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quinta-feira, 25 de junho de 2026

BRINCANDO DE DEUS

CUIDADO COM OS ENGENHEIROS: ELES COMEÇARAM INVENTANDO A MÁQUINA DE COSTURA E ACABARAM CONSTRUINDO A BOMBA ATÔMICA.

Combinando física, química e engenharia, e fazendo pequenas alterações na composição ou estrutura de um material, é possível alterar completamente suas propriedades e criar metamateriais usadas em armaduras leves, mas mais resistentes que uma chapa de aço com vários centímetros de espessura, ou mesmo dar origem a outros materiais que ganham vida e mudam de forma à vontade. 


"Brincando de Deus", pesquisadores da Universidade de Amsterdã não só desenvolveram um metamaterial que se move sozinho como construíram uma espécie de robô flexível, que aprende, se adapta e age de forma autônoma. Embora cada parte desse robô possua um minicomputador que memoriza movimentos e comandos, não existe a figura de um computador externo controlando tudo.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O senador Ciro Nogueira é o mais graúdo, mas não o único peixe do Congresso a cair na rede da PF na investigação do caso Master — O próprio Daniel Vorcaro confirmou em depoimentos e mensagens no celular como era ampla sua influência no mundo político.

Questão de tempo, portanto, que apareçam outros a criar embaraços partidários. E, talvez, suprapartidários. Quanto mais gente estiver envolvida, quanto mais ideologicamente ecumênico for o alcance dos atingidos, menor a chance de que esse ou aquele campo político em disputa arque com o prejuízo na eleição. Essa pode ser a conta que governo e oposição fazem quando saem de modo célere e estridente em defesa da instalação de uma comissão de inquérito para levar o escândalo do Master para a arena do Parlamento.

Independentemente de quem assinou ou deixou de assinar os vários pedidos de CPI antes de a polícia chegar em um dos capas-pretas do centrão, ninguém de verdade queria saber de entrar a fundo no assunto. Tanto que houve acordo para o presidente do Senado pautar sessão de vetos presidenciais sem a exigência regimental da leitura de requerimento para a criação de uma comissão. Subitamente, despertou-se não só o interesse mas uma disputa para cada força se mostrar mais empenhada na defesa do inquérito parlamentar.

Há duas hipóteses para tanto empenho. Uma, a de que seja apenas uma forma de fazer pose ética para o eleitorado, confiando no espírito de corpo de Davi Alcolumbre para refrear os ímpetos investigativos. Outra, a intenção exposta acima, de que quanto mais se espalhe a lama maior a chance de a conta acabar em soma zero.

No terreno das intenções mais ou menos ocultas se inscreve também a confiança dos congressistas em restrições impostas pelo STF a comissões de inquérito recentes. Na perda de poderes, as CPIs esvaziam-se na prática para deleite e segurança dos pragmáticos que fazem da defesa da ética uma proveitosa figuração eleitoral.


Um artigo publicado na revista Nature, intitulado "Metamateriais que aprendem a mudar de forma", detalha como materiais vermiformes confundem a fronteira entre objetos e sistemas vivos. Cada unidade é conectada à seguinte por uma dobradiça motorizada com um microcontrolador, que mede parâmetros como rotação e movimentos anteriores, armazena-os numa espécie de memória e envia informações para as dobradiças vizinhas.


Dependendo das informações enviadas, as demais dobradiças ajustam sua rigidez e posição, permitindo que cada segmento "aprenda" novas formas sem a necessidade de um computador para controlar tudo. A chave aqui é "aprendizado". As formas e posturas que as dobradiças assumem não são resultado do acaso, mas do trabalho de pesquisadores que enviam impulsos para organizar os segmentos na configuração desejada. Através de diferentes estágios desse treinamento, os microcontroladores atualizam e otimizam seus comandos até que a cadeia "entenda" que deve adotar uma postura específica quando um determinado estímulo é enviado.


Os metamateriais podem esquecer formas antigas, reter as recentes e, como dissemos, aprender novas, além de alternar entre essas formas. Mas o mais interessante de tudo isso é que eles podem desenvolver a capacidade de agarrar objetos ou se mover. Os próprios pesquisadores se referem a isso como "evolução", observando que "uma vez que o sistema começa a aprender, as possibilidades de quando ele vai parar parecem quase ilimitadas".


Os físicos destacam que a pesquisa atual se baseia em descobertas anteriores, nas quais objetos já eram capazes de rolar, rastejar e se mover autonomamente em diferentes terrenos. A diferença é que, naquela época, esses movimentos eram aleatórios, enquanto os novos metamateriais podem aprender e memorizar comportamentos. O objetivo futuro é tornar esse comportamento dependente do tempo de aprendizado, em vez de mudanças em uma forma estática — ou seja, permitir que os metamateriais aprendam diferentes formas de locomoção, como rastejar ou rolar, dependendo dos estímulos ambientais.


Talvez o aspecto mais desafiador seja imaginar os cenários em que isso poderá ser utilizado. Uma das aplicações mencionadas é a dos robôs flexíveis, que substituem a rigidez e a forma dos robôs convencionais por uma estrutura adaptativa que pode ter aplicações nas indústrias médica e aeroespacial. Fala-se também em dispositivos programáveis, ​​que modulam em tempo real e se "reprogramam" de acordo com a situação. Também se pretende investigar os chamados cenários estocásticos, nos quais o aprendizado ocorre em meio a ruído e incerteza — nesses casos, o sistema se adaptaria probabilisticamente ao invés de deterministicamente, melhorando a robustez e a flexibilidade em ambientes complexos.


As possibilidades dos metamateriais parecem infinitas. Ao explorar essas características estruturais dos materiais, eles podem ser usados ​​como blindagem, isolamento, em estruturas de edifícios localizadas em áreas de alta atividade sísmica para redirecionar a energia recebida, na criação de lentes para fotônica avançada, em sensores ou como camuflagem ativa em veículos.


Com informações de Xataka.com.br 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE LITERALISMO RELIGIOSO

A PERDA DE UM CRAVO CAUSA A PERDA DA FERRADURA; A PERDA DA FERRADURA CAUSA A PERDA DO CAVALO; A PERDA DO CAVALO CAUSA A PERDA DA MENSAGEM; A PERDA DA MENSAGEM CAUSA A PERDA DA GUERRA.

Vimos que o literalismo religioso leva à aceitação de dogmas e crenças arcaicas em detrimento de descobertas científicas exaustivamente comprovadas; que os livros mais estudados do mundo são justamente os menos compreendidos; e que quase ninguém mais lê Ptolomeu, Pitágoras ou Arquimedes, apesar de seu conhecimento ser impressionante, mesmo nos dias de hoje.


Observação: Há algo de profundamente revelador nessa inversão: os textos que moldam civilizações inteiras são lidos de forma apressada, fragmentária — ou devota demais para permitir qualquer questionamento sério.


Como também vimos, o Novo Testamento consolidou quatro evangelhos canônicos — Mateus, Marcos, Lucas e João — e ignorou dezenas de textos apócrifos na versão “oficial” que chegou aos dias atuais. Embora não tenha definido diretamente o cânon bíblico, o Concílio de Niceia (325 d.C.) representa com precisão o momento em que o cristianismo começa a se estruturar como poder organizado, sob a influência direta do imperador Constantino. A questão central é que “coerência doutrinária” quase sempre significa alinhamento com a visão dominante — e não, necessariamente, compromisso com a verdade histórica.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A Polícia Federal submete o senador Ciro Nogueira ao pior tipo de obscenidade: a nudez que ninguém pediu, que ninguém quer ver, que não espanta ninguém. O oligarca do centrão foi despido lenta e constrangedoramente.

Ciro perdeu o paletó quando veio a público que ele viajava por destinos luxuosos do mundo às custas de Daniel Vorcaro e ficou sem a camisa após a revelação de que recebia do mensalão do Master — que começou com R$ 300 mil. Chegou a R$ 500 mil.

A notícia de que as mesadas somaram pelo menos R$ 6 milhões deixou o ex-quase-futuro-vice-ideal de Flávio Bolsonaro sem as calças. Relatórios do Coaf tiraram do senador as roupas de baixo. Seguindo o rastro do dinheiro, a PF concluiu que Ciro lavou recursos de má origem usando empresas, familiares, servidores públicos e até beneficiários de programas sociais.

As delinquências de Vorcaro proporcionam ao Brasil uma de suas épocas mais despidas. Mais despudorado do que o mandato obsceno de Ciro Nogueira é a naturalidade com que o Senado reage à cena. Um senador perambula pelos salões do Legislativo pelado e ninguém faz nada. Não se vê diante dos glúteos expostos nem uma cara de nojo, que dirá uma representação ao Conselho de Ética por falta de decoro.


O processo de formação do cânon bíblico não foi um evento único nem tampouco uma deliberação iluminada de sábios imparciais reunidos em torno de uma fogueira de pergaminhos, e sim um processo longo, disputado, muitas vezes violento — e invariavelmente político. No século II, o bispo Ireneu de Lyon — homem de fé inabalável e tolerância zero para dissidências — foi um dos primeiros a defender sistematicamente a manutenção de apenas quatro evangelhos — sob o pretexto de que, assim como existiam quatro ventos e quatro pontos cardeais, só poderia haver quatro evangelhos. 


A lógica era frágil, mas a autoridade, não. E em sua obra Adversus Haereses (“Contra as Heresias”), Ireneu não apenas defendeu os quatro evangelhos aceitos, como atacou com vigor todos os demais, classificando-os como invenções demoníacas. Assim, textos que circulavam livremente entre comunidades cristãs passaram, de uma geração para outra, a ser tratados como veneno intelectual e espiritual.


No século IV, o processo ganhou força institucional. Em 367 d.C., o bispo Atanásio de Alexandria — outro homem com pouca tolerância para ambiguidades — escreveu sua famosa Carta Festal, na qual listou pela primeira vez os 27 livros que compõem o Novo Testamento e determinou que outros textos fossem abandonados. Aliás, a palavra usada — apokryphos, “oculto”, “escondido” — com o tempo deixou de ser neutra e passou a carregar um peso pejorativo: o que era “reservado a iniciados” tornou-se sinônimo de “falso” e “perigoso”.


Mas foi com a aliança entre Igreja e poder imperial — consolidada sob Constantino e aprofundada sob Teodósio I, que em 380 d.C. declarou o cristianismo religião oficial do Império — que a supressão de textos alternativos deixou de ser apenas uma questão teológica e passou a ser também uma questão de Estado. Queimar um evangelho deixou de ser um ato de zelo religioso e tornou-se um gesto de manutenção da ordem. A heresia, enfim, virou crime.


Ao contrário do que se costuma imaginar, nem todos os textos rejeitados foram destruídos — alguns simplesmente caíram em desuso, como vozes que ninguém mais escuta, e outros foram perseguidos, combatidos e, não raramente, queimados junto com seus leitores. Mas houve quem, com notável coragem — ou talvez apenas com o instinto silencioso de preservar —, tenha decidido escondê-los.


O achado mais espetacular nesse sentido foi a descoberta da biblioteca de Nag Hammadi, no Egito, em 1945. Um camponês chamado Mohammed Ali al-Samman, ao cavar nas proximidades de um penhasco em busca de fertilizante, encontrou um jarro de barro selado. Dentro dele, 13 códices encadernados em couro, contendo mais de 50 textos em copta — traduções de originais gregos que remontavam, em sua maioria, aos séculos II e III. Lamentavelmente, alguém, em algum momento do século IV, preferiu enterrá-los em vez de destruí-los, e esse gesto anônimo de desobediência silenciosa preservou para a posteridade uma voz que a Igreja oficial havia tentado calar.


Entre os textos encontrados em Nag Hammadi, destacam-se obras associadas ao chamado gnosticismo — um conjunto diverso de correntes cristãs primitivas que compartilhavam a ideia de que a salvação vinha do conhecimento (gnosis), e não da fé cega ou da obediência institucional. Naturalmente, uma teologia assim era incompatível com uma Igreja que começava a estruturar seu poder justamente sobre esses dois pilares.


O Evangelho de Maria — provavelmente escrito no século II, embora baseado em tradições mais antigas — apresenta Maria Madalena não como figura periférica ou penitente, mas como a discípula que mais profundamente compreendeu os ensinamentos de Jesus. No texto, após a ressurreição, é ela quem consola os apóstolos e transmite revelações que o messias lhe teria confiado em particular. Pedro, incomodado (ou enciumado?), questiona: “Ele teria falado em segredo com uma mulher e não abertamente conosco?


A tensão não é apenas teológica. É política, simbólica e estrutural. No Evangelho de Filipe há passagens ainda mais desconfortáveis para a ortodoxia: Jesus é descrito como "mais próximo" de Maria Madalena do que aos outros discípulos, e há uma referência parcialmente danificada a um gesto de intimidade entre os dois — detalhe que alimentou séculos de especulação e, mais recentemente, best-sellers. Independentemente da interpretação correta, o ponto é claro: havia comunidades cristãs que atribuíam a Maria Madalena um papel de liderança espiritual que a Igreja oficial simplesmente não podia absorver.


A imagem de Madalena como prostituta arrependida não vem dos evangelhos canônicos. Em nenhum momento o texto bíblico a identifica como tal. Essa associação foi construída gradualmente e consolidada de forma decisiva pelo papa Gregório I, em um sermão de 591 d.C., no qual fundiu três personagens distintas — Maria de Betânia, a pecadora anônima e Maria Madalena — em uma única figura de mulher caída e redimida. Erro honesto ou estratégia deliberada? Difícil saber, mas mais difícil ainda é acreditar que tenha sido irrelevante.


Essa interpretação persistiu por mais de mil anos como doutrina oficial da Igreja Católica. Apenas em 1969 o Vaticano corrigiu formalmente a confusão, reconhecendo que se tratava de três mulheres distintas. A reabilitação levou quatorze séculos. O dano, naturalmente, não teve a mesma pressa para desaparecer.


A pergunta que se impõe é inevitável: e se Maria Madalena tivesse sido, de fato, a principal discípula de Jesus? E se o papel de liderança atribuído a Pedro — e que sustenta toda a estrutura hierárquica posterior, incluindo o papado — na versão “original” da história tivesse pertencido a ela? Não há como provar, mas também não há como descartar. E o modo como sua memória foi moldada ao longo dos séculos sugere que alguém, em algum momento, julgou necessário fazê-lo.


Há ainda uma hipótese mais incômoda e, por isso mesmo, frequentemente tratada com desdém ou sarcasmo: a de que Maria Madalena não teria sido apenas uma discípula próxima, mas companheira íntima de Jesus, possivelmente sua esposa. A ideia não é consensual e carece de evidências conclusivas, mas se apoia em leituras de textos apócrifos, em lacunas curiosas nos relatos canônicos e, sobretudo, no contexto cultural do judaísmo do século I, no qual um homem adulto, especialmente um mestre religioso, dificilmente permaneceria solteiro.


Nada disso prova coisa alguma, mas tampouco justifica o deboche com que a hipótese costuma ser descartada — até porque, se verdadeira, ou mesmo plausível, suas implicações seriam profundas demais para serem ignoradas. Um Jesus casado não apenas humaniza a figura central do cristianismo como desmonta, peça por peça, construções teológicas posteriores que associam santidade à negação do corpo, do desejo e da vida comum. E talvez seja exatamente por isso que a ideia causa tanto desconforto.


No fim das contas, não sabemos exatamente quem foi Maria Madalena. Mas sabemos com razoável segurança quem decidiu o que ela deveria ser — e por quê. Sabemos também que o cânon bíblico não desceu do céu em versão final e homologada por instâncias divinas. Foi negociado, disputado e imposto por homens inseridos em contextos políticos bastante concretos.


A maior heresia, talvez, não seja a existência de evangelhos esquecidos, mas a ilusão confortável de que apenas os sobreviventes contam a verdade. A história é sempre escrita por quem chega depois à cena do crime — e tem tempo suficiente para reorganizar os móveis.


Resumo da ópera: Algumas ideias não precisam ser refutadas. Basta que sejam ridicularizadas com eficiência. No fim das contas, um cravo se perdeu… e, com ele, muito mais do que uma ferradura.


Continua...

terça-feira, 2 de junho de 2026

AINDA SOBRE O TEMPO CRONOLÓGICO

 O HOJE TECE O AMANHÃ COM A TEIA DO ONTEM.

Temendo ser destronado, Urano devolvia os filhos ao útero de Gaia. Um belo dia, cansada de gerar para perder, a deusa escondeu Cronos e lhe pediu que castrasse o pai. 

Cronos atendeu ao pedido da mãe, mas passou a devorar a própria cria. O ciclo só foi interrompido quando Réia escondeu Zeus e lhe pediu que obrigasse o Cronos a regurgitar seus irmãos. Zeus não só cumpriu a missão como derrotou o genitor numa guerra que durou dez anos e, ao final, tornou-se o deus dos deuses.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Bolsonarinho enxergou na Casa Branca o local ideal para fugir da realidade. Trump tirou momentaneamente o efeito Master do noticiário, mas enfiou seu pé-frio na campanha eleitoral do Brasil ao classificar o PCC e o CV como facções terroristas.

Trata-se apenas um fetiche para disfarçar a ausência de um projeto para a área da segurança pública, mas os criminosos respiram aliviados.

Do ponto de vista prático, além de ofender a soberania, a novidade afeta a reputação do Brasil, afugentando investidores. Já o efeito eleitoral é duvidoso: fugindo do contágio de Daniel Vorcaro, o filho do presidiário caiu na órbita radioativa da calopsita alaranjada, que molhou o paletó para interferir em eleições alheias e perdeu no Canadá, Austrália, Romênia e Hungria.

Se a vida ensina algo, é que a vida nada ensina ao bolsonarismo.


Não sabemos se Urano e Cronos realmente existiram, nem se Saturno — a versão romana de Cronos, posteriormente associada ao tempo — ceifava os dias com sua foice. Tampouco sabemos se o tempo existe de fato ou se não passa de uma convenção criada por nossos ancestrais para dar sentido a eventos recorrentes, como o amanhecer e o entardecer, as fases da lua e as estações do ano. Mas sabemos que há na mitologia grega uma distinção fundamental entre Cronos e Kairós: o primeiro representa o tempo cronológico, linear e mensurável; o segundo, o tempo da experiência, do acontecimento, do instante significativo.


Alguns pensadores da Antiguidade ainda falavam de Aión, um terceiro modo de tempo: não aquele que se mede nem aquele que se aproveita, mas o que se habita — o tempo da duração, da permanência, do que escapa ao relógio e às urgências do agora.

Por convenção, o tempo que rege nossas vidas é o de Cronos, que o relógio mede, que os calendários registram, que transforma segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias, meses e anos. Essa lógica nos leva a tratá-lo como algo mensurável e manejável, um recurso a ser administrado, otimizado e explorado, quase sempre a serviço do trabalho, do consumo e da vida acelerada que naturalizamos no cotidiano.

É esse mesmo tempo que sustenta a ideia de crononormatividade, trabalhada pela pesquisadora estadunidense Elizabeth Freeman. Trata-se do conjunto de convenções temporais que normalizam trajetórias consideradas “corretas”, como ser alfabetizado até certa idade, casar até os 30, ter filhos até os 35, alcançar o sucesso profissional — seja lá o que isso signifique — antes dos 40. Nesse contexto, o tempo deixa de ser apenas uma medida e passa a funcionar como critério moral.

Outras formas de compreender e viver o tempo persistem entre povos tradicionais, povos originários, povos indígenas, africanos e do sul global. Nessas cosmovisões, o tempo não se comporta como uma flecha que avança inexoravelmente para a frente. Ele pode ser cíclico, circular ou espiralar. O passado não está morto, o futuro não é um alvo fixo, e o presente não é apenas um ponto de passagem.

Convencionou-se adotar o tempo cronológico como padrão universal por ser um tempo que coloniza o presente — sequestrando nossa atenção —, captura o passado — reduzindo a memória a registro — e compromete o futuro — empobrecendo nossa capacidade de imaginá-lo. Na era das métricas, notificações e algoritmos, Cronos deixou de ser apenas uma abstração: tornou-se um sistema de controle íntimo, automático e permanente. 

Essa não é a única ideia de tempo que existe, mas as formas não cronológicas são desconsideradas justamente por não servirem à produtividade, ao consumo e às tecnologias que exigem pressa, desempenho e obediência ao relógio.

No fim das contas, Cronos venceu, não como mito, mas como método. Ele já não empunha uma foice, mas um relógio digital. Não reina do Olimpo, e sim dos calendários, das metas, dos prazos e das notificações. Não precisa mais devorar os filhos; basta convencê-los de que estão sempre atrasados. E nós, acreditando dominá-lo, seguimos oferecendo aquilo que sempre exigiu: nossa própria vida, em parcelas mensais.

segunda-feira, 30 de março de 2026

AS QUERELAS DO BRASIL

EXISTEM APENAS DOIS TIPOS DE PESSOAS: AS QUE CONCORDAM COMIGO E AS QUE ESTÃO ERRADAS.


A polarização na política sempre existiu, mas nunca foi tão desbragada quanto nas duas últimas disputas presidenciais. Depois que a "abertura lenta, gradual e segura" pôs fim a três décadas de jejum de urna, os brasileiros voltaram a escolher seu presidente.


Embora o cardápio da eleição solteira de 1989 listasse 22 postulantes — entre os quais Ulysses Guimarães, Mário Covas e Leonel Brizola —, o eleitorado tupiniquim, que repete a cada pleito o que Pandora fez uma única vez, enviou para o segundo turno um caçador de marajás demagogo e populista e um ex-metalúrgico populista e demagogo. 


Lula concorreu à Presidência em 1989, 1994 e 1998, foi eleito em em 2002 e reeleito em 2006, a despeito do escândalo do Mensalão. Em 2010, transformou uma nulidade em "gerentona de araque" para manter aquecida a poltrona que ele pretendia reconquistar em 2014, mas o "poste" gostou da brincadeira e insistiu em disputar a reeleição. Por motivos que agora não vêm ao caso, o criador se resignou a apoiar a criatura, que afundou o país e foi impichada em 2016 (pelo conjunto da obra; as folclóricas "pedaladas fiscais" foram apenas um pretexto para penabundar a incompetente insolente e arrogante). 


Com a deposição da "mulher sapiens", Michel Temer passou de vice titular, mas seu prometido ministério de notáveis se revelou de uma notável confraria de corruptos. O primeiro a cair foi Romero Jucá, com apenas uma semana no cargo. Na sequência, demitiram-se — ou foram demitidos — Fabiano Silveira, Henrique Eduardo Alves, Geddel Vieira Lima, entre outros ministros e assessores presidenciais investigados na Justiça ou acusados de corrupção por delatores na Lava-Jato


Para encurtar a história, quando a conversa de alcova nada republicana que manteve nos porões do Jaburu, em maio de 2017, com o dono da JBS, Temer pensou em renunciar, mas foi demovido da ideia pelo deputado Carlos Marun, seu fiel escudeiro, que também se encarregou de comprar votos das marafonas da Câmara em número suficiente para salvar o presidente das flechadas de Janot


Observação: O patético hipopótamo dançarino foi o relator da CPI da JBS, embora tivesse recebido R$ 103 mil em doações do frigorífico e sido acusado de beneficiar uma empresa de software em contratos de R$ 16,6 milhões.


Acabou que o chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil concluiu seu mandato-tampão como um "pato manco" e transferiu a faixa presidencial para o combo de mau militar e parlamentar medíocre que derrotou o títere de Lula — que não tinha o mesmo carisma que o titereiro —, tornou-se o pior mandatário desde Tomé de Souza e foi sentenciado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.


Observação: Temer chegou a ser preso em março de 2019, mas foi solto dias depois por ordem do desembargador Ivan Athié, do TRF-2 — que ficou afastado do cargo durante sete anos por suspeitas de corrupção.


A polarização esteve presente em todos os capítulos da nossa história, mas o quadro se agravou quando o Planalto passou a ser disputado pelo PT e pelo PSDB. Ainda assim, as campanhas eram relativamente civilizadas, pois mortadelas e coxinhas se tratavam como adversários políticos, não como inimigos figadais. Nas duas últimas disputas pelo Planalto, no entanto, o antagonismo exacerbado impediu que uma candidatura alternativa competitiva se consolidasse. 


Em 2018, Ciro Gomes acabou em terceiro lugar, com míseros 3,04% dos votos válidos no segundo turno. Em 2022, Henrique Mandetta, João Dória, Sérgio Moro, Eduardo Leite, Aldo Rebelo, Luciano Bivar e André Janones desistiram antes do início da corrida eleitoral. Simone Tebet ficou em terceiro lugar, com 4,16% dos votos. Soraya Thronicke, Sofia Manzano, Vera Lúcia e Padre Kelmon obtiveram resultados inexpressivos.


Como era esperado, a disputa ficou entre Lula e Bolsonaro, e o desempregado que deu certo venceu o mandrião aspirante a golpista pela menor diferença de votos desde a redemocratização (menos de 2%). Durante a campanha, o ex-presidiário "descondenado" tripudiou: "Agora quem acabou foi o PSDB". Em resposta, os tucanos disseram que o PT passou anos tentando reescrever a história, semeando o ódio, perseguindo adversários, dividindo a sociedade e montando uma usina de fake news.


No debate promovido pela Band em outubro de 2022, o Lula vociferou que "nomear amigo e companheiro para o Supremo é retrocesso" (referindo-se a Nunes Marques e André Mendonça, indicados por Bolsonaro). Eleito, indicou seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e seu advogado particular Cristiano Zanin — e ainda teve o desplante de negar a relação de amizade com o causídico, que esteve em seu casamento com Janja e a quem chamou de "amigo" em entrevista à BandNews


Faltando pouco mais de seis meses para o primeiro turno das próximas eleições, o alto nível de rejeição popular ao xamã do PT e ao sobrenome Bolsonaro animou alguns partidos com a possibilidade de finalmente romper a polarização. O PSD de Gilberto Kassab apresentou três governadores como potenciais postulantes, mas Ratinho Jr — o mais competitivo dos três — desistiu de última hora.


A despeito da fama de bom gestor, de uma administração aprovada por cerca de 80% dos paranaenses e apoio de várias lideranças, Ratinho Jr voltou atrás, movido por uma conjunção de fatores, incluindo as investigações sobre a venda da subsidiária de telecomunicações da Copel e as conexões com Nelson Tanure —suposto sócio oculto de Vorcaro nas traficâncias do Master. Mas a filiação de Sérgio Moro ao PL também pesou: até então, o governador paranaense achava que faria seu sucessor com facilidade, mas o ex-herói nacional já aparece como franco favorito nas pesquisas. 


Os índices de desaprovação do governo federal e o derretimento da popularidade de Lula sugerem que ele é "bananeira que deu cacho", mas engana-se quem pensa que o pontifex maximus da Petelândia é carta fora do baralho. Segundo as pesquisas, cerca de 33% dos entrevistados não se declaram petistas nem bolsonaristas, 26% não votaram no em Lula nem em Bolsonaro na eleição passada — ou votaram e se arrependeram, —, 27% escolheram o macróbio mas não se identificam como de esquerda, e 18% dos que votaram no "mito" dos anencéfalos não se reconhecem como de direita.


Somados, esses grupos representam 71% do total de votos, e, pelo menos em tese, podem ser conquistados por qualquer candidato — o núcleo duro da polarização é formado por apenas 11% e 18% de esquerdistas e direitistas convictos, respectivamente, de modo que existe espaço para uma candidatura de terceira via.


Os extremos fazem barulho nas redes sociais, pautam a cobertura da mídia, alimentariam o algoritmo. Há “avenida enorme” para uma candidatura de centro (não confundir com o Centrão adesista) neste ano, mas cabe aos interessados priorizar a defesa da democracia, a reorganização dos programas sociais e um plano de desenvolvimento centrado nas novas tecnologias e novas relações de trabalho.


A questão é que quase todo tema polêmico — como a “taxa das blusinhas”, a PEC da Segurança Pública e até a CPMI do INSS — se torna refém da polarização no Congresso. Ainda não se sabe o que o PSD pretende fazer nas áreas da economia e da segurança pública. O MDB, dividido como sempre em alas, se preocupa mais com querelas paroquiais e a disputa para a Câmara dos Deputados — cujo resultado é decisivo para a divisão dos bilionários fundos eleitoral e partidário. Já o PSDB, que governou o país por dois mandatos com FHC, perdeu quadros, capilaridade nacional e capacidade de dialogar com o eleitorado. 


Observação: Geraldo Alckmin, que foi quatro vezes governador de São Paulo pelo PSDB, disputou a Presidência em 2006 — e foi derrotado por Lula no segundo turno — e em 2018 — quando amargou um vexatório quarto lugar. Apesar de ter dito que eleger o petista era o mesmo que reconduzir um criminoso à cena do crime, filiou-se ao PSB para concorrer à vice na chapa encabeçada pelo ex-adversário — talvez achando que essa seria sua única de aboletar na poltrona mais cobiçada do Palácio do Planalto. Só que faltou combinar com O Ceifador, sem falar que que o diabo detesta concorrência.


A maioria dos analistas políticos estima que a eleição deste ano será decidida pelos eleitores considerados independentes. No escrete eleitoral de Lula, nunca houve uma preocupação com a hipótese de uma candidatura de centro ganhar corpo a ponto de chegar ao segundo turno, mas, há apreensão com a possibilidade de os escândalos de corrupção sob investigação — especialmente do caso do Banco Master e da roubalheira contra aposentados e pensionistas do INSS — alterarem esse cenário.


Flávio Bolsonaro trabalha para que o centro e a direita não apresentem concorrentes — além de sugerir Ratinho Jr como seu vice, o filho do pai mandou emissários sondarem Ronaldo Caiado e Romeu Zema para o posto. Contrariando a tradição familiar de verborragia, o senador das rachadinhas tem economizado nas palavras, deixando Lula se desgastar sozinho com os problemas da administração federal. Nos últimos dias, defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública — ideia que foi sugerida por petistas, mas rejeitada por Lula


Na semana passada, Xandão autorizou a prisão domiciliar humanitária para o atual presidiário mais famoso desta banânia por um prazo inicial de 90 dias. Mesmo obrigado a usar tornozeleira eletrônica e proibido de acessar redes sociais e de gravar áudios ou vídeos, o condenado estará mais à vontade para ajudar na organização da campanha do primogênito, que tenta se vender com a roupagem de "moderado".


Resumo da ópera: No início deste século, ainda predominava a crença de que, na democracia, os moderados prevalecem — e moderam os radicais. Houve até quem acreditasse na possibilidade de juntar os melhores quadros do PT e do PSDB para contribuir com um governo capaz de modernizar o país. Hoje, mesmo os quadros reconhecidamente ponderados se mantêm abrigados sob os guarda-chuvas da polarização para continuarem relevantes no xadrez político, e, em determinadas situações, os extremistas estão conseguindo radicalizar os moderados.


Caberá ao eleitor decidir qual caminho irá seguir, e a exemplo do que ocorreu nas últimas campanhas, o caminho do centro continua acidentado e sem uma liderança clara.