THE PAST IS ANOTHER COUNTRY; ALL ROADS LEAD TO TOMORROW.
Falar de maneira coerente sobre o que significa a existência do espaço-tempo sem reintroduzir o tempo por uma porta conceitual que a física não reconhece é o mesmo que tentar descrever uma música que existe de uma só vez — sem jamais ser tocada, ouvida ou desdobrada no tempo — ou questionar o que existe ao norte do Polo Norte.
Essa confusão molda a forma como imaginamos o tempo na ficção e na ciência popular. Na franquia O Exterminador do Futuro, todos os eventos são tratados como fixos — a viagem no tempo é possível, mas a linha do tempo não pode ser alterada, e tudo já existe em um estado fixo e atemporal.
Já em Vingadores: Ultimato, os personagens alterem eventos passados e remodelem a linha do tempo, sugerindo um “Universo em bloco” que existe e muda. Mas essa mudança só pode ocorrer se uma linha do tempo quadridimensional existir da mesma forma que nosso mundo tridimensional existe.
Independentemente de tal mudança ser ou não possível, ambos os cenários assumem que o passado e o futuro estão lá e prontos para serem visitados, mas nenhum deles aborda que tipo de existência isso implica, ou como o espaço-tempo difere de um mapa de eventos.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Todas as pesquisas de institutos relevantes indicam que Lula tem vaga assegurada no segundo turno. Evoluindo no vácuo produzido pela pulverização da direita, Flávio Bolsonaro consolidou-se como candidato mais bem-posto para obter a segunda vaga — segundo a Quaest, ele atraiu 77% dos votos do eleitorado bolsonarista.
O PSD esboçou a pretensão de oferecer ao eleitorado um anti-Lula sem toxinas antidemocráticas, mas bastou as pesquisas apontarem que os eleitores "independentes" e de "direita não bolsonarista" somam 53% da população para Gilberto Kassab sinalizar que o partido escolherá um presidenciável entre Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite.
Num prenúncio do que está por vir, o camundongo que governa o Paraná se declarou favorável à concessão de um indulto para Bolsonaro. Sob o pretexto de "pacificar o Brasil", o chefe do executivo goiano espancou a tese da despolarização, sinalizando a intenção de costurar uma aliança com o primogênito do presidiário já no primeiro turno.
Entre os autoproclamados “independentes”, que representam ⅓ do eleitorado, Lula amealha 25% das intenções de voto,. Flávio soma 16% e Tarcísio de Freitas, 15%, mas o governador paulista abdicou do sonho presidencial após visitar seu amo e senhor na Resumo da ópera: antes de medir forças com Lula num hipotético segundo turno, o candidato a ser escolhido pelo PSD terá que prevalecer sobre o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias no primeiro escrutínio. Ratinho Júnior e Caiado, que carregam na mochila a participação em atos pró-anistia estrelados por Bolsonaro, agora se oferecem como alternativas democráticas sem se dar conta de que o óbvio é o óbvio. Eduardo Leite, o terceiro nome da seleção de Kassab, manifestou-se contra a anistia e coleciona declarações críticas tanto ao petismo quanto ao bolsonarismo. Seria, em tese, um candidato mais leve para a centro-direita, mas sempre carregou a lanterninha nas pesquisas em que seu nome foi testado e acabou sendo excluído das sondagens eleitorais.
Resta a percepção de que, diferentemente dos pré-candidatos do PSD, a maioria dos brasileiros parece cultivar a sensação de que a coisa mais importante não é de onde o país vem, mas para onde ele vai. Na sondagem da Quaest, o índice dos que têm medo da volta da famiglia Bolsonaro ao poder (46%) é maior do que o dos que temem a permanência de Lula no Planalto (40%). Nesse cenário, não basta reivindicar o volante; é preciso expor um itinerário que faça nexo.
Quando dizem que o espaço-tempo “existe”, os físicos se referem a uma estrutura obscura onde uma linha tênue separa existência de ocorrência. Um modelo metafísico que, na melhor das hipóteses, carece de precisão conceitual, e, na pior, obscurece a própria natureza da realidade. As equações de Einstein continuam valendo; o que muda é a forma como as interpretamos, especialmente quando tentamos reconciliar a relatividade geral com a mecânica quântica — um desafio explorado tanto na filosofia quanto em discussões de ciência popular.
Definir o espaço-tempo é mais do que um debate técnico, pois envolve o tipo de mundo em que acreditamos viver. Um estudo recente trouxe novas perspectivas e possíveis respostas para esse dilema básico: combinando três grandes áreas da física — relatividade geral, mecânica quântica e termodinâmica — o pesquisador Lorenzo Gavassino, do Departamento de Matemática da Universidade de Vanderbilt, em Nashville, concluiu que a viagem no tempo poderia, ao menos teoricamente, acontecer sem criar paradoxos.
Para entender as viagens no tempo, primeiro é preciso entender como a ciência compreende essa grandeza física. No dia a dia, pensamos no tempo como algo que avança linearmente, do passado para o futuro, como um rio que corre em uma única direção. Essa ideia vem das formulações físicas de Newton, que Einstein questionou ao demonstrar que espaço e tempo estão conectados, formando o que chamamos de “espaço-tempo”.
A possibilidade de o tempo ser “dobrado” da mesma forma que o espaço pode se curvar (como vemos em variações da gravidade) dá azo à existência de curvas no espaço-tempo que voltam ao ponto inicial, como um círculo. Assim, se alguém viajasse por uma dessas curvas, poderia, em tese, retornar ao passado.
Na relatividade geral, a gravidade não é gerada apenas a massa, como se pensava na física newtoniana. O fator determinante é o conteúdo completo de energia e momento de um sistema, descrito pelo chamado tensor energia-momento. Um exemplo famoso é o frame-dragging (efeito de arraste de referencial) previsto por soluções da relatividade como a métrica de Kerr, que descreve buracos negros rotativos. Nesse caso, o momento angular — ou seja, o giro — curva o espaço-tempo, fazendo com que ele “gire” junto com a massa e arraste o espaço-tempo com ela.
O efeito pode ser insignificante em planetas e estrelas, mas, em um Universo onde toda a matéria gira, o espaço-tempo se tornaria tão distorcido que o tempo efetivamente se curvaria sobre si mesmo, formando um loop. E uma astronave que viajasse por esse loop poderia retornar ao ponto de partida, não apenas no espaço, mas também no tempo. Embora nada sugira que o Universo como um todo gire dessa forma, Gavassino sustenta que buracos negros supermassivos girando rapidamente “arrastam” o espaço-tempo a seu redor, criando curvas fechadas do tipo tempo que, em tese, poderiam levar ao passado.
A questão é que viajar ao passado ensejaria paradoxos como o do avô — no qual alguém que voltasse no tempo e matasse seu avô antes que ele casasse e procriasse inviabilizaria sua própria existência —, bem como problemas relacionados às leis da física, especialmente à entropia — grandeza termodinâmica associada à irreversibilidade do grau de desordem em sistema físico, à luz da qual a seta do tempo aponta sempre para o futuro. Mas se o tempo se dobra sobre si mesmo, será que a entropia continua aumentando ou poderia, de alguma forma, diminuir?
Gavassino demonstrou que a entropia nos loops temporais poderia diminuir sem violar as leis da física quântica. Assim, uma pessoa poderia rejuvenescer, esquecer ou até reviver experiências, já que todas estão ligadas ao aumento da entropia. Segundo princípio de autoconsistência, a reversão da entropia evitaria paradoxos, pois o próprio tecido do espaço-tempo "corrigiria" inconsistências temporais, garantindo que a realidade permaneça logicamente coesa.
De acordo com a maioria dos físicos e filósofos, se a viagem no tempo fosse possível, a natureza sempre encontraria uma maneira de evitar situações contraditórias. Em 1992, Stephen Hawking propôs a “conjectura de proteção cronológica”, segundo a qual as próprias leis da física impedem a formação de loops temporais. Gavassino aplicou a estrutura padrão da mecânica quântica sem postulados adicionais ou suposições controversas e demonstrou que a autoconsistência da história decorre naturalmente das leis quânticas, mas suas conclusões ainda carecem de revisão pelo pares.
Mesmo que a viagem no tempo (ainda) não seja possível, entender como a entropia e outros fenômenos funcionam em condições extremas ajuda a elucidar mistérios sobre o comportamento do universo em escalas subatômicas e força uma reflexão sobre conceitos básicos, mesmo porque a possibilidade de viajar no tempo pode produzir mudanças consideráveis na nossa compreensão das leis do universo.
Continua...