poderia haver quatro evangelhos. 


A lógica era frágil, mas a autoridade, não. E em sua obra Adversus Haereses (“Contra as Heresias”), Ireneu não apenas defendeu os quatro evangelhos aceitos, como atacou com vigor todos os demais, classificando-os como invenções demoníacas. Assim, textos que circulavam livremente entre comunidades cristãs passaram, de uma geração para outra, a ser tratados como veneno intelectual e espiritual.


No século IV, o processo ganhou força institucional. Em 367 d.C., o bispo Atanásio de Alexandria — outro homem com pouca tolerância para ambiguidades — escreveu sua famosa Carta Festal, na qual listou pela primeira vez os 27 livros que compõem o Novo Testamento e determinou que outros textos fossem abandonados. Aliás, a palavra usada — apokryphos, “oculto”, “escondido” — com o tempo deixou de ser neutra e passou a carregar um peso pejorativo: o que era “reservado a iniciados” tornou-se sinônimo de “falso” e “perigoso”.


Mas foi com a aliança entre Igreja e poder imperial — consolidada sob Constantino e aprofundada sob Teodósio I, que em 380 d.C. declarou o cristianismo religião oficial do Império — que a supressão de textos alternativos deixou de ser apenas uma questão teológica e passou a ser também uma questão de Estado. Queimar um evangelho deixou de ser um ato de zelo religioso e tornou-se um gesto de manutenção da ordem. A heresia, enfim, virou crime.


Ao contrário do que se costuma imaginar, nem todos os textos rejeitados foram destruídos — alguns simplesmente caíram em desuso, como vozes que ninguém mais escuta, e outros foram perseguidos, combatidos e, não raramente, queimados junto com seus leitores. Mas houve quem, com notável coragem — ou talvez apenas com o instinto silencioso de preservar —, tenha decidido escondê-los.


O achado mais espetacular nesse sentido foi a descoberta da biblioteca de Nag Hammadi, no Egito, em 1945. Um camponês chamado Mohammed Ali al-Samman, ao cavar nas proximidades de um penhasco em busca de fertilizante, encontrou um jarro de barro selado. Dentro dele, 13 códices encadernados em couro, contendo mais de 50 textos em copta — traduções de originais gregos que remontavam, em sua maioria, aos séculos II e III. Lamentavelmente, alguém, em algum momento do século IV, preferiu enterrá-los em vez de destruí-los, e esse gesto anônimo de desobediência silenciosa preservou para a posteridade uma voz que a Igreja oficial havia tentado calar.


Entre os textos encontrados em Nag Hammadi, destacam-se obras associadas ao chamado gnosticismo — um conjunto diverso de correntes cristãs primitivas que compartilhavam a ideia de que a salvação vinha do conhecimento (gnosis), e não da fé cega ou da obediência institucional. Naturalmente, uma teologia assim era incompatível com uma Igreja que começava a estruturar seu poder justamente sobre esses dois pilares.


O Evangelho de Maria — provavelmente escrito no século II, embora baseado em tradições mais antigas — apresenta Maria Madalena não como figura periférica ou penitente, mas como a discípula que mais profundamente compreendeu os ensinamentos de Jesus. No texto, após a ressurreição, é ela quem consola os apóstolos e transmite revelações que o messias lhe teria confiado em particular. Pedro, incomodado (ou enciumado?), questiona: “Ele teria falado em segredo com uma mulher e não abertamente conosco?”


A tensão não é apenas teológica. É política, simbólica e estrutural. No Evangelho de Filipe há passagens ainda mais desconfortáveis para a ortodoxia: Jesus é descrito como "mais próximo" de Maria Madalena do que aos outros discípulos, e há uma referência parcialmente danificada a um gesto de intimidade entre os dois — detalhe que alimentou séculos de especulação e, mais recentemente, best-sellers. Independentemente da interpretação correta, o ponto é claro: havia comunidades cristãs que atribuíam a Maria Madalena um papel de liderança espiritual que a Igreja oficial simplesmente não podia absorver.


A imagem de Madalena como prostituta arrependida não vem dos evangelhos canônicos. Em nenhum momento o texto bíblico a identifica como tal. Essa associação foi construída gradualmente e consolidada de forma decisiva pelo papa Gregório I, em um sermão de 591 d.C., no qual fundiu três personagens distintas — Maria de Betânia, a pecadora anônima e Maria Madalena — em uma única figura de mulher caída e redimida. Erro honesto ou estratégia deliberada? Difícil saber, mas mais difícil ainda é acreditar que tenha sido irrelevante.


Essa interpretação persistiu por mais de mil anos como doutrina oficial da Igreja Católica. Apenas em 1969 o Vaticano corrigiu formalmente a confusão, reconhecendo que se tratava de três mulheres distintas. A reabilitação levou quatorze séculos. O dano, naturalmente, não teve a mesma pressa para desaparecer.


A pergunta que se impõe é inevitável: e se Maria Madalena tivesse sido, de fato, a principal discípula de Jesus? E se o papel de liderança atribuído a Pedro — e que sustenta toda a estrutura hierárquica posterior, incluindo o papado — na versão “original” da história tivesse pertencido a ela? Não há como provar, mas também não há como descartar. E o modo como sua memória foi moldada ao longo dos séculos sugere que alguém, em algum momento, julgou necessário fazê-lo.


Há ainda uma hipótese mais incômoda e, por isso mesmo, frequentemente tratada com desdém ou sarcasmo: a de que Maria Madalena não teria sido apenas uma discípula próxima, mas companheira íntima de Jesus, possivelmente sua esposa. A ideia não é consensual e carece de evidências conclusivas, mas se apoia em leituras de textos apócrifos, em lacunas curiosas nos relatos canônicos e, sobretudo, no contexto cultural do judaísmo do século I, no qual um homem adulto, especialmente um mestre religioso, dificilmente permaneceria solteiro.


Nada disso prova coisa alguma, mas tampouco justifica o deboche com que a hipótese costuma ser descartada — até porque, se verdadeira, ou mesmo plausível, suas implicações seriam profundas demais para serem ignoradas. Um Jesus casado não apenas humaniza a figura central do cristianismo como desmonta, peça por peça, construções teológicas posteriores que associam santidade à negação do corpo, do desejo e da vida comum. E talvez seja exatamente por isso que a ideia causa tanto desconforto.


No fim das contas, não sabemos exatamente quem foi Maria Madalena. Mas sabemos com razoável segurança quem decidiu o que ela deveria ser — e por quê. Sabemos também que o cânon bíblico não desceu do céu em versão final e homologada por instâncias divinas. Foi negociado, disputado e imposto por homens inseridos em contextos políticos bastante concretos.


A maior heresia, talvez, não seja a existência de evangelhos esquecidos, mas a ilusão confortável de que apenas os sobreviventes contam a verdade. A história é sempre escrita por quem chega depois à cena do crime — e tem tempo suficiente para reorganizar os móveis.


Resumo da ópera: Algumas ideias não precisam ser refutadas. Basta que sejam ridicularizadas com eficiência. No fim das contas, um cravo se perdeu… e, com ele, muito mais do que uma ferradura.


Continua...

terça-feira, 2 de junho de 2026

AINDA SOBRE O TEMPO CRONOLÓGICO

 O HOJE TECE O AMANHÃ COM A TEIA DO ONTEM.

Temendo ser destronado, Urano devolvia os filhos ao útero de Gaia. Um belo dia, cansada de gerar para perder, a deusa escondeu Cronos e lhe pediu que castrasse o pai. 

Cronos atendeu ao pedido da mãe, mas passou a devorar a própria cria. O ciclo só foi interrompido quando Réia escondeu Zeus e lhe pediu que obrigasse o Cronos a regurgitar seus irmãos. Zeus não só cumpriu a missão como derrotou o genitor numa guerra que durou dez anos e, ao final, tornou-se o deus dos deuses.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Bolsonarinho enxergou na Casa Branca o local ideal para fugir da realidade. Trump tirou momentaneamente o efeito Master do noticiário, mas enfiou seu pé-frio na campanha eleitoral do Brasil ao classificar o PCC e o CV como facções terroristas.

Trata-se apenas um fetiche para disfarçar a ausência de um projeto para a área da segurança pública, mas os criminosos respiram aliviados.

Do ponto de vista prático, além de ofender a soberania, a novidade afeta a reputação do Brasil, afugentando investidores. Já o efeito eleitoral é duvidoso: fugindo do contágio de Daniel Vorcaro, o filho do presidiário caiu na órbita radioativa da calopsita alaranjada, que molhou o paletó para interferir em eleições alheias e perdeu no Canadá, Austrália, Romênia e Hungria.

Se a vida ensina algo, é que a vida nada ensina ao bolsonarismo.


Não sabemos se Urano e Cronos realmente existiram, nem se Saturno — a versão romana de Cronos, posteriormente associada ao tempo — ceifava os dias com sua foice. Tampouco sabemos se o tempo existe de fato ou se não passa de uma convenção criada por nossos ancestrais para dar sentido a eventos recorrentes, como o amanhecer e o entardecer, as fases da lua e as estações do ano. Mas sabemos que há na mitologia grega uma distinção fundamental entre Cronos e Kairós: o primeiro representa o tempo cronológico, linear e mensurável; o segundo, o tempo da experiência, do acontecimento, do instante significativo.


Alguns pensadores da Antiguidade ainda falavam de Aión, um terceiro modo de tempo: não aquele que se mede nem aquele que se aproveita, mas o que se habita — o tempo da duração, da permanência, do que escapa ao relógio e às urgências do agora.

Por convenção, o tempo que rege nossas vidas é o de Cronos, que o relógio mede, que os calendários registram, que transforma segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias, meses e anos. Essa lógica nos leva a tratá-lo como algo mensurável e manejável, um recurso a ser administrado, otimizado e explorado, quase sempre a serviço do trabalho, do consumo e da vida acelerada que naturalizamos no cotidiano.

É esse mesmo tempo que sustenta a ideia de crononormatividade, trabalhada pela pesquisadora estadunidense Elizabeth Freeman. Trata-se do conjunto de convenções temporais que normalizam trajetórias consideradas “corretas”, como ser alfabetizado até certa idade, casar até os 30, ter filhos até os 35, alcançar o sucesso profissional — seja lá o que isso signifique — antes dos 40. Nesse contexto, o tempo deixa de ser apenas uma medida e passa a funcionar como critério moral.

Outras formas de compreender e viver o tempo persistem entre povos tradicionais, povos originários, povos indígenas, africanos e do sul global. Nessas cosmovisões, o tempo não se comporta como uma flecha que avança inexoravelmente para a frente. Ele pode ser cíclico, circular ou espiralar. O passado não está morto, o futuro não é um alvo fixo, e o presente não é apenas um ponto de passagem.

Convencionou-se adotar o tempo cronológico como padrão universal por ser um tempo que coloniza o presente — sequestrando nossa atenção —, captura o passado — reduzindo a memória a registro — e compromete o futuro — empobrecendo nossa capacidade de imaginá-lo. Na era das métricas, notificações e algoritmos, Cronos deixou de ser apenas uma abstração: tornou-se um sistema de controle íntimo, automático e permanente. 

Essa não é a única ideia de tempo que existe, mas as formas não cronológicas são desconsideradas justamente por não servirem à produtividade, ao consumo e às tecnologias que exigem pressa, desempenho e obediência ao relógio.

No fim das contas, Cronos venceu, não como mito, mas como método. Ele já não empunha uma foice, mas um relógio digital. Não reina do Olimpo, e sim dos calendários, das metas, dos prazos e das notificações. Não precisa mais devorar os filhos; basta convencê-los de que estão sempre atrasados. E nós, acreditando dominá-lo, seguimos oferecendo aquilo que sempre exigiu: nossa própria vida, em parcelas mensais.