A CIÊNCIA PODE EXPLICAR O UNIVERSO, MAS NÃO CONSEGUE EXPLICAR O TEMPO.
Segundo a mitologia grega, Urano, temendo ser destronado, enfiava os filhos de volta no útero de Gaia — até que ela escondeu Chronos e, quando ele cresceu, pediu-lhe que castrasse o pai.
Chronos atendeu ao pedido da mãe e assumiu o poder — mas, a exemplo de Urano, passou a devorar seus próprios filhos. Reia, sua esposa, escondeu Zeus e o encarregou de obrigar o pai a regurgitar os irmãos.
Zeus não só cumpriu a missão como derrotou Chronos numa guerra que durou cerca de dez anos, conquistou a imortalidade e se tornou o deus dos deuses.
Não sabemos se Urano e Chronos realmente existiram, nem se Saturno — o deus do tempo na mitologia romana — ceifou os dias com sua foice. A ciência sequer sabe se o tempo existe ou se é apenas uma convenção criada por nossos ancestrais para dar sentido a eventos como o amanhecer e o entardecer, as fases da lua e as estações do ano.
Sabe-se que Rudolf Clausius definiu a entropia como medida da desordem, que Ludwig Boltzmann associou o conceito à probabilidade estatística de estados microscópicos de um sistema, que Josiah Willard Gibbs consolidou a base matemática da Termodinâmica, e que todos concordam que a entropia sempre aumenta.
Um vaso sobre a mesa tem baixa entropia até cair e se espatifar no chão. Como os cacos não se reagrupam sozinhos, sua entropia não diminui. A partir dessa irreversibilidade, Arthur Eddington criou o conceito de seta do tempo e estabeleceu que ela é unilateral — aponta sempre do passado para o futuro. Reverter esse fluxo exigiria reduzir localmente a entropia, mas essa já é outra conversa.
Entre mito e matemática, uma certeza: o tempo não é apenas uma linha reta. É também um ciclo, uma arma, uma prisão e, por vezes, uma porta.
Chronos encarna o tempo em sua forma mais cruel — aquele que consome, envelhece e destrói. Saturno carrega a foice não apenas como símbolo da colheita, mas como instrumento do corte inevitável entre o agora e o depois. Nenhum deles perdoa distrações: quem os ignora é engolido.
A imagem de Chronos devorando a prole é uma das metáforas mais viscerais da mitologia — o tempo não apenas mede, mas consome tudo o que cria.
Inverter o sentido da seta do tempo parece impossível, mas nem todo tempo é linear. Aion, figura menos conhecida da mitologia grega, representa o tempo eterno e cíclico — aquele que retorna, gira e se renova.
O Ouroboros — serpente que engole a própria cauda — sugere que o tempo não é uma reta com fim, mas um círculo sem começo. Talvez seja nesses ciclos que se escondam os viajantes do tempo, entre retornos e desvios, entre o que já foi e o que ainda será.
Como ciclo, o tempo sugere renovação, a possibilidade de que algo se repita ou se reconecte. Como linha, denota a experiência vivida, na qual cada momento que passa é irrecuperável. A foice de Saturno corta não só o trigo maduro como também a continuidade, criando um antes e um depois que jamais se encontram.
Ficamos presos não apenas na sequência inevitável dos momentos, mas também na consciência dessa passagem — na ansiedade do futuro e no peso do passado. No entanto, mesmo que o tempo não negocie nem faça exceções, há momentos de transcendência onde ele se transforma de algoz em aliado, de prisão em porta de saída.
Outras culturas lidaram com o tempo de formas distintas. Os egípcios o viam como parte de Ma'at, a ordem cósmica, e confiaram a Thoth — deus da Lua, do conhecimento e da sabedoria — a missão de registrar os ciclos lunares e os eventos eternos.
Já os nórdicos, mais afeitos ao fim do mundo do que à eternidade, não tinham um deus do tempo, mas deram ao tempo um destino: o Ragnarök, o colapso final seguido do reinício inevitável.
Curiosamente, nenhuma dessas mitologias fala em viagens no tempo como as concebemos hoje, mas todas tratam o tempo como algo maleável, perigoso, sagrado.
Se Chronos devorava os próprios filhos, talvez devore também quem ficar em seu caminho. Se Saturno ceifava o trigo, talvez ceife também quem tentar enganá-lo. E os giros de Aion talvez permitam que alguns escapem por entre os ciclos, como quem escapa por uma fenda na eternidade.
Fica no ar uma pergunta: se o tempo não é linear como nos relógios, mas um labirinto como sugerem os mitos, quem é seu Minotauro? E quem são os intrépidos viajantes que ousam enfrentá-lo?
Talvez o Minotauro seja a própria consciência da mortalidade, e os viajantes sejam todos nós, navegando entre memória e expectativa, presos no presente mas sempre tentando transcendê-lo. Ou talvez a resposta is blowing in the wind, escondida entre deuses e paradoxos.
Continua...
